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terça-feira, 26 de novembro de 2024

Um Cão no Meio do Caminho, Isabela Figueiredo

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“Um Cão no Meio do Caminho”, Isabela Figueiredo, 2022


A escrita de Isabela Figueiredo não me desilude. Depois de “A Gorda” e de “Caderno de Memórias Coloniais”, este, que é o mais recente romance da autora, tem a fluidez e a sinceridade de um romance do quotidiano, das pessoas concretas e nem sempre visibilizadas. Logo a começar o romance, a autora aguça o interesse para a leitura do que virá a seguir: “Quando conheci a minha vizinha do lado a minha vida mudou” (pág. 19) e termina com “ninguém entra na nossa vida por acaso” (pág. 292).


Um romance sobre a solidão, as solidões. Será a solidão uma escolha ou antes fruto de alguma coisa que correu mal? As famílias que se desentenderam? Uma paixão não correspondida? Uma mágoa que não se apagou? José Viriato e Beatriz são dois recolectores: do lixo dos outros, dos “despojos de consumo excessivo” (pág. 45), de cenas, imagens, detalhes captados em fotografias. Cada um com o seu percurso. Ele escolheu viver a sua liberdade, sem conta bancária nem patrões, fazendo o seu próprio horário ao avesso do dos outros; ela enclausurou-se, rodeou-se das suas lembranças, era misteriosa, com a alcunha de “Matadora” para os vizinhos que viam nela uma personagem de filme policial. Se a avó Josefa a viver em Mafra era a única familiar de José Viriato, os cães – Nossa Senhora e Revoltado – livres como ele, eram os seus companheiros e a sua “prioridade” (pág. 87). Beatriz não tinha qualquer familiar e a única amiga que tivera – Nani – há muito falecera.


Estamos no final da segunda década de 2000, antes da pandemia, o contexto que se vive no mundo e na Margem Sul, onde vivem, é-nos recordado: a violência no Brasil de Bolsonaro, a revolta dos coletes amarelos em França, o surgimento de um partido de extrema-direita em Portugal, as incursões racistas da polícia no Bairro da Jamaica. Observador atento aos pormenores, “às miudezas” (pág. 72), sentado no Café Colina, José Viriato atenta no envelhecimento das pessoas e na triste realidade de que “destratar os velhos se tornara costumeiro” (pág. 76) o que lhe traz sentimentos de culpa, ele também pouco atento e nada presente na vida da avó, “alguém na prateleira” (pág. 78), a viver sozinha em Mafra.


As suas histórias que estes dois solitários vão partilhar um com o outro vão-nos sendo desvendadas em flashbacks e igualmente esses episódios das suas vidas vêm agarrados à história, aos tempos a seguir à revolução, as eleições presidenciais, os retornados, os anos 80 e a droga. E se o passado foi decisivo para o que eles são na actualidade, o título do terceiro e último capítulo do romance – “O passado acabou” – é o apaziguamento de duas pessoas que conseguiram ultrapassar a sua solidão, apoiando-se, sem deixarem de ser livres e independentes.


Uma bela história de superação. E de esperança. Nada escrevi aqui sobre Cristo, o primeiro cão de José Viriato e sobre a relação entre eles, tão importante em momentos difíceis no desenrolar da sua adolescência. Fico-me por algumas citações: “Ele não era a minha sombra, mas uma parte de mim” (pág. 153), “Os cães eram a única prisão na qual queria viver” (pág. 239), “O Cristo e o lenço da minha mãe foram a única bagagem que carreguei para casa da minha avó.” (pág. 203).


7 de Novembro de 2024


Almerinda Bento

sábado, 30 de março de 2024

Tanta Gente, Mariana - Maria Judite de Carvalho

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“Tanta Gente, Mariana”, Maria Judite de Carvalho, 1959


 Maria Judite de Carvalho é, em minha opinião, uma das grandes escritoras do século XX. Já li vários romances e contos dela e voltei à leitura de “Tanta Gente, Mariana”, depois de este título ter sido escolhido pelo Círculo de Leitura da UNISSEIXAL. Esta obra é a mais conhecida da autora e considerada a mais autobiográfica, na medida em que se aproxima muito da vida da autora que ficou órfã aos 7 anos e foi educada por umas tias.


