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terça-feira, 17 de setembro de 2024

Os Cus de Judas, António Lobo Antunes

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“Os Cus de Judas”, António Lobo Antunes, 1979


Há precisamente um ano, andava eu a ler “Memória de Elefante” jurei a mim própria que tinha de ultrapassar a ideia feita/preconceito de que é muito difícil ler António Lobo Antunes, embora sobre as suas crónicas o consenso seja altamente favorável. A verdade é que fui acumulando livros deste autor que me iam sendo oferecidos, e como tinha de começar por uma ponta, decidi-me entrar na obra de A. Lobo Antunes, por ordem cronológica. Depois de “A Memória de Elefante”, passei a “Os Cus de Judas”, o segundo livro do autor.


Este livro que ele dedica ao amigo Daniel Sampaio, começa com a profunda ironia de um narrador que nos fala da sua infância muito ligada aos animais do Jardim Zoológico, dado viver perto do Jardim e portanto não ser alheio aos sons dos animais e às suas características. Mas, de todo aquele mundo de animais, a sua maior e mais agradável memória prende-se com o rinque de patinagem e a elegância do professor preto “rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas”(pág. 9). Em contraponto a estas memórias ruidosas, luminosas e felizes, a casa das tias na Barata Salgueiro cheirava a mofo e a velho e os reparos que lhe faziam sobre a sua magreza, apenas viam a tropa como salvação para vir a tornar-se um homem. Até que chegou esse dia em que “a tribo” se foi despedir dele no dia em que embarcou para Angola.


O resto do livro, ao longo de 23 capítulos de A a Z, é a memória da guerra, desde a chegada a Luanda, de onde seguiam para “os cus de Judas” os lugares para onde eram mandados para morrer, “em nome de ideais veementes e imbecis, em dois anos de angústia, de insegurança e de morte” (pág. 26). Esse longo relato de memórias, de flashes da sua experiência nesses “cus de Judas” é feito pelo narrador a uma mulher com quem está num bar ao fim da tarde e prolonga-se até ao amanhecer do dia seguinte no apartamento do narrador. Ácido, irónico, contundente, sarcástico, traz consigo a realidade da repressão, da PIDE, do salazarismo, da violência fascista, da Mocidade Portuguesa, das senhoras do Movimento Nacional Feminino, da União Nacional. O medo da morte, a solidão, o desamparo, a angústia são os sentimentos possíveis naquele absurdo para onde foram lançados um milhão e quinhentos mil homens que passaram por África. Os homens que deixaram as mulheres grávidas, que só souberam da notícia do nascimento das filhas e filhos por aerograma, que regressaram tristes e carregados de silêncios.


“Trazemos o sangue limpo, Isabel: as análises não acusam os negros a abrirem a cova para o tiro da PIDE, nem o homem enforcado pelo inspector na Chiquita, nem a perna do Fernando no balde dos pensos, nem os ossos do tipo de Mangando no telhado de zinco. Trazemos o sangue tão limpo como o dos generais nos gabinetes com ar condicionado de Luanda, deslocando pontos coloridos no mapa de Angola, tão limpo como o dos cavalheiros que enriqueciam traficando helicópteros e armas em Lisboa, a guerra é nos cus de Judas, entende, e não nesta cidade colonial que desesperadamente odeio, a guerra são pontos coloridos no mapa de Angola e as populações humilhadas, transidas de fome no arame, os cubos de gelo pelo rabo acima, a inaudita profundidade dos calendários imóveis” (pág. 188).


O regresso a Lisboa, à cidade feliz da sua infância, das lembranças dos animais do Jardim Zoológico e do professor negro que ensinava as meninas a patinar, é o regresso a uma cidade que o acolhe com indiferença, tal como as tias que ao vê-lo “envergando um fato de antes da guerra que me boiava na cintura” (pág. 195), apenas conseguem mostrar o seu desagrado:


 “ – Estás mais magro. Sempre esperei que a tropa te tornasse um homem, mas contigo não há nada a fazer.” (pág. 196)


Impossível ficar indiferente ao que foi a guerra colonial, contada com a crueza de quem a viveu e que decidiu trazê-la a público, através de uma escrita dura e elaborada. Impossível ficar indiferente.


9 de Setembro de 2024

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Entre Pássaro e Anjo, João de Melo

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“Entre Pássaro e Anjo”, João de Melo, 1987

 

Gosto de ler livros que vão saindo, mas não deixo de ir à descoberta de tantos que se foram acumulando numa altura da minha vida em que o tempo de leitura era muitas vezes reduzido e, sobretudo, limitado aos períodos de férias. Faço agora aquilo que me prometi, quando a aposentação parecia uma coisa longínqua. Àqueles que se foram acumulando, juntei os muitos que herdei da minha irmã, leitora compulsiva e muito atenta aos escritores portugueses. Este “Entre Pássaro e Anjo” é um deles.

