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domingo, 23 de agosto de 2026

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

 


“Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024

Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passado, volto a encontrar uma escritora profundamente conhecedora da cultura alemã e interessada na figura de Sigmund Freud que, também surge no livro anteriormente referido. Desta vez, Teolinda Gersão, não indo fazer um “romance histórico” (pág. 8), como ela própria refere na Nota Inicial, vai fazer um romance baseado na troca de correspondência entre Martha Bernays e Sigmund Freud ao longo do noivado de quatro anos, assim como nas cartas que Freud trocou com amigos, com colegas, com Minna a cunhada e com Anna a filha. “Autobiografia não escrita de Martha Freud” foi o romance vencedor por unanimidade da edição de 2025 do Prémio de Novela e Romance Urbano Tavares Rodrigues (FENPROF/SABSEG), tendo o júri considerado a «obra em que uma rigorosa investigação documental e a criação literária se conjugam de forma exímia num processo de escrita estimulante.”

Martha Freud, apesar dos seus mais de 80 anos, é uma mulher activa a quem a idade não pesa e sente necessidade de preencher o seu tempo, arrumando ideias, escrevendo memórias mas, ao fim de uma centena de páginas escritas, tem a noção do peso das palavras e de como aquilo que tem para escrever enquanto mulher de um homem célebre poderá abalar a reputação do homem, criar desconforto no seio familiar e mesmo ser adulterado ou destruído. E por isso, reduz a cinzas o que já escreveu e decide “apagar-se ou remeter-se ao silêncio” (pág. 18) que foi o que sempre fez enquanto mulher de Sigmund Freud. No entanto, como “livre pensadora” (pág. 22), portanto livre, não vai deixar de pensar toda a sua relação, embora não deixe nada escrito. Antes de ser Martha Freud foi Martha Bernays e, mesmo casada, nunca deixou de o ser.

As inúmeras cartas que trocaram ao longo do seu longo noivado e que ela vai reler e analisar, tantos anos depois, permitem-lhe ver com outros olhos o que lá estava escrito e, mesmo nunca deixando de ser crítica quando as lera com os olhos de jovem apaixonada, as palavras usadas e os detalhes levam-na a uma profunda reflexão agora. Foi ela que teve a iniciativa da primeira carta, mas foi a personalidade dela que permaneceu sempre na sombra. Se ao longo dos quatro anos de noivado houve momentos de tensão e quase ruptura, se a tendência obsessiva de Sigmund Freud de tudo controlar, de desvalorizar sentimentos e só se interessar por factos, de apenas observar Martha como objecto de análise, ela admira-se por se ter deixado humilhar tantas vezes, por não ter posto um ponto final a uma relação obsessiva e doentia que a queria despersonalizar e afastar dos amigos e da própria família. Freud era afinal uma pessoa insegura, ciumenta, possessiva, misógina, apenas interessado em si próprio e em conseguir alcançar a fama e fortuna, utilizando as pessoas para atingir os seus objectivos. O seu casamento remeteu-a ao papel de esposa e mãe, tendo parido seis filhos ao longo de nove anos. Mas Martha era também uma personalidade forte que impôs limites claros nomeadamente de não permitir a sujeição dos filhos a quaisquer devaneios de análises e experimentações por parte do pai, exceptuando Anna, a filha dilecta e seguidora de Freud na psicanálise.

Num tempo em que os direitos das mulheres eram uma miragem e em que os desejos de emancipação do controlo dos pais raramente eram alcançados com o casamento, Martha Freud foi uma mulher apagada, silenciada atrás dum homem que ficou para a história. Restava-lhe o desinteresse e a indiferença por alguém que não a merecia. Tal como Sigmund Freud estabeleceu ao longo dos seus 83 anos de vida relacionamentos ambíguos, muitas vezes movidos por interesses pessoais mais tarde descartáveis com amigos, com colegas e com mestres, só com Anna se manteve fiel, pois foi a única que ele moldou à sua imagem e segundo os seus interesses.

Um livro cuja leitura é valiosa.

12 de Agosto de 2026 


sábado, 11 de julho de 2026

"Perdeu-se Relógio de Senhora", Alice Brito

 




“Perdeu-se Relógio de Senhora”, Alice Brito, 2026

 

Este é o mais recente livro de Alice Brito e, para quem já leu os outros livros desta autora, vai reconhecer em pleno o seu estilo, a linguagem, os temas, a personalidade da escrita e também a frescura e novidade que os seus livros sempre trazem. Frases curtas, incisivas, certeiras. Como não podiam faltar, a cidade de Setúbal e José Afonso fazem parte integrante deste quarto romance de Alice Brito. E a voz da narradora, sem papas na língua, a pôr o dedo na ferida num tempo de retrocesso, de negação, de saudosismo é, certamente, uma marca de água da escrita de Alice Brito.

“Perdeu-se Relógio de Senhora” começa assim: “Tinha-se muita sede por esses tempos” (pág. 11). O romance traz-nos as vidas de três mulheres nascidas em tempos diferentes do século passado e em terras diferentes, as quais, por mero acaso, vão partilhar um apartamento na Duque d’Ávila em Lisboa. As múltiplas referências ligadas às suas vivências e percursos ao longo dos anos ajudam-nos a contextualizar aquele(s) tempo(s) e reflectem um cuidadoso trabalho de investigação que nos permite recordar o Portugal da segunda metade do século passado, como também as importantes lutas operárias e as transformações sociais anteriores. Um Portugal com “muita sede” que subalternizou as mulheres, sujeitou o povo a uma feroz repressão, onde o medo e a hipocrisia medraram - “um país trágico” (pág. 132) - mas em que a luta de classes nunca deixou de existir e que acabou por desembocar na “década de espanto” (pág. 221) quando finalmente Beatriz, Benvinda e Bia, tão diferentes, se encontraram e partilharam uma casa em comum.

Finalmente o 25 de Abril. “Há dias e dias. E aquele dia, um dia líquido em que se matou a sede, por muita tropelia e análise variada e avariada que se lhe faça, resgatou do pesadelo todo um povo que só queria ser gente. Gente a sério.” (pág. 315)

Este livro é uma necessidade num tempo em que comemoramos os 50 anos da liberdade e nos confrontamos com a falta de vergonha, com o desaforo da mentira e todos os tiques da subserviência à extrema direita saudosa do fascismo. Mas é também um grito de esperança e de amor a esse “dia de ouro na memória de quem penou o viver antes.” (…) “Falar de Abril, sem lhe juntar a palavra liberdade, ou alegria, ou coragem é o mesmo que trair um amigo pelo esquecimento, pela omissão ou pelo desprezo.” (pág. 316)

Ler este livro é continuar a dialogar com a acutilância e clareza da escrita de Alice Brito. Para quem ainda não conhece a obra desta autora defensora da causa feminista, é o incentivo para a descobrir, começando por “As Mulheres da Fonte Nova”, “Um romance histórico arrebatador sobre a dor e a sobrevivência das mulheres de todos os tempos”, transcrevendo as palavras de Cristina Carvalho num artigo no Jornal de Letras.

27 de Junho de 2026

Almerinda Bento

 

 

 

 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Persépolis, Marjane Satrapi

 


“Persépolis”, Marjane Satrapi, 2007

 

Marjane Satrapi (1969-2026). Falou-se e escreveu-se muito sobre ela há duas semanas, aquando da sua morte, com 56 anos. Avessa que sou a “histórias aos quadradinhos”, foi preciso ser incentivada por um dos clubes de leitura que sigo, que escolhera a leitura da novela gráfica “Persépolis” e ter recebido finalmente o aviso da Biblioteca Municipal de que já tinha o livro disponível para o poder levantar, que finalmente me lancei na leitura da famosa novela gráfica da ilustradora, cineasta e escritora iraniana. E que assombro. O meu preconceito impedira-me de apreciar há mais tempo esta maravilhosa autobiografia que é a “história de uma infância e a história de um regresso.”

Além de a mancha gráfica ser muito forte, expressiva e apelativa, a história é corajosa, muito divertida e dá-nos um retrato de uma sociedade e de um povo sobre o qual a informação que é veiculada é, regra geral, deturpada e enviesada. Na Introdução que é uma breve resenha da história do Irão, sobre o qual geralmente só temos a imagem do xá, da sua queda em 1979, aquando da Revolução Islâmica, escreve-nos a autora: “Desde então, esta antiga e grandiosa civilização tem sido quase sempre associada ao fundamentalismo, ao fanatismo e ao terrorismo. Como iraniana que viveu mais de metade da sua vida no Irão, sei que esta imagem está muito longe da verdade. É por isso que escrever «Persépolis» foi tão importante para mim. Acredito que uma nação inteira não deve ser julgada pelos crimes de uns quantos extremistas. Também não quero que aqueles iranianos que perderam a vida nas prisões defendendo a liberdade, que morreram na guerra contra o Iraque, que sofreram às mãos de vários regimes repressivos ou que foram forçados a abandonar as suas famílias e a fugir da sua pátria sejam esquecidos. Podemos perdoar, mas não devemos nunca esquecer.” (pág. 8)

Como escrevi acima, fiquei rendida a esta novela gráfica. A autora começa por nos falar sobre o momento em que ela e todas as meninas da sua idade foram obrigadas ao absurdo do uso do véu, quando viu a escola que era mista passar a ser segregada por sexo, o encerramento das universidades, a resistência através de manifestações contra o fundamentalismo e a repressão. Marjane teve a sorte de nascer e ser educada numa família com tradições de resistência ao regime opressivo do Xá, do pai que sempre a esclareceu nas suas dúvidas, desmontando as narrativas falsas dos livros escolares e sobretudo tendo a preocupação de que a memória da família não se perdesse, nomeadamente a memória do tio assassinado pelo regime. Numa fase de crescimento, confronta o que lê nos livros com a realidade, inclusivamente a situação de privilégio social da família detentora de um Cadillac e com uma criada que foi trabalhar para casa dos pais, aos 8 anos. O livro consegue ser muito divertido, porque traz a ingenuidade da criança influenciada pela religião e com o sonho de ser profeta…

Com a guerra com o Iraque, todo o ambiente se degrada rapidamente e a repressão intensifica-se. Os jovens mortos na guerra são transformados em mártires pelo regime, a vida do povo iraniano degrada-se profundamente e assiste-se ao apertar da vida social com restrições e proibições que vão fomentar não só as denúncias e a repressão, mas também a corrupção dos guardas da revolução. Os sinais de rebeldia da autora levam à sua expulsão da escola que frequenta e os pais tomam a difícil decisão de enviar a jovem Marjane de 14 anos para a Áustria.

A autora é bastante exaustiva na caracterização do que é a vida de uma jovem numa fase tão delicada do seu crescimento, sendo estrangeira, refugiada, sem suporte familiar, com problemas de afirmação da sua identidade iraniana, num país em que a extrema direita está a crescer e em que a xenofobia é uma realidade.  É a lembrança da avó e os seus ensinamentos que a salvam, nos momentos mais difíceis.

