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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Coração sem Medo, Itamar Vieira Junior



“Coração sem Medo”, Itamar Vieira Junior, 2025

Que difícil é escrever sobre um livro e uma trilogia tão fortes, tão profundos, tão universais. Impossível não ficar com a sensação de que qualquer coisa que se escreva como reflexão depois desta leitura ficará sempre muito aquém e será muito pobre face a um trabalho de grande fôlego como é esta Trilogia da Terra. 

Neste “Coração sem Medo” vamos descobrir a ligação de Rita a Donana e a Carmelita que nos tinham aparecido em “Torto Arado”, tal como em “Salvar o Fogo” descobrimos Maria Cabocla (Mariinha) irmã de Luzia. As histórias entrelaçam-se, os anos passam e os lugares são diferentes, mas há um continuum que vem dum passado remoto, da escravização, da luta pela terra e pela dignidade, numa resistência contra as opressões sem fim que teimam em permanecer.

Em todos os três livros, partimos duma situação inicial dramática, em torno da qual se vai desenvolver a narrativa. Aqui Rita, que podia ser Ritinha, mas que ficou sendo Rita Preta, para o nome não ser confundido com o da patroa, confronta-se com uma situação limite: o desaparecimento de um filho. Numa sociedade profundamente injusta e desigual, violenta, marcada pelo atropelo de direitos, pela precariedade e pelo racismo, Rita Preta mora numa comunidade pobre em que os moradores são, à partida, tratados como bandidos. O pressuposto é que, se Cid, jovem adolescente filho de Rita Preta desapareceu, alguma coisa deve ter feito. Alguém a medo confessa que assistiu à cena da sua captura pela polícia. A aflição, o desespero inicial, o sentimento de culpa, o lutar, o não ficar parada, o resistir às ameaças, o vencer o medo, o cair e levantar-se, por tudo isto passa Rita Preta que tem de gerir o cuidar dos outros filhos e sobreviver com o pouco que tem, sem desistir de descobrir o paradeiro do filho desaparecido. Face às ameaças explícitas “Isso é o que fazemos com mulheres fortes” (pág. 141) só há duas hipóteses: calar ou expor-se. 

Neste mover o mundo para localizar o filho, Rita Preta também descobre solidariedades e outras mulheres a viver o mesmo drama, que se entreajudam, que partilham as suas histórias e fazem disso a sua força. “Quando alguém desaparece, é como se a vida não terminasse. Está faltando alguma coisa. É uma história sem ponto-final.” (pág. 261) E mesmo num mundo desumanizado e corrompido pela desesperança ainda há funcionários dos serviços com coração e humanidade, prisões onde há um espaço para a leitura e para a conversa, associações que dão o seu tempo para lutar contra a arbitrariedade. Sendo este um livro muito duro, ele consegue, no entanto, ser um raio de esperança para um futuro mais justo.

Um dia, no meio dos muitos afazeres, Rita Preta - trabalhadora precária, mãe sozinha com três filhos a cargo - desabafa: “Minha vida daria um livro.” (pág. 272). Mal ela sabia que um dia, Cainho, o filho do meio iria registar a história da mãe, da avó, da bisavó, das e dos que as antecederam, ligando a história da família à história do Brasil, da escravização, como forma de resistência, lutando contra o esquecimento, pelo direito à preservação da memória.

Esta Trilogia da Terra que agora chega ao fim é um registo vivo, não linear, com incursões em múltiplos tempos, espaços e personagens e trazendo diferentes vozes e narradores que irão permanecer vivos na memória por muito tempo.

29 de Julho de 2026

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

“Cartas para minha Avó” – Djamila Ribeiro

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“Cartas para minha Avó” – Djamila Ribeiro, 2024


 Este foi um dos livros que a minha amiga Guilhermina Gomes generosamente me ofereceu, na última vez que estivemos juntas. Em boa hora. Um livro extraordinário que devorei,  que interrompi para ouvir Milton Nascimento, ou me levou a anotar “Olho mais Azul” de Toni Morrison para ir buscar à Biblioteca Municipal. Um livro que me ensinou muito e me pôs a reflectir sobre muita da temática do racismo vivido por mulheres, pela primeira vez.