Quando outro dia na Feira do Livro, enquanto João de Melo me autografava o seu “Livro de Vozes e Sombras”, lhe dizia que estava a terminar “Entre Pássaro e Anjo”, ele fez uma expressão admirada, tanto mais que desde 1987 quando o livro saiu, já produziu mais catorze títulos… “Já está um pouco datado…” disse-me ele. Mas estará mesmo?

“Entre Pássaro e Anjo” é um livro de contos. Com a força da presença das mulheres, podem ser “… tão numerosas como todas as mulheres que existem só para nos proteger e salvar” (p. 21), apaixonadas como a adolescente pelo seu professor, ou “viúvas-de-sangue”/ “viúvas-de-padre”/”fêmeas tristes do seu celibato” (p. 148) entre muitas outras designações escolhidas pelo autor para falar das carpideiras no funeral do padre Governo. Da sinopse na contracapa do livro retiro o seguinte: “É bem provável que a figura dominante de “Entre Pássaro e Anjo” seja de facto a mulher, ave pousada na manhã, como de uma delas chega a dizer o autor. E contudo, raras vezes como neste livro se terá ido tão longe na crueldade com que se descreve a ruína do corpo feminino e o velho adormecimento da paixão, o amargo refúgio do homem dentro da realidade autista dos seus sonhos. Voar, diz ainda João de Melo, é a principal vocação de pássaros e anjos. Mas a humanidade está infelizmente sempre pronta a ignorar esse apelo, incluindo as mulheres que não raras vezes se transformam em «mães masculinas» com largo uso de repreensão do próximo…” Ilustro esta ideia com uma citação extraída do conto “A Divina Miséria”: “A gente habitua-se à noite, tanto quanto os pássaros acabam por habituar-se a viver nas gaiolas suspensas das empenas. Se acontece de alguém erradamente os soltar, conhecem apenas a tristeza de umas asas sem préstimo. Perderam o sentido da orientação. Não sabem que as árvores servem para nelas pousarem. Remam no ar, contra o vento, embatem em obstáculos súbitos e inevitáveis. Desconhecem um mundo e recusam-se a aprendê-lo de novo. Cheios do tédio do infinito, permanecem atónitos e dificilmente escapam às doenças que existem só nos desertos. Se os não voltam a fechar nas gaiolas, morrem facilmente, perdidos da alegria. E já não têm idade. E nada sabem a respeito dos outros pássaros de voo largo e horizontal que, sendo livres, pousam tão devagar na alegria. Até medo lhes ganham. Afigura-se-lhes que os objectos que eles se tinham habituado a olhar à distância, por detrás da sua prisão de canas fictícias, estão agora para os devorar.” (p. 157)

Um livro muito político, com mensagens fortes, gritos contra a opressão, os opressores, sejam eles a Igreja, o poder instituído, a ditadura, a guerra, uma relação de casal que morreu e que não é mais que uma rotina. Podia ser qualquer país a viver sob ditadura, mas sente-se Portugal naquelas linhas, seja pela referência ao horror da guerra em África no conto “As Manhãs Rosadas”, ou nas alusões a um país entorpecido pelo sol e pela preguiça, que vive das glórias passadas, subjugado pelos americanos e esmagado pela dívida externa à espera de um homem providencial para as finanças como antes esperara por um ditador, um país sem futuro eternamente à espera de D. Sebastião em “Postumografia de Pedro-o-Homem”. “A Divina Miséria”, que decorre numa Ilha açoriana, parte da morte e do funeral do padre Governo para fazer uma crítica arrasadora à Igreja e ao seu poder. ”A dinastia dos padres era uma sucessão infame cujo único objectivo era perpetuar a mudez e a pobreza dos pobres. Sabe como? Dividiam o poder entre compadres, um braço armado na rua, outro braço na sacristia, e eles sempre na sombra, a fingirem-se, a darem-se ares de boas pessoas. Depois, vinham os ideólogos eclesiásticos, escreviam, propagandeavam que a pacificação do Rozário e do mundo era obra da Igreja e só dela.” (ps. 145 e 146) No entanto, a oposição e a hipótese de uma revolução é abortada com o desembarque dos marines americanos…

João de Melo não deixou de reflectir neste seu livro de contos também a sua experiência enquanto professor e escritor. A sala de professores num primeiro dia de aulas de Outubro, por onde desfilam “os animais docentes” descritos de uma forma tão divertida e real, na sua imensa diversidade, no conto com o mesmo nome. O professor, que partilha a viagem de autocarro para a escola com os seus alunos, que “pensara ao princípio que a sua presença salvaria o ensino do seu país” até que descobriu que “os autores vivos e os mais novos deles não estavam nos programas, quis pôr-se a berrar. Estava no país dos mortos, no país dos génios absolutos e indiscutíveis, só porque tinham morrido. Não valia a pena berrar. O país recusara-se a chegar ao século vinte!” (p. 117). “O Solar dos Mágicos”, último conto do livro, é uma sessão de lançamento e homenagem a um livro que ganhou um prémio literário; um logro, afinal. Não passa de um livro em branco. Mais uma sessão mundana, de gente que quer ser vista, que aproveita para comer e beber, que se quer abeirar de ministros e deputados. Um país com um ministro da Cultura, mas que não tem cultura.