No regresso a Teerão vai confrontar-se com a opressão que a obriga a voltar a pôr o véu, e por toda a parte, na rua, os murais omnipresentes trazem-lhe a culpa e fazem-na sentir-se “rodeada pelas vítimas de uma guerra a que tinha fugido” (pág. 261) quatro anos antes. Mas ela é rebelde, insubmissa e corajosa e consegue ultrapassar o choque e a depressão face a uma sociedade profundamente esquizofrénica que sobrevive dividida entre aquilo que é obrigada a exibir em público e o que vive entre as quatro paredes da casa, nomeadamente no que os guardiões da revolução consideram imoral e decadente do ponto de vista dos costumes e dos relacionamentos entre sexos.

Após um casamento em que não foi feliz nem se sentiu realizada enquanto pessoa, pede o divórcio e, desta vez, é Marjane que decide partir para França. Estava-se em 1994. Era a despedida definitiva do seu amado país que, apesar da sua beleza, das memórias de infância, dos locais ligados à sua família e à sua história pessoal, era uma prisão para as mulheres, retirando-lhes quaisquer direitos.

Fiquei fascinada pelo livro e quero ver o filme que também foi realizado pela autora, o qual foi nomeado na categoria de Melhor Filme de Animação aos Óscares de 2008, tendo também recebido em 2007 o prémio do júri do festival de Cannes.

Uma pena a morte tão prematura duma mulher tão inspiradora e talentosa.

16 de Junho de 2026


domingo, 17 de agosto de 2025

Autobiografia de uma Mulher Romântica, Natália Nunes

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“Autobiografia de uma Mulher Romântica” – Natália Nunes, 1954


 


Há muito que desejava conhecer a obra de Natália Nunes, tendo apenas referências através de dois cursos online que frequentei sobre escritoras portuguesas desconhecidas. Mesmo em bibliotecas públicas é difícil aceder à obra desta escritora nascida em 1921. No entanto, sabia da paixão de Teresa Sousa de Almeida pela obra desta escritora, tendo-a estudado de forma intensa a aprofundada. “Autobiografia de uma Mulher Romântica” que encontrei na livraria Snob, um romance escrito na primeira pessoa, é prefaciado por Teresa Sousa de Almeida, que o caracteriza como “obra única pela sua estrutura formal e pela complexidade psicológica da sua narradora” que encontra “a escrita como única tábua de salvação”.


Clotilde, a narradora, começa por falar da chuva naquele dia em que chegou “à terra do exílio” (pág. 21) que lhe faz recordar um outro dia marcante, de chuva inclemente de que só saberemos no final do romance. Ela está num quarto de pensão numa Vila, onde irá dar aulas de alemão num colégio da terra.  A viver um momento de dor profunda, logo se percebe que essa dor não decorre da sua viuvez recente, mas de uma paixão posterior não correspondida.


Enquanto não começam as suas aulas que só se iniciarão uma semana depois, aproveita para passear pela aldeia de pescadores, passear pelas dunas e ver o mar, tentando obter serenidade através do contacto com a natureza. Desde o início, o/a leitor/a segue as descrições minuciosas da paisagem, da vida vegetal e animal, e as reflexões que acompanham a narradora ao longo desse percurso. No tempo livre de que dispuser vai recordar a infância, o papel da austera avó Gracinda com quem viveu nos seus primeiros anos de vida e da preceptora Charlotte, uma mulher livre que sempre a aconselhou “a seguir sempre os seus impulsos” (pág. 98). “Talvez devesse aproveitar as horas livres que me vão surgir, para fazer aquilo que se chama um exame de consciência, para dirigir um olhar perscrutador a todo o meu passado, contemplar numa visão retrospectiva o caminho que já percorri e me trouxe assombrada e desolada a este exílio…” (pág. 76)


Desde sempre a ligação que estabeleceu desde nova com a natureza na aldeia da avó trazia-lhe uma sensação de plenitude a que se seguia um sentimento de insatisfação e até desespero, sendo que os sentimentos de incompletude e frustração caracterizaram as suas primeiras experiências sentimentais, que a levaram a isolar-se, sentindo que era “esquisita”. 


Clotilde não se enquadra no modelo tradicional que a avó Gracinda e a tia Constância queriam para ela e para as primas, que era final o caminho asfixiante da sujeição aos padrões da docilidade e da domesticidade que estavam reservados para as mulheres como esposas e donas de casa e não como pessoas com autonomia e vontade própria. Apesar do breve período da sua vida que correspondeu a um curto noivado e casamento e em que existiu um certo apaziguamento que a leva a seguir as convenções e as normas impostas socialmente, Clotilde confessa “Eu tinha uma tendência para complicar a vida!” (pág. 167), à felicidade segue-se o tédio, a vontade de fugir. Foi em Filipe que ela viu pela primeira vez uma vida com sentido, alguém cuja “passagem pela vida” era “significativa e útil”. (pág. 173)


Como escreve Teresa Sousa de Almeida no prefácio (pág. 12) “as heroínas de Natália Nunes, apesar de todas as vicissitudes, encontram sempre o seu caminho” e Clotilde, a terminar o romance decide regressar às serras da sua infância e diz: “Fui repelida e desprezada por ser uma romântica. Pois não serei eu quem desminta a minha natureza! Se não tenho lugar neste mundo fujo para as penhas nas alturas solitárias e levo a minha alma, que o meu corpo de bicho montês sabe contentar-se com as caricias das fragas e com os beijos dos arbustos!”


Um romance escrito por alguém com profundo domínio da língua, usando vocabulário rico e elaborado e totalmente dedicado a analisar os estados de alma de uma mulher fora dos padrões expectáveis na sociedade portuguesa dos anos 1950. 


15 de Agosto de 2025

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Monólogo de uma Mulher chamada Maria com a sua Patroa, Sara Barros Leitão

 


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Monólogo de uma Mulher Chamada Maria com a sua Patroa, Sara Barros Leitão, 2021


“Monólogo de uma Mulher Chamada Maria com a sua Patroa” é o texto dramatúrgico que deu origem ao espectáculo homónimo, produzido pela estrutura artística Cassandra. Na badana da edição da Imprensa da Universidade de Coimbra pode ler-se: “Monólogo de uma Mulher Chamada Maria com a sua Patroa” é um título roubado clandestinamente a um texto do livro “Novas Cartas Portuguesas” que dá o mote a uma criação de Sara Barros Leitão estreada em 2021. Partindo da criação, em 1974, do primeiro Sindicato do Serviço Doméstico em Portugal, aqui se conta a história, ainda pouco reconhecida, pouco valorizada, do trabalho das mulheres, do seu poder de organização, reivindicação e mudança. Esta é a história das mulheres que limpam o mundo, das mulheres que cuidam do mundo, das mulheres que produzem, educam e preparam a força do trabalho – a história do trabalho invisível que põe o mundo a mexer.”


O texto é poderoso e muito informativo, tal como a representação em palco feita por Sara Barros Leitão é poderosa e inesquecível. Logo o Prólogo, pela sua extensão, pode ser desconfortável, mas é isso mesmo que se quer. Ficamos a saber que em 1921 aconteceu a primeira greve das empregadas domésticas em Lisboa; que data de 1867 uma lei que separava as empregadas domésticas das pessoas escravizadas, mas que continuavam a ter de ter um livrete com o cadastro limpo para poderem trabalhar. Foi por altura de 1921 que o governador civil de Lisboa Lelo Portela se lembrou de reavivar essa lei vexatória que impunha o livrete às empregadas domésticas e aos empregados de cafés e restaurantes, invocando serem classes profissionais muito dadas a roubos. Estes trabalhadores mobilizam-se e o extraordinário é que o poder recua, mas isentando os homens da obrigação e deixando isoladas as empregadas domésticas que não vergaram e fizeram uma greve histórica que obrigou o governador civil a demitir-se e a fugir para o Brasil. Sem empregadas domésticas seria o fim do mundo para os patrões.


Uma empregada doméstica é alguém para todo o serviço; é a invisibilidade, a submissão, a ausência de direitos, a sobrevivência, a solidão. E a mudança da História com o 25 de Abril trouxe mudança na história das empregadas domésticas? A cena 7 faz um registo exaustivo de cartas e desabafos dirigidos ao Sindicato e é o testemunho das dificuldades sentidas para que o sindicato se constituísse. O texto dramatúrgico joga com as palavras e os conceitos: história/História, O Capital/A Capital, mais-valia/mais valia. As trabalhadoras do serviço doméstico aprendem no processo revolucionário a reivindicação e a lei e batem-se pela lei dos 3 Fs: Folgas, Férias e Feriados. No primeiro 1º de Maio descem com uma faixa a dizer “Sindicato do Serviço Doméstico”, mas só em 1976 o sindicato foi legalizado. “Agora, chegou o tempo de contar a narrativa alternativa de quem não saiu, e a quem fizeram acreditar que ainda não era a sua vez” (pág. 54) O 25 de Abril não foi para todos e ainda menos para todas e as empregadas domésticas apercebem-se que às vezes as máquinas avariam e deixam de trabalhar e descobrem que até as máquinas têm mais liberdade que elas.


O Sindicato do Serviço Doméstico foi fundado em 1974 só por mulheres e legalizado apenas dois anos depois. Era profundamente revolucionário e emancipatório, pois “O objectivo era extinguir a profissão nos moldes actuais” (pág. 59), tendo como perspectiva a elevação intelectual das suas associadas. Ocuparam três prédios e criaram serviços, reconvertendo o conceito existente de serviço doméstico. Os sindicatos ficaram perplexos com a capacidade de organização daquelas mulheres e incapazes de uma resposta à altura, que respeitasse o sentimento e o pensamento destas trabalhadoras. Em 1979, o Sindicato do Serviço Doméstico organiza um 1º Congresso com a participação de mais de 9 000 mulheres. Em 1991 este sindicato é integrado num outro, incluindo jardineiros, vigilantes e porteiros. As empregadas domésticas são abafadas e as prioridades são subvertidas.


A lei de 1867 só é alterada em 1980. É revista em 1992. Tal como estas mulheres é uma lei à margem da lei geral do trabalho. Portugal é um dos países da Europa onde mais se contratam empregadas domésticas. Elas colmatam a ausência de respostas públicas dos cuidados. Hoje muitas das empregadas domésticas são mulheres emigrantes, racializadas, sem papéis, desprotegidas. Muitas não falam português.


Esta peça protagonizada por Sara Barros Leitão visibiliza a longa e heroica história de luta deste sector profissional invisível, mas indispensável. Que começou em 1867, passando pelo 25 de Abril e que chega aos nossos dias. As dificuldades, as traições, a resistência, a capacidade de sobreviver. Abalroadas, esquecidas, porque são mulheres.


Um texto e uma peça que exigem uma grande reflexão sobre a necessidade de valorizar quem cuida do mundo e cujos direitos têm sido sistematicamente esquecidos.


13 de Dezembro de 2024

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Outrora e Outros Tempos, Olga Tokarczuk

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Outrora e outros Tempos”, Olga Tokarczuk, 1992


Este é o primeiro romance escrito pela autora polaca e o terceiro que leio dela, depois de “Viagens” e “Conduz o Arado sobre os Ossos dos Mortos”. Mal entrei na leitura de “Outrora e outros Tempos”, logo me lembrei de “Viagens” e da sua estrutura fragmentária, que obriga o leitor a um exercício de concentração e memorização que a minha leitura que se prolongou no tempo, por vezes dificultou. Mas, mais uma vez, o assombro por uma narrativa invulgar que se desenrola ao longo do século passado desde o início da primeira Grande Guerra e que se situa em Outrora, descrito como “um lugar situado no centro do Universo”(pág.7).


