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sábado, 18 de dezembro de 2021

Viagem a Portugal, José Saramago

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O Viajante volta já


"A viagem acabou. 


Não é verdade. A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: «Não há mais que ver», sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já."


«Viagem a Portugal», José Saramago


associando a uma fotografia algures na A23 que me inspirou para esta composição


Dezembro 2021


 


 

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Porque somos mais nómadas que sedentários

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Foram quase dois anos a viajar, no meu caso. E hoje a nossa viagem fez uma paragem e despediu-se num até breve, até já, até sempre de uma das nossas companheiras de viagem. Aquela que nos interpelava, que nos lançava novos desafios, que ia na carruagem da frente e que decidiu seguir o seu caminho, sair dum trilho que já não a satisfazia e que se lançou numa outra direcção, menos confortável mas mais desafiante.


"Os livros são de facto uma viagem", disse ela. E fomos buscar as nossas memórias, os nossos primeiros livros, alguns que nos fizeram crescer e que fizeram de nós aquilo que somos. Alguns que sublinhámos - os lápis são tão preciosos - outros a que acrescentámos as nossas notas e anotações, outros a que voltamos sempre ou de vez em quando e em que nos revemos.


Cada uma de nós entrou em paragens diferentes. Quando eu cheguei com o Ishiguro, pela mão da Teresa, já outras tinham entrado antes com a Ferrante ou a Sophia. Repeti Sandor Marai, aprofundei João Pinto Coelho, descobri Stefan Zweig que conhecia só de nome, rumei ao Farol com Virginia Woolf, deslumbrei-me com Maria Teresa Horta e as suas Luzes de Leonor, entrei nas Três Vidas de João Tordo, contorci-me com Kafka, desconstruí o Natal e os Reis Magos com Michel Tournier, apaixonei-me por Selma Lagerlöf pela mão de Cristina Carvalho, aprendi muito com Chimamanda Ngozie Adichie, uma inspiração, descobri a força da escrita de Grazia Deledda, a segunda mulher a receber o Nobel da Literautura, revisitei e de novo me deslumbrei com a contensão dorida de Maria Judite de Carvalho, aprendi a ler correctamente o nome de Olga Tokarczuk mas, sobretudo, fiquei rendida às suas Viagens, tal como amei Manuel Vilas e nunca mais esquecerei a viagem de comboio que fiz durante cinco semanas com Paul Theroux, numa viagem imensa que nunca tinha pensado fazer.


Mas o melhor de tudo é que todas estas viagens eu não teria feito se as tivesse pensado sozinha. Se não as tivesse compartilhado com estas minhas companheiras de viagens que, por seu lado, viajando comigo, olharam para as "paisagens" com outros olhos, outras perspectivas. Os seus olhos. As suas perspectivas.


E foi isto que fez das nossas viagens, viagens ricas, estimulantes, diversas, únicas e extremamente enriquecedoras.


A despedida tem sempre um aperto na garganta. Mas já temos alguém que não vai deixar o barco/comboio à deriva. Bem vinda.


Regresso a uma citação de Rubem Alves que muito gosto e que tem tudo a ver com esta nossa viagem e com a partida.


"Amar é ter um pássaro pousado no dedo.


Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar. "


 

segunda-feira, 29 de julho de 2019

"O Grande Bazar Ferroviário" de Paul Theroux

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O Grande Bazar Ferroviário, Paul Theroux, 1975


 


Um livro extraordinário, de que tirei inúmeras notas, fiz imensas anotações e sublinhados, assinalei páginas… Foram cinco semanas de viagem, a acompanhar os quatro meses que Paul Theroux levou desde que partiu em Setembro de 1973 de Londres e a que regressou no início de Janeiro de 1974. Não conseguiu cumprir a promessa de que estaria em casa antes do Natal, apenas tendo conseguido durante a viagem no Transiberiano apanhar um programa da BBC que passava algumas canções de Natal!