“Cartas para minha Avó” é tão actual; devia ser lido por todas as mulheres e … homens. É um livro autobiográfico em que, através de cartas que escreve à avó Antónia que teve sete filhos e faleceu aos 68 anos, nos fala de assuntos que nunca teve oportunidade de falar com a avó enquanto ela foi viva. É de racismo que fala, mas também de desigualdade de género, na pele de uma mulher negra. Djamila Ribeiro é das escritoras brasileiras mais lidas na actualidade, é filósofa, ocupa desde 2022 o lugar 28 da Academia Paulista das Letras, anteriormente ocupado pela escritora Lygia Fagundes Telles e a BBC incluiu-a na lista das 100 mulheres mais influentes e inspiradoras do mundo.


Logo no início do livro, dirigindo-se à avó, a narradora escreve: “Como você lidava com o racismo? Será que pensava sobre isso ou foi forçada a naturalizá-lo? Eu não tive tempo de lhe perguntar nada disso. Quais eram seus sonhos, seus medos?” (pág. 15) “Que saudade de suas mãos lindas, mãos com história, com calos, mas macias ao acarinhar e trançar meus cabelos.” (pág. 13) Lamenta não ter conhecido a avó e a mãe, Erani Benedita, como mulheres, para além dos seus papéis de avó e mãe. Recorda que não foi fácil ser uma menina preta e lembra que a rigidez e dureza da mãe ao educá-la e à irmã eram no sentido de que não podiam errar. Errar era um privilégio de brancos. “Estou-te preparando para a vida” (pág. 26), mas essa educação e todos os castigos que lhe infligia foram negativos na sua auto-estima, a acrescentar a todo um sistema de segregação social que vivenciou na escola e através dos modelos difundidos nos meios de comunicação social. Aquilo que não conseguiu compreender quando criança, percebeu mais tarde quando teve noção de que a “mãe foi um espírito livre enjaulado” “corroída” pela tristeza e invisibilidade. (pág. 61). “Minha mãe teve suas asas cortadas por muitas tesouras, e dizer a ela que a compreendíamos foi como fazer um pedaço se colar.” (pág. 61) Também só mais tarde, a narradora conseguiu perceber a diferença entre o Joaquim pai que sempre lutou por que as filhas fossem independentes e o Joaquim marido que no final da vida confessou à filha, chorando “Eu estou sofrendo porque fiz sua mãe sofrer.” (pág. 82)


A bagagem que a educação da avó e da mãe lhe deu permitiu-lhe recusar relações em que não se sentiu respeitada, relações controladoras e possessivas em que ela apenas era vista como instrumento de prazer. Mesmo que elas nunca tivessem sabido o que era o feminismo, quer a avó quer a mãe sempre lhe mostraram a importância de se defender. E isso foi determinante para ter com a filha Thulane, (que significa “a pacífica” ) uma relação diferente, aberta a falar sobre sexo e menstruação, por exemplo, aquilo a que ela chama quebrar o ciclo do não-dito.


Nestas cartas à avó, a narradora fala da sua experiência de maternidade, da ambivalência tão comum e tão pouco compreendida de sentimentos de felicidade e incompletude e da sua decisão de continuar a estudar, da grande luta pessoal para uma conciliação tão difícil. “Eu amava ser mãe, mas odiava o papel que a maternidade me impunha” (pág. 156); era “a abdicação da nossa existência como sujeito” (pág. 157).


É também com orgulho que conta à avó o que fez para quebrar o ciclo de pobreza e exclusão que tinha sido a vida da mãe e da avó. Trabalha e vai estudar Filosofia, mas “Eu me deparei com um curso branco, masculino e eurocêntrico” (pág. 168), mas a epifania deu-se quando conheceu pesquisadoras negras e teve contacto com feministas da América Latina que lhe alargaram a sua apreensão sobre o feminismo. Foi convidada para exercer cargos na área dos direitos humanos aquando da gestão de Fernando Haddad, teve a possibilidade de entrevistar Marielle Franco e assinala o papel que a leitura de grandes escritoras como Toni Morrison, Maya Angelou ou Alice Walker tiveram no seu percurso e no seu desenvolvimento como mulher e pensadora.