É um romance em que o tempo da História se entrelaça com os tempos das histórias das pessoas. Enquanto os homens fazem a guerra, as mulheres acreditam que a guerra vai ser rápida, esperam por eles, sentem a falta deles, apaixonam-se. Eles regressam, a vida retoma o seu curso até que uma nova guerra se abate. Na guerra não há vencidos nem vencedores, porque a violência, quer seja feita pelos ocupantes alemães quer pelos invasores russos, não se distingue porque é cega e igualmente bárbara: tudo o que mexe é abatido, mesmo que seja uma mulher a proteger o seu filho e as violações são o desfecho para o guerreiro quando as metralhadoras estão em repouso. Seguem-se as nacionalizações, os funcionários do Estado que gozam de privilégios, a vodca, a bebida que corre nas festas, as mulheres que continuam a desempenhar os papéis tradicionais, a cozinhar, a ser abusadas, a ser exibidas como objectos, mas também a rebelar-se, a fugir de Outrora, para nunca mais voltar (Ruta), ou para voltar só no fim, quando já é “tarde demais” (Adelka).


Numa conversa entre Ruta e Izydor, ambos da mesma idade e filhos de Kloska e de Genowefa, diz Ruta: “O mundo é mau. Tu próprio o viste. Quem é o Deus que criou um mundo assim? Ou Ele próprio é mau ou permite o mal. Ou, então, anda muito confuso.” (pág. 173) . A reflexão sobre Deus que a autora nos propõe surge ao longo do livro em vários capítulos nomeados “O Tempo de Jogar”, um estranho labirinto composto por círculos ou esferas, chamados Mundos. “Quem sou Eu? , pergunta Deus. “Deus ou ser humano, ou talvez uma coisa e outra ao mesmo tempo, ou nenhuma delas? Fui Eu que criei as pessoas ou foram elas que Me criaram a Mim?” (pág.91).


E sempre a natureza. As árvores, a relva, a floresta, os cogumelos, os dentes-de-leão, o rio, as tílias, tantas e tantas plantas, a lembrar outros livros de Olga Tocarczuk, que nos ajudam a ver o passar das estações do ano e os ciclos da vida que se sucedem, assim como “a decomposição, o apodrecimento e a destruição” (pág.139). “As pessoas pensam que vivem mais intensamente do que os animais, as plantas e ainda mais do que as coisas. Os animais pressentem que vivem mais intensamente do que as plantas e as coisas. As plantas sonham que vivem mais intensamente do que as coisas. Mas as coisas perduram e este perdurar é mais vida do que qualquer outra coisa.” (pág.44).


E a propósito das coisas, o moinho de café de Misia é central nesta história. Trazido pelo pai Michal como espólio da primeira grande guerra, o cheiro que rescendia da gavetinha onde os grãos moídos caíam, trazia-lhe segurança, a lembrança do café e da casa. “Talvez os moinhos de café sejam o eixo da realidade, em torno do qual tudo gira e evolui, talvez sejam mais importantes para o mundo do que as pessoas. Quem sabe se aquele moinho de café de Misia, único, não era o pilar da aldeia chamada Outrora?” (págs.46 e 47). No final, quando Adelka volta a Outrora, depois de duas dezenas de anos ausente e observa o desalinho da casa onde vive Pawel, o pai, e os velhos objectos da cozinha, “o seu olhar repousou sobre o moinho de café que tinha uma barriguinha de porcelana e uma gavetita maneirinha. Hesitou um instante e, depois, tirou rapidamente o moinho de café da prateleira e escondeu-o na mala.” (pág.267). Não desejada e perante a atitude do pai de rejeitar a presença da filha e o seu apoio, Adelka parte. “Ainda teve de esperar mais de uma hora na paragem à espera do autocarro. Quando o autocarro chegou, ela era a única passageira. Abriu a mala e tirou o moinho de café. Começou a girar a manivela devagarinho e o motorista lançou pelo retrovisor um olhar surpreendido.” (pág.268)


Um livro que aconselho vivamente. Olga Tokarczuk tem o condão de nos surpreender, de nos deixar a pensar, de nos impelir a acompanhá-la ao subverter a ordem estabelecida, ao questionar a “normalidade”.


6 de Maio de 2024


(Estava a escrever este texto quando soube da minha querida amiga “Olímpia que partiu hoje para longe do sofrimento”. Em memória dela, certa que as suas ideias e escolhas tinham grande consonância com a as ideias e escolhas de Olga ToKarczuk)

sábado, 30 de março de 2024

Tanta Gente, Mariana - Maria Judite de Carvalho

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“Tanta Gente, Mariana”, Maria Judite de Carvalho, 1959


 Maria Judite de Carvalho é, em minha opinião, uma das grandes escritoras do século XX. Já li vários romances e contos dela e voltei à leitura de “Tanta Gente, Mariana”, depois de este título ter sido escolhido pelo Círculo de Leitura da UNISSEIXAL. Esta obra é a mais conhecida da autora e considerada a mais autobiográfica, na medida em que se aproxima muito da vida da autora que ficou órfã aos 7 anos e foi educada por umas tias.


O título “Tanta Gente, Mariana”, retirado de uma conversa de Mariana com o pai, quando ela era uma jovem de quinze anos, sintetiza bem a solidão da personagem, marca de uma vida, mesmo quando estava rodeada de pessoas e de amigos. “Sou uma velha de 36 anos” (pág. 38), assim se vê Mariana agora que é uma mulher só, sem família, com dificuldades económicas que a roupa coçada evidencia e a enfrentar a certeza de uma morte para breve. No entanto e, apesar do infortúnio, ela consegue agarrar, embora fugazmente, a ideia de esperança, coisa em que nunca antes pensara. “Um mundo é de repente um amontoado de coisas estranhas que vejo pela primeira vez e que existem com uma força inesperada.” (pág. 14) Passa em revista os seus relacionamentos, as suas poucas amizades, os sonhos que não se concretizam, a hipocrisia social que se revela mesmo com “Lúcia, minha amiga de sempre e para sempre”, expressão carregada de ironia, que repete sempre que fala de Lúcia. De forma muito subtil, Maria Judite de Carvalho faz a crítica ao ideal de mulher do Estado Novo no qual Mariana não se encaixa e que leva a que seja despedida do emprego e não convidada para o casamento da “amiga de sempre e para sempre”. Afinal uma mulher divorciada e grávida, de que não se sabe quem é o pai da criança é um estatuto que o puritanismo hipócrita do salazarismo não consegue admitir!


As dezenas de personagens criadas por Maria Judite de Carvalho são maioritariamente femininas. Observadora do quotidiano, trouxe para a sua obra histórias tristes de desamor e de solidão e através da escrita e duma fina ironia conferiu ao privado um carácter político. Baptista-Bastos referiu Maria Judite de Carvalho, no prefácio a um dos seus livros, como “uma ternura magoada” e Agustina Bessa-Luís chamou-lhe “flor discreta”.


“Uma ternura magoada” e uma “flor discreta” merecedora de muito maior divulgação.


 


 


15 de Março de 2024


Almerinda Bento

quinta-feira, 28 de março de 2024

Paula Rego - a Luz e a Sombra Uma Forma de Olhar , Cristina Carvalho

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“Paula Rego – A Luz e a Sombra Uma Forma de Olhar”, Cristina Carvalho, 2023


Quando lemos os romances biográficos de Cristina Carvalho, sempre sentimos a estreita ligação afectiva entre a narradora e o biografado ou a biografada e às vezes perguntamo-nos se o que estamos a ler se refere à narradora ou à pessoa que é objecto do romance biográfico. É essa profunda ligação e a liberdade que é dada ao leitor, um dos grandes fascínios da escrita de Cristina Carvalho. Ao longo da leitura deste maravilhoso romance, tantas vezes me acorreu se a narradora era Paula Rego ou Cristina Carvalho, porque sinto que as duas personalidades têm muito em comum. Mas isto sou eu, enquanto leitora e enquanto leitora deste “Paula Rego”. Trago aqui o epílogo, em que Cristina Carvalho faz uma reflexão sobre a memória e avisa: “Este curto livro não pretende revelar a intimidade da artista, nem isso seria possível. Também não pretende analisar a estrutura, o ideal ou a imaginação que esteve presente em toda a sua obra, tudo o que se conhece e tudo o que se não conhece. É, precisamente, o deixar à vontade a imaginação de quem observa, tendo por base algumas circunstâncias vivenciais, relacionais, em suma, existenciais.” (pág. 153)


Quero, antes do mais, dizer como gosto da pintura de Paula Rego e como passei a gostar ainda mais depois da grande série que fez sobre o aborto, apoiando com a sua Arte a luta que se travava cá em Portugal pela dignidade e pela liberdade de escolha. As mulheres – “seres mártires ao longo de tantos séculos” (pág. 30) – as suas vidas de sofrimento e a incompreensão a que têm sido votadas estão sempre presentes nas telas de Paula Rego. “São fortes, musculadas, as mulheres que eu pinto. (…) Às vezes eu própria me assusto! São tão feios, tão brutais, tão violentos, esses corpos, que fico a pensar no que acabei de conceber. (…) Mas chego sempre à mesma conclusão: preciso, tenho obrigação de mostrar a toda a gente um sofrimento mais do que silencioso, este sofrimento das mulheres da minha época, de todas as épocas.” (pág. 69). No inesquecível capítulo “Os Uivos do Mar” Cristina Carvalho transporta-nos para as praias da Ericeira onde os abortos aconteciam “sem disfarces” (pág. 62).


O pai, uma das figuras de referência de Paula Rego, cedo percebeu que a filha tinha qualidades que não se coadunavam com a tacanhez de Portugal de Salazar e, em 1952, envia a filha para Londres para estudar na Slade School of Fine Art: “Vais-te embora, que isto não é um país para mulheres!” (pág. 47). Menina, adolescente, mulher que viveu e conviveu toda a vida com medos, com depressões, fez, através da Arte, a cura e a representação das ideias, das memórias da infância com os avós, das histórias tradicionais contadas pela tia Ludgera, da vida comum das pessoas e sobretudo das mulheres.”Os meus quadros representam e apresentam a vida tal qual é: grotesca, disforme, raras vezes amena ou calma” (pág. 134).


Sendo estruturantes os espaços e os diferentes sítios que marcaram a infância e depois a idade adulta de Paula Rego, não admira que este romance biográfico dedique tanta atenção à descrição desses lugares, com especial carinho pela Quinta da Ericeira onde viveu com os avós e mais tarde já casada com Victor Willing, com quem partilhou a antiga adega, amplo espaço transformado em oficina. Mas Londres, que Victor preferia para trabalhar e a que regressaram definitivamente depois de 1976, Paula Rego sentia-a como sua pátria, nem portuguesa nem inglesa. No entanto, o amor pela Ericeira nunca a deixou e ficou registado em muitas das suas telas.


Depois de se ler “Paula Rego – a Luz e a Sombra Uma Forma de Olhar”, sente-se necessidade de revisitar a obra de Paula Rego, de olhar com mais atenção para “A Dança”, de encontrar alguns detalhes como as lagostas, de observar as mulheres e descobrir em muitas o rosto de Lila ou de ver Anthony Rudolph, modelo e amigo de Paula Rego durante um quarto de século, ou imaginar os bonecos e figuras grotescas que se amontoavam no estúdio de Londres. E rever o filme “Paula Rego – Histórias & Segredos” feito pelo filho Nick Willing.