A edição da Quetzal abre com um texto de Francisco José Viegas e um belíssimo prefácio que Paul Theroux decidiu fazer ao seu livro em 2008. O mundo tinha mudado muito entre 1973 e 2008 e ele sentiu necessidade de “explicar” o que o levara a escrever aquele livro, o seu primeiro livro que ele não quis rotular de “livro de viagens” por desprezar essa designação que associa a turismo de massas, a interesses comerciais, a luxo e comodidade, tudo aquilo que ele deixou em casa, quando decidiu aceder a um convite de uma editora para escrever sobre uma viagem. A ideia de movimento, da verdade da viagem, de ir sozinho, anónimo e ser autosuficiente agradava-lhe, ele que já viajara antes, já trabalhara em diferentes países, mas nunca escrevera sobre a experiência da viagem, de apanhar comboios, de conhecer passageiros, de ouvir diálogos.


Uma viagem longa a partir da Europa, entrando na Ásia pela Turquia, seguindo pelo Irão, Afeganistão e Paquistão até à Índia e Ceilão, entrando na Birmânia, passando pela Tailândia, Laos, Malásia, Vietname, Japão, Extremo Oriente Soviético, Sibéria, Polónia, Holande e de novo Inglaterra. Foram 30 comboios, alguns com nomes míticos, poucos aviões e barcos, sempre que a ligação de comboio era impossível. Comboios de todo o tipo, todos diferentes e com “personalidades” próprias: Expressos, Locais, Correios, de passageiros, o Expresso de Bombaim que afinal era mais um comboio local que expresso com as paragens constantes dos passageiros que accionavam o alarme para assim se apearem e ficarem mais perto de casa… já sem falar da viagem na carruagem privativa do director dos Caminhos de Ferro Vietnamitas, ou o Super Expresso “Raio de Sol” para Quioto, o comboio de passageiros mais rápido do mundo (pelo menos nessa altura) que fazia os 500 kms entre Tóquio e Quioto em menos de três horas.


A escrita de Theroux é tão vívida, que é impossível não sentir que se viajou com ele, que se conheceram pessoas bizarras, que se descobriu que cada comboio é uma incógnita, pois pode ou não ter carruagem-cama, vagão-restaurante, que nos dois primeiros meses o sol brilhou, que a primeira chuvada foi na Índia e que as monções trouxeram inundações e o risco de colapso de pontes na Tailândia, e que foi na Birmânia que teve a primeira sensação de frio que depois se intensificou drasticamente no Japão onde a neve e a aproximação da viagem gélida através da Sibéria o obrigaram a comprar roupa quente para substituir a roupa fresca e puída que usara até então.


Se teve de ser vegetariano à força na Índia onde teve os primeiros desarranjos intestinais, ou se fingiu que comia pardalinhos na Birmânia, aprendeu que em muitas estações onde paravam havia vendedores de produtos locais que respondiam à inexistência de vagões-restaurante em muitos dos comboios. E se isso era impensável nas estações no Japão, em que a saída de passageiros na estação e a partida do comboio era uma questão de segundos, noutros comboios o drama de perder o comboio não se colocava. E aqui não posso deixar de referir uma personagem bizarra – Duffill – que, na atrapalhação de ir comprar víveres para a viagem com destino à Turquia, perdeu o Expresso do Oriente logo em Itália, o que deu origem ao verbo “duffilar”. Pois em quatro meses de viagem, o autor só ficou “duffilado” em Moscovo onde ficou retido dois dias, não lhe tendo sido permitido embarcar no comboio para a Polónia, por não ter visto de trânsito.