O título “Tanta Gente, Mariana”, retirado de uma conversa de Mariana com o pai, quando ela era uma jovem de quinze anos, sintetiza bem a solidão da personagem, marca de uma vida, mesmo quando estava rodeada de pessoas e de amigos. “Sou uma velha de 36 anos” (pág. 38), assim se vê Mariana agora que é uma mulher só, sem família, com dificuldades económicas que a roupa coçada evidencia e a enfrentar a certeza de uma morte para breve. No entanto e, apesar do infortúnio, ela consegue agarrar, embora fugazmente, a ideia de esperança, coisa em que nunca antes pensara. “Um mundo é de repente um amontoado de coisas estranhas que vejo pela primeira vez e que existem com uma força inesperada.” (pág. 14) Passa em revista os seus relacionamentos, as suas poucas amizades, os sonhos que não se concretizam, a hipocrisia social que se revela mesmo com “Lúcia, minha amiga de sempre e para sempre”, expressão carregada de ironia, que repete sempre que fala de Lúcia. De forma muito subtil, Maria Judite de Carvalho faz a crítica ao ideal de mulher do Estado Novo no qual Mariana não se encaixa e que leva a que seja despedida do emprego e não convidada para o casamento da “amiga de sempre e para sempre”. Afinal uma mulher divorciada e grávida, de que não se sabe quem é o pai da criança é um estatuto que o puritanismo hipócrita do salazarismo não consegue admitir!


As dezenas de personagens criadas por Maria Judite de Carvalho são maioritariamente femininas. Observadora do quotidiano, trouxe para a sua obra histórias tristes de desamor e de solidão e através da escrita e duma fina ironia conferiu ao privado um carácter político. Baptista-Bastos referiu Maria Judite de Carvalho, no prefácio a um dos seus livros, como “uma ternura magoada” e Agustina Bessa-Luís chamou-lhe “flor discreta”.


“Uma ternura magoada” e uma “flor discreta” merecedora de muito maior divulgação.


 


 


15 de Março de 2024


Almerinda Bento

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Memória de Elefante, António Lobo Antunes

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Memória de Elefante, António Lobo Antunes, 1979


Um dos muitos livros que pensei que ainda não tinha lido, mas a verdade é que o folheio e descubro anotações, marcas de leitura antiga. A memória apagou-se; não tenho memória de elefante… mas reparo que, quer as anotações, quer os sublinhados não passaram um quarto do livro, pelo que não o devo ter concluído na altura. Na badana desta edição do Círculo de Leitores, leio que este foi o primeiro romance de António Lobo Antunes.


O narrador é um psiquiatra “vazio de tudo” (pág. 76) a viver um período negro na sua vida. A juntar ao total desprazer pelo sítio onde trabalha ”a inumana máquina concentracionária do hospital” (pág. 49), pelas pessoas com quem trabalha, é crítico do sistema que gera a doença mental e também crítico da própria psiquiatria ”aqui estou eu a colaborar não colaborando com a continuação disto, com a pavorosa máquina doente da Saúde Mental trituradora no ovo dos germenzinhos de liberdade que em nós nascem sob a forma canhestra de um protesto inquieto, pactuando mediante o meu silêncio, o ordenado que recebo, a carreira que me oferece; como resistir por dentro, quase sem ajuda, à inércia eficaz e mole da psiquiatria institucional, inventora da grande linha branca de separar a «normalidade» da «loucura»? (pág. 46). O narrador não consegue suportar a solidão pelo fim recente do casamento que o afastou das filhas e da mulher, que no entanto continua a amar, “Desde que se separara da mulher perdera lastro e sentido” (pág. 92). As lembranças persistentes da guerra de África onde combateu perseguem-no como uma sombra: “Como sempre que se recordava de Angola, um roldão de lembranças em desordem subiu-lhe das tripas à cabeça na veemência das lágrimas contidas” (pág. 40) ou “Porque será que continuamente me recordo do inferno, interrogou-se ele: por de lá não ter escapado ainda ou por o haver substituído por outra qualidade de tortura”? (pág. 128)


Era através da ironia que procurava esconder a ternura de que se envergonha e o afecto que o apavora. Só mesmo a mulher o conseguia compreender. “Fizera da vida uma camisola-de-forças em que se lhe tornava impossível mover-se, atado pelas correias do desgosto de si próprio e do isolamento que o impregnava de uma amarga tristeza sem manhãs.” (pág. 106).