28 de Março de 2024


Almerinda Bento

sábado, 30 de dezembro de 2023

As meninas proibidas de Cabul. Jenny Nordberg

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“As Meninas Proibidas de Cabul”, Jenny Nordberg, 2014


Jenny Nordberg, jornalista sueca premiada, conhecida pelos seus trabalhos de investigação, escreveu este seu “As Meninas proibidas de Cabul” entre 2009 e 2014, que ela classifica logo a abrir como “um relato subjectivo”. Com o subtítulo “A tradição secreta de resistência e luta das meninas afegãs”, este trabalho foi considerado Livro do Ano pela Publishers Weekly.


Neste meu texto sobre o livro, faço-o recordando aquela mulher afegã de burka que, em Outubro de 2000, no edifício das Nações Unidas em Nova York, perante dezenas de activistas feministas da Marcha Mundial das Mulheres, fez um relato emocionado sobre a opressão das suas irmãs do Afeganistão; recordando os milhares de mulheres e homens que em 2021 tentavam desesperadamente fugir do horror do regime totalitário dos talibãs; recordando a iraniana Narges Mohammadi, jornalista e activista dos direitos humanos, galardoada este ano com o Prémio Nobel da Paz, que afirmou “continuarei no Irão e continuarei o meu activismo, mesmo se passar o resto da minha vida na prisão”.


À medida que vamos lendo “As meninas proibidas de Cabul” é a palavra “resistência” que nos ocorre. O centro deste livro são os bacha posh, raparigas cujos pais transformam em rapazes, para colmatar a situação das famílias que não conseguem gerar filhos varões. Na sociedade afegã não ter filhos rapazes constitui um problema, uma falha do casal, algo que gera desconfiança social e mal-estar no seio da família. Assim e até à puberdade, a rapariga veste-se como um rapaz e tem uma liberdade que não teria se fosse rapariga, podendo brincar na rua, fazer compras e acompanhar com outros rapazes. A autora vai conhecer vários bacha posh e para isso desloca-se a zonas recônditas do país, não se limitando a Cabul: Mehran, o “filho” de 6 anos de Azita; Zahra de 15 anos que não quer perder a sua liberdade e voltar a ser rapariga; Sakina que aos 12 anos fez a transição, não sem que isso não lhe tivesse gerado confusão; Shukria, a enfermeira, com um profundo sentimento de falhanço na vida, visto não querer voltar à sua condição de mulher, mas ter sido obrigada a casar; Nader que nunca quis casar e que treina raparigas em futebol e na arte do tae kwon do. “É melhor viver à margem da sociedade do que viver escravizada, prega Nader às suas aprendizes.” (p.256)


Neste trabalho de campo como jornalista, a autora conhece Azita, mãe de Mehran e de mais três filhas, que casara contra sua vontade com um primo analfabeto. Azita, que usufruíra de formação devido à sua situação social privilegiada, torna-se membro da câmara baixa do Parlamento em Cabul em 2005. O Afeganistão é uma realidade complexa em que coexistem e conflituam vários grupos de entre os quais os pachto (islamitas sunitas) se consideram os verdadeiros afegãos, foi palco de “experiências” (soviética e americana) que em nada ajudaram o povo afegão a sair da guerra, do desemprego, da pobreza e da corrupção, ao mesmo tempo que a influência dos talibã se foi consolidando e impondo definitivamente em Agosto de 2021. A realidade dos bacha posh, não sendo raridade nem pontual, tem um estatuto de clandestinidade sobretudo para os estrangeiros, mas Jenny Nordberg conseguiu conhecê-la fruto da solidariedade feminina, fazendo uso das estruturas informais e porque conseguiu ganhar a confiança de mulheres como Setareh – a tradutora – também ela com uma experiência de bacha posh a quem no final do livro mostra a sua profunda gratidão. “Tem sido a minha guarda-costas e a minha negociadora e a minha pesquisadora e a minha amiga, a quem em troca eu ensinei coisas de que nenhuma mulher decente devia falar. Mas como vários dos bacha posh, teve um pai progressista que confiou nela, que a deixou trabalhar e viajar comigo para o desconhecido. Arriscou a vida por mim, e eu guardarei para sempre os seus segredos. // Se o Afeganistão voltar a guinar para o conservadorismo, todas as Setarehs, todas as Mehrans, todas as Azitas e todas as raparigas que recusam as normas serão as primeiras a sofrer.” (p. 349)


Sabemos que a guinada para o conservadorismo, para o fechamento e opressão do povo afegão, sobretudo das mulheres, se aprofundou no Verão de 2021. Mas mesmo em 2001, quando momentaneamente o poder dos talibã caiu, fora de Cabul era a lei dos talibã que imperava. Numa sociedade patriarcal com uma estrita separação dos sexos como é a sociedade afegã, em que as mulheres são meros seres reprodutores, assexuais, com uma esperança média de vida de 44 anos dos quais grande parte são na condição de gravidez, em que 18 000 mulheres morrem por ano por complicações de parto, em que o divórcio é praticamente impossível, uma mulher que leia ou escreva ou que tenha a mínima veleidade de liberdade corre o risco de a sua reputação ficar manchada. “Azita adora dançar, mas não o faz com muita frequência. Para uma mulher, a dança enquadra-se na mesma categoria que a poesia – equivale a sonho, que pode inspirar pensamentos a respeito de temas proibidos, como o amor e o desejo. Uma mulher que lê, escreve e recita poesia é uma mulher que talvez albergue ideias estranhas sobre amor e romance e seja, portanto, uma potencial prostituta.” (p. 104) A família é ou pode ser a pior ameaça para uma jovem afegã, pois são os pais que impõem um marido, não lhes dando o direito à escolha. Na sociedade afegã a mulher ou é filha, ou esposa, ou viúva, nunca divorciada. Daí que para muitos bacha posh que Jenny Nordberg entrevistou, o período em que viveram como rapazes foi o melhor e mais feliz período das suas vidas. Transcrevo a dedicatória do livro: ”Para todas as raparigas que perceberam que, de calças, conseguiam correr mais depressa e trepar mais alto”.


Apesar da dureza do livro, das vidas aí descritas, do pessimismo, das derrotas, do sentimento de falhanço que muitas das entrevistadas reflectem, a autora deixa uma visão optimista do futuro, que passa por os homens evoluírem de modo a libertarem as suas filhas, as suas mulheres e, no fundo, libertarem-se a si próprios.


Se este livro tivesse sido escrito a partir de 2021, teria Jenny Nordberg a mesma perspectiva optimista sobre a libertação das mulheres e meninas afegãs?


27 de Dezembro de 2023

sábado, 3 de dezembro de 2022

Os Anos, Annie Ernaux

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“Os Anos”, Annie Ernaux, 2008

 

De repente, descobre-se um nome novo, alguém que ganhou o prémio Nobel da Literatura e nem sempre as livrarias estão preparadas. Não foi o caso este ano. Pelo menos encontrei três títulos diferentes de obras de Annie Ernaux, todos traduzidos em português por Maria Etelvina Santos e quando me questionei por qual deveria começar, sugeriram-me que começasse por “Os Anos”. E assim foi. Uma bela descoberta.

Gostaria de começar este meu texto, transcrevendo a frase de José Ortega Y Gasset “A única história que temos é a nossa e ela não nos pertence” que se encontra na epígrafe do livro, assim como parte da citação de Anton Tchekhov também na epígrafe: “- Sim. Seremos esquecidos. É assim a vida, nada a fazer. O que hoje nos parece importante, sério, cheio de consequências, pois bem, um dia vai cair no esquecimento, vai deixar de ter importância…” 

Então, entramos na aventura do livro e a primeira frase, que antecede as frases soltas que o abrem, é “Todas as imagens irão desaparecer”. E, quando volvidas meia dúzia de páginas, chegamos à pág 16 lemos: “Tudo se apagará num segundo. O dicionário acumulado desde o berço até ao leito de morte irá desaparecer. Depois, o silêncio e nenhuma palavra para o dizer. Da boca aberta nada sairá. Nem eu nem mim. A língua continuará a pôr o mundo em palavras. Nas conversas à volta de uma mesa em dia de festa seremos apenas um nome, cada vez mais sem rosto, até desaparecermos na multidão anónima de uma geração distante”.

A ideia da finitude da vida, do esquecimento inevitável que virá com o tempo, leva a narradora, que sempre adiara, desde a juventude, a escrita do livro, à urgência de agarrar nas imagens, nos milhares de notas e dar forma a um tempo, captando “… a duração que constitui a sua passagem pela Terra numa determinada época” (pág. 193), “… para reconstituir um tempo comum… para, ao descobrir numa memória individual a memória da memória coletiva, ser capaz de transmitir a dimensão vivida da História.” (pág. 194). “Portanto, o livro a fazer era um instrumento de luta.” (pág. 195).

É pois um livro de memória, do tempo que medeia entre aquela fotografia sépia de 1941 e uma outra datada de 25 de Dezembro de 2006, em que aparece ao lado da neta. Todos aqueles retratos, com o registo da data e do local no verso, que vão sendo descritos nos seus detalhes ao longo do livro, marcam um dia, uma época, um tempo que foi o dela, que foi também o tempo da sociedade em que ela se inseriu, com a qual nos identificamos, apesar de não termos nascido em França.

E o lugar da mesa, em dias de festa, em que a família se reúne, desde aquele tempo longínquo em que avós e pais contavam histórias da(s) guerra(s) enquanto as crianças despreocupadas corriam e brincavam, alheadas desse mundo dos adultos, até àquele outro tempo em que ela é avó e mãe e observa as reacções e as conversas dos filhos e das namoradas. Sempre o mundo dos adultos e dos pequenos, essa persistência e continuidade, mas também as diferenças, o fosso que torna o olhar de uns sobre os outros, sempre ambivalente, incompreensível e estranho. O desenrolar da História e com ele a evocação do frio, da fome, da destruição, do frenesim a seguir à Libertação, das diferenças na educação dos rapazes e das raparigas, os tabus, o sexo, a Igreja, a esperança no progresso, os grandes projectos, o consumo e a falsa sensação de liberdade, os desânimos… Os namoros, os sustos, o casamento, o cansaço do casamento, os constrangimentos sociais, o divórcio, os namoros, a relação com um homem muito mais jovem…

À medida que vamos seguindo esta leitura entusiasmante, a História passa pelos nossos olhos com inúmeras referências inesquecíveis mas, embora a narradora nunca refira Portugal e a democracia que chegou com o 25 de Abril, ela destaca o Maio de 68 como data marcante para os Franceses, em que se separaram as águas, conforme o lado da barricada em que cada um se situou. Tal como no 11 de Setembro, quando as Torres Gémeas foram derrubadas, ela não esqueceu um outro 11 de Setembro em que Allende foi derrubado por um general de extrema-direita.