Imaginamos Paul Theroux com o seu cachimbo, óculos, mapa, livros e blocos de apontamentos, aonde vai anotando todos os detalhes e impressões de viagem. Na passagem por Itália estava a ocorrer uma epidemia de cólera; em Istambul soube da morte de Pablo Neruda no Chile que acabara de ser tomado de assalto por Pinochet; a imagem omnipresente de Ataturk parecia que tinha feito congelar a cidade desde 1938, ano em que morreu; no Irão e em Teerão que lhe deixou uma impressão muito negativa, deparou-se com duas realidades distintas com mulheres de saia e blusa e outras totalmente cobertas com véu e com o rosto tapado; a presença dos americanos ligados à extração do petróleo na região; o suborno (bakchich) como prática corrente para se conseguir qualquer coisa; o Balochistão em guerra; o Afeganistão e o Paquistão como zonas de conflito; a péssima impressão deixada por Cabul, ao contrário de Peshawar; os hippies; a droga. A Índia como um grande país, muito diverso e muito dividido, as aldeias, as estações de comboio apinhadas onde os indianos literalmente viviam, o lixo, a degradação, as pessoas mutiladas que mendigavam, a prostituição infantil. Madrasta, que um indiano lhe disse que era onde estava “a verdadeira Índia”, foi onde teve o primeiro susto da viagem com um taxista que lhe colocou o dilema: praia ou rapariga? A estranheza daqueles a quem dizia querer ir ao Ceilão, um país marcado pela fome, pobreza, mendicidade e ociosidade, pois segundo eles no Ceilão “não se passa nada”. Nessa viagem para o Ceilão (Sri Lanka) teve o comboio todo por sua conta e em Columbo fez uma conferência sobre literatura norte-americana, como aliás já tinha feito em Istambul e como faria em Bombaim, Calcutá, Saigão, Hué e Hokkaido.


A foto da capa da autoria de Oleh Slobodeniuk não está referenciada quanto ao local. Quero, no entanto, ver nela a viagem que Paul Theroux fez a Gokteik no norte da Birmânia. Uma viagem, uma verdadeira ousadia, cheia de dificuldades e perigos por os comboios serem alvo de constantes ataques de rebeldes e de ladrões e que, no fim, quando ele pensava que iria parar à cadeia, o aconselharam a não repetir. Birmânia, Laos, Tailândia, Malásia, Singapura, Vietname na época das monções, foram os destinos que marcaram a viagem a caminhar para o fim. No meio de paisagens de uma beleza indescritível, são notórias a indústria do sexo e o caos deixado nos despojos da aventura de guerra dos americanos na península da Indochina: acampamentos acupados por refugiados, hospitais pilhados, crianças louras que falam vietnamita, instabilidade, vulnerabilidade e insegurança. Numa nota de rodapé, o autor refere que em 1975, grande parte das cidades por onde passou dois anos antes, tinham ido pelos ares com muitas centenas de mortes.


No Japão para onde voa, encontra uma sociedade totalmente diferente. Um “povo programado”, disciplinado, mergulhado na parafernália electrónica, onde tudo é veloz e eficiente e angustiante; estranhamente consumindo entretenimentos de erotismo violento em que o sadismo está banalizado em espectáculos para turistas, em bandas desenhadas, em filmes. É exactamente em Hokkaido – “A Terra do Grande Céu” – que o fascina pela beleza natural e que fotografa à exaustão, que Paul Theroux tomou a decisão de escrever este livro. Sente-se que o autor começa a sentir os efeitos do cansaço, o desejo de que a viagem chegue ao fim. Olha para trás, para as semanas que decorreram e para as terras e pessoas que conheceu e sente a necessidade de fazer sínteses, de fazer avaliações. Decide que o título do seu livro será o nome de uma rua na Índia “O Grande Bazar Ferroviário”.


Tal como a viagem de avião de Da Nang para Saigão tinha sido assustadora, a viagem de barco no Mar do Japão que faz a ligação Japão-Rússia não foi menos. A ligação de Khabarovsk – recorda Tchékhov que por lá passou quando em 1890 esteve durante alguns meses em Sacalina – até Moscovo pelo Transiberiano (10 mil kms) é a mais longa viagem de comboio do mundo e vai ser a parte mais penosa da viagem. Não só pela distância, mas pelo cansaço, pela uniformidade da paisagem, pelo frio (34 graus negativos), pela solidão, pelas saudades de casa, pelo sentimento de culpa, pelos pesadelos em que a mulher e o filho aparecem e, embora tente criar uma disciplina que o ajude a sobreviver, a verdade é que o ambiente dentro do comboio não permite. Depois de passarem o Extremo Oriente Soviético seguindo ao longo da Mongólia em que as bétulas e os cedros são a paisagem para além da imensidão da neve, a Sibéria só começa depois de Irkutsk e depois temos a tundra. Perde a noção do tempo, “o desespero faz-me fome” “raramente sabia onde estávamos, nunca sabia as horas correctas e detestava cada vez mais aquelas geleiras que tinha de atravessar para ir para o vagão-restaurante.” e a urgência de chegar é tudo o que tem. A bebida é a companhia dos russos e ele é o único ocidental no comboio, pois lá bem atrás os seus companheiros tinham apanhado o avião para Moscovo, fazendo em 9 horas a viagem que ele precisava de fazer em vários longos dias.


