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terça-feira, 22 de agosto de 2023

As Primas, Aurora Venturini

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As Primas, Aurora Venturini, 2007


Aurora Venturini foi uma escritora argentina que, aos 85 anos, depois de uma carreira com mais de trinta livros pouco divulgados, acabou por ter os holofotes do reconhecimento literário com este “As Primas” com o qual recebeu o Premio Nueva Novela (Argentina) e o Premio Otras Voces (Espanha). Impossível ficar-se indiferente e mesmo perplexo ao ler este livro, como aliás aconteceu com Mariana Enríquez, que escreve o prólogo ao romance e que foi uma das pessoas que trabalhou em 2007 na pré-selecção das obras a concurso ao Prémio Nueva Novela. Tudo saía fora da norma, até o facto de o original ter sido escrito numa máquina de escrever e de os erros ortográficos terem sido corrigidos com corrector líquido.


Um livro delirante mas muito sério, em que não se consegue deixar de rir pelo insólito e crueza das descrições. Vai ser difícil esquecer este livro e Yuna, a narradora, as primas Petra e Carina, a irmã Betina, as tias Nené e Ingrazia e a mãe “professora de ponteiro e bata branca, muito severa, mas ensinava bem…” (pág. 21). Um livro de e com mulheres, mas onde não falta o vizinho, o professor e outros personagens do sexo masculino.


Mas foquemo-nos em Yuna. Logo no início, Yuna diz da sua família “Não éramos comuns, ou seja, não éramos normais.” (pág. 22). Sempre que algo acontecia na sua vida que a emocionava, transpunha esses sentimentos para cartões e mais tarde para telas, uma terapia que a apaziguava. O professor de Belas Artes aposta nela. Ele diz que ela é “a menina da gravata”pela parecença com “a jovenzinha melancólica de Modigliani” (pág. 79) e não a considera uma deficiente, mas sim uma “artista plástica ensimesmada” (pág. 37). Ela luta com as palavras, com a sua dificuldade ao nível da linguagem verbal e, quando escreve, não usa pontos nem vírgulas nem maiúsculas. “Já disse que dentro da minha psique conhecia detalhes e formas, que era muito diferente da tonta de fora que falava sem ponto nem vírgula porque se punha ponto ou vírgula perdia a palavra falada. Às vezes punha ponto ou vírgula para respirar mas convinha-me comunicar de viva voz rapidamente para que me entendessem e evitar lacunas silenciosas que revelassem a minha incapacidade de comunicação verbal porque ao ouvir os barulhos dentro da minha cabeça e o fluir sibilante das palavras ficava confusa e boquiaberta a pensar que existiam palavras gordas e palavras magras, palavras negras e brancas, palavras loucas e criteriosas, palavras que dormiam nos dicionários e que ninguém usava. Aqui por exemplo usei vírgulas. E pontos.” (pág. 64). Explica-se quando dialoga com o/a leitor/a, pede-lhe desculpa quando se repete e faz ironia com isso: “… não repetirei para não cansar quem tiver oportunidade de me ler e digo repetindo a quem tiver oportunidade de me ler e paciência ao mesmo tempo porque eu própria me ouço e se as palavras que escrevo são tão cansativamente patetas como as que digo de mim para mim, quem terminar esta melopeia absurda amaldiçoar-me-á pelo tempo que perdeu comigo sem poder negar que não conseguiu pôr-me de lado porque encontrou entre as minhas estúpidas amarguras de amor e morte muitas das que ele próprio viveu, ou ela caso se trate de uma senhora.” (pág. 74). E algumas páginas mais à frente “Já não vou dizer que me cansam os pontos finais e as vírgulas porque senão pareço ridícula e os bons leitores que simpatizarem comigo deixarão de me ler.” (pág. 89). Sempre que usa uma nova palavra que descobriu no dicionário, põe a palavra dicionário entre parêntesis ou então (idem), esclarecendo “que idem significa dicionário mas por ser um vocábulo mais curto convém-me mais e como nunca fico com nada pendente digo que esse vocábulo corresponde às minhas averiguações da cultura do dicionário que me ajuda a sair da minha deficiência herdada.” (pág. 121). E quando há uma palavra que ela não encontra no dicionário, é à prima Petra que recorre.