E finalmente, a história da avó e o seu exemplo não são alheios à sua escolha por uma espiritualidade profunda, por uma vivência simples e de grande comunhão com a filha Thulane.


Volto à ideia inicial. Um livro essencial para quem quer ter uma visão abrangente do feminismo, do racismo e da luta pela superação e combate ao racismo e à desigualdade,


5 de Julho de 2025


 


 


 


 


 

sexta-feira, 10 de junho de 2022

O Autocarro de Rosa Parks

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Este ano, provavelmente já teria ido, pelo menos uma vez à Feira do Livro. Já teria percorrido os pavilhões ao longo das duas áleas que ladeiam o Parque, já teria olhado maravilhada para os jacarandás, já teria encontrado uma sombra para me sentar a descansar e a beber água, já teria folheado os livros que tinha comprado, tentando descobrir alguns dos que faziam parte da lista a que vou acrescentando sempre mais um...

O ano passado fui lá três vezes, para matar uma imensa saudade. Não sei por que motivo este ano a Feira não aconteceu na época dos jacarandás. A covid continua aí, mas a maior parte de nós já anda sem máscaras, já foi vacinada e já esteve infectada. Em 2022 a Feira do Livro vai novamente ser no Verão, no fim de Agosto até 11 de Setembro.

Em 2013 comprei este livro. A recordar-me tenho o facebook que nos lembra estas coisas e hoje decido postar aqui um pequeno texto sobre este livro que comprei nesse ano, quando ainda não tinha criado o meu blogue. 

O Autocarro de Rosa Parks, Fabrizio Silei e Maurizio Quarello, 2011

Era um livro que procurava há já alguns meses e que finalmente descobri no último dia da Feira do Livro deste ano. Estava na secção infanto-juvenil de uma das editoras presentes, mas como acontece com os bons livros para crianças, a sua leitura adapta-se a qualquer idade, quer se seja criança, jovem ou adulto/a.
Trata-se de uma viagem feita por um avô e neto ao Museu Henry Ford em Detroit, para verem, entrarem e sentarem-se naquele lugar onde a 1 de Dezembro de 1955, Rosa Parks, uma costureira negra de 44 anos se recusou a ceder o seu lugar no autocarro a um homem branco. Essa recusa, esse “NÃO” convicto e sereno foi o detonador de um movimento formidável da comunidade negra norte americana contra a segregação racial, apoiada por um outro homem de grande coragem que foi Martin Luther King.
O avô, um dos passageiros negros que então cedera o seu lugar como era habitual, quis dar ao neto o testemunho da coragem dessa mulher que, por se ter recusado a fazer o que era suposto, fez história e mudou uma página no curso da luta pela justiça e emancipação social.
«Há sempre um autocarro que passa pela vida de cada um de nós. Mantém os olhos bem abertos e não percas o teu.»
Não é por acaso que a Amnistia Internacional Portugal associou o seu logo à edição deste belo livro que vale não só pelo texto de Fabrizio Silei como pelas expressivas ilustrações de Maurizio Quarello.
Para ser lido e relembrado este gesto de resistência à segregação e ao apartheid protagonizado por uma simples mulher, associando-lhe os nomes de grandes figuras da luta contra o racismo: Martin Luther King e Nelson Mandela. 

 

 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

O Alegre Canto da Perdiz

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Trago hoje aqui um texto que escrevi sobre "O Alegre Canto da Perdiz" de Paulina Chiziane, cuja obra foi agora justamente reconhecida com o Prémio Camões.