A vida das mulheres, nas suas conquistas ao longo do século passado, é algo que marca este livro e que não poderia deixar de aqui realçar. Nos anos 50, a moral sexual era rígida e penalizava sobremaneira as raparigas. “Sonhava-se com a pílula contracetiva que, diziam, se vendia na Alemanha. Ao sábado, em fila, casavam as raparigas de véu branco, que davam à luz seis meses mais tarde uns rapagões considerados prematuros.” “Ninguém se interrogava sobre quanto tempo duraria a proibição do aborto e de se viver junto sem casamento”. (pág. 59). “A vida sexual continuava a ser clandestina e rudimentar, assombrada pelo «acidente». Ninguém a devia ter antes do casamento.” “Era preciso «tirar» de uma maneira – na Suíça, para as que eram ricas – ou de outra – na cozinha de uma desconhecida, sem conhecimentos, que tirava uma sonda fervida de um recipiente que servia para tudo. Ter lido Simone de Beauvoir apenas servia para constatar a maldição de ter um útero.” (pág. 65). “A contraceção intimidava bastante as refeições familiares para poder ser tema de conversa. O aborto era palavra impossível de pronunciar.” (pág. 77). Os anos passam, “deixáramos de acreditar que haveria um novo Maio” “Já ninguém se aborrecia verdadeiramente … A indignação moral já não tinha lugar” (pág. 100), mas “Até nós… mesmo nós fomos tocados pelo voto aos dezoito anos, o divórcio por mútuo consentimento, a lei sobre o aborto em discussão, quase chorámos de raiva por ver Simone Veil a defender-se sozinha na Assembleia contra os homens da sua própria bancada, furiosos, e pusémo-la no nosso panteão ao lado da outra Simone, de Beauvoir – cujo aparecimento pela primeira vez na televisão, numa entrevista, de turbante e unhas pintadas de vermelho, estilo leitora da sina, nos tinha dececionado, pois já era muito tarde, ela não o deveria ter feito –, e já nem nos aborrecíamos quando os alunos confundiam Veil com a filósofa que por vezes era citada nas aulas.” (pág. 100).

 

Já vai longo este meu texto e tanto, tanto ficou por dizer, tantos foram os sublinhados que fiz ao longo deste belo livro. Espero que “Os Anos” de Annie Ernaux seja lido por muita gente da minha idade, que se vai rever nele. Espero que seja também uma leitura interessante para os jovens e as jovens que agora vivem no tempo da tecnologia triunfante, da precariedade endémica, do avanço dos extremismos e das descaradas fake news.

Volto à ideia mestra de “Os Anos”, quando a meio do livro a narradora escreve: “Gostaria de reunir múltiplas imagens dela própria, separadas, sem relação entre si, ligadas por um fio narrativo, o da sua existência, desde o nascimento durante a Segunda Guerra Mundial até aos dias de hoje”. (pág.144) Objectivo plenamente alcançado.

 

1 de Dezembro de 2022

 

 

 

terça-feira, 8 de março de 2022

A senhora da fotografia

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A senhora da fotografia


Hoje, ao olhar para a primeira página do Público, percebi que estava naquela fotografia a minha Notícia do Dia para o SPGL. Era óbvio. A guerra e os seus efeitos na vida das mulheres. É o 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres. Em muitos sítios, muitas empresas e instituições lembram-se de oferecer neste dia gerberas e outras flores às mulheres, para lhes dizer que pensam nelas, que gostam muito delas, que as respeitam… bla, bla, bla. Sempre achei hipócrita esse gesto, mas isso é porque tenho mau feitio… Mas voltando à fotografia da capa do jornal Público, um soldado apoia e agarra pela mão uma senhora idosa que caminha sobre uma prancha de madeira. Mais atrás crianças, mulheres e homens fazem fila e aguardam a sua vez de o fazer. A senhora idosa olha o soldado nos olhos e certamente agradece-lhe, não só pelo seu gesto, mas porque é um dos muitos milhares de homens que estão no terreno a suster o avanço das tropas russas e a defender a sua terra.


Na guerra, são as mulheres, as crianças, as pessoas idosas e os mais vulneráveis quem sofre de forma mais aguda os efeitos e as consequências da barbárie. As desigualdades aumentam, a violência de género chega a níveis inauditos pois muitas vezes os corpos das mulheres são despojos de guerra, a pobreza torna-se endémica, as crianças deixam de ter acesso à escola, tudo fica suspenso ou paralisado. Os direitos ficam em stand by quando não retrocedem e isso para as mulheres, na sociedade patriarcal em que vivemos é dramático.


Mas avanço no jornal. Folheio-o à procura de mais notícias neste dia em que as Mulheres são fonte de notícias, comentários, análises, estudos, estatísticas. Voilà! página 16 – Política – “Legislativas de 30 de Janeiro elegeram menos mulheres”. A jornalista Marta Roque escreve dois artigos: “Secretária de Estado da Igualdade defende «regras explícitas» na lei da paridade” e “Pandemia atrasou em 30 anos o progresso das mulheres na paridade”. Encaixado entre os dois artigos, lá aparece a fotografia do presidente e a referência à sua mensagem neste dia, numa coluna com o título “Marcelo: balanços nos direitos das mulheres ainda «insuficientes»”.


Agradeço à senhora da fotografia ter-me ajudado a escrever o que queria neste Dia Internacional das Mulheres. Uma fotografia muitas vezes vale muito mais do que cem palavras. Daqui a um ano como estaremos? Tivemos uma pandemia que ainda não se foi embora, entrámos numa guerra que não sabemos quando nem como vai terminar… As mulheres pioraram nas suas vidas com a pandemia e tudo isso se vai agravar com a guerra. Por isso elas querem e pedem Paz. Paz! Tão simples, mas tão difícil.


8 de Março de 2022


Almerinda Bento


Nota: Quinzenalmente, faço um pequeno artigo para o meu sindicato, o SPGL, sobre uma notícia do dia, a partir de um jornal à escolha. Hoje foi isto. 


 


 

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Natasha

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Natasha. Natalya.


Estive com a Natasha, dois dias antes de ela fazer 42 anos. Na altura ela disse-me que estava em Portugal há 21 anos, precisamente metade da sua vida tinha-a passado aqui.  


Nestes 21 anos casou, teve dois filhos – um rapaz e uma rapariga – divorciou-se depois de ter vivido uma situação grave de violência doméstica, sobreviveu, criou o seu próprio negócio depois de o patrão ter encerrado o salão de cabeleireiro, sobreviveu a uma pandemia que a obrigou-a a ter o seu próprio salão fechado… Natasha é uma mulher linda, uma lutadora nata, uma sobrevivente às intempéries da vida.


Quando lhe perguntava como ia a família reagindo às investidas russas quando ainda a guerra era uma palavra impensável e por cá se percebia pela comunicação social que a escalada agressiva era real, ela respondia-me com a serenidade que lhe conheço que os pais e irmã estavam tranquilos e que a haver problemas o plano B era a Polónia.


A serenidade de Natasha continuei a senti-la na sua voz quando lhe telefonei no início da semana passada. A família e o povo ucraniano já estavam habituados e depois da invasão da Crimeia tudo era possível… Depois do dia 24 envio-lhe uma mensagem escrita e ela responde-me destroçada por sentir que a sua cultura, a sua identidade, o seu modo de vida estão a ser postos em causa por Putin e pelo exército russo e agradece todo o carinho.


Fico com o coração destroçado. Vejo as imagens na televisão e vejo a Natasha em todas aquelas mulheres que carregam os filhos, meia dúzia de coisas essenciais, deixando para trás os filhos, os maridos, os pais, as casas, a sua vida.


O meu vizinho do lado também é ucraniano, mas não sei como se chama. Educado e simpático, a nossa relação é mais pelos gatos que ele tem e que eu tenho. Conversas de circunstância sobre gatos, o pagamento do condomínio sempre a horas, bom dia, boa tarde, até logo. Hoje encontrámo-nos na escada e disse-lhe que ia à manifestação pela paz na Ucrânia. Ergueu as sobrancelhas, sorriu e disse muito bom. Acrescentou que a família que vive perto da região “separatista” (assinalou as aspas com os dedos) de Donetsk, mas em território da Ucrânia, ainda está bem.


Junto-me aos manifestantes. Dizem que foram dez mil, não sei fazer essas contas. Logo as televisões irão dizer um número. Só sei que éramos muitos. Muitos jovens e muita gente de todas as idades. O azul e o amarelo predominavam nas bandeiras, na roupa, num lenço ao pescoço, no bandeirão que passou de mão em mão sobre as nossas cabeças. Gritámos Paz, Paz, Paz. Fim da Guerra. Batemos palmas. Estivemos juntos e solidários com um povo que está a ser invadido, que sofre e que resiste.


Os povos querem Paz e essa energia é irresistível. Por isso éramos tantos hoje aqui e um pouco por todo o mundo. Toda a força e solidariedade com o povo da Ucrânia.


27 de Fevereiro de 2022

domingo, 20 de fevereiro de 2022

A Guerra não tem Rosto de Mulher, Svetlana Alexievich

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A Guerra não tem Rosto de Mulher”, Svetlana Alexievich, 2013


 


Enquanto fui lendo este livro, fui acompanhando pela comunicação social o aumento preocupante do conflito entre a Ucrânia e a Rússia. Sabendo nós o que os órgãos de comunicação social nos querem fazer crer, com encontros entre líderes, declarações solenes de parte a parte, retiradas estratégicas, receios de provocações, a verdade é que no dia em que terminei o livro, parece que o conflito está cada vez mais eminente. Nem a propósito, a ler um livro sobre a II Guerra Mundial, sobre o sofrimento do povo russo na perspectiva das mulheres, aquelas que estiveram na guerra mas que a sociedade russa fez por as esquecer e silenciar.


Svetlana Alexievich, que ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 2015 pela sua “escrita polifónica, monumento ao sofrimento e à coragem na nossa época”, é natural da Bielorrússia e a viver em Minsk, com a profissão de jornalista, quis, com este livro, publicado nos anos 80, ouvir as vozes das mulheres que combateram nas trincheiras, que estiveram na linha da frente e que, depois da guerra, não só não foram reconhecidas como fundamentais no esforço de guerra, como, muitas vezes foram ostracizadas e vilipendiadas.


É um livro brutal, duro. A autora quis ouvir na primeira pessoa muitas centenas de mulheres cujas vozes gravou e que depois transcreveu numa polifonia única. Recordações de um tempo em que eram jovens com pouco mais de dezasseis anos, desejosas de combater e derrotar o inimigo nazi. A recolha destes testemunhos, que levou a autora a percorrer todo o país, iniciou-se nos anos 80, sendo que o livro foi recusado durante dois anos pela censura, por “não ter ideias soviéticas” (pág. 35), por “mostrar a sujidade da guerra” (pág. 37) e porque “Não precisamos da sua pequena história, precisamos de uma grande história. A história da Vitória” (pág. 39). Ainda hoje, o governo bielorrusso proíbe a edição dos seus livros que são lidos em russo e vendidos aos milhões.


 


“Começou a perestroika de Gorbachev… O meu livro foi logo publicado, teve uma tiragem vertiginosa: dois milhões de exemplares. Foi o tempo em que aconteciam muitas coisas impressionantes, de novo lançámo-nos com ímpeto não sabíamos bem para onde. De novo, para o futuro. Ainda não sabíamos (ou então esquecemos) que a revolução é sempre uma ilusão, sobretudo na nossa história” (pág. 30)


 


Este livro é de tal forma único e rico em testemunhos – “um coro de vozes” – que se torna difícil escrever sobre ele, escolher. O meu exemplar está repleto de anotações, sublinhados, dá vontade de transcrever tudo; imagino como terá sido hercúlea a tarefa da autora a “limpar” e deitar fora material de entre tudo o que recolheu, ouviu e gravou, para que resultasse nesta obra incrível.


