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sexta-feira, 8 de setembro de 2023

“Crónica do Rei-Poeta Al-Mu’Tamid”, Ana Cristina Silva

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“Crónica do Rei-Poeta Al-Mu’Tamid”, Ana Cristina Silva, 2010


Sei que o próximo livro de Ana Cristina Silva está prestes a sair, mas antes disso quis ler este livro que comprei há tempos a um amigo alfarrabista. Estava autografado, tinha sublinhados e anotações, a que acrescentei os meus próprios sublinhados, o que prova como um livro é apropriado e lido diferentemente por cada leitor. Mais uma personagem – Al-Mu’tamid – que Ana Cristina Silva estudou, pesquisou e nos dá um retrato complexo e interessante.


Al-Mu’tamid foi uma personagem que eu desconhecia em absoluto e a leitura deste livro permitiu-me conhecer, não só este emir que viveu no final do século XI, mas também um pouco da história do chamado Al-Andalus, ou seja, a região do sul de Espanha, o sul do Alentejo e Algarve, quando essas regiões estavam divididas em taifas que eram governadas por reis mouros. Al-Mu’tamid nasceu em Beja, foi governador em Silves e governou Sevilha após a morte do pai. Ao contrário do pai, cujo objectivo quase exclusivo foi combater e fazer guerra, Al-Mu’tamid tinha outras intenções que passavam por uma governação menos ligada à guerra e em que a poesia, a cultura e a filosofia teriam um maior peso. As disputas e rivalidades entre os emires das taifas, as investidas dos cristãos a norte e as ambições dos almorávidas de Marrocos descontentes com o fraco apego dos emires aos ensinamentos de Alá precipitaram o o fim de Al-Mu’tamid  e o fim do reino Al-Andalus.


Esta “Crónica” constituída por vários capítulos cujos títulos são versos de diversos poemas de Al-Mu’tamid é, não só o relato da vida do rei-poeta, mas uma longa reflexão sobre um destino que ele não quis, num período de profunda convulsão social e política que transformou a Península Ibérica. “A verdade é que nem como emir me distingui” … “Nasci com vocação para poeta, mas o destino quis que eu administrasse um reino” (pág. 32). A função de governante não se ajustava ao seu perfil. O seu ideal era celebrar a beleza através da poesia e a paz com que sonhava teve de ser adiada indefinidamente pelas circunstâncias. Fora os momentos descontraídos e de felicidade da sua juventude, em que a arte e o prazer andaram de mãos dadas, o seu destino obrigou-o a seguir um caminho que não quis e a viver com os fantasmas do pai a quem queria agradar e dos filhos pelas suas mortes.


Para além do remorso e do luto por mortes que não conseguiu evitar e por outras que protagonizou, viveu de perto a intriga da corte, a falsidade e a traição dos cortesãos. Se o povo, espoliado e cansado da guerra acolheu com júbilo as ideias fanáticas do emir de Marrocos quando este desembarcou com os seus exércitos para derrubar o reino Al-Andalus, - a “glorificação da jihad fazia-se em prejuízo de chamamentos mais lúcidos, mas unia o povo num propósito. A guerra santa era um abrigo seguro para a miséria dos mais pobres.” (pág. 140 - Al-Mu’tamid também encontrou em Marrocos, como prisioneiro, gente que o olhava com “uma certa reverência misturada com compaixão” (pág. 156). De tantos quantos viveram com Al-Mu’tamid, foi Itimad o maior amor da sua vida e quem o acompanhou até ao fim, estando os seus túmulos em Aghmât, num mausoléu construído pelo filho Arrazi.


“Crónica do Rei-Poeta Al-Mu’Tamid”é uma história sobre o poder, sobre as consequências devastadoras das guerras, sobre o remorso, sobre a solidão e sobre o amor. E também sobre o fanatismo religioso que continua a subjugar povos nos dias de hoje, com base em ideias e pressupostos primários saídos da cabeça de fanáticos sem escrúpulos.


 


8 de Setembro de 2023


Almerinda Bento

segunda-feira, 6 de abril de 2020

A Peste, Albert Camus

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E enquanto não escrevo aqui sobre "A Peste", livro de 1947 de Albert Camus, transcrevo aqui um parágrafo do livro, numa fase inicial do mesmo.


 


"A palavra «peste» acabava de ser pronunciada pela primeira vez. Neste momento da narrativa que deixa Rieux atrás da sua janela, permitir-se-á ao narrador que justifique a incerteza e o espanto do médico, visto que, com cambiantes, a sua reacção foi a da maior parte dos nossos concidadãos. Os flagelos, com efeito, são uma coisa comum, mas acredita-se dificilmente neles quando nos caem sobre a cabeça. Houve no mundo tantas pestes como guerras. E, contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. Rieux estava desprevenido como o estavam os seus concidadãos , e por isso é necessário compreender as suas hesitações . É por isso que é preciso compreender também que ele se dividisse entre a dúvida e a confiança. Quando rebenta uma guerra, as pessoas dizem: «Não pode durar muito, seria estúpido.» E, sem dúvida, uma guerra é muito estúpida, mas isso não a impede de durar. A estupidez insiste sempre , e compreendê-la-íamos se se não pensássemos sempre em nós. Os nossos concidadãos, a esse respeito, eram como toda a gente: pensavam em si próprios. Por outras palavras, eram humanistas: não acreditavam nos flagelos. O flagelo não está à medida do Homem; diz-se então que o flagelo é irreal, que é um mau sonho que vai passar. Ele, porém, não passa e, de mau sonho em mau sonho, são os homens que passam, e os humanistas em primeiro lugar, pois não tomaram as suas precauções. Os nossos concidadãos não eram mais culpados que os outros. Apenas se esqueciam de ser modestos e pensavam que tudo era ainda possível para eles, o que pressupunha que os flagelos eram impossíveis. Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões. Como poderiam ter pensado na peste , que suprime o futuro, as viagens e as discussões? Julgavam-se livres, e nunca alguém será livre enquanto existirem os flagelos." (págs. 49 e 50)


 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...