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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

"Chuva de Jasmim", Shahd Wadi, 2025

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Chuva de Jasmim

Na contracapa de “Chuva de Jasmim” leio as palavras de Alexandra Lucas Coelho: “Este será o primeiro livro palestiniano da poesia portuguesa. Ou vice-versa? Shahd Wadi fez de Portugal a sua morada – até que ir para casa seja possível. Enquanto a Palestina estiver ocupada, o mundo é a Palestina”.

Autora de várias obras de que destaco “Corpos na Trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio”, em resultado da primeira tese de doutoramento em Estudos Feministas em Portugal pela Universidade de Coimbra em 2013, foi recentemente nomeada Escritora Universal Galega 2025.

É uma responsabilidade muito grande ter hoje a tarefa de apresentar o mais recente livro da Shahd. Eu que nunca me aventurei a escrever sobre poesia, serei breve, muito breve. Mas a minha amizade já antiga com esta mulher feminista, que ainda por cima carrega em si o facto de ser palestiniana, não me permitia recusar estar aqui com a Shahd a tentar dar o meu melhor.  Judite Fernandes, nossa amiga comum e que fez o prefácio do livro escreve que “Chuva de Jasmim é um livro sobre tudo, sobretudo, é um livro de poesia” e porque este livro respira denúncia, resistência e esperança, Judite lembra-nos que a Palestina é “um país que está a ser apagado do mapa, um país que existe por milagrosa resistência”.

À medida que se folheia e se vai lendo “Chuva de Jasmim”, sente-se a urgência da poesia em Shahd. Ela faz poesia, arte como forma de resistência, como grito de liberdade. Ela que escolheu “viver na terra do mais ou menos”, que não nega algum desconforto com a língua, a tropeçar às vezes nalgumas palavras, é, no entanto, hábil a brincar com as palavras, a criar lenga-lengas “Tráfico Humano” (pág. 61), a provar-lhes as subtilezas, conseguindo ser doce e corrosiva, tendo o condão de trazer a poesia para o quotidiano. Quando lemos “O Mesmo Poema” (pág. 37) que abre o capítulo A Casa percebemos que o poema é o quotidiano.

Os próprios títulos dos poemas são abertos e convocam-nos á inquietação que Shahd logo nos traz no primeiro poema intitulado “Lado a Lado”: “Entrego-vos a minha inquietação do nada/ para que se torne nossa. Palavra dita/escrita/ nunca é em liberdade” (pág. 15). Mas é no último capítulo do livro, intitulado “Chuva de Jasmim” que os poemas me sugerem palavras-chave bem nítidas como “Morte”, “Genocídio”, “Palestina”, “Revolução”, “Resistência”, “Raiva”, “Esperança”. Em “Alucinações sobre flores meio ano depois” (pág. 82) com um cravo na mão descemos a Avenida da Liberdade a gritar 25 de Abril Sempre, Fascismo nunca mais! Mas também:

Huri-ía! Falastin árabiya sempre, sionismo nunca mais!

Em solidariedade, em sororidade, Shahd oferece-nos esta Chuva de Jasmim, porque ela acredita que juntos, juntas temos a capacidade de um dia haver chuva de jasmim!

14 de Janeiro de 2026

(Este texto foi apresentado no âmbito da iniciativa O SPGL na Luta pelos Direitos dos Palestinianos na sessão com o título Cultura e Informação como Meios de Luta do Povo Palestiniano)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

A Poesia está de luto

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Hoje de manhã fui confrontada com uma notícia que era expectável, mas que nunca queremos ouvir.


"A Desobediente faleceu". Foi essa a mensagem que o meu filho me enviou, estava eu em Lisboa e ainda no começo de uma série de coisas que tinha de fazer. Foi um choque. Uma tristeza. 


Não tinha previsto entrar em nenhuma livraria, não fosse ser tentada, mas não resisti, já que estava em Alvalade e poderia encontar a Marta na Bertrand. Mas a Marta não estava e um dos primeiros livros que me chamou a atenção foi o livro da Adília Lopes. O livro chamou-me e foi esse que levei. O jovem que me atendeu quando lhe estendi "Pardais" questionou-me: - Não quer levar nenhum de Maria Teresa Horta? -  A Desobediente! - respondi-lhe. Hoje não. Hoje levo a Adília Lopes. Ainda deu para falarmos da maravilhosa biografia de Maria Teresa Horta feita por Patrícia Reis e lá segui para outro destino. 