Falta-me falar dos passageiros e dos livros ou das referências literárias que a viagem lhe evocou. Duffill que partira de Londres com ele e que se tinha perdido a meio do caminho antes de chegar a Istambul e Molesworth, companheiros na viagem no Expresso do Oriente; Sadik o turco a caminho da Austrália, “foi boa companhia num troço maçador da viagem”; um indiano que vivera toda a vida em Inglaterra e que se queixava das atitudes racistas dos ingleses, tal como Radia que trabalhara 30 anos na SHELL apelidandos os ingleses de exclusivistas e dominadores; um alemão que fugira de um centro de reabilitação a caminho da Índia e que se alimentava de ópio e água; Vishnu um indiano de Simla que vaticinou que um dia voltariam a encontrar-se no Reino Unido ou nos EUA, o tal que lhe indicara que em Madrasta encontraria ele a verdadeira Índia; em Jaipur, o sr. Goipal, contacto da embaixada e que em princípio seria um facilitador ao nível da comunicação, revelou-se um verdadeiro desastre; um monge budista americano pouco dado a conversas; um jovem inglês aparentemente a fugir da namorada indiana; o sr. Bernard um birmanês que havia sido chefe de cozinha o que lhe permitira conhecer pessoas muito importantes e participar em eventos especiais, convida-o a pernoitar na sua casa onde, num quarto com lareira é brindado com uma refeição principesca como há muito não comia; e ainda dois altos funcionários do Bangladesh responsáveis por planeamento familiar nas áreas rurais e que vinham de uma conferência sobre esse tema.


Da lista de livros que Theroux escolheu e levou e sobre os quais foi escrevendo à medida da sua narrativa, lembro “A Pequena Dorrit” de Charles Dickens, autor que ele evoca em Calcutá, por esta cidade do norte da Índia lhe lembrar a Londres de Dickens. “Ariadne” e outros contos de Tchékhov, a pensar em Sacalina onde se localizava a maior penitenciária russa*. “Autobiografia de um Iogue” de Paramahansa Yogananda, Na passagem por Lahore recorda Kipling que aí viveu e trabalhou, Bombaim a que estão ligados Mark Twain que lhe dedica um capítulo de “Following the Equator” e V. S. Naipaul que relata em “An Area of Darkness”uma situação em que entra em pânico numa estação ferroviária de Bombaim. “Exilados” de James Joyce, poemas de Browning ou “O Canto Estreito” de Somerset Maugham. “Silêncio” de Shusaku Endo, ou “Contos Japoneses de Mistério e Imaginação" de Hirai Taro são outras obras que fui identificando ao longo da leitura de “O Grande Bazar Ferroviário”.


E se as minhas notas já vão longas, revelando alguma incapacidade de síntese, a verdade é que me foi difícil não colocar aqui algumas transcrições. Concluo dizendo que este não é um roteiro turístico, mas tão só uma viagem solitária feita por Paul Theroux, longe das comodidades do turismo de massas. Um registo na primeira pessoa de alguém que possibilita quem o lê a viajar com ele e a deitar abaixo uma visão etnocêntrica da realidade. O mundo é muito mais do que o lugar onde nascemos e vivemos.


Foi muito bom viajar com este autor que ainda não conhecia. E penso que comecei da melhor maneira.


