domingo, 27 de setembro de 2026

Os Nomes, Florence Knapp

 


“Os Nomes”, Florence Knapp, 2025
Um livro excelente que apetece ler com calma, pelo cuidado e profundidade da escrita, pela singularidade da estrutura, pela atenção dada aos detalhes e pela relevância dos temas que aborda. É um livro consistente, sério, quando podia ser mais um que aborda de forma superficial e ligeira um problema social de enorme relevância. Foi o segundo livro que li neste mês de Agosto e penso que a sua memória vai permanecer pelo impacto que causou em mim.
São três histórias autónomas com alguns traços comuns, mas com desenvolvimentos diferentes. Decorrendo entre 1987 e 2022, com saltos temporais de sete anos, a questão colocada é até que ponto o nome com que somos registados nos pode conduzir a percursos diferentes de vida? Esta ideia é sugerida pela capa do livro a partir de um acrílico da artista espanhola Eva Navarro, a que a autora faz referência na nota final. Bear, Julian e Gordon três nomes, três vidas.
O tema central de “Os Nomes” é a violência doméstica e o impacto que tem nas vítimas, nomeadamente nas mulheres e nos filhos e filhas que acabam por viver diariamente o ambiente de violência e agressão dentro de casa. Que marcas ficam? Conseguem ser superadas? Que impactos deixam em relacionamentos futuros? Como lida a sociedade com uma situação que nem sempre é perceptível ou que sendo, é frequentemente ignorada porque incómoda? Sobretudo se o agressor for uma pessoa bem vista na sociedade, alguém com uma actividade social relevante que, à partida, a sociedade não vai imaginar como é em casa. Qual o papel dos vizinhos, dos familiares mais próximos, quando a solidariedade e a sensibilidade são determinantes para as vítimas não ficarem à mercê dos agressores? Estão as instituições de apoio – polícia, saúde, educação, assistência social – suficientemente preparadas para responder, para acompanhar, para cuidar, quando aqui não basta ser-se um bom profissional, cumprindo os protocolos que já estão perfeitamente definidos e interiorizados. Quando se chegou a um ponto de perda de autonomia, de despersonalização, de incapacidade de resposta, de medo permanente, de ausência de defesas, como aconteceu com Cora, se não há um apoio efectivo por parte do Estado e uma penalização de quem humilha, maltrata, agride, mata, a sociedade vai continuar a banalizar uma chaga social que é um crime público.
Durante muito tempo só as mulheres eram percepcionadas como vítimas, apesar de as casas de abrigo terem sempre mais crianças que mulheres. “Havia tantas outras famílias, mulheres e crianças, amontoadas. Tínhamos algumas coisas em comum com algumas delas. Para além daquilo, quer dizer. Mas com outras tentávamos apenas coexistir. Não eram necessariamente quem teríamos escolhido para partilhar uma cozinha. E as pessoas nem sempre estavam no seu melhor. Todos tinham passado por maus bocados. A minha mãe tinha alguém com quem falar sobre as coisas enquanto lá estivemos, uma assistente social ou algo do género, mas connosco ela era apenas mãe. No entanto, acho que ela também devia estar apavorada.” (pág. 104) As crianças também são vítimas, vivem num terror contínuo, na vergonha de falar, auto censuram-se, são manipuladas, adaptam-se a um ambiente que as não deixa respirar nem crescer e irão carregar ao longo da vida um passado de que dificilmente se conseguem libertar. “Porque, sempre que pensa na mãe, todo o seu ser se enche de culpa. Por não ser suficiente. Por não ser uma filha com quem Cora desabafa. Por não desafiar o pai agora que é adulta, porque, quando está na presença dele, volta a ter 9 anos, a estar oca e assustada, o vento a soprar diretamente através dela. A Medicina é a única coisa que têm em comum, o único tema seguro entre eles, o que ela sente como um alívio, mas também como uma traição.” (pág. 222)
A última parte do livro passa-se no período dos confinamentos devidos à pandemia global de 2020. Como anteriormente escrevi, são três histórias diferentes, mas trago aqui um excerto interessante de como Cora, mãe de Gordon, divorciada e a viver sozinha, enfrentou o confinamento. “Ela ainda se assusta quando a porta de um carro bate lá fora ou se baterem inesperadamente à porta. Ainda carrega as cicatrizes e rangidos de um corpo que não foi bem cuidado. Tenta atenuá-los com ioga e pilates, mas não há como escapar à artrite que se instalou em ossos partidos que nunca sararam corretamente. Cora sente o peso da preocupação dos seus filhos e da responsabilidade que eles sentem por ela. Durante o confinamento, eles iam até ao passeio em frente para a visitar e deixar presentes desinfetados à sua porta.
(…)
- Estou bem! Tenho livros e podcasts. Toda a Internet como companhia!
(…)
- Eles ficavam céticos, como se ela estivesse a dourar a pílula. De algum modo, mesmo tendo testemunhado a realidade diária da sua vida, eles não eram capazes de compreender verdadeiramente que ela enfrentara um confinamento muito mais draconiano por mais de quarenta anos. Com a COVID-19 ela podia lidar; esta, pelo menos para ela, seria fácil.” (pág. 274)
Interessou-me neste texto levantar questões e, sobretudo, incentivar as pessoas a lerem o livro. Um problema terrível em todas as sociedades, que atravessa todas as classes sociais e ao qual há que dar combate. “Os Nomes”, não querendo tornar cor-de-rosa aquilo que é medonho, traz-nos um sinal positivo, de esperança, de superação.  Convido-vos a lê-lo como eu fiz, dando atenção aos detalhes, às linhas que ligam aquelas pessoas que surgem nas três histórias do rapaz que o pai queria que se chamasse Gordon, para seguir a tradição da família. E sobretudo, retirarmos deste romance, que cada um/a de nós pode ser um agente de mudança, denunciando situações de violência às vezes ali mesmo ao lado no nosso prédio. A cidadania implica que se quebre o silêncio cúmplice da impunidade.
23 de Agosto de 2026