Este é também um romance sobre os corpos e sobre os tabús dos corpos disformes ou não. Neste romance há pipis, pénis, maminhas, puns, chichi, vómito, sangrar, nojo, aborto, preservativo, violação, gravidez. Na sua linguagem directa e simples, Yuna desconstrói o mundo dos adultos, dos ditos normais, da sociedade organizada e dos psicólogos. “Eu cresci com má opinião do casamento e da família organizada. Jurei não casar. Jurei viver para pintar. Jurei muitas coisas até que me apercebi de que jurar era pecado e nunca mais jurei.” (pág. 50).


Yuna é um caso de superação, de alguém que, conhecendo as suas limitações, não deixa de tentar ultrapassá-las. Pelas palavras e pela arte.


Sentia-me acabada de nascer, consegui equilibrar-me, expor. Viajar.


Apaguei. Apaguei. Apaguei tudo.


Uma enorme melancolia invadiu as minhas pinturas e valorizou-as porque as pessoas quando se vêem refletidas na dor conseguem consolar-se um pouco.” (pág. 203).


 


Um livro desconcertante, que consegue oferecer-nos o poder extraordinário da Literatura e da Arte. Escrito por uma jovem de 85 anos!


21 de Agosto de 2023


Almerinda Bento


 


 

segunda-feira, 28 de março de 2022

Homens Imprudentemente Poéticos, Valter Hugo Mãe

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“Homens Imprudentemente Poéticos”, Valter Hugo Mãe, 2016


De cada vez que leio Valter Hugo Mãe percebo que estou a entrar num mundo muito próprio, em que a língua se transfigura e em que as personagens têm de ser lidas para além da capa exterior que as cobre. Comecei com o Sr. Silva e os companheiros de fim de vida no lar “Feliz Idade” em “a máquina de fazer espanhóis”(2010); seguiu-se Halla nos fiordes da Islândia, a sobreviver à morte da irmã gémea em “A Desumanização”(2013) e depois, o mais perturbador de todos, “o remorso de baltazar serapião” (2006) que lhe valeu o prémio José Saramago e que o Nobel classificou de “tsunami”.


Depois de algum tempo sem ler nenhum romance deste autor – para além das crónicas com o título Autobiografia Imaginária no JL – e porque já três novos livros de Valter Hugo Mãe se amontoavam na pilha dos “a ler/oferecidos”, foi a vez deste “Homens Imprudentemente Poéticos”. E quem são estes homens imprudentemente poéticos? Dois vizinhos num Japão antigo, o artesão Itaro e o oleiro Saburo, que criam uma inimizade incompreensível, como tantas vezes acontece. O artesão na arte de fazer leques é um homem obstinado, obcecado em fazer premonições sobre acontecimentos futuros, a partir da morte de animais/insectos. O oleiro, também ele um homem obstinado, pensando que conseguia salvar a mulher da morte que lhe havia sido profetizada por Itaro, faz crescer o jardim pela floresta adentro. Além destes dois homens que são afinal as personagens principais do romance, as figuras femininas são Matsu “que faz parte das pessoas diferentes” (pág. 47) é a irmã cega de Itaro, cuidada pela criada Kame. A senhora Kame, que tinha sido acolhida pela família do artesão, é a pessoa cuidadora, protectora, que está sempre presente em função dos outros “era um bicho domesticado. Viam-na com o carinho que se dava aos gatos enamorados por seus donos”.(pág. 38). E por fim, a senhora Fuyu, a mulher do oleiro Saburo, cuja presença ele teima em manter mesmo depois de morta, usando o seu quimono como espantalho nos canaviais, para afugentar os pássaros e, se possível, para a fazer voltar.


Como acontece com todos os livros de Valter Hugo Mãe, este é também muito visual. A floresta, lugar mágico povoado de bichos onde os suicidas procuram a sua morada derradeira, as violetas, as cerejeiras em flor, as flores do jardim, o lago Biwa e os seus peixes e, especialmente, o poço. A cena do poço no fundo do qual Itaro vai permanecer “sete sóis e sete luas” vai ser um lugar de descoberta, onde experiencia a mais profunda escuridão igual à cegueira da irmã e onde vence na luta contra o medo. É um dos capítulos mais intensos, assim como os três capítulos sobre a irmã Matsu que constituem a terceira parte do romance e que são duma enorme beleza poética.