 


*Em 2018, a Barraca levou à cena no TeatroCinearte a peça “A Volta o Mar, no Meio o Inferno”, sobre a experiência vivida por Tchékov em Sacalina, (21 de Abril a 8 de Dezembro de 1890), onde faz o “recenseamento da população local e um extenso levantamento sociogeográfico da região.” Nota da publicação editada pelo TeatroCinearte


 


 


23 de Julho de 2019


Almerinda Bento


 


 


 

quarta-feira, 5 de junho de 2019

"Viagens" de Olga Tokarczuk

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Viagens, Olga Tokarczuk, 2007


Quando comprei este livro, o primeiro gesto que tive foi procurar o índice, para perceber que viagens a autora nos queria propor. Mas não encontrei nenhum índice e à medida que fui começando a leitura, fui descobrindo capítulos ou fragmentos, mais ou menos curtos, descontínuos, que fui assumindo como uma espécie de “remendos” que teriam um nexo e que iriam constituir uma manta num patchwork final. “Viagens” foi o título escolhido pela tradutora Teresa Fernandes Swiatkiewicz para a edição portuguesa do original polaco “Bieguni”, também o título de um capítulo a meio do livro que designa uma seita de antigos crentes ortodoxos para quem o movimento contínuo era uma forma de desapego, de fugir do mal e garantir a liberdade. Das 92 edições em 18 línguas que “Bieguni” já tem e que foi galardoado com o Man Booker 2018, considero o título escolhido – “Viagens” – uma excelente tradução para um livro difícil de caracterizar.


Volto à ideia do “retalho”. Não me foi fácil avançar na leitura deste livro. Podia ter saltado de retalho em retalho, mas segui disciplinada e ordeiramente na leitura, como se de um romance com princípio meio e fim, mas a ideia de que aqueles retalhos no fim iriam fazer sentido e que alguns deixados soltos iriam no fim encontrar o parceiro a que se juntar surgiu-me, sobretudo na história misteriosa daquele casal de férias numa ilha croata em que a mulher e o filho desaparecem. O que lhes terá acontecido?


Outras histórias nos são contadas: Philip Verheyen, o anatomista, médico que descobriu o tendão de Aquiles e registou em desenhos meticulosos e perfeitos os detalhes do corpo humano, porque para ele “ver é saber”. Tendo perdido uma perna muito jovem, por lhe ter sido amputada na sequência de um incidente com um prego que lhe provocou uma infecção irreversível, viveu ao longo da vida com dores insuportáveis na perna amputada, a que chamava “fantasmas”. Tendo conservado o membro amputado numa solução própria para que não se degradasse e apesar do seu desejo de que, quando morresse, a perna amputada acompanhasse o seu corpo, a verdade é que tal não aconteceu. Consideraram que Philip Verheyen tinha morrido louco.


Outra história é a da colecção de amostras anatómicas de Ruysch que foi comprada pelo czar Pedro I da Rússia. Para Charlotta, filha de Ruysch, que nunca casou e que dedicou toda a vida ao trabalho do pai, aquela separação da colecção de peças anatómicas que o pai criara e que ela sempre acompanhara, foi um desgosto que a levou a pensar partir num dos barcos ancorados no porto holandês, fazendo-se passar por homem…


 E a história de Annuszka da sua vida com um filho doente, um marido “mutilado” de guerra, com um dia por semana em que a sogra a substitui, um dia de folga como cuidadora, um dia só para si em que deambula pela cidade de Kiev com o objectivo de se sentar por momentos numa igreja, um momento para chorar. É num desses dias que encontra aquela mulher bizarramente vestida, à saída do metro, gritando imprecações enquanto se desloca continuamente. Uma bieguni.


A história de Angelo Soliman, contada pela sua filha Josephine em cartas dirigidas ao imperador Francisco I da Áustria. Trazido do norte de África como escravo, as suas qualidades de pessoa encantadora, hábil político e homem muito inteligente, fizeram que se tornasse uma pessoa prestigiada na corte e digna de um lugar de destaque no seio das amizades mais íntimas do imperador. No entanto, esses atributos não obstaram a que no final da sua vida, devido ao exotismo da sua raça, o imperador tivesse dissecado e embalsamado o corpo de Soliman e o pusesse em exposição ao lado de animais selvagens. As cartas pungentes de Josephine Soliman rogam que o imperador seja sensível e lhe entregue o corpo do pai, para que lhe seja feito um funeral digno de um ser humano. No meio não deixa de pôr o dedo na ferida, ao referir o poder dos senhores e dos tiranos sobre os corpos dos seus servos.