"Nous n'avons plus d'argent pour enterrer nos morts.


Le prêtre est là, marquant le prix des funérailles;


Et les corps étendus, troués par les mitrailles,


Attendent un linceul, une croix, un remords."


Esta é a epígrafe que Adília Lopes escolheu da autoria de Marceline Desbordes-Valmore para abrir o seu livro de poemas com o título "Pardais". Folheio o livro e sorrio com alguns dos seus poemas, pequenos, mas que sabem tão bem neste dia soalheiro e frio de Fevereiro. Para cortar a tristeza desta(s) morte(s). 



"Sem liberdade não há felicidade."  (p. 20)


"Sem democracia não há alegria." (p. 21)


"Vale a pena escrever poemas." (encimado pelo poema de Fernando Pessoa "Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena) (p. 24)


"É preciso pensar no dia de amanhã alegremente."(p. 25)


"Não empolar. Não escarafunchar." (p. 26)


"Na montra de um café de Lisboa está escrito: A Vida é Super. Também acho." (p. 27)



Já hoje escrevi um pequeno texto de homenagem a Maria Teresa Horta. Poucas e pobres palavras para uma Mulher tão grande, para uma mulher cuja escrita e vida foram importantes para mim como feminista. Para uma Mulher que nunca foi consensual, que nunca vogou nas águas do senso comum, para uma Mulher que rompeu barreiras quando isso era tão difícil e que pagou pela sua desobediência e pela sua insubmissão. Uma Mulher que foi e é uma inspiração. 


Hoje é dia de ler Poesia. O futuro está aí para descobrir e divulgar poesia, as e os poetas.


Acreditar que a Poesia, a Literatura, a Cultura nos salvam.


4 de Fevereiro de 2025 


 


 


 

sábado, 24 de agosto de 2024

A Desobediente, Biografia de Maria Teresa Horta, 2024

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“A Desobediente – Biografia de Maria Teresa Horta”, Patrícia Reis, 2024


Antes de tudo, Patrícia Reis adverte o/a leitor/a que “esta não é uma biografia imparcial” (p. 17) nem é “uma radiografia” (p. 17) e que lhe “foi muito difícil terminar esta biografia” (p. 13). Ligam biografada e biógrafa o facto de serem amigas, jornalistas e a tristeza e a solidão de Maria Teresa Horta, desde a morte do marido, não ter deixado de, até certo ponto, contaminar a feitura deste livro.


Cada uma das cinco partes de que é feito “A Desobediente” tem, a encimar os diferentes capítulos que as constituem, os nomes de cinco das muitas obras de Maria Teresa Horta: “Espelho Inicial”, “Estranhezas”, “Anunciações”, “Jardim de Inverno” e “Poesis”.


A primeira parte – “Espelho Inicial” – que se ocupa da infância, da adolescência, da sua paixão por Luís de Barros e das escolhas de Maria Teresa Horta até ao nascimento do seu único filho, é o período estruturante de todo o resto da sua vida. Fala da mãe, da avó Camila sua grande aliada, do pai, do sentimento de desamor, de solidão e abandono, a percepção dos preconceitos em relação às mulheres e a intrepidez que desde sempre assume na escrita. A sua personalidade nos meios onde se move tem a marca da luta pela liberdade que então não existia em Portugal. Apaixonada pela escrita, pela poesia e também pelo cinema, para além de sócia de um cineclube, faz parte da direcção do cineclube ABC o que era inédito na altura. A censura, as intervenções da PIDE e o ódio visceral de Moreira Baptista secretário da Informação por Maria Teresa Horta são episódios num país que nega direitos básicos, que vicia as eleições e que manda assassinar Humberto Delgado, para além de torturar todos os que se opunham ao regime. No entanto, é também nesta altura que ela começa a entrar em contacto com escritores e a receber apoios e incentivos dos seus pares.