Termino com alguns excertos para mim muito significativos:


“Contar-se-ia para sempre que um homem fora condenado a meditar no fundo de um poço durante sete sóis e sete luas e que, apavorado com o escuro, se amigou do próprio medo. Sentindo-lhe carinho.” (pág. 165)


“… o artesão cerrou os olhos, ainda mal acostumado à abundância da luz, e sentiu-se confortável  no escuro. Educara-se para o escuro. De verdade, sentiu nenhum medo da cegueira. Considerou que ficar sem ver era da ordem da limpeza. E o sábio disse: inclui-te naqueles que frequentam a universalidade.” (pág. 166)


“Ela sabia apenas da beleza das palavras porque era com elas que se explicava o mundo.”  (pág. 174)


“A cega, mais do que nunca, entendia o que era conhecer alguém e começava a dizer: conheço-te. Era a maneira mais exacta que tinha de afirmar que o via.” (pág. 177)


“Obstinado com pintar um novo leque, na expectativa do que lhe mostraria, tanto quanto outrora ansiava por saber o que veria no morto de algum bicho.” (pág. 183)


“Contava-se que saíra do poço tão imprudente quanto mágico.” (pág. 184)


“E Itaro pintava, demorava-se absurdamente a ver cada leque, e subitamente regressava à necessidade de pintar. Era inesgotável. Ele dizia. Que o deslumbre nunca se eternizava.” (pág. 184)


“… sei pouco, sei que há algo mais para saber. Pressentia que a arte era uma revelação, assentava numa suspeita mas nunca garantiria que resultado teria, afinal. Estava diante de um pressentimento de haver algo para descobrir mas faltava-lhe conhecer o quê. Apenas os leques, leque a leque, o levariam utopicamente mais além”. (pág. 185)


 


28 de Março de 2022


 

domingo, 3 de outubro de 2021

Ao Cair da Noite; Michael Cunningham

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Ao Cair da Noite, Michael Cunningham, 2010


Este foi, de entre os três livros que até agora li de Michael Cunningham, o que menos me entusiasmou. Centrado num casal bem sucedido com profissões ligadas à arte, pertencendo a uma elite culta e endinheirada, com um casamento de vinte anos, o único “contratempo” da relação é o afastamento da filha de ambos – Beatrice – a viver em Boston. Rebecca é editora de uma revista e Peter negoceia em arte.


A aparente estabilidade do casal é posta em causa com a chegada de Mizzy, o irmão mais novo de Beatrice, que se vai instalar no apartamento do casal. Muitas das certezas de Peter, até as mais íntimas, passam a ser questionadas. Sentimentos de culpa face ao afastamento da filha; a dor da perda do irmão Matthew; as dúvidas sobre se devia denunciar ou ocultar à mulher os consumos de droga de Mizzy; as dúvidas sobre o próprio valor da arte e de artistas actuais com quem trabalha; a atracção erótica que Mizzy exerce sobre ele, tudo isto é o cerne deste romance de Michael Cunningham que decorre em Nova York.


A estrutura do romance é feita de diálogos curtos e sincopados, em que Peter, sendo personagem, mas também narrador, dialoga com o leitor, faz reflexões, questionando os seus pensamentos, partilhando as suas dúvidas, hesitações, incertezas e fragilidades. É este questionamento, este diálogo constante, o que achei mais interessante no romance, esta humildade de pôr à prova todas as certezas, até aquelas que poderiam ser vistas como inquestionáveis.


Por fim, o livro está repleto de referências a artistas contemporâneos, sobretudo americanos. Nas considerações de Peter, negociante em arte, está implícita uma crítica ao mundo da arte e das galerias em que se move, ao reconhecimento e valorização que é dado a certos artistas em detrimento de outros, em função dos patrocínios e dos padrinhos que os promovem. “Não nos encaminhamos para um reino em que o lixo é tratado de facto como um tesouro?”


Em minha opinião, esta entorse que aqui versa o real valor da arte pode aplicar-se a outras áreas da vida actual, tão obcecada pelo sucesso e pela aparência e indiferente à essência e qualidade dos valores produzidos.


28 de Setembro de 2021


 

domingo, 29 de dezembro de 2019

Ingmar Bergman: O Caminho contra o Vento

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Ingmar Bergman: O Caminho contra o Vento, Cristina Carvalho, 2019


 


Pertenço a uma geração que viu grande número de filmes realizados por Ingmar Bergman. Filmes de personagens, com grandes diálogos, marcados por uma cultura e uma paisagem muito distintas daquelas a que estávamos habituados. Cristina Carvalho, neste romance biográfico desvenda-nos um Bergman solitário, voluntariamente isolado, a viver os seus últimos anos, na ilha de Farö no mar Báltico.


