Mostrar mensagens com a etiqueta infância. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta infância. Mostrar todas as mensagens

sábado, 8 de outubro de 2022

As Pequenas Memórias, José Saramago

As Pequenas Memórias.jpg

As Pequenas Memórias”, José Saramago, 2006 

Há alguns anos que não leio nada de José Saramago, o que significa que quebrei o meu compromisso de ler um livro deste autor todos os anos, para ver se consigo ler toda a sua vasta obra. Assim, peguei n’ ”As Pequenas Memórias”, numa edição da Caminho de 2006, para me redimir do atraso.

Começa com a sua Azinhaga, quando menino. Mas rapidamente as memórias de infância levam-nos a Lisboa, para onde a família foi viver na Primavera de 1924. Em Lisboa e ao longo de 10 anos, ele, os pais e o irmão Francisco que viria a morrer na véspera de Natal de 1924, iriam viver em dez casas diferentes, partilhando casas com outros casais, como os Baratas.

José Saramago tinha tido a ideia de escrever este livro e chamar-lhe “O Livro das Tentações”, mas a acabou por lhe chamar “As Pequenas Memórias”, por serem “ as memórias pequenas de quando fui pequeno, simplesmente” (p. 38) É um pequeno livro, que se lê rapidamente e com prazer, porque é divertido e cheio de graça. Saramago fala dos pais, dos avós paternos e maternos, dos primos, dos vizinhos, dos colegas de escola, das descobertas, dos sonhos, dos medos, das lembranças mais remotas até aproximadamente à idade dos vinte anos.

São recordações de infância, momentos como o assombro da visão da luz da Lua numa madrugada que vai persistir na memória como uma paisagem única e inesquecível, o rio Almonda da sua aldeia, as pessoas marcantes no seu percurso. Escreve sobre as paixonetas de juventude, as descobertas sexuais precoces, as marotices da idade, os desastres que deixam cicatrizes, a descoberta de outros contextos sociais muito diferentes do da sua família que tem de compartilhar uma casa com outras famílias… Enfim, são flashes onde a ingenuidade e a ternura nos remetem para a epígrafe da contracapa do livro – “Deixa-te levar pela criança que foste” – retirada de “O Livro dos Conselhos”.

Explica-nos por que se chama Saramago e não apenas José de Sousa (p. 48) e, embora erradamente por vezes se diga que o seu nascimento foi a 18, de facto, ele nasceu a 16 de Novembro de 1922 (p.51). Apesar dos seus problemas de dislexia “calsse; sacanavense”…,  a verdade é que a sua aprendizagem autónoma da leitura através do “Diário de Notícias” que o pai trazia (p. 98) deixou todos estupefactos. Recorda a escolinha na Morais Soares onde aprendeu a desenhar as primeiras letras numa pedra. “A Toutinegra do Moinho”, o único livro que havia lá em casa (p.99), foi a sua primeira experiência de leitor, embora reconheça não se lembrar de nada do que lá estava, ao contrário de “Maria, a Fada dos Bosques”, um daqueles romances em fascículos então na moda, que eram lidos por uma vizinha à mãe analfabeta e a ele ainda muito criança. Na escola destacou-se na leitura e na escrita e também fez um brilharete com o Francês. Fez dois anos no Liceu Gil Vicente e depois seguiu para a Escola Industrial de Afonso Domingues em Xabregas, porque os recursos dos pais não permitiam um percurso liceal como estava destinado aos meninos com outras posses.

Nestas “As Pequenas Memórias”, Saramago quer tirar do olvido certas pessoas que viveram pouco tempo como o seu irmão Francisco que morreu com 4 anos, ou o primo José Dinis, com quem andava permanentemente à bulha. De forma comovente, os avós maternos estão muito presentes neste livro de memórias. O avô Jerónimo “ um homem sábio, calado, que só abre a boca para dizer o indispensável” (p. 129), pressentiu o fim poucos dias antes de morrer e foi “de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer” (p.130). E a avó Josefa a quem ouviu dizer, tinha ela noventa anos, “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer” (p. 131). Os avós maternos que, nas noites de frio, iam à pocilga buscar os bacorinhos mais frágeis e os deitavam na sua própria cama.

Este livro é de facto diferente de todos os que li até agora de José Saramago e não quero terminar este meu texto sem transcrever aqui o primeiro poema que ele escreveu, destinado a Ilda Reis com quem casou aos 22 anos. Saramago, que gostava de ir a casa do vizinho Chaves, pintor na Viúva Lamego, pediu-lhe que pintasse este poema num prato de cerâmica em forma de coração para oferecer à sua apaixonada:
Cautela que ninguém ouça

O segredo que te digo:

Dou-te um coração de louça

Porque o meu anda contigo.” (p. 54)

 

Notas:

Terminei este livro, exactamente no dia em que José Saramago, em 1998 recebeu o Prémio Nobel da Literatura.

Também neste dia assisti a um impressionante espectáculo de Dança pela Companhia de Dança Contemporânea de Évora em torno do “Ensaio sobre a Cegueira”, no Auditório Municipal do Seixal. Tal como com o livro, é impossível ficar indiferente depois de ver aqueles três bailarinos a actuar.

8 de Outubro de 2022

Almerinda Bento

 

domingo, 6 de março de 2022

O Atalho dos Ninhos de Aranha, Italo Calvino

O Atalho dos ninhos de Aanha.jpg


O Atalho dos Ninhos de Aranha, Italo Calvino, 1947


Gosto sempre de ler um livro com um prefácio que me ajude a contextualizá-lo nas suas várias facetas. Em 1964 Italo Calvino fez um prefácio para o seu “O Atalho dos Ninhos de Aranha”de 1947. É um longo prefácio em que por várias vezes retoma a frase inicial “Este romance foi o primeiro que escrevi”. Escrito pouco depois da Libertação e da sua experiência como membro da Resistência à ocupação nazi, Calvino reflecte que o livro resulta da energia e da alegria do fim da guerra, da necessidade de verter para o papel a força da oralidade sem limites naquela época, de não querer pôr-se no papel de narrador que escreve as suas memórias de partigiano, pelo que decidiu que enfrentaria o tema “não de caras mas de esguelha. Devia ser tudo visto pelos olhos de uma criança, num ambiente de garotos e vagabundos. Inventei uma história que ficasse à margem da guerra de resistência, dos seus heroísmos e sacrifícios, mas que ao mesmo tempo nos transmitisse a sua cor, o sabor áspero, o ritmo…” Inconformista, avesso às directivas, cartilhas e imagens formatadas e normativas de conduta e militância, escolheu esse garoto – o pequeno Pin – antítese do herói socialista e do romantismo revolucionário, alguém que estilhaçasse os conceitos de herói e de consciência de classe.


O livro é dedicado a Kim – grande amigo e companheiro da Resistência de Italo Calvino – sendo que no capítulo IX a sua personalidade e características de dirigente político rigoroso e analítico são vertidas, dando um tom ideológico que corta, até certo ponto, o fio da narrativa em que Pin e os partigiani são os protagonistas. Pin é a criança que cresce de forma um tanto ou quanto selvagem, sem regras, sem amor, que mascara a sua solidão e desamparo com provocações aos mais velhos, a sua forma de entrar no mundo dos homens e de se sentir um deles. Ele quer ser acolhido pelos grandes, pelos homens da taberna, pelos partigiani, é coscuvilheiro, desvenda os segredos do bairro pobre, canta canções que os homens gostam de ouvir. Para os homens da taberna, Pin é importante porque é irmão da Morena do Beco Comprido. Para Lupo Rosso, Pin é importante porque tem uma arma, escondida num lugar único, mágico, que só ele conhece – o atalho dos ninhos de aranha – a sua única riqueza. Quando é confrontado com a possibilidade de desvendar onde fica esse atalho que leva à arma escondida, Pin hesita porque “o lugar dos ninhos de aranha é um grande segredo e é necessário que seja um verdadeiro amigo, em tudo e para tudo” (pág. 92)


Só há um homem de entre todos aqueles que olha para Pin como uma criança que precisa de carinho, ele também adulto carente. “Primo o grande, doce e cruel Primo” (pág. 211) é o único que “o leva pela mão, aquela grande mão, macia e quente como pão.” (pág. 226).


No prefácio, Italo Calvino escreve a certa altura “A Resistência representou a fusão entre paisagem e pessoas” (pág. 12) . Na minha memória, os bosques, os esconderijos, as casas abandonadas onde homens sujos se amontoam, o vale, os viveiros de cravos, os campos de rododendros, a preocupação dos homens ao encontro da coluna dos alemães: “É um dia azul como os outros, tão azul que quase faz medo, um dia com cantos de passarinhos que quase faz medo ouvir.” (pág. 189).


Um livro lindíssimo.


3 de Março de 2022


 

domingo, 3 de outubro de 2021

Seis Ruas, Márcia Lima Soares

Seis Ruas.jpg


Seis Ruas, Márcia Lima Soares, 2020


Conheci a Márcia na militância política, nos activismos mais difíceis, aqueles que põem toda a coragem de afirmar a sua identidade e os seus desejos, lutando contra a tradição, o politicamente correcto, o status quo. Afirmativa, sem rodeios, invulgar, as suas gargalhadas e postura positiva destacam-na como uma mulher que ama a vida a tempo inteiro.


Na dedicatória que me escreveu no seu “Seis Ruas” pedia-me entre outras coisas que, se quisesse, ilustrasse alguma das passagens do livro e que depois as partilhasse. Não me senti tentada nem habilitada a isso. Preferi escrever um pouco sobre o que o livro deixou em mim.


Os espaços, as ruas, as casas estão povoados de memórias. Neste caso, as seis ruas, todas na margem sul, acompanham a história da narradora e do seu irmão mais velho, aquele que ela tanto desejou quando era a filha única e com o qual teve sempre uma ligação muito próxima. Sendo muitas vezes maternal, aparece sempre como a menina viva, brincalhona e que vai acompanhando o crescimento dos irmãos que entretanto vão nascendo. Ao longo das páginas, com o decorrer dos anos e nas várias ruas onde moram, as brincadeiras, as traquinices, os desastres vão surgindo e em muitos nos revemos. Alguns episódios surgem-nos mais detalhadamente, alguns pormenores são mesmo divertidos e fazem-nos recordar as peripécias das brincadeiras das crianças. A narradora não transforma num relato fofinho o que são as constipações duma criança, nem aquilo que um rabinho limpo e bem cheiroso mostrado em anúncios televisivos apaga da realidade suja e mal cheirosa de uma criança.


Os anos passam. Novos desafios. Casas mais pequenas, sonhos de um sótão cheio de projectos, divórcio dos pais, novas amizades, novas aprendizagens. Mesmo sem querermos e à medida que o livro avança há um adensar de tragédia sempre que as datas são mencionadas com o pormenor do dia, do mês e do ano. O avô que quase se afogou e, mesmo assim, a vida a continuar num concurso televisivo em que o tema eram os pássaros. Irreverentemente, Tiago cumpriu a sua promessa exibindo o “rabo muito branco a imitar a Lua cheia”. E por fim, aquele derradeiro dia quente de Agosto no regresso de um dia bem passado na praia.


Senti este livro como um testemunho de amor ao irmão Tiago. A necessidade de, em livro, a Márcia verter mais umas lágrimas por ele, dar umas gargalhadas para lhe dizer que não o esquece, que ele está sempre com ela, mesmo vivendo agora “além Tejo”. É um testemunho muito belo e sentido, pelo qual só posso dar os parabéns à irmã que ficou para contar.


Sei que a Márcia fará muitos outros livros. Acrescentando novas ruas, novas viagens, novas cidades, novas personagens. Com todos os amores da sua vida, agora que o seu amor maior, a Laurinha, vem acrescentar um novo sentido e uma nova motivação para uma vida com muitos caminhos, muitas causas e muito amor.


3 de Outubro de 2021


Almerinda Bento

domingo, 13 de setembro de 2020

Embalando a minha Biblioteca, Alberto Manguel

Embalando a minha Biblioteca.jpg


Agora que Alberto Manguel decidiu doar a sua preciosa biblioteca ao município de Lisboa, recordo aqui o que escrevi há dois anos, quando li este belo livro do autor.


 


Embalando a minha Biblioteca, Uma Elegia e dez Divagações, Alberto Manguel,2018


 


Este livro de Alberto Manguel, nascido na Argentina e com cidadania canadiana tem a estrutura de uma elegia e dez divagações e é motivado por o autor ter sido obrigado a desmanchar e a embalar os cerca de 35 mil livros que constituíam a sua última biblioteca. Esta situava-se em França, num antigo celeiro anexo a um velho presbitério e a um jardim e ali ficaria, não fosse a burocracia que o forçou a partir e a enviar a sua amada biblioteca para o Canadá, onde continua encerrada em caixotes meticulosamente organizados e catalogados por queridos amigos que o ajudaram nessa penosa tarefa. Tratou-se de um enterro prematuro que lhe provocou raiva e luto, porque para o autor “se desembalar uma biblioteca é um acto selvagem de renascimento, embalá-la é sepultá-la ordenadamente antes do julgamento aparentemente final.” (p. 36)


São muitos os temas que desenvolve nessas divagações, desde as suas primeiras memórias ligadas às bibliotecas da infância nas diferentes terras onde viveu, enquanto filho de embaixador, que para ele são “uma espécie de autobiografia com várias camadas”. Revela-nos como os livros da infância e da adolescência que o marcaram para a vida continuam a ter uma força enorme e transportam consigo a presença das pessoas que lhos ofereceram. Jorge Luis Borges é uma referência constante ao longo deste livro, não só pela sua ligação ao escritor como à pessoa com quem trabalhou e a quem leu durante muitas horas quando Borges já perdera a visão. Também D. Quixote de la Mancha, ou seja, Alonso Quijano que se transforma em D. Quixote por via das suas leituras “tendo perdido os seus livros enquanto objectos, D. Quixote reconstrói mentalmente a sua biblioteca e encontra nas páginas recordadas a fonte de uma força renovada”. “A perda ajuda-nos a lembrar e a perda de uma biblioteca ajuda-nos a lembrar quem verdadeiramente somos” (p. 57).


Manguel revela um profundo sentimento de posse relativamente aos livros e a esta sua última biblioteca e daí o forte sentimento de perda, sendo a sua organização tão pessoal que, podendo ser vista por outros como um caos, lhe permitia saber exactamente o lugar de cada livro em cada uma das prateleiras. Escrever sobre este livro não é fácil e é certamente redutor, tantos são os autores referidos e tantas as referências literárias e porque cada divagação é um tema de análise: a necessidade de ligação, de comunicação entre os humanos e a insatisfação permanente; como se inicia o processo criativo e a incapacidade de através de palavras conseguirmos transmitir completamente as nossas ideias ou intenções; as bibliotecas que arderam ou foram destruídas e os autores que foram banidos, o que convoca o papel maldito da literatura e da arte para as ditaduras.


Ele, que gosta do toque dos livros e que é da geração que dava uma enorme importância aos dicionários, questiona-se sobre qual será o papel dos livros não virtuais para as gerações do terceiro milénio que veneram os gameboys ou os iphones e não os livros como objecto físico. O convite que recebeu em finais de 2015 para o cargo de director da Biblioteca Nacional da Argentina colocou-lhe e coloca-lhe problemas decisivos como este numa época em mudança acelerada e constante. Para além duma perspectiva estratégica de ligação às bibliotecas regionais dentro do seu país e de ligação a bibliotecas no estrangeiro, ele, enquanto director da Biblioteca Nacional da Argentina, tem a perspectiva de que uma biblioteca nacional seja aberta, inclusiva, que responda aos diversos interesses e necessidades da população, que atraia novos utilizadores e que mantenha os que já tem e isso é uma tarefa imensa e desafiante que lhe coloca muitas questões para as quais trabalha para responder. Para ele o ideal de biblioteca é que ela seja uma“Clínica da Alma” que funcione como “escola de empatia”.(p. 137)


Em minha opinião, esta grande e inesperada tarefa de dirigir uma Biblioteca Nacional que já antes tinha sido dirigida por Jorge Luis Borges, ajudou Manguel a descentrar-se da sua biblioteca pessoal encaixotada, a fazer o luto e a focar-se numa outra biblioteca, uma biblioteca para todos. Uma verdadeira epifania.


A terminar a última divagação, algumas frases reveladoras: “… o esvaziamento de uma biblioteca, por mais desolador que seja, e o embalar dos seus livros, por mais injusto, não têm de ser encarados como uma conclusão. Há novas ordens possíveis nas sombras, secretas mas implícitas, aparentes tão-só quando as velhas são desmanteladas. Nada que importe pode ser verdadeiramente substituído…” “«No meu fim está o meu começo», terá Maria Stuart, rainha da Escócia, bordado na sua roupa durante o cativeiro. Parece-me uma divisa adequada à minha biblioteca.”(p. 141)


 


1 de Junho de 2018                                   


Almerinda Bento

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Ler, ler, ler...

20191209_121729.jpg


Hoje limito-me a reproduzir um excelente artigo de opinião no Expresso deste fim de semana com o qual concordo em absoluto.


"Um povo que não lê ou lê pouco, lê mal, escreve mal, interpreta mal, pensa mal e é um povo que dificilmente questiona..."


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...