sábado, 19 de setembro de 2026

Erva, Keum Suk Gendry-Kim

 


“Erva”, Keum Suk Gendry-Kim, 2017

Quanto mais se lê, mais se percebe quão pouco sabemos! É a segunda novela gráfica que leio este ano e esta é a segunda autora sul coreana que conheço, depois de ter lido há tempos “Atos Humanos” de Han Kang.

Como se pode ler na nota inicial de “Erva” “A erva simboliza a resistência, a forte vontade de viver e a vitalidade das mulheres que nasceram numa época trágica. Muitas das mulheres que foram vítimas de violência sexual por parte do exército japonês foram chacinadas, mas, se a vida das mulheres sobreviventes já era difícil antes de se tornarem “mulheres de conforto”, tornou-se ainda mais depois, tanto mental como fisicamente.”  Este parágrafo resume o tema desta novela gráfica.

Tal como Han Kang em “Atos Humanos” denunciou o massacre de Gwangiu em 1980, Keum Suk Gendry-Kim traz-nos em “Erva” a história de Ok-Sun Lee, uma “mulher de conforto” sobrevivente de anos de violações por parte de soldados japoneses, esmagada como a erva, mas que se levantou e deu voz a essas mulheres tratadas como meros objectos sexuais pelo exército ocupante.  Assuntos incómodos, que envergonham a sociedade que os tenta atirar para debaixo do tapete.

A narradora quis recolher a história de uma “mulher de conforto” e ouviu-a da boca de Ok-Sun que agora vive numa Casa da Partilha, onde vivem outras sobreviventes. Nascida duma família muito pobre, tinha o sonho de ir à escola, como iam os irmãos rapazes. Como lhe diria o pai no dia em que a vendeu a uma outra família “Se ao menos tivesses nascido rapaz…” (pág. 88), foi sucessivamente enganada com o engodo de que iria à escola, tendo feito um caminho sem retorno de escravidão até que eclodiu a guerra entre a China e o Japão e o ataque a Pearl Harbour. Para além da mobilização forçada dos coreanos por parte do Japão, assistiu-se ao apagamento da sua cultura e identidade, forçando-os a um outro culto e à mudança de nomes e apelidos, o que Ok-Sun nunca permitiu. Não sou de todo entendida em banda desenhada, mas realço a força das páginas 116 e 117 - a enorme trança cortada - o sacrifício que fez com a falsa promessa de que tinha de cortar o cabelo para ir à escola.  Aos 15 anos foi raptada com outras raparigas. Total ausência de direitos: fome, frio, encarceramento. A perda da virgindade (págs. 205 – 209) “Sangrei tanto!” (pág. 210), o desconhecimento do que era a menstruação, a violência extrema, as violações, a sífilis, a ausência de esperança, o “amor” como algo impossível.

Com o fim da guerra, os soldados fugiram e as raparigas das “casas de conforto” foram abandonadas, não sabendo que a guerra tinha acabado. Mas não para elas que eram escorraçadas e ninguém lhes dava de comer, para além das violações por parte de soldados soviéticos (págs. 371 – 373). Nem no próprio reencontro com a família, muitos anos depois tiveram consolo, por terem sido “mulheres de conforto”!

A autora e uma activista vão ao sítio onde Ok-Sun havia sido escravizada sexualmente. Mas nada encontraram, como se o passado tivesse sido apagado. Mas como erva, Ok-Sun é convidada para ir à televisão dar depoimentos e testemunho do que viveu e, tal como outras mulheres, manifesta-se em Seul todas as quartas-feiras desde 1992, insurgindo-se contra o acordo inaceitável firmado entre o Japão e a Coreia em que nem sequer as mulheres foram ouvidas.