 


O Alegre Canto da Perdiz, Paulina Chiziane, 2008


Vinda do Gilé, um dos distritos da Zambézia, província do centro de Moçambique, os meus dedos agarraram por acaso, na estante da casa em Maputo da minha amiga Zita, este livro de Paulina Chiziane. Autora que já conhecia de outros livros, ao começar a leitura de “O Alegre Canto da Perdiz” senti que afinal ainda estava na Zambézia, entre aquelas mulheres sofridas e lutadoras com quem tive a oportunidade de conviver nas terras distantes e esquecidas do Gilé.


É um livro marcante, com trechos que é preciso ler devagar, saborear, anotar, voltar atrás. Poesia pura. Complexo, aborda temas muito vastos: a colonização, o racismo, a assimilação, a traição, a ambição de ter uma vida melhor mesmo que isso seja a destruição dos outros e/ou a autodestruição, a guerra de libertação, os conflitos entre raças e entre sexos. As contradições da vida, o remorso, o arrependimento, o reencontro e a reconciliação.


É a exaltação da Natureza, a exaltação da Zambézia e dos Montes Namuli origem da humanidade, a terra dos palmares e do canto da perdiz logo pela manhã (gurué, gurué). A exaltação da(s) Mulher(es), da sua diversidade, dos corpos, da sexualidade, das suas lutas, das violências que sofrem e que infligem, da sobrevivência.


As histórias daquelas mulheres – Serafina, Delfina, Maria das Dores e Maria Jacinta – são pretexto para falar do estatuto das mulheres na sociedade, do seu papel e da permanência das violências qualquer que seja o regime em que tenham vivido. E para os homens também – José dos Montes, Simba, Moyo – o sonho da liberdade é uma miragem, porque a independência não é o fim do colonialismo. “Nessa independência que sonhamos o mundo não será o mesmo. Libertaremos a terra, sim, mas jamais seremos senhores… O colonialismo habitará a nossa mente e o nosso ventre e a liberdade será apenas um sonho.”


No entanto, e mesmo ao chegarmos ao fim deste romance que é também uma pinceladada história do povo moçambicano ao longo dos séculos, a autora quis-nos deixar um sinal de esperança no futuro, quando José dos Montes – o sipaio assimilado que matou sem remorso – diz à sua mulher Delfina – que por ambição se prostituiu e prostituiu a filha-criança: “No final desta guerra seremos um. Esses filhos metade pretos, metade brancos, metade asiáticos, serão os fósseis a partir dos quais se compreenderá a nossa História. Nas próximas gerações as raças se amarão, sem ódio nem raivas, inspiradas no nosso exemplo. A humanidade aventureira conquistará outras estações celestes com gente azul e verde. Terá chegado o momento de inventar novas raças e recriar novas humanidades. Os pretos, os brancos e seus mulatos deverão expurgar ódios, raivas e ressentimentos que ainda restem.”


Março 2014


 

sábado, 13 de março de 2021

Caderno de Memórias Coloniais, Isabela Figueiredo

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“Caderno de Memórias Coloniais”, Isabela Figueiredo, 2009


Um livro sem rodriguinhos, em que a narradora recorda a sua infância vivida em Moçambique até aos 13 anos e os seus primeiros tempos em Portugal, então já como retornada. Organizado em capítulos, alguns bastante breves e sincopados, são como flashes, diapositivos do colonialismo e da vida colonial.


As personagens centrais deste “Caderno de Memórias Coloniais” são o pai da narradora (uma menina branca) e a própria narradora. O pai é o homem que ela ama e que vai trair (verbo que usa várias vezes ao longo da narrativa) porque renega os comportamentos incompreensíveis, reprováveis e inaceitáveis que ele tinha para com os naturais daquele país de África. Um livro forte, directo, a descascar o complexo colonial de ocupação abusiva e de desrespeito pelo outro, porque o outro é de cor diferente, tem uma natureza inferior, era um animal. “Venham falar-me do colonialismo suavezinho dos portuguesesVenham contar-me a história da carochinha”, diz a narradora quase no final do livro.


