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sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Maria Antonieta, Stefan Zweig

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Maria Antonieta, Stefan Zweig, 1932


Quando há um ano li “Maria Stuart” decidi que queria ler “Maria Antonieta” uma das diversas biografias que o incansável Stefan Zweig escreveu ao longo da vida. Tal como “Maria Stuart”, “Maria Antonieta” é o resultado de um profundo trabalho de pesquisa, aliado a uma escrita irrepreensível e a uma reflexão pessoal sobre a personagem, a história e todo o ambiente na Europa e na corte francesa nos finais do século XVIII. Esta edição do Círculo de Leitores foi traduzida por Alice Ogando, tal como acontecera na biografia de “Maria Stuart”.


Maria Antonieta é uma personagem trágica, usada na infância como moeda para alianças entre famílias reais através de um casamento de conveniência, sem possibilidade de brincar e crescer num ambiente que não fosse regido pela etiqueta e pelas intrigas, fascinada pelo papel que lhe é atribuído, apesar de nem ela nem o jovem marido Luís XVI estarem à altura desse papel – ele mole e indeciso, ela fútil e superficial. São vinte anos de vida estouvada, com gastos exorbitantes e sem limites que geram uma reviravolta na atitude do povo que deixa de lhe ter o respeito e a estima que antes tivera, para a odiar, caluniar e desprezar. Quando o povo desperta, já é tarde demais para a rainha e para a os nobres que viviam na órbita desta jovem rainha que nuca quis ouvir os conselhos da sua mãe Maria Teresa, a imperatriz da Áustria. Aliás, ninguém tinha a noção da amplitude da revolta popular, uma verdadeira revolução. A rainha fica sozinha, todos os amigos desaparecem, excepto Hans Axel von Fersen, o único que tudo fez até ao fim para tentar salvá-la da justiça popular. Após a tomada da Bastilha a 14 de Julho, os acontecimentos precipitam-se e a roda da História nunca mais sorrirá a Luís XVI e a Maria Antonieta. Acaba Trianon, o palácio da evasão e da futilidade da rainha, a última noite em Versailles será a 5 de Outubro, para nunca mais voltarem. Numa viagem de seis horas para Paris, seguidos pela multidão em fúria, vão ficar presos nas Tulherias, desabitadas há mais de cem anos, desde os tempos de Luis XIV. A tentativa de fuga para Varennes, a constituição da Comuna a 10 de Agosto de 1792, o aprisionamento dos reis no Templo e a abolição da realeza com a decapitação do rei são a sequência de um momento histórico decisivo para a França e com reflexos na Europa. Maria Antonieta está completamente só, “todos a abandonaram” (pág. 370); inclusivamente, o imperador Francisco, sobrinho de Maria Antonieta não mexe uma palha para a ajudar. Só mesmo o embaixador Mercy e Fersen, tentam, no exterior, impedir que Maria Antonieta suba ao cadafalso. Mesmo na Conciergerie “a antecâmara da morte” (pág. 399), onde os carcereiros estabelecem relações de simpatia e amizade com a presa, o medo das represálias da Comuna e da Junta de Salvação Pública falam mais forte.


A mudança na vida de Maria Antonieta operou uma transformação radical na sua atitude e é essa capacidade da escrita que torna este livro tão extraordinário e a personagem de Maria Antonieta tão dramática. “Desde a tomada da Bastilha até ao cadafalso, não cessa de se sentir completamente senhora dos seus direitos” (pág. 211) e, tal como me surpreendeu a descrição da morte de Maria Stuart, nesta biografia, a fibra de uma mulher que quis morrer com dignidade sem dar quaisquer trunfos aos que a acossaram e traíram e aos que a julgaram, mesmo sem terem documentos comprovativos, torna as últimas páginas deste livro verdadeiramente inesquecíveis. “ «Quando te resolves a ser quem és?», escrevia-lhe vinte anos antes, Maria Teresa, desesperada. Agora, a dois passos da morte, começa a encontrar em si mesma essa grandeza que só possuía exteriormente. Quando lhe perguntaram o seu nome, responde em voz alta e clara: «Maria Antonieta de Áustria Lorena, trinta e oito anos, viúva do rei de França.»” (pág. 417) Como num filme, Stefan Zweig é exímio na descrição da atitude e dos sentimentos da rainha e na descrição de toda a envolvência no percurso desde a cela na Conciergerie até ao cadafalso na Praça da Revolução, hoje Praça da Concórdia.


18 de Agosto de 2023


Almerinda Bento


Nota: Ao ler este livro sobre a rainha Maria Antonieta, não pude deixar de me lembrar da minha leitura de “As Luzes de Leonor” de Maria Teresa Horta. Lembro-me que D. Leonor de Almeida Portugal, 4ª Marquesa de Alorna estava em França, em Marselha e que partiu para Paris, porque queria viver de perto a revolução francesa que a fascina e atemoriza, porque a questiona sobre o mundo em que sempre viveu. Vai conhecer mulheres fascinantes, mulheres do povo que falam em liberdade e igualdade, em direitos. São tempos de grandes questionamentos, mas que a atraem imenso e nessa altura conhece Olympe de Gouges.