Traço forte, paisagens desoladas, violência, frio e solidão são as marcas que uma leiga em banda desenhada consegue extrair desta novela gráfica que, de uma forma muito expressiva conta uma história que, tendo acontecido em tempo de guerra na Ásia, certamente persiste de forma mais camuflada nos nossos tempos e mais perto de nós do que podemos imaginar.

27 de Agosto de 2026

Almerinda Bento


 


terça-feira, 1 de setembro de 2026

A Analfabeta . Relato Autobiográfico, Agota Kristof

 


“A Analfabeta. Relato Autobiográfico”, Agota Kristof, 2004

Um livro que é um curto relato autobiográfico, mas cuja leitura nos impele a descobrir mais sobre esta autora húngara, sobretudo avançar na leitura de “A Trilogia da Cidade de K.”, o seu livro mais significativo.

Como se pode ser analfabeta aos 26 anos, quando aos 4 anos se era leitora compulsiva e fluente, é a questão que nos é colocada? Para isso há que conhecer o percurso da criança que aos 4 anos lia  tudo o que lhe chegava às mãos, como se fosse uma doença; que desenvolvia a capacidade de inventar e contar histórias tendo os dois irmãos como destinatários; que, aos 14 anos, separada dos irmãos, do pai e da mãe, a viver num internato que se assemelhava a algo “entre um quartel e um convento, entre um orfanato e um reformatório” (pág. 17), era a escrita de poemas e de um diário com um código secreto, a forma de sobreviver ao silêncio, à disciplina e à ausência de liberdade. Ou então escrever pequenas peças em que imitava os professores da escola ou do internato, que ela chama as “palhaçadas” que faziam a alegria das suas colegas.

A Hungria está sob o domínio da União Soviética e um dos grandes choques, para além do afastamento da família, é a obrigatoriedade de falar uma língua inimiga. Resistir, sabotar é continuar a escrever na língua materna. A sua ligação à resistência e posteriormente à revolta de 1956 obriga-a a fugir com a sua bebé, a atravessar a fronteira da Áustria e depois a da Suíça. Como refugiada, deixou tudo para trás. “Deixei na Hungria o meu diário secreto, assim como os meus primeiros poemas. Também deixei lá os meus irmãos, os meus pais, sem aviso prévio, sem me despedir deles, sem sequer lhes dizer adeus. Porém, acima de tudo, naquele dia, nesse dia de finais de novembro de 1956, perdi para sempre a minha pertença a um povo.” (pág. 42)

Na Suíça, tem casa, trabalho numa fábrica, mas não tem tempo para ir às aulas de línguas. “Como teria sido a minha vida se não tivesse deixado o meu país? Mais dura, mais pobre, penso eu, mas também menos solitária, menos dilacerante; talvez feliz.” (pág. 47) (…)

“Na fábrica, todos são simpáticos connosco. Sorriem-nos, falam-nos, porém, não compreendemos nada.

É aqui onde começa o deserto. Deserto social, deserto cultural. Da exaltação dos dias da revolução e da fuga, segue-se o silêncio, o vazio, a nostalgia dos dias em que tínhamos a sensação de participar em algo importante, quem sabe histórico, as saudades de casa, da família, dos amigos.

Esperávamos por algo quando aqui chegámos. Não sabíamos o que esperávamos, mas certamente não era isto: dias de trabalho, cinzentos, noites silenciosas, esta vida congelada, sem mudanças, sem surpresas, sem esperança.” (pág. 50)

Este pequeno, mas precioso livro, traz-nos à reflexão a realidade da vida de um/a refugiado/a, de um/a emigrante. Ágota viveu aos 26 anos o desafio de uma analfabeta. Sabia falar, mas não conseguia ler nem escrever em francês. Um desafio que superou com as aulas no curso de verão, com a consulta constante do dicionário, mas reconhece que embora tentasse escrever o melhor que podia em francês, nunca conseguiria escrever como os escritores que tiveram o francês como língua materna.  

Agota  Kristof nasceu em 1935 e faleceu com 76 anos. Entre 1981 e 1984 escreveu as suas memórias de infância que são acolhidas pelas Éditions du Seuil sob o título “O Grande Caderno” e que foram traduzidas em 18 línguas.  Na badana de “A Analfabeta”, traduzido por Rui Paiva, pode ler-se: “No final da sua vida, Agota Kristof deixa de escrever em francês e entrega todos os seus manuscritos, a sua máquina de escrever, e o seu dicionário bilingue húngaro-francês, ao Arquivo Literário Suíço. Em março de 2011, é-lhe atribuído o Prémio Kossuth, o mais prestigiado prémio literário da Hungria. Foi, para ela, um sinal de reconhecimento do seu país natal. Agota Kristof morre pouco tempo depois, a 27 de Julho de 2011.”

23 de Julho de 2026



 


A Península das Casas Vazias, David Uclés

  “A Península das Casas Vazias”, David Uclés, 2017 Um livro que tem de ser lido devagar. Tem tanta informação, tantas referências, é tão ...