Para além de ser um livro desassombrado e honesto, tem honras de prefácios de Paulina Chiziane e de José Gil, já eles dignos de serem lidos e aqui referidos. “Este livro trata das relações de género, do colonialismo e do nacionalismo. Poucas são as obras literárias que tratam destas questões com tanta profundidade.” escreve a escritora moçambicana. E continua: “ Estávamos eu e tu, cada uma no seu lado da barricada, quando o colonialismo aconteceu. Tu, branca, filha de um colono racista e eu, negra, filha de um colonizado, também racista.” Já José Gil assinala, a terminar: “Estas “memórias” são mais do que lembranças, são a própria vida, ontem-agora, a nossa vida de filhos de colonos (ou não) de Moçambique. Neste sentido, o “Caderno de Memórias Coloniais” de Isabela Figueiredo é mais do que um inventário romanceado de factos e acontecimentos: consegue exprimir-nos como se nós, leitores, tivéssemos todos atravessado o que autora experienciou. Nós todos somos “a pequena colona branca” com alma de preta, com a existência estilhaçada e o violento desejo de viver.”


Mas ainda antes dos prefácios, a autora dirige umas palavras prévias a quem a lê, explicando o porquê deste “Caderno”: “Não havia com quem falar sobre as coisas que me interpelavam, nomeadamente as que juntavam e separavam um ser humano de outro. Não existia essa linguagem nem discurso. Ninguém era capaz de me explicar.” (…) “O paradoxo reside no facto de só se ultrapassarem os choques de uma vivência, desenterrando-a, revolvendo os seus restos. O tempo silencioso apenas se abstém de produzir ruído.” (…) “A História enfrenta sempre esse grande óbice, que cabe aos investigadores ultrapassar: o silêncio sobre o que muito se calou ou escondeu. O que não honra. O lixo faz-se desaparecer, os cadáveres emparedam-se e tudo deixa de existir. Não vimos, não sabemos, nunca ouvimos falar, não demos por nada.”


“O “Caderno de Memórias Coloniais” relata a história de uma menina a caminho da adolescência, que viveu essa fase da vida no período tumultuoso do final do Império colonial português. O cenário é a cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo, espaço no qual se movem as duas personagens em luta: pai e filha. São símbolos de um velho e de um novo poder; de um velho mundo que chegou ao fim, confrontado por uma nova era que desponta e exige explicações. A guerra dos mundos em 1970.”


“Mas o “Caderno” transcende as questões de poder colonial, racial, social e de género, transformando-se, também, numa narrativa de amor filial conturbado e indestrutível.”


A linguagem é crua, capaz de escandalizar espíritos mais sensíveis. Aliás, o livro foi mal amado por muitos que se viram retratados, mas que não assumem as marcas odiosas do colonialismo e do racismo; mas também foi muito bem recebido “pela crítica, pela Academia e pelos leitores em geral”, tendo sido lido e estudado no mundo inteiro, com várias edições desde 2009, indo já na 9ª edição. Pretas e senhoras (mulheres decentes), pretos e brancos, havia uma clara separação e hierarquização, pelo que embora um branco pudesse casar com uma negra, uma branca assumir uma relação com um negro levaria à inevitável proscrição social. A estratificação estava claramente estabelecida: quem vendia na rua; quem tinha acesso só ao elevador de serviço para ir buscar o lixo do prédio; quem recebia as sobras; quem recebia roupa velha e rasgada; quem se sentava em determinados lugares no cinema e só naqueles.


A filha do electricista que observa tudo e que ouve as conversas do pai com os outros homens e que, quando é mandada para a Metrópole, com a incumbência de contar o que os pretos estavam a fazer aos brancos que só sonhavam transformar África numa Califórnia, sente que traiu o pai porque nunca foi capaz de o fazer. Ou de o fazer, como ele queria. A verdade é que “o tempo dos brancos tinha acabado.”


Há pois, nesta obra, um antes e um depois da independência. A menina branca, filha do colono racista, vai viver para a casa miserável da avó, vai ser a retornada gorda, vai sentir o desenraizamento e o desamor com que é olhada pelos portugueses da Metrópole.