Acho que é um livro cheio de ironia. Sem papas na língua. Muito crítico e, direi eu, actual e intemporal.

 

12 de Setembro de 2022

 

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

A Geração da Utopia, Pepetela

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A Geração da Utopia, Pepetela, 1992


Pepetela e este livro foram para mim uma revelação maravilhosa. Cada dia que passa percebemos que há tanto para descobrir e lamentamos ter conhecido alguns escritores num tempo já tão avançado da nossa idade. Mas, mesmo tarde, foi mais uma bela descoberta e mais vale tarde do que nunca.


O livro começa com “Portanto, …” e termina com “… portanto.”Como é óbvio, não pode haver epílogo nem ponto final para uma estória que começa por portanto.” Esta frase que põe fim ao romance, aponta, em minha opinião, para o facto de que todas as desilusões pelo derrubar das nossas utopias são sempre superadas pelo devir, pela esperança da concretização dos nossos sonhos, nem que seja na geração ou nas gerações que nos seguirão e que terão como nós utopias, sonhos, tudo afinal que faz a humanidade evoluir e aspirar à felicidade.


Esta geração da utopia que aqui nos é retratada é a geração dos jovens universitários angolanos que viviam em Lisboa na década de 60 do século passado e que conviviam, namoravam e se organizavam em torno de um ideal de independência e libertação do colonialismo. Estando longe de Angola na fase inicial da guerra, numa Lisboa insegura pela presença da polícia política que vigiava tudo e todos, os jovens angolanos e africanos vivenciaram a rejeição dos portugueses que os olhavam com suspeição, instrumentalizados pela propaganda salazarista do “Angola é nossa!”, que os encaravam como inimigos. “ Sara era branca, e portanto à partida, considerada uma boa portuguesa. Os negros e mulatos eram quase apontados a dedo, nos cafés, nos cinemas, na rua. Traziam na cara os estigmas que os denunciavam como potenciais terroristas.” Por outro lado, embora sedentos de viverem num país livre do poder colonial, viviam a contradição e o receio dos métodos da UPA que recusavam e começavam a contactar e organizar-se em movimentos novos com ideais de liberdade, justiça e igualdade.


O romance decorre em quatro momentos diferentes. Em 1961, em Lisboa, no início da guerra colonial. Em 1972, na mata angolana, os jovens universitários angolanos que haviam fugido para Paris, são agora os guerrilheiros cansados da guerra, frustrados, divididos por querelas, tribalismo e regionalismos, pois, como diz Vítor “O tempo do romantismo morreu.”. Em 1982, terminada a guerra contra o regime colonial, os partidos digladiam-se em Angola e a grande maioria da população e os deslocados da guerra vivem miseravelmente – “… o passado de quimeras trouxe este presente absurdo”. Aníbal, cujo nome de guerra era Sábio, e que se pensava ter morrido, vive sozinho num morro junto a uma praia, vivendo do peixe que caça, regando a sua mangueira onde sente que está o espírito de Mussole e com a ideia fixa de enfrentar um polvo gigante escondido numa gruta. “Eu morri e desencantei-me” assim se confessa Aníbal, aquele que era o mais politizado do grupo da Casa dos Estudantes do Império e que se afastou da política oficial por rejeitar o oportunismo e a corrupção em que muitos dos seus antigos camaradas e amigos caíram. Finalmente, em 1991, passados 30 anos de guerra, é o tempo dos negócios, das negociatas, das ligações entre a política e os negócios. Muitos dos vícios do colonialismo surgem às mãos dos que antes lutaram contra ele e o descrédito dos políticos e da política impõem-se entre o povo. O terreno está fértil para todas as manigâncias e traficâncias, para os charlatães e profetas da felicidade, a triste saída quando o povo já não tem mais nada a que se possa agarrar.


É um livro desencantado, com uma denúncia feroz aos jogos de poder e à burocracia instalada que tudo mina, embora, como disse no início, o autor deixe em aberto a esperança na humanidade e num futuro melhor e mais justo para todos. Gostei imenso da escrita poética de Pepetela, utilizando uma linguagem sensitiva, rica nas descrições, coloquial e com regionalismos cujo significado nos remete para o glossário no fim do livro. Gostaria de assinalar cenas inesquecíveis e metafóricas como a caça do bambi fêmea grávida que resiste até ao fim e a luta contra os nossos medos mais profundos empreendida por Aníbal na cena da caça ao polvo.


Se a primeira parte do livro, o período dos anos 60 me fazem lembrar os meus tempos de estudante universitária e da luta estudantil contra o regime opressor que existia em Portugal, o capítulo “O polvo – Abril de 1982” foi, sem dúvida, aquele que mais apreciei em todo o livro, pela força e pelas descrições de imensa beleza e realismo.


Mouriscas, 16 de Agosto de 2021


Almerinda Bento


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...