“Minha Senhora de Mim” foi uma pedra no charco na literatura feita até então por mulheres e de tal forma incomodou o poder, que a violenta agressão feita a Maria Teresa Horta por um grupo de legionários, iria motivar a criação de “Novas Cartas Portuguesas”. Jornalistas e também amigas de Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno decidem ao longo de nove meses escrever uma obra ímpar que vai abalar concepções sobre as mulheres, sobre a política e até sobre a própria criação literária. Uma sociedade podre e cheia de contradições não podia ficar indiferente àquela obra que é apreendida ao fim de três dias de ter sido publicada. Natália Correia, Maria Lamas, José Gomes Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues e tantos outros, para além de todos os apoios internacionais com destaque para Simone de Beauvoir e Marguerite Duras vão ser alguns dos nomes que acompanharam a onda de extraordinária solidariedade para com as três escritoras e que ficou conhecido como o processo das Três Marias que terminou com a sua absolvição no dia 7 de Maio de 1974.


A revolução aconteceu, mas as contradições criadas com as reivindicações das mulheres e com as reivindicações feministas não deixaram de existir por uma revolução democrática ter acontecido. Havia no Portugal acabado de chegar à democracia muita incompreensão e insensibilidade sobre as reivindicações específicas das mulheres, nomeadamente a questão do aborto, um tabú, a par de tudo o que tivesse a ver com os corpos das mulheres. Tema tão caro a Maria Teresa Horta, mulher assumidamente feminista, e que está no coração da sua poesia, desde sempre. Aliás, e como a biografia sobre Maria Teresa Horta abundantemente refere, nem o 25 de Abril trouxe maior visibilidade à obra da poetisa, nem lhe granjeou grande popularidade. Ser feminista não traz popularidade nem simpatia, mesmo no seio da esquerda. E então quanto à direita, nem se fala.  


Se a obra de Maria Teresa Horta está largamente divulgada, traduzida e estudada em todo o mundo, nomeadamente “Novas Cartas Portuguesas”, com destaque no Brasil, os prémios e o reconhecimento em Portugal vieram, embora tardiamente. A quarta parte da biografia dá destaque a algumas das suas obras e ao romance “As Luzes de Leonor – A Marquesa de Alorna, uma sedutora de anjos, poetas e heróis”, a que dedicou treze anos de intenso trabalho, uma verdadeira “devoção”, em que “Leonor e Teresa se confundem”. (pág. 357) Insubmissa, desobediente, coerente, Maria Teresa Horta recusa receber o prémio D. Dinis da Fundação Casa de Mateus das mãos do então primeiro-ministro Passos Coelho (2011).


A última parte da biografia começa com a morte inesperada de Luís de Barros, poucos meses antes da pandemia. A perda e a solidão são imensas, depois de uma vida de paixão intensa pelo marido ao longo de 56 anos. Maria Teresa Horta sabe que a salvação está na poesia e decide dedicar mais um livro ao marido, desta vez com o título “Paixão”. Embora mais limitada ao espaço da casa, continua sempre a escrever e sempre atenta ao mundo e à política. Mesmo a terminar a biografia, transcrevo este período que é significativo sobre esta mulher extraordinária: “O modo como está o mundo também te diz muito sobre o modo como está a vida das mulheres. Imagine-se as mulheres da Ucrânia, as atrocidades que sofrem, os devaneios pelos quais têm passado. As notícias são importantes por isso, para conseguirmos medir a pulsação das coisas”. (pág. 404)


É sempre com muito respeito e humildade que escrevo sobre livros que li e que me merecem consideração para fazer uma apreciação, como registo que gosto de partilhar. Este livro, entre outros, é um deles. Antes do mais pela consideração que me merece uma mulher feminista que toda a vida assumiu a liberdade e que nunca virou costas às dificuldades e às suas convicções mais profundas, numa postura de coragem e de coerência num mundo tão adverso à frontalidade e ao feminismo. E claro, também pela coragem da autora e pelo trabalho de grande fôlego e valor que é o de biografar uma mulher com uma vida tão rica e tão inspiradora. Parabéns. Muito obrigada às duas.


 


22 de Agosto de 2024


 


 


 


 

sábado, 25 de julho de 2020

Rimbaud, o Viajante e o seu Inferno, Ana Cristina Silva

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Rimbaud, o Viajante e o seu Inferno”, Ana Cristina Silva, 2020


 


Tenho poucas ou vagas referências sobre Rimbaud. Lembro-me, quando estudante, de ele ser falado na roda de amigos, certamente citado por poetas e músicos da época – Léo Ferré, Georges Brassens – quando a cultura francesa significava resistência e inconformismo e ainda não tinha sido submersa pela anglo-americana. “Rimbaud, o Viajante e o seu Inferno” foi o primeiro livro que comprei este ano, quando o desconfinamento nos permitiu voltar às livrarias. Era também um desejo de ler o mais recente livro de Ana Cristina Silva, autora cuja obra venho seguindo com muito interesse.