Estes são breves traços do livro e da leitura que faço dele, mas acho que ele ainda fica mais rico com os prefácios com que Paulina Chiziane e José Gil brindaram este livro imprescindível para se fazer a história do colonialismo e racismo português.


5 de Março de 2021


 

segunda-feira, 30 de março de 2020

Beloved, Toni Morrison

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“Beloved”, Toni Morrison, 1987


 


“Beloved”, que deu a Toni Morrison o Prémio Pulitzer em 1988, é considerada uma das obras mais significativas da escritora norte-americana e com grande peso na atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1993.


É um livro poético, forte e duro. Precisa de atenção e concentração, pois, sobretudo ao princípio, há elementos que causam estranheza e que me obrigaram a voltar atrás e a reler para tentar perceber certos elementos. Embora só com o desenvolvimento da narrativa alguma dessa estranheza vá sendo superada com o desvendar de detalhes apenas aflorados inicialmente, tenho de reconhecer em mim, como leitora, a dificuldade de concentração na nova situação de confinamento, por motivo da pandemia do vírus global.


É uma história dura que se passa no período pós-escravatura, depois de terminada a Guerra de Secessão, em que as marcas deixadas pela escravatura são tão fortes que não se apagam, antes corroem e destroem. Enlouquecem quem não consegue esquecer que foi escravo, que tenta aprender a liberdade soltando-se das amarras dum passado indizível. Porque o racismo não desaparece por decreto, nem na atitude do opressor nem na cabeça do oprimido.


“Todos lhe ensinaram como era acordar de manhã e poder decidir o que fazer com o dia. Pouco a pouco… juntamente com os outros, afirmara-se. Libertar-se era uma coisa; reclamar a propriedade do próprio corpo era algo bem diferente” (p. 131)


“Ele sabia exactamente o que ela queria dizer: chegar a um lugar onde se podia amar tudo aquilo que se escolhesse – sem precisar da autorização para o desejo –, ora bem, isso era liberdade.” (p. 217)


Muito poucos tinham morrido na cama, como Baby Suggs, e nenhum daqueles que conhecia, incluindo Baby, tinha vivido uma vida sofrível. Até os negros educados: aqueles que tinham andado muito tempo na escola, os médicos, os professores, os que escreviam nos jornais, os que tinham negócios, até esses tiveram um difícil caminho a percorrer. Para além de precisarem de usar a cabeça para avançar, carregavam aos ombros o peso de toda a raça. Os brancos achavam que quaisquer que fossem os modos, sob cada pele escura existia uma selva. Águas rápidas e intransitáveis, babuínos que se baloiçavam aos guinchos, serpentes adormecidas, gengivas vermelhas preparadas para o seu sangue doce e branco. De certo modo, pensou, tinham razão. Quanto mais os negros se desgastavam a tentar convencê-los que eram amistosos, que eram inteligentes e afectuosos, que eram humanos, quanto mais se cansavam a convencer os brancos de algo que achavam que nem devia ser questionado, mais a selva crescia e se adensava.” (págs. 262 e 263)


É, sobretudo, uma história de mulheres. De raparigas que foram violadas sistematicamente, que tiveram vários filhos de pais diferentes, de mulheres que mataram as filhas à nascença para evitar que lhes  acontecesse o mesmo que a elas, de mulheres grávidas que foram amarradas e açoitadas, de mulheres que foram queimadas, de mulheres que se prostituíram para dar de comer aos filhos, de mulheres reprodutoras para darem filhos para serem vendidos, de mulheres que quase enlouquecerem porque não conseguem esquecer. Sethe, que “traz às costas uma árvore”; Baby Suggs, a memória viva da escravatura, cujo filho lhe comprou a liberdade quando já não lhe servia de nada; Denver, a menina triste, solitária, com saudades dos irmãos, que nasce numa canoa, ajudada por Amy, uma rapariga branca que ia para Boston; Beloved, a menina fantasma que se vem vingar por uma vida que lhe foi roubada. Mas é também uma história de solidariedade das mulheres da comunidade que ultrapassam comportamentos e se juntam quando não pode deixar de ser.