A ilha que escolheu para viver em 1960 quando ainda jovem e onde filmou alguns dos seus filmes é agreste, pequena, isolada, muito ventosa, um lugar improvável para alguém querer ali estabelecer-se. Para além dos habitantes da ilha que o acolheram e aceitaram como um dos seus, foi o silêncio apenas quebrado pelos sons das aves, a praia, as rochas, as pequenas flores  do tremoceiro e sobretudo a paz que o atraíram para aquele lugar longe da multidão e do resto do mundo. Agora, já velho, quando sai de casa para o seu passeio pelos trilhos até à praia, ao abrir a porta empurrando-a contra o vento, pergunta-se até quando o conseguirá fazer. O vento é uma constante e as forças já lhe faltam. 


O seu estilo de vida metódico, marcado pela pontualidade, pelo rigor e pela perfeição quer na actividade teatral como director de actores, como realizador de cinema ou na escrita de guiões, esse estilo manteve-o na ilha, já afastado de qualquer actividade profissional. As rotinas diárias quase obsessivas do acordar, do passeio pela praia, do ler, do ouvir música ou de ver filmes no celeiro-cinema em Dämba são rituais que ele ama e que vai fazer praticamente até ao final dos seus dias. Ignorando telefonemas, quase sem contactos humanos, tem apenas de conviver a contragosto com Anita que lhe cuida da casa e lhe prepara as refeições.


No seu diário imaginado faz desabafos. Recorda o pai, um tirano, um padre protestante que só era gentil com os seus paroquianos, mas que vivia para infernizar a vida de Ingmar, do irmão, da irmã e da mãe, para os violentar e para lhes pregar sermões. Atribui ao pai as dores de estômago que desde sempre teve e que associa ao pânico que ele lhe infundia. Um homem maléfico que o levou a abandonar a casa paterna muito cedo. Mas, sem dúvida, foram as figuras femininas omnipresentes no romance e na vida de Ingmar Bergman que foram marcantes na vida e na personalidade do cineasta. A mãe, Karin Bergman, que ele vai associar muito à sua quinta e adorada mulher Ingrid, a avó Anna Calwagen que lhe dava toda a liberdade e as várias mulheres com quem casou, com quem teve relacionamentos diversos ou que passaram pela sua vida. Foram muitas. Mulheres fortes, algumas belíssimas, todas elas artistas em diferentes áreas e géneros, a todas ele amou e manteve com elas uma amizade até ao fim da vida. Muito ausente da vida dos nove filhos das suas seis mulheres, deixou-lhes, no entanto, em testamento, o dinheiro resultante do leilão das casas que construiu na ilha de Farö e que actualmente são geridos por uma fundação e constituem um complexo de equipamentos destinados às artes e a residências de artistas e investigadores da obra e do extenso legado de Ingmar Bergman.


Sendo um romance biográfico, não é uma biografia, pelo que a autora usou toda a liberdade literária para, a partir das pesquisas e de toda a informação que recolheu sobre o cineasta, nos fazer um retrato da personalidade e dos traços gerais da vida de um homem comprometido com um trabalho de elevada qualidade. “Lembro-me de tantos filmes modestos que realizei, tão modestos na sua dimensão artística. Sim, porque eu sei a qualidade de tudo o que fiz”. “ Eu sou, eu fui , um artista.” “Toda esta situação de aprendizagem levou-me muito tempo. O compromisso era comigo próprio. Eu estava decidido a ser grande. Eu seria o maior cineasta do meu tempo e durante muito tempo.” Para quem quiser ler a biografia de Bergman poderá ler “A Lanterna Mágica”, uma curta autobiografia do cineasta. Talvez aí não nos surjam as insónias do velho Bergman assaltado por memórias, medos da infância, frustrações, desamores, incompreensões de muitos conterrâneos que não gostavam dos seus filmes – “não gostam de se ver retratados a nu, sem véus e sem mentiras” – ao contrário dos naturais da ilha que o amavam e consideravam um dos seus, um verdadeiro Faröbo.


Este é o segundo romance biográfico de Cristina Carvalho que leio. Tal como em “A Saga de Selma Lagerlöf”, em “Ingmar Bergman – O Caminho contra o Vento” é palpável a paixão que se estabelece entre a escritora e os biografados e que fica vincada no final dos livros quando a despedida é um luto doce, mas doloroso. Fica a vontade de ler “A Lanterna Mágica”. Fica a vontade de revisitar os filmes de Ingmar Bergman e recordar as suas personagens, as paisagens fustigadas pelo vento agreste e a mestria de um cineasta único que pôs na sua arte tudo o que tinha para lhe dar.


 


28 de Dezembro de 2019


Almerinda Bento


 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...