Este é também um romance de Lisboa, das ruas por onde o psiquiatra conduz na sua deslocação ao dentista e à sessão de análise de grupo ao fim do dia de trabalho, dos restaurantes “manjedouras” onde ainda se fumava, antes de se dirigir pela marginal a caminho do seu apartamento no Monte Estoril “uma ilha estrangeira a que se achava incapaz de se adaptar, longe dos ruídos e dos cheiros da sua floresta natal.” (pág. 162)


Agora que o termino, penso que percebo por que não o li até ao fim, numa altura em que teria pouco mais de trinta anos. É deveras um livro pesado, carregado de angústia e solidão, profundamente pessimista,  com uma escrita densa e carregada de metáforas nem sempre fáceis ou acessíveis e com uma estrutura de períodos longos, que obrigam a que frequentemente se volte atrás para se apanhar o fio à meada da ideia principal. A capa desta edição de Dezembro de 1984 (a décima) representa um fragmento de uma pintura surrealista de Rudolf Hauner «A Arca de Ulisses» e está em perfeita sintonia com o tema do livro.


Recordo aqui uma longa entrevista feita por Cristina Margato a António Lobo Antunes, publicada em finais de 2016 no «Expresso» em que, tal com acontece com o narrador protagonista de “Memória de Elefante”, António Lobo Antunes diz que “Não me é fácil viver comigo. Parece que estou sempre em guerra civil.” e refere que “Todos os livros são autobiográficos. Acabamos por só falar daquilo que, no fundo, conhecemos.” Nessa entrevista e sobre “Memória de Elefante”, o autor refere: “Depois, o primeiro livro ninguém o queria publicar.”(…) “Memória de Elefante”, com todas as ingenuidades que tem, já teve trinta e tal edições. Uma vez chegou-me uma edição e eu ia almoçar… Pus-me a folheá-la e espantei-me. O livro não tem nada que ver com o que faço agora. O que me surpreendeu foi a força do livro. Quer dizer… se eu fosse editor pensava: “Este miúdo vai escrever coisas do caraças.” Mas é um livro desequilibrado, cheio de defeitos, começa como a história familiar e acaba como uma saga.”


28 de Agosto de 2023


Almerinda Bento

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Eliete - A Vida Normal

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Eliete – A Vida Normal, Dulce Maria Cardoso, 2018


“Todas as famílias, as felizes e as infelizes, tinham segredos, todas as famílias sabiam que a verdade devia ser desprezada como qualquer outra minudência que amesquinhe a vida”. (pág. 226).


Esta citação é, quanto a mim, a chave deste “Eliete - A Vida Normal” (I Parte). Um livro “circular” em que as pontas da última e da primeira páginas se ligam, nos abanam e nos deixam na ansiedade duma Eliete Parte II, que se gostaria de ter logo ali à mão.


O final deixou-me atarantada. Dulce Maria Cardoso, que só conhecia das crónicas da «Visão», tem uma capacidade prodigiosa de agarrar quem a lê e de surpreender pelo inesperado, pela escrita forte e desabrida. Eliete, a avó, a mamã, o Jorge, a Inês, a Márcia, a Milena, o Sr. Pereira, a Mónica, o Duarte … surgem-nos ao longo de cerca de trezentas páginas com a sua humanidade, sem artifícios nem maquilhagem. É a vida comezinha, é o dia-a-dia, com o sabor que cada idade tem, com o cansaço que os anos trazem, com a indiferença do estar mas não estar, com a sensação de que se perdeu o pé, com a constatação de que as recordações jazem nas tralhas da arrecadação. A vida passou a ser vivida através do facebook ou do Instagram, caçam-se pokémons ou homens no Tinder, em vez de sentimentos há emojis e likes, o virtual substituiu o real. Eliete, uma mulher na casa dos quarenta, com um curso de Relações Internacionais que nunca lhe serviu para nada, com uma formação de seis meses para guia e intérprete a preparar um futuro no desemprego e actualmente vendedora de imóveis é uma mulher profundamente insatisfeita com a sua vida, sente-se muito só e estranha, como se vivesse com estranhos que são afinal as pessoas que mais ama, mas que não conseguem expressar um afecto que existiu, mas que o tempo e a idade fizeram esmorecer.