Sendo uma história de mulheres, os homens não estão ausentes e o inimaginável que um ser humano possa fazer a outro, só por uma questão de cor da pele, é-nos revelado por Paul D. Nos dezoito anos em que esteve fora, conheceu os trabalhos forçados acorrentado a outros homens, as canções de trabalho, a prisão, as fugas sempre à procura de um lugar melhor para viver, o sol ardente, as chuvas torrenciais, a lama, a terra, a palha e as cascas das árvores como cama. E quando, pela primeira vez, um branco lhe pediu ajuda para descarregar duas arcas de uma carruagem e no final lhe deu uma moeda, ele ficou a olhar para a moeda e perguntou-se o que fazer com ela.


Uma história dolorosa e complexa, com as marcas da culpa e do remorso, mas com a força redentora de que a solidariedade é a salvação. Mesmo a terminar, o diálogo de Paul D com uma Sethe desinteressada da vida:


“ – Sethe – disse –, tu e eu, temos mais ontens que qualquer pessoa. Precisamos de alguns amanhãs.


Inclina-se para a frente e pega-lhe na mão. Com a outra, toca-lhe no rosto.


 – Tu és a tua melhor coisa, Sethe. És tu. – Os dedos dele seguraram os dedos dela.


– Eu? Eu?” (p. 354)


 


22 de Março de 2020


Almerinda Bento


           

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie

Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie, 2013


Já conhecia Chimamanda de uma TED talk em que participou a falar sobre o perigo da história única e também da leitura de “Todos devemos ser Feministas”. Quer um quer outro deixaram-me maravilhada. Desta vez, “Americanah” um volumoso romance em que a personagem principal é uma jovem nigeriana e o seu percurso de vida na Nigéria, nos Estados Unidos e depois de novo na Nigéria. Mas é muito mais do que um romance. É, sobretudo, uma reflexão profunda sobre as sociedades nigeriana e norte americana das últimas décadas. Sobre o estado do mundo. E sim, “Americanah” tem a ver com a cor da pele, mas não é um livro a preto e branco.


Assolada por guerras civis e ditaduras, a Nigéria era para muitos jovens estudantes um país sem futuro, sem perspectivas. Os Estados Unidos da América representavam o sonho de aí poderem estudar e viver.  Como dizia a mãe de Obinze, o seu jovem namorado, quando Ifemelu se foi despedir dela “A Nigéria está a enxotar os seus melhores recursos.” Só que quando chega à “gloriosa América”, Ifemelu descobre que a realidade é muito diferente daquilo com que sonhara quando vivia em Lagos. Descobre uma sociedade de consumo, com falsas “necessidades” e “escolhas” que são impostas, nos supermercados, nos hábitos alimentares e de vida. A linguagem cheia de tiques, as palavras fetiche que as colegas usavam tudo isso foi um choque inicial, uma perplexidade, mas a que se foi acostumando. Ifemelu sempre fora considerada insubmissa e crítica e tinha esse filtro que, apesar das transformações a que vai ser sujeita, a levam a preservar a sua identidade, resistindo ao sotaque americano, investindo na leitura e fazendo amizade com a Associação de Estudantes Africanos que a vai ajudar a detectar as diferenças dos relacionamentos dos americanos, quando se trata de afro-americanos ou africanos. Ifemelu percebeu como os Americanos olhavam com comiseração para os Africanos, do alto da sua superioridade. Esta aprendizagem foi relevante e levou-a a iniciar um blogue sobre “estilos de vida”, resultado do que ia observando, mas cujo objecto era o tema “raça”. Esse blogue ajuda-a a sobreviver na América, ultrapassando os momentos mais difíceis, a solidão e torna-se famoso pela acutilância. “Eu sou de um país onde a raça não era um problema; não pensava em mim própria como negra, só me tornei negra quando vim para a América”, escreve num post. O blogue de Ifemelu é irónico sobre os tiques racistas e/ou politicamente correctos dos americanos brancos para com os africanos, catalogados como uma entidade única. No fim de cada post, faz sempre um apelo a que os seus leitores se pronunciem e façam sugestões.