Leonor associa Paris à Roma incendiada por Nero. Sente-se deslocada entre os revolucionários e as amazonas, mas não quer partir. As mulheres encabeçam o cerco a Versalhes. Leonor não toma posição sobre a revolução e considera que nada será como dantes; é uma mera testemunha e regressa a Marselha.

sábado, 30 de abril de 2022

Maria Stuart, Stefan Zweig

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Maria Stuart, Stefan Zweig, 1935


Em 2018, li quatro contos de Stefan Zweig, por ocasião de uma das sessões do Clube de Leitura da Livraria Bertrand do Chiado em que fomos convidas/os a descobrir a obra deste autor austríaco. Fiquei tão entusiasmada com a capacidade do autor de analisar as personagens, que na altura decidi que no futuro havia de ler uma das diversas biografias que Zweig escreveu. Há pouco “tropecei” neste “Maria Stuart” num leilão online de livros duma alfarrabista e logo não hesitei em comprar uma 9ª edição de 1961, da Livraria Civilização, com tradução de Alice Ogando.


No breve prefácio, o autor chama a atenção para o facto de a rainha Maria Stuart ser porventura aquela que é objecto de leituras e interpretações mais contraditórias, de acordo com quem as faz, sua origem, religião, corrente ou concepção social. Sendo esta biografia baseada em documentos, quis o escritor “ser mais objectivo e abordar esta tragédia com toda a paixão, mas com toda a imparcialidade de artista. (…) E por muito prudente que se possa ser na escolha, o historiador será obrigado, muito honestamente, a acompanhar a sua opinião com um ponto de interrogação e de confessar que este ou aquele acto da vida de Maria Stuart ficou obscuro e ficá-lo-á provàvelmente para sempre.”


O que posso dizer desta biografia, agora que terminei a sua leitura? É extraordinária. E com vontade de em breve ler “Maria Antonieta” do mesmo autor, a qual já antes me foi aconselhada. E, embora isto seja mais difícil,  com vontade de voltar a Edimburgo e olhar para o palácio de Holyrood e o imponente castelo com outros olhos, lembrando aquela que “com seis dias foi rainha da Escócia, com seis anos noiva do príncipe mais poderoso da Europa , com dezassete anos rainha de França” (pág.41), aos dezoito viúva, rainha da Escócia e herdeira legítima da coroa de Inglaterra, embora tenha tido sempre a barreira intransponível de Isabel que nunca lha concedeu. 45 anos duma vida aventurosa que Stefan Zweig vai, ao longo de cerca de quatrocentos páginas narrando, de forma rigorosa, com uma riqueza e profundidade na análise psicológica das personagens, estabelecendo com o leitor  um diálogo fluido e claro.


Período conturbado da história europeia aquele século XVI. As potências digladiavam-se ambicionando aumentar o seu poderio. A Reforma e a Contra-Reforma jogavam os seus peões e estendiam a sua influência. Os casamentos combinados das crianças que viriam a ser os futuros reis e rainhas eram a moeda dos negócios das potências de então. Os espiões, traidores, intriguistas enxameavam a corte num ambiente que podia ir das cartas melosas e dissimuladas, mas cheias de alçapões, até aos cativeiros sem fim mas sem serem cruéis, mas também aos envenenamentos ou às mortes brutais com o punhal ou com o machado do carrasco, qual espectáculo para gáudio do povo. Shakespeare só teve de usar o seu génio para criar as suas personagens trágicas a partir das personagens de carne e osso do tempo em que viveu.


No centro da biografia de “Maria Stuart”, para além da jovem despreocupada, culta, apaixonada, impetuosa, sedutora, destemida, corajosa, arrogante e que escolhe morrer como mártir pelas suas convicções religiosas, todo o drama da vida de Maria gira em torno do facto de ser a herdeira legítima da coroa de Inglaterra. Para Isabel, filha de Henrique VIII e de Ana Bolena, declarada bastarda em vida do pai, mas rainha de Inglaterra por morte da meia-irmã Maria, a existência da prima Maria Stuart foi sempre um perigo e um obstáculo de que se quis livrar com receio de que a coroa de Inglaterra lhe fosse retirada. Ao longo de vinte e cinco anos, Isabel fez da recusa do contacto, do fingimento, da ambiguidade e da falsidade na sua relação com a prima, a quem tratava por “sua irmã”, as armas que usou como escudo para a fragilidade da sua ascendência.


O livro é verdadeiramente maravilhoso, numa narrativa marcada por períodos decisivos da vida da rainha Maria Stuart com indicações precisas de datas relevantes, sendo as descrições de um escritor de elevada qualidade. Destaco o penúltimo parágrafo  – No meu fim está o meu começo (8 de Fevereiro de 1587) – o mais dramático e o mais visual, referente às últimas horas de Maria Stuart antes de subir ao cadafalso até ao momento em que o carrasco desfere os três golpes que concluem a decapitação de uma mulher que não vergou. “Agora, pouco mais tem que fazer. Inclina a cabeça sobre o cepo, que abraça com os dois braços. Até ao último momento, Maria Stuart conserva a sua grandeza de rainha. Nenhuma das suas palavras, nenhum dos seus gestos exprimem medo. A filha dos Stuart, dos Tudor, dos Guise preparou-se para morrer dignamente.” (pág.381).


27 de Abril de 2022


 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...