 


“Os relatos femininos são diferentes e falam de coisas diferentes. A guerra «feminina» tem as suas cores, os seus cheiros, a sua iluminação e o seu espaço de sentimentos. Tem as suas palavras. Nesta guerra, não há heróis nem proezas incríveis, mas tão-só as pessoas ocupadas na sua actividade humana e simultaneamente desumana. Lá, não são só elas, as pessoas, a sofrer, mas também a terra, os pássaros, as árvores. Todos os que habitam a terra connosco. Estes sofrem sem palavras, o que é ainda mais horrível.”


… “Quero escrever a história desta guerra. A história feminina” (pág. 16)


 


Constituído por dezassete capítulos, o livro começa com o registo de excertos do diário do livro, onde a autora fala da influência que o livro “Sou de uma Aldeia em Chamas” de Ales Adamóvitch teve na sua obra e explica a sua estranheza por tudo o que lera sobre a guerra ter exclusivamente “voz masculina” e perceber que as mulheres, embora sendo protagonistas, estiveram sempre caladas, ninguém quis ouvir as suas vozes, dando como exemplo os casos da mãe e da avó. Os louros da vitória foram para os homens. Elas só foram homenageadas passados 30 anos sobre a guerra. Ao ir ao encontro daquelas que são as protagonistas do seu livro, mesmo passados tantos anos, sentiu que algumas tinham dificuldade em se libertar de uma narrativa da época (a verdade comum), sentindo-se constrangidas a contar a sua história, havia as que em dado momento já não conseguiam continuar “Não me quero lembrar” (pág. 47), mas também as que tinham ânsias de contar os detalhes, como as coisas se passaram (a verdade pessoal). “Por que é que só agora vieste ouvir-nos?” disseram-lhe algumas das narradoras.


De que falam aquelas mais de três centenas de narradoras de “A Guerra não tem Rosto de Mulher”, aquelas então raparigas russas de 1941? De solidão, de dúvidas, de medo, de ódio, de amor à Pátria, de vingança, de perdão, de reconciliação, de sentimentos de culpa, da roupa de homem que tiveram de vestir, de amor, de fervor ideológico, de escolhas dolorosas. Da fome e da solidariedade das populações sem o apoio das quais a vitória não teria sido possível. Dos cercos a Leninegrado e Estalinegrado. Os riscos e sacrifícios extremos dos partisans e sector clandestino são bem documentados no capítulo “Sobre batatas miudinhas…”, talvez um dos mais duros.


Elas ocuparam todas as profissões e não só as relacionadas com enfermagem. Muitas estiveram na linha da frente, o lugar mais desejado por elas, fruto do fervor ideológico e da convicção de que o inimigo seria vencido em pouco tempo, estiveram nos tanques, na Marinha, mas também nos “bastidores”: foram cozinheiras, lavadeiras, bombeiras, padeiras, fotógrafas, abastecedoras, no serviço postal, engenheiras civis… E as sapadoras, as que ficaram depois da guerra e que tiveram de ficar no terreno a desminar os campos.


Terminada a guerra, é o vazio para muitas delas. A esperança de que no fim da guerra todos se amariam rapidamente se esvai. As terras perderam os seus homens, as famílias estão desfeitas, elas sentem-se velhas. Muitos olham para elas com desconfiança, rotulam-nas de EC “esposas de campanha” (pág. 292). Elas receavam que ninguém quisesse casar com elas e os homens não as protegeram. A guerra terminara, mas para elas ia começar uma nova guerra. Os traumas que trouxeram da guerra ficaram e permanecem.


Termino, transcrevendo alguns excertos deste que foi o primeiro livro de Svetlana Alexievich e sobre o qual só tenho a dizer: leiam-no. Não mais o vão esquecer.


 


“Tenho pena dos que vão ler este livro e dos que não o vão ler…” (frase de uma das vozes deste livro. (pág. 33)


“Eu tinha uma trança muito bonita, saí já sem ela… sem a trança… Cortaram-me o cabelo à soldado.” “E não me devolveram o vestido. Não me deram tempo de entregar o vestido e a trança à minha mãe. Ela pedira muito para ficar com alguma coisa minha.” (pág. 51)


“A primeira vez é terrível… Mesmo terrível…” (pág. 54)


Mesmo que regresses viva de lá, a alma dói-te” (pág. 62)


“Certa vez, durante os exercícios… Não consigo lembrar-me disso sem chorar, não sei porquê… Era Primavera. Terminámos o exercício de tiro e regressávamos ao acampamento. Apanhei umas violetas. Um raminho pequeno, que atei à baioneta.” (pág. 98)


“Porque sobrevivi? Para quê? Penso… No meu entender, para poder contá-lo…” (pág. 135)


“Recordar é terrível, mas não recordar é mais terrível ainda.” (pág. 159)


“Depois da guerra nunca mais voltei a ser jovem.” (pág. 189)


“Todos ansiavam chegar vivos ao dia da Vitória” (pág. 277)


“Para os sapadores a guerra acabou uns anos depois da guerra… Imagine o que é estar à espera de uma explosão depois da Vitória? Estar à espera daquele instante…Oh, não! A morte depois da Vitória é a mais horrorosa. É como morrer duas vezes” (pág. 279)


“Não enterro o meu marido, enterro o meu amor.” (pág. 286)


 “Acho que, se não me tivesse apaixonado na guerra, não teria sobrevivido. O amor salvava. Salvou-me a mim.” (pág. 292)


“Na guerra nunca sorria”


“Na altura da minha partida para a frente, as cerejeiras do nosso pomar estavam em flor” (pág. 296)


“Será que é possível escrever sobre isto? Dantes não se podia…” (pág. 373)


 


19 de Fevereiro de 2022


 


 


 


 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

O Alegre Canto da Perdiz

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Trago hoje aqui um texto que escrevi sobre "O Alegre Canto da Perdiz" de Paulina Chiziane, cuja obra foi agora justamente reconhecida com o Prémio Camões.


 


O Alegre Canto da Perdiz, Paulina Chiziane, 2008


Vinda do Gilé, um dos distritos da Zambézia, província do centro de Moçambique, os meus dedos agarraram por acaso, na estante da casa em Maputo da minha amiga Zita, este livro de Paulina Chiziane. Autora que já conhecia de outros livros, ao começar a leitura de “O Alegre Canto da Perdiz” senti que afinal ainda estava na Zambézia, entre aquelas mulheres sofridas e lutadoras com quem tive a oportunidade de conviver nas terras distantes e esquecidas do Gilé.


É um livro marcante, com trechos que é preciso ler devagar, saborear, anotar, voltar atrás. Poesia pura. Complexo, aborda temas muito vastos: a colonização, o racismo, a assimilação, a traição, a ambição de ter uma vida melhor mesmo que isso seja a destruição dos outros e/ou a autodestruição, a guerra de libertação, os conflitos entre raças e entre sexos. As contradições da vida, o remorso, o arrependimento, o reencontro e a reconciliação.


É a exaltação da Natureza, a exaltação da Zambézia e dos Montes Namuli origem da humanidade, a terra dos palmares e do canto da perdiz logo pela manhã (gurué, gurué). A exaltação da(s) Mulher(es), da sua diversidade, dos corpos, da sexualidade, das suas lutas, das violências que sofrem e que infligem, da sobrevivência.


As histórias daquelas mulheres – Serafina, Delfina, Maria das Dores e Maria Jacinta – são pretexto para falar do estatuto das mulheres na sociedade, do seu papel e da permanência das violências qualquer que seja o regime em que tenham vivido. E para os homens também – José dos Montes, Simba, Moyo – o sonho da liberdade é uma miragem, porque a independência não é o fim do colonialismo. “Nessa independência que sonhamos o mundo não será o mesmo. Libertaremos a terra, sim, mas jamais seremos senhores… O colonialismo habitará a nossa mente e o nosso ventre e a liberdade será apenas um sonho.”


No entanto, e mesmo ao chegarmos ao fim deste romance que é também uma pinceladada história do povo moçambicano ao longo dos séculos, a autora quis-nos deixar um sinal de esperança no futuro, quando José dos Montes – o sipaio assimilado que matou sem remorso – diz à sua mulher Delfina – que por ambição se prostituiu e prostituiu a filha-criança: “No final desta guerra seremos um. Esses filhos metade pretos, metade brancos, metade asiáticos, serão os fósseis a partir dos quais se compreenderá a nossa História. Nas próximas gerações as raças se amarão, sem ódio nem raivas, inspiradas no nosso exemplo. A humanidade aventureira conquistará outras estações celestes com gente azul e verde. Terá chegado o momento de inventar novas raças e recriar novas humanidades. Os pretos, os brancos e seus mulatos deverão expurgar ódios, raivas e ressentimentos que ainda restem.”


Março 2014


 

quarta-feira, 16 de junho de 2021

A Ridícula Ideia de não voltar a ver-te, Rosa Montero, 2013

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Faz hoje precisamente 5 anos que terminei a leitura deste livro de que gostei muitíssimo. Republico aqui o que então escrevi e postei no facebook.


 



Um dos livros que comprei nesta Feira do Livro e o terceiro que leio desta autora madrilena nascida no mesmo ano em que nasci e por quem tenho muita empatia. A leitura de “A Ridícula Ideia de não voltar a ver-te” que é um livro fascinante e comovente reforçou essa proximidade afectiva e ideológica com Rosa Montero. Um daqueles livros que nos ajudam a reforçar a convicção da indispensabilidade da luta feminista quando se anseia por um mundo mais justo e melhor para todos.

Logo no início, ela alerta que “este não é um livro sobre a morte”. Em minha opinião é um livro sobre a forma de enfrentar o luto por uma morte de alguém muito querido, um exercício de superação das limitações da vida que só a arte e a literatura têm a capacidade de fazer. Ela cita Fernando Pessoa “A literatura, como a arte em geral, é a demonstração de que a vida não basta.”

A vida literária e não só, está cheia de coincidências, um dos vários hashtags para que Rosa Montero nos remete ao longo do livro; foi no processo da doença de Pablo, marido de Rosa Montero, que lhe chegou às mãos o diário que Marie Curie escreveu ao longo do ano que se seguiu ao falecimento repentino de Pierre Curie. Assim, o centro desta obra de Rosa Montero é a personalidade extraordinária de Marie Curie (1867-1934). Rosa chama-a de “Mutante”. Ela foi uma pioneira absoluta: a única mulher que recebeu dois prémios Nobel em áreas diferentes (Física e Química), a única mulher no Panteão dos Homens Ilustres em Paris, a primeira mulher a licenciar-se em Ciências na Sorbonne, a primeira mulher a doutorar-se em Ciências em França, a primeira mulher a leccionar na Sorbonne… uma polaca que lutou de forma ímpar contra inúmeras adversidades – dificuldades económicas, inveja da comunidade científica, estranheza da sociedade pelo seu pioneirismo, conciliação da intensa vida profissional e familiar, problemas de saúde, verdadeiro linchamento público pelo seu relacionamento com Paul Langevin – nunca aceitando assumir o papel de vítima, antes rompendo e fazendo um caminho impressionante numa “época em que às mulheres quase nada era permitido”. Talvez por temperamento, certamente pela personalidade tenaz e pela sua postura face à vida e à sociedade, há em Marie Curie um desdenhar da sua feminilidade, pelo que nunca quis dar parte de fraca nem mesmo quando passava mal durante os períodos de gravidez, nunca fez referência aos problemas que teve de enfrentar por ser uma pioneira e única num mundo de homens nomeadamente quando foi candidata e quando recebeu o prémio Nobel, nem nunca associou os seus problemas de saúde e do marido aos trabalhos de investigação e de produção de rádio e de polónio. Quando o talento das mulheres tinha de ser escondido atrás de nomes masculinos ou elas tinham de se travestir de homens, sendo dados vários exemplos e até o caso da papisa Joana, e quando até ao século XX as mulheres não tinham saídas profissionais para além de operárias ou damas de companhia, como aceitar a ambição de uma mulher a querer ascender ao conhecimento e ter uma carreira? Daí ter sido alvo de campanhas sujas e ferozes contra ela, por inveja, por preconceito, porque se a ambição é natural num homem é impensável que possa ser assumida por mulheres! A culpa sim, ou o apagamento! Mas ambição não; não é coisa de mulheres!