O país também vai mudando. Da euforia dos dinheiros da CEE, passa-se à depressão e de novo à esperança. Os pontos altos no orgulho lusitano – Expo 98, Euro 2004, campeões europeus de futebol – dão lugar à depressão com a intervenção da troika. Também no mundo, o inimaginável acontece: Trump é eleito. Tudo isto vai surgindo de forma natural na escrita torrencial de Dulce Maria Cardoso, como pano de fundo da sociedade em que Eliete respira. As pequenas e as grandes coisas ligam-se umas às outras sem interrupções, nem pausas, duma forma natural e muitas vezes divertida. Até a decadência da avó com doença de Alzheimer é apresentada sem sentimentalismos nem eufemismos.


As pontas soltas que se unem e de que falei ao início começam no momento em que a avó tem o primeiro episódio que a leva ao hospital e o temporal que apanha Eliete na casa da avó. O que irá acontecer?


 


2 de Setembro de 2021


 

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Para Sempre, Vergílio Ferreira

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Depois de “Cartas a Sandra”, tinha de reler “Para Sempre”, um livro que comprei e li nos anos 80 do século passado. Logo no primeiro capítulo, Paulo a regressar à aldeia natal, referências a Sandra, à montanha e às tias Luísa e Joana.

“Já vieste, Paulinho?

Sim. Para sempre. Aqui estou.”

Chegado à casa vazia, fechada há muito, Paulo vem “tomar posse do seu destino final”. O calor é abrasador e as memórias vão surgindo como fantasmas, à medida que vai abrindo as janelas, as vidraças, as portadas, para deixar sair o mofo e o bafio. As recordações, podem ser fotografias paradas no tempo ou pedaços de filmes, são entrecortadas pelo andar de Paulo pela casa que há que arejar, pela intenção do que tem de fazer – “tenho de…” – num arrastar ao longo daquela tarde escaldante com “a montanha ao fundo, plácida de eternidade”, uma intenção que fica sempre em suspenso.

Os momentos marcantes de toda uma vida do Paulinho, menino triste que se despede da mãe que vai para o asilo e cujas últimas palavras sussurradas ele não consegue recordar. As tias beatas e castradoras, avessas a qualquer desordem, que ficam a tomar conta dele. As aulas de violino com o padre Parente, os ensaios da tuna e as aflições nos dias da apresentação ao público da Ave-Maria de Schubert. A ida para Penalva para a escola secundária e mais tarde para a Universidade. Sandra e a distância de que sempre foi feita a sua relação. O casamento, o anúncio da gravidez, uma filha que nasce e não um filho, o dia em que ficaram sós no dia em que a filha saiu de casa – “Tu é que tiveste a culpa” – a doença e o fim de Sandra. Neste andar entre o presente e o passado, na estranheza entre a velhice e a juventude, Paulo velho confronta-se com o jovem Paulo acabado de sair do liceu de Penalva e a entrar na Universidade, tal como se confrontara com a filha Xana no dia em que o visitou na Biblioteca Geral, pouco antes de se aposentar “Tu não te sentes uma múmia?”

É um livro triste, de um homem só, chegado ao período final da vida, em que o calor sufocante da tarde de Agosto reforça o peso das memórias tristes, mas onde há páginas e momentos com recordações ácidas e hilariantes como os gases do padre Parente, ou os clisteres da tia Luísa que “quanto a intestinos, tinha os seus engarrafamentos”, ou a cena em que, sem comiserações, Paulo se imagina morto no caixão e ouve Deolinda a falar das suas fragilidades “– Coitadinho, para o fim já nem sustinha as águas. E surdo. Muito surdo.”

Um livro maravilhoso, triste, o diálogo de Paulo narrador com o Paulinho criança, o Paulo apaixonado, o Paulo marido e pai, o Paulo homem que cresce e envelhece, o Paulo no regresso às origens. