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terça-feira, 7 de julho de 2020

Street Books

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De facto, se se quer ver alguma coisa que valha a pena, é na RTP2.


Por acaso, porque tinha acabado de ver La Otra Mirada e a intenção era apagar a televisão, dei com este documentário maravilhoso que me comoveu.


Um projecto incrível em Portland, Oregon. Streetbooks, ou seja, uma Biblioteca Itinerante.Tão simples e tão lindo como isto: levar livros a quem vive na rua. Pessoas que um dia deixaram de ter dinheiro para pagar a renda e que foram postas na rua. Pessoas que não têm um rendimento que lhes permita ter um tecto, uma casa para viver. Pessoas com 32 anos que vivem na rua desde os 17. Pessoas. Homeless. Sem-abrigo. 


Uma bicicleta onde os livros estão arrumados por temas, por categorias, por autores. Há banda desenhada, filosofia, livros de auto-ajuda, romances, clássicos, livros de arte. Correm a cidade e param junto a pessoas que vivem na rua e põem-lhes à disposição os livros que quiserem levar. Não precisam pagar nada. Só têm de preencher uma ficha, mas sem obrigação de devolver o livro. Mas se quiserem devolver e levar outro(s) a bicicleta estará nesse mesmo sítio na semana seguinte, nas semanas seguintes, para prestar um serviço. Muitas destas pessoas gostam de ler. A cultura é alimento também. É bonito ver como folheiam os livros, como os olhos sorriem, como escolhem, os comentários que vão fazendo, como este: "Levo o King Lear. É o único de Shakespeare que ainda não li". Como falam daquele livro de Camus ou o outro de Steinbeck ou escolhem um que parece que está mesmo novo, nem sequer tem ar de ter alguma vez sido folheado.


Um dos membros desta "comunidade" de streetbook bikers fala da depressão, a grande doença dos sem-abrigo e diz que a ideia do suicídio é frequente entre eles, que ele próprio a viveu. Os livros salvaram-no e, à laia de remate, diz que aprendeu que o suicídio não é saída nem solução. 


Lindo este documentário. Solidariedade, desapego, humanidade e nada, mesmo nada de caridade. 


 

quinta-feira, 12 de março de 2020

“A Mulher que correu atrás do Vento”

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"A Mulher que correu atrás do Vento" , João Tordo, 2019


 


Um romance longo, talvez até demasiado longo, constituído por partes datadas, distantes no tempo, mas que se encaixam e formam um puzzle de muitas peças. Tal como os puzzles, tem zonas mais difíceis de completar, outras mais fáceis, peças enganadoras, personagens sobreponíveis e às vezes, quando pensamos que já estamos a chegar ao fim e temos o puzzle resolvido, há um volte face e percebemos que afinal aquele desfecho do puzzle estava errado. O que é romance? O que é fantasia? O que é realidade? O título do livro e a epígrafe, retiradas do Eclesiastes «Vi tudo o que se faz debaixo do Sol e achei que tudo é ilusão e correr atrás do vento» são a chave deste romance que tem o vento lá dentro.


No longo posfácio, Beatriz, a narradora, dirige-se a quem a está a ler, como que se explica e escreve a certa altura (p. 428) “Qual é o interesse de uma narrativa? Sobretudo de uma narrativa como esta, que já vai longa e confusa, dividida em múltiplas perspectivas, escrita em vários tons, repleta de vozes diferentes e, por vezes, contraditórias? … Chego à conclusão de que esta narrativa – como todas as narrativas – não trata do que é, mas do que poderia ter sido; não do que foi, mas do que deveria ser.” E à pergunta de Luciano sobre o que ela anda a traduzir/escrever, ela reflecte: “Como podia eu explicar-lhe isto, se não com a enorme perda de tempo de que falava Luciano, esta compulsão inútil de que padecem os escritores, aqueles que escrevem mesmo que ninguém os leia, os que escrevem porque, se não o fizerem, continuarão a correr infinitamente atrás do vento? O tempo perdido de que falava Luciano é a coisa mais importante que existe.” (p.431) Quando no último dia de trabalho no escritório de advogados, Luciano quis saber o que Beatriz ia fazer do resto da sua vida, ela respondeu-lhe: “Vou escrever um livro. Ele riu-se com a sua boca de parvo e perguntou-me sobre o que era. E eu respondi que aquela pergunta era a mais ridícula de todos os tempos, porque os livros não eram sobre nada, nunca ninguém escreveu um livro sobre coisa nenhuma. Os livros eram sobre si mesmos, disse eu, sobre o próprio acto de os escrevermos.” (p. 435). Mas, mais à frente, a narradora dirige-se-nos a nós, leitores/as: “Então chega o momento em que eu explico a razão deste livro, que não é sobre o que foi, mas sobre o que poderia ter sido.” (p. 436)


“A Mulher que correu atrás do vento” é um livro sobre a culpa, o remorso, o abandono, a solidão. Um livro que quer resgatar a memória de alguém que ninguém recorda, de alguém que passou pela vida sem ser amado e que partiu cedo de mais. Uma sem-abrigo a quem as instituições não têm a obrigação de dar cama, quando atingem a maioridade. Uma sem abrigo a quem as instituições dão um banho, uma refeição e uma muda de roupa lavada. Lia. Lia poderia ter sido uma mulher com casa, afecto e dignidade.


Beatriz lutava desde o seu tempo de estudante universitária  com a tradução de “Ulisses” de James Joyce, ao mesmo tempo que se divide entre gostar e odiar “A História do Silêncio”, um bestseller na época. Carrega a sua bagagem livresca e literária, não se poupando a referências a personagens que se colam às personalidades das personagens do livro, como por exemplo Lisbeth Lorenz ou Graça Boyard, a Violet Venable de Subitamente no Verão Passado de Tennessee Williams. “A Gaivota” de Tcheckov, a obra de Munch ou de Kafka, os escritores malditos Rimbaud, Baudelaire ou Bukowski, “Crime e Castigo” e os clássicos russos, “Um Eléctrico Chamado Desejo” de Tennessee Williams, ou mesmo o filme “Filhos de um Deus Menor”, entre muitos outros, surgem ao longo das páginas do romance e obrigam-nos a que os revisitemos ou conheçamos, para uma melhor compreensão das inúmeras personagens deste extenso romance de João Tordo.


Termino com mais uma citação que considero pertinente e ajustada ao romance: “As coisas começam num lugar distante no tempo e na geografia e, depois, parecem repetir-se infindavelmente, tal qual um relógio cujos ponteiros atravessam a mesma hora todos os dias. Assim é a vida humana: a repetição dos mesmos erros, dos mesmos atalhos, das mesmas esperanças.”


Mouriscas, 24 de Fevereiro de 20


 


 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...