Rosa Montero aproveita para nomear algumas cientistas e investigadoras que foram pioneiras, que abriram caminhos para grandes descobertas contemporâneas – Lise Meitner, Rosalind Franklin, Henrietta Swan Leavitt ou Jocelyn Bell - que mais tarde foram alvo de reconhecimento através da entrega dos “Nobel” a homens que, ou usurparam o trabalho delas ou nem sequer as nomearam quando receberam os galardões. O contrário do que aconteceu aquando da atribuição do primeiro Prémio Nobel da Física para Pierre Curie e Henri Becquerel pela descoberta do polónio e do rádio, que Pierre se recusou a receber caso o nome de Marie não fosse incluído. Um caso muito bicudo para a época que acabou com a inclusão do nome de Marie, mas com a atribuição do valor em dinheiro apenas aos dois homens, como se Marie não contasse! Coube a Pierre subir ao palco e fazer o discurso de agradecimento, tendo aproveitado para atribuir a Marie Curie todo o mérito pela descoberta. O palco para ele; o apagamento dela, sentada no meio da audiência. Talvez por isso a relação de laureados com o Nobel até 2011 seja de 786 homens para 44 mulheres. Quantas terão sido preteridas, esquecidas, apagadas?

Por fim, este belo livro, fruto de um profundo trabalho de investigação e consulta de documentos sobre a vida e obra de Marie Curie, é valorizado com diversas fotografias de Marie Curie, do marido Pierre Curie, das filhas Irène e Ève e também de outras personagens e lugares que Rosa Montero convoca ao longo da obra. Encerra com o diário de Marie Curie, um sentido e sofrido testemunho da ainda jovem cientista entre Abril de 1906 a Abril de 1907, de onde é retirada a frase escolhida por Rosa Montero para título deste livro.



16 de junho de 16

 

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Mulheres da minha Alma, Isabel Allende

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Mulheres da Minha Alma, Isabel Allende, 2020


Depois de um livro que demorei quase um mês a ler, soube-me muito bem agarrar neste “Mulheres da minha Alma” de Isabel Allende. Li-o num ápice. Textos, a que não vou chamar capítulos, curtos, soltos, sem uma ordem definida, mas todos com um fio condutor: trazer à memória as mulheres que contribuíram para Isabel Allende ser feminista e lutar pelo feminismo. Ao ler estes textos senti-me positiva e com vontade que este livro chegasse às mãos de muitas mulheres que não são feministas e que acham que o feminismo é uma coisa do outro século, a mulheres que precisam de ler alguma coisa que lhes levante a auto-estima e já agora, também às feministas e aos feministas.


É uma reflexão e uma memória pessoal da escritora. Tem partes muito divertidas, outras mais sérias que fazem parte também da minha história de feminista não académica que viveu as lutas e as causas dos movimentos de mulheres em Portugal e também a nível internacional. A certa altura, Isabel Allende escreve “isto não é, de todo, uma dissertação elevada, é só uma conversa informal.” Aliás, ao lê-lo, lembrei-me daquele livrinho precioso de Chimamanda Ngozie Adichie “Todos devemos ser Feministas”.


Panchita, a mãe e Paula, a filha são as pessoas mais referidas ao longo do livro. E ela, a viver um terceiro casamento, falando constantemente dos seus 70 e muitos anos que lhe dão uma serenidade e um apaziguamento que lhe permitem olhar para trás, para os anos que se passaram e o que fez nos vários países onde viveu e por onde passou. E de todas as personagens dos seus muitos romances, Eliza Sommers de “Filha da Fortuna” com quem gostaria de jantar. Isabel Allende considera que o feminismo foi a revolução mais importante do século XX e percebe por que razão a mãe não conseguiu apanhar a onda do feminismo. A experiência pessoal de Isabel Allende, aliada aos contactos que teve com escritoras feministas e com os seus escritos, em finais dos anos 60, quando era colaboradora da revista “Paula” permitiram-lhe aprofundar a sua consciência feminista.


A paleta de temas abordados ao longo do livro é extensa: os padrões de beleza e juventude impostos que destroem a auto-estima das mulheres; o sentimento de culpa que persegue as mulheres; o envelhecimento, a sexualidade ao longo da vida; a sexualidade não binária; o poder da linguagem e das palavras e a sua não neutralidade; o prazer e o risco que o prazer feminino é para as religiões e para as tradições, não esquecendo o flagelo da mutilação genital feminina ainda em tantos países e regiões do planeta, assim como os casamentos forçados de crianças e de meninas; a educação das meninas e dos meninos distribuindo papéis precisos e estereotipados a cada um dos géneros eterniza as discriminações de género; os femicídios, o expoente máximo da violência de género em todo o mundo, com destaque para o México (Ciudad Juarez) e República Democrática do Congo; os crimes de honra; o assédio; a não valorização das mulheres nas artes e mesmo actualmente em sectores de ponta e de grandes avanços tecnológicos (Silicon Valley, por exemplo) onde as mulheres são uma escassa minoria; a violação como arma de guerra e o medo como instrumento de controlo; as tarefas do cuidar não pagas e não reconhecidas, mas que, sendo imprescindíveis, continuam maioritariamente sobre os ombros das mulheres; a luta pela despenalização do aborto e o acesso aos direitos reprodutivos; a necessidade de as mulheres se juntarem e serem barreira ao machismo. Neste último ponto, Isabel Allende fala da importância do movimento global #MeToo que vem desocultar o grande tabu que é o assédio e nomeia a canção “Um violador no teu caminho” composta em 2019 por quatro jovens chilenas, um rastilho que juntou milhares de jovens em centenas de praças em todo o mundo. Para além da fundação que ela própria criou, dá outros exemplos de luta em contra corrente ao patriarcado, como por exemplo Olga Murray que criou uma instituição de resgate de meninas nepalesas vendidas como escravas. Como ela diz, estes exemplos podem ser considerados uma gota no oceano do muito que há a fazer no globo, mas as novas gerações estão mais equipadas do que a sua mãe Panchita, que nos anos 40 do século passado se viu sozinha, abandonada pelo marido no Peru e com três crianças para criar.


Há muitas referências importantes neste livro de Isabel Allende, mas não posso deixar de aqui referir o destaque que dá a Michelle Bachelet “heroína digna de romance”, a primeira mulher presidente do Chile, que desempenhou um papel determinante não só nas prioridades que definiu visando a melhoria da situação da mulheres chilenas (combate à violência doméstica e distribuição da pílula do dia seguinte) como os esforços que desenvolveu para a reconciliação entre os militares e as vítimas da ditadura.  


A parte final do livro foi escrita em Março de 2020 e Isabel Allende, talvez por ser ainda no início da pandemia, tem uma visão optimista relativamente ao período pós-pandemia. Ela divide os humanos face à pandemia em pessimistas, realistas e optimistas. Diz ela: “Não podemos continuar numa civilização que se baseia no materialismo desenfreado, na cobiça e na violência.


Este é um momento de reflexão. Que mundo queremos? Julgo que é essa a pergunta mais importante do nosso tempo, a pergunta que todas as mulheres e homens conscientes devem fazer-se…”


(…) “Queremos uma civilização inclusiva e igualitária, sem discriminação de género, raça, classe, idade ou qualquer outra classificação que nos separe. Queremos um mundo amável, onde imperem a paz, a empatia, a decência, a verdade e a compaixão. E, acima de tudo, queremos um mundo alegre. A isso aspiram as bruxas boas. O que desejamos não é uma fantasia, é um projecto; entre todas, podemos conseguir.


Quando o coronavírus passar, sairemos das nossas tocas e entraremos cautelosamente numa nova normalidade; então, a primeira coisa que faremos será abraçarmo-nos nas ruas. Que falta nos fez o contacto com as pessoas! Vamos celebrar cada encontro e cuidar amavelmente dos assuntos do coração.”


14 de Junho de 2021


 

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Filhos e Amantes, D. H. Lawrence

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Filhos e Amantes, D. H. Lawrence, 1913


Sem deixar de ir lendo as “novidades”, foi uma das intenções que formulei no início deste ano, ir descobrir livros há muito comprados e “esquecidos” na estante e ler e devolver alguns livros emprestados. Desta vez fui descobrir D. H. Lawrence e “Filhos e Amantes”. Confesso que foi uma leitura demorada e, ao longo das suas mais de quinhentas páginas, por vezes achei que algumas partes e passagens podiam ter sido mais encurtadas, que por vezes as descrições não precisavam de ser tão frequentes e minuciosas… mas, no final, a característica deste livro também tem esses aspectos, quer se goste, quer não.


Entrei no ambiente da época, com este livro. Inglaterra vitoriana, região mineira das Midlands, famílias numerosas, pobres, em que as mulheres são o coração e suportam sozinhas não só a maternidade como o equilíbrio numa conjugalidade feita de desencanto, de frustração, de ausência. Maridos rudes e ausentes, numa vida de trabalho difícil e precária, encontram na taberna, ao fim do dia, com os outros homens, o suporte para aguentar a dureza da mina. Mulheres sofridas, que encontram refúgio no amor aos filhos, na espiritualidade, na leitura, na paixão pela natureza e também mulheres que iniciam um caminho de abertura e independência, aderindo aos ideais sufragistas ou frequentado associações como a “Women’s Gild”. O romance não deixa também de abordar a dureza e a perigosidade das longas jornadas de doze horas de trabalho nas fábricas e nas minas e a resistência dos mineiros através de greves prolongadas e da solidariedade de classe, sempre que há um desastre que vitima um dos companheiros. Foram todos estes aspectos que achei muito interessantes, para além das descrições das paisagens e o tratamento dos sentimentos das personagens ao longo do livro.