O livro está organizado em capítulos e dividido em duas partes. Em cada capítulo, a narradora (em itálico) faz-nos seguir o percurso de Rimbaud, introduzindo as principais personagens que marcam a vida do poeta: a mãe, Paul Verlaine, Mathilde Verlaine e a irmã Isabelle Rimbaud. Embora Rimbaud tenha sido considerado o expoente máximo do simbolismo, numa altura em que já tinha abandonado a poesia, a verdade é que ele desprezou esse rótulo nem a sua personalidade é catalogável, de tal forma é complexa e fora dos cânones.


Toda a vida em fuga: dos gritos da mãe, da prisão da escola, da ordem burguesa, da disciplina militar, das grilhetas do(s) amor(es), da fome e do frio, do desprezo dos poetas que não o reconhecem como poeta. Toda a vida em busca: do amor, da eternidade, das palavras com que é feita a poesia, do desconhecido.


Inconformista, colérico, contraditório, a busca sem limites das palavras com que fez poesia quando ainda muito jovem foi igual à ânsia de viajar sem limites. Multifacetado e exímio no manejo das palavras – professor de francês, poliglota, tradutor, marinheiro, empregado num circo, alistou-se na legião estrangeira do exército holandês, foi comerciante e até negociante de armas – procurou fugir à fome e à pobreza e por fim ambicionou enriquecer, fazendo uso das palavras para fazer negócios quando já não as queria para fazer poesia.


Para além das paixões de Rimbaud por Paul Verlaine e pela escrava abissínia, a relação mais duradoura foi com o seu criado Djami, tocante na sua dedicação e amor sem limites, a qual foi interrompida quando a doença de Verlaine o obrigou a regressar à Europa. Ana Cristina Silva não nos quer deixar com a impressão de que a relação entre Rimbaud e a mãe era uma relação de amor-ódio sem matizes. Apesar dos gritos, das repreensões e das proibições que invariavelmente levavam Rimbaud a desaparecer da casa materna, o poeta sente que ele acaba por ser o filho favorito, numa casa onde não havia beijos, nem abraços, nem quaisquer traços de afectividade da mãe para com os filhos. Rimbaud estima as irmãs e consegue estabelecer com elas relações de afecto e de cumplicidade, mas a aspereza da mãe, com a qual sempre conviveu desde criança, é-lhe impossível de suportar. Isabelle escreve ao irmão pedindo-lhe que regresse do deserto etíope e que volte a escrever poesia, tendo em conta a velhice e o desgosto da mãe por o filho estar tão distante. Nos seus pensamentos, Madame Rimbaud questiona-se culpando-se por ter sido demasiado severa com os filhos, mas achando que essa foi a melhor forma de os educar.


Esta é uma breve apreciação ao livro. Outros aspectos interessantes do livro que têm a ver com o período em que Rimbaud e Verlaine viveram (2ªmetade do século XIX) e que lhe dão um pano de fundo são, por exemplo, o facto de Rimbaud ter estado envolvido na Comuna de Paris, de ter sofrido a derrota dessa insurreição e de muitos dos seus amigos terem sido fuzilados. Rimbaud foi amputado na perna direita, tendo morrido em Marselha de cancro dos ossos e Verlaine faleceu cinco anos depois, na miséria. Mathilde, jovem esposa de Verlaine, foi vítima de violência doméstica e as suas hesitações em divorciar-se do marido tinham a ver com o facto de a sua reputação ficar manchada para o resto da vida por causa de ser uma mulher divorciada. Naquela época, “tudo o que dava sentido à vida de uma mulher era a estabilidade do matrimónio.” (p. 83)


Desejo que este livro de Ana Cristina Silva venha a ter o devido destaque e divulgação em sessões com a proximidade entre leitores e escritora que o distanciamento social não tem permitido. Parabéns por mais este livro de análise de sentimentos e personalidades, neste caso de um escritor que, como disse inicialmente, desconhecia.


 


23 de Julho de 2020


Almerinda Bento


 


 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...