Os cerca de treze anos que Ifemelu viveu nos EUA permitiram-lhe ter vários relacionamentos e conviver com diferentes tipos de pessoas, sobretudo com uma elite intelectual ligada à universidade, também ela com códigos, linguagem e registo fechados, um manancial para o seu blogue.  Vive intensamente o período eleitoral da campanha à presidência dos Estados Unidos que desemboca na eleição de Barack Obama. Inicialmente adepta de Hillary Clinton, a possibilidade de a América poder vir a ter um negro como presidente, leva-a a apoiar a campanha de Obama. Uma experiência única. Uma felicidade indescritível.


Mas a sua bolsa de investigação terminou e o apelo do regresso à Nigéria é mais forte. A sua terra natal, entretanto, transformara-se e, tal como anos antes ela se tinha adaptado à sociedade norte americana, agora era preciso adaptar-se à Nigéria actual. Uma sociedade de novos ricos, inundada por telemóveis, seduzida pelo que é estrangeiro, bajulando quem é poder, onde as igrejas manipulam os incautos e onde as aparências é que contam. As suas antigas amigas do secundário só falam em casamentos. Por norma “uma mulher não se casa com o homem de quem gosta. Casa-se com o homem que melhor a possa manter”. O desconforto de Ifemelu fá-la balançar entre a saudade de uma América organizada a que se habituara e a saudade duma Nigéria que tinha deixado quando jovem estudante universitária. O seu primeiro emprego numa revista que não a satisfaz leva-a a entusiasmar-se com a ideia de criar um novo blogue sobre a realidade nigeriana, sobre as pessoas concretas e seus problemas, sobre saúde, religiões, igrejas. Será “As Pequenas Redenções de Lagos”.


“Mesmo assim, estava em paz por estar em casa, por estar a escrever o seu blogue, por ter descoberto Lagos outra vez. Sentia-se por fim completamente realizada. “



  • “Então, ainda tens um blogue?



  • Ainda.



  • Sobre raça?



  • Não, só sobre a vida. A raça não resulta realmente aqui. Sinto que saí do avião em Lagos e deixei de ser negra.



  • Aposto que sim.”


 


 


Para além de Ifemelu, Obinze é a segunda principal personagem de “Americanah”, mas a tia Uju, Dike o seu filho e a mãe de Obinze são personagens muito interessantes. Obinze esbarra com as restrições de acesso a um visto para ir para os Estados Unidos em sequência dos acontecimentos do 11 de Setembro e tem de se virar para Inglaterra. “As pessoas estavam famintas de escolha e de certeza” e imigravam não apenas para fugir à guerra ou à pobreza. Mas, em Inglaterra, apesar da sua formação universitária, ele é um imigrante ilegal, é como se não existisse, pois não tem um número na segurança social que lhe permita trabalhar e viver. O tema da imigração está na ordem do dia e para Obinze a vulnerabilidade é o seu dia-a-dia. “A classe neste país está no próprio ar que as pessoas respiram.” O mundo paralelo é o que permite sobreviver e isso significa fazer negócio com um nigeriano que lhe passa o seu cartão, deixando de ser Obinze para passar a ser Vincent, ou estabelecer contactos com angariadores angolanos que lhe arranjem casamento com uma jovem naturalizada inglesa, para que assim ele possa obter cidadania europeia.


O racismo, difuso ou explícito, a imigração, a corrupção dos governos, e apesar de tudo isso, a capacidade de resistência e resiliência dos seres humanos são alguns dos muitos temas que Chimamananda Ngozi Adichie coloca neste livro. Ifemelu regressou ao seu país natal, transformada, mas não perdeu a sua identidade e as suas raízes. Ifemelu não é uma americanah típica.


“Americanah” é o livro de uma autora com fortes convicções e muito inspiradora.


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"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...