A família Morel – Walter, o pai, Gertrud, a mãe e Paul, um dos filhos – Miriam e Clara são as personagens centrais do romance. Gertrud canaliza todo o seu afecto para os filhos, sobretudo para Paul, que é o seu confidente e companheiro. A trabalhar numa fábrica em Nottingham e dedicado à pintura nos tempos livres, Paul devota de tal modo à mãe todo o seu amor, que não consegue libertar-se de modo a corresponder a um relacionamento e a um casamento com alguém da sua idade. Miriam e Clara são em tudo opostas. Se a primeira é tímida e tem dificuldade em sair do amor casto e místico que dedica a Paul, Clara, uma mulher separada e a trabalhar na mesma fábrica de Paul, tem uma visão crítica sobre os homens e sobre o que os move, é uma mulher mais liberta e independente. Mas a dedicação de Gertrud bloqueou no filho a sua capacidade de poder amar outras mulheres e retirou-lhe a autonomia e a possibilidade de ser feliz sem ela. O amor maternal exclusivo e egoísta que não permite que o filho cresça emocionalmente torna-o incapaz de se dedicar a outra mulher que não seja a mãe.


Independentemente de uma caracterização psicológica e física bastante detalhada de todas as personagens, podemos dizer que, na generalidade, os homens são aqui tratados como uns brutamontes, incapazes de demonstrar sentimentos. Paul, tímido e sensível, sai fora desse padrão mas, no entanto, tal como os outros homens, é imaturo, inconstante e trata o amor como um brinquedo que rapidamente se desgosta e que descarta. Miriam, uma jovem tímida e pouco sociável, dominada pelo peso da religião e dos preconceitos religiosos e disposta a todos os sacrifícios, mantém no entanto a chama da revolta contra a condição de inferioridade das mulheres e deseja aprender coisas novas e sair da rotina que a enfastia. As mulheres deste livro não são figuras apagadas, antes assumem um papel forte e destacado.


Depois dos dilemas e das escolhas que as personagens vão fazendo ao longo do romance, a morte de Gertrud deixa Paul só e sem perspectiva de futuro. Cabe a cada leitor/a decidir.


9 de Junho de 2021


 

sábado, 29 de maio de 2021

Uma história com 50 anos

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Antes que termine o mês de Maio, trago aqui o texto que escrevi para o Escola Informação deste mês. Ontem lembrámos Carolina Beatriz Ângelo nos 110 anos do seu gesto corajoso e generoso ao ser a primeira mulher a votar em Portugal. Há tanta mulher que rompeu com as cadeias do conservadorismo patriarcal que merece ser nomeada e celebrada. Aqui vai este meu modesto contributo. 


 


Uma história com 50 anos


Em Maio de 1971, três mulheres decidiram fazer um livro a seis mãos. Uma delas – Maria Teresa Horta - cobardemente agredida pela PIDE por causa do seu livro “Minha Senhora de Mim”, reagiu assim quando se encontrou no dia seguinte para almoçar com as amigas Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa:  “Uma mulher apanha uma tareia porque escreve um livro? O que é que eles fariam se fôssemos três a escrever um livro?”.


Foi assim que começou essa maravilhosa aventura que foi a escrita de “Novas Cartas Portuguesas” há precisamente 50 anos. Nove meses depois, tal como um parto, era publicado por Natália Correia, a única editora que teve a coragem de o publicar na íntegra. Três dias depois, a 1ª edição era recolhida e destruída pela censura, por conter “passagens francamente chocantes por imorais, constituindo uma ofensa aos costumes e à moral vigente no País”, nas palavras do censor.


Seguiu-se o chamado processo das “Três Marias”. Interrogadas separadamente pela PIDE/DGS na tentativa de saber quem tinha escrito o quê, o pacto de silêncio das Três Marias nunca foi quebrado. Aqueles 120 textos retratavam a sociedade portuguesa, a guerra colonial, a opressão das mulheres, a violência, a emigração, a pobreza, os espartilhos da família tradicional católica. Era um libelo contra a ideologia retrógrada, opressiva e castradora do antes do 25 de Abril. Aqueles textos que constituíam as “Novas Cartas Portuguesas” queriam estilhaçar a ditadura e iam ao cerne da opressão e ao estatuto das mulheres. Constituíam uma unidade na diversidade e as suas autoras eram responsáveis pelo todo, não se deixando intimidar por um regime no seu estertor. Se em Portugal só uma elite intelectual e mais esclarecida sabia do que se passava, fora de Portugal o impacto foi enorme: feministas movimentaram-se, houve manifestações junto às embaixadas de Portugal em várias cidades do mundo, a comunicação social mais influente de todo o mundo acompanhou o processo e em Junho de 1973, na Conferência da National Organization for Women, o processo das Três Marias foi votado como a primeira causa feminista internacional. A solidariedade feminista, para a qual o contributo de Simone de Beauvoir foi determinante, não deixou isolar as três escritoras e a sua obra teve um papel muito relevante no despertar das ideias feministas e emancipatórias depois do 25 de Abril de 1974 em Portugal.


Maria De Lourdes Pintasilgo, num artigo de opinião na revista Visão, por ocasião do 8 de Março, chamou a este livro “O livro esquecido”. “Além de uma obra literária invulgar, as Novas Cartas Portuguesas foram um acontecimento único.”


Não deixemos esquecer este livro, uma escrita de mulheres, de liberdade, que ajudou este país a quebrar as duras correntes do conservadorismo, um marco de resistência e de liberdade num país atrasado e oprimido.


Das três Marias, Maria Teresa Horta, que neste mês de Maio assinalou mais um aniversário, é a única que ainda vive e continua a surpreender-nos com a sua poesia e escrita marcadamente feminista, tendo este ano o seu livro “Estranhezas” recebido o Prémio Literário Casino da Póvoa, no festival literário Correntes d’Escritas. Maria Velho da Costa faleceu a 23 de Maio de 2020 e Maria Isabel Barreno em 2016.


Serão sempre as 3 Marias. Deixaram uma marca indelével na literatura e na história dos feminismos.


23 de Maio de 2021


Almerinda Bento

segunda-feira, 8 de março de 2021

8 de Março

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O 8 de Março em tempo de pandemia.


Estamos a breves dias do 8 de Março. Há um ano estivemos na rua, juntas, sem máscaras, nem com cuidados de distanciamentos e abraços. Festejámos com alegria, com a alegria de estarmos juntas a lutar pela igualdade, pelos direitos, pela dignidade das nossa vidas, sem constrangimentos e com a certeza de que há tanto por fazer, sem nunca ignorar nem desprezar o legado de avanços das nossas irmãs lutadoras do século passado e as conquistas decorrentes da democracia alcançada no 25 de Abril de que também nos sabemos sujeito político colectivo.


Este ano, reinventámo-nos. Online, nas redes sociais e também nas ruas. Com a consciência clara de que houve muitas mulheres no nosso país e no mundo que ficaram para trás. Que o desemprego bateu mais forte nelas. Que as violências se exacerbaram e que o confinamento trouxe perigos acrescidos quando a presença física de agressor e vítima se tornou inevitável. Que as mulheres mais vulneráveis e precárias tiveram de se deslocar em transportes públicos onde o distanciamento não existia. Que a luta se tornou mais difícil, porque a nossa força colectiva ficou mais atomizada, dispersa e sem a visibilidade das ruas.


Neste breve texto, gostaria de trazer aqui um estudo do Gabinete de Estudos Sociais da CGTP recentemente divulgado e que atesta o desequilíbrio de género, nomeadamente no que aos rendimentos diz respeito. Segundo esse estudo, no quarto trimestre de 2020, constata-se que as mulheres ganharam menos 14% do que os homens. Quando se comparam os rendimentos mensais e não apenas os salários, o diferencial global foi de 17,8%. Na Administração Pública, as mulheres são apenas 41% do total de dirigentes superiores, embora sejam 61% dos trabalhadores do sector. Em Abril de 2019, cerca de 31% das mulheres recebiam o salário mínimo face a 21% dos homens.  


Segundo a OIT, a actual crise pandémica “está a ter consequências mais negativas em Portugal em termos salariais, do que em outros países da Europa e, particularmente, entre as mulheres trabalhadoras.” De entre os 28 países da Europa que foram analisados, Portugal foi o país onde houve maiores perdas salariais entre o primeiro e o segundo trimestre de 2020, de forma mais agravada entre as mulheres. A média da perda salarial para homens no 2º trimestre de 2020 foi de 11,4%, enquanto a média para mulheres foi de 16%, ainda segundo esse estudo da OIT que envolveu 28 países europeus.


As denúncias destas desigualdades sociais são geralmente o foco do movimento sindical. No entanto, o sistema de opressão que decorre do sistema capitalista tem múltiplas facetas que se expressam no sexismo, no racismo, na homofobia, na transfobia, na marginalização de pessoas com deficiência e idosas. Desta multiplicidade e complexidade de áreas e de campos de acção se ocupam outros movimentos sociais, mas o movimento sindical, pela sua dimensão e abrangência não se poderá alhear destas causas, antes, deve integrá-las, fazendo com que a população se possa rever cada vez mais num sindicalismo de classe, plural, solidário e socialmente interventivo.


Este ano, em plena pandemia, de novo os movimentos sociais e o movimento sindical encontrarão os instrumentos para reivindicar o direito à igualdade, à não discriminação e a determinação de não deixar que a pandemia seja utilizada como instrumento de retrocesso nos direitos das mulheres. Não esquecer que elas são metade da humanidade e que se elas param, o mundo pára.


Viva o 8 de Março.


Almerinda Bento


 


Nota: Este texto foi publicado no Escola Informação nº 30, Fevereiro 2021, do SPGL

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Este ano não começou nada bem

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O Ano 2021 não começou nada bem Folheio os jornais da manhã à procura de notícias relacionadas com as escolas e o ensino. O “Público” tem mapas dos resultados eleitorais para todos os (des)gostos, mas dá destaque de primeira página ao mapa do candidato que ficou em terceiro lugar, embora lhe chame 2º!! Há também o mapa dos contágios, lembrando quem ainda andar distraído, que no nosso país o vírus e suas variantes estão em roda livre. Depois, a situação das escolas com a promessa de os 335 mil computadores em falta deverem chegar até ao fim de Março, para juntar aos 100 mil que chegaram no 1º período. Vários intervenientes do processo educativo são citados na notícia, mostrando a sua preocupação e os esforços para que o contacto se mantenha entre docentes e discentes, neste período em que as escolas estão fechadas até 5 de Fevereiro. “Escolas acompanham alunos, mesmo que o tempo seja de férias”, com propostas de leituras e exercícios de consolidação das matérias são algumas das “recomendações para que possam continuar a estudar”. No meio das preocupações com os desequilíbrios sociais e desigualdade de oportunidades que se agudizam em tempos de pandemia e no ensino não presencial, a referência a um relatório sobre o Estado da Educação 2019 que refere que são 366 mil os estudantes carenciados no ensino obrigatório. O “Diário de Notícias” que voltou recentemente às bancas em papel, nada traz sobre educação e o “I” dedica um artigo nas páginas centrais com o sugestivo título “Escolas. Ensino online à vista e “a fazer lembrar o Titanic”. Não posso deixar de assinalar neste último jornal um artigo de Maria Moreira Rato sobre o desemprego feminino. Antes da pandemia, em 2019, por cada 100 activos existiam 7,1% de mulheres desempregadas. Os resultados preliminares do Instituto Europeu para a Igualdade de Género (EIGE) indicam que as oportunidades de emprego para as mulheres que já tinham menos oportunidades antes da crise pandémica “diminuíram desproporcionalmente e têm um efeito a longo prazo potencialmente maior”. Gostaria de trazer aqui boas notícias, mas a realidade é esta e o futuro… (Este artigo foi a minha contribuição de hoje para o Notícia do Dia do SPGL)

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...