Outra história belíssima é o reencontro de uma mulher com o antigo namorado que deixara na Polónia há muitos anos atrás. Os anos passaram, a distância também e tudo é estranho: ele, a cidade, a Polónia. Ele está à morte e ela vai numa “missão óbvia e asséptica, uma missão de amor”.


A história mirabolante de Chopin que tinha pedido para ser sepultado na sua terra. E assim, ele teve dois funerais: o primeiro na igreja da Madeleine e o segundo meses depois em Varsóvia. A irmã de Chopin conseguiu cumprir o pedido do irmão levando o coração dele para ser sepultado em Varsóvia.


Por fim, Kairos é a história de Karen e do seu marido – o professor – vinte anos mais velho que ela. Todos os anos é convidado a proferir palestras sobre a Grécia Antiga a bordo de um navio que percorre as ilhas gregas. Numa queda fatal, o derrame cerebral que lhe dita o fim da vida é descrito de forma extraordinária como se de um dilúvio de sangue se tratasse, o qual vai aos poucos apagando todos os traços, memórias e acontecimentos da vida do professor.


Tudo histórias à volta do corpo, dos corpos, dos defeitos físicos, das monstruosidades, dos detalhes dos corpos, das arrumações dos órgãos, da sua conservação, da plastinação. Viagens no interior dos corpos. Sempre as viagens.


Viagens, tudo viagens, lembrando que, logo no início, a narradora se apresenta como uma nómada, alguém que nunca aprendeu um ofício, que vive de biscates, que prefere a instabilidade e a precariedade, como um rio. É o que sai da norma, o incompleto e o estragado que a atrai.


Neste livro há pontos que surgem com alguma frequência como a paixão pala Anatomia como já referi, mas também, por exemplo, a presença das baleias e aqui não poderei deixar de recordar a história de Eryk que aprendeu a falar inglês na cadeia através da leitura de Moby Dick!


Este é pois um livro surpreendente em que apetece voltar atrás, reler uma passagem mais densa, voltar ao princípio e descobrir um aspecto para o qual não estávamos despertos/as numa primeira leitura, encontrando as linhas que cosem os retalhos, os pontos de encontro que casam um retalho com outro. Um “caos” onde nos organizamos, onde nos descobrimos, onde nos encontramos. Um livro a que se pode sempre voltar e onde se encontram detalhes com que nos identificamos como viajantes, como peregrinos, como amantes da viagem pelos livros.


3 de Junho de 2019


Almerinda Bento


 

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Viajar é preciso

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Depois de um conjunto de contos e romances da grande Maria Judite de Carvalho, sentimos a necessidade de viajar. MJC leva-nos à melancolia, à tristeza, aos retratos de mulheres mal-amadas e precocemente envelhecidas. Mas valeu bem a pena relê-la e descobrir outros ainda não lidos.


Estamos quase a chegar ao quinto mês do ano de 2019 e até agora ainda só li literatura escrita por mulheres. Muito bom. Cristina Carvalho, Chimamanda N. Adichie, Djamilia P. de Almeida, Ana Cristina Silva, Grazia Deledda e Maria Judite de Carvalho.


Agora, vamos viajar com Olga Tokarczuk. Como se lerá este nome polaco? Vai ser a próxima aposta do Clube de Leitura da Bertrand do Chiado e o livro tem o título "Viagens" e já me está a entusiasmar.  


"A minha primeira viagem, fi-la a pé pelos campos. Só deram pela minha ausência passado muito tempo, o que me permitiu percorrer uma boa distância. (...) Debruçada no topo do dique, fitando a corrente, dei-me conta de que, apesar de todos os perigos, tudo o que está em movimento é sempre melhor do que aquilo que está em repouso, que a mudança é mais nobre do que a estabilidade, que tudo o que estagna acabará por sofrer decomposição, degeneração e transformar-se-á em pó, enquanto aquilo que está em movimento consegue durar eternamente."


Ainda agora comecei e já estou rendida. Até breve.


Que melhores viagens do que aquelas que a literatura nos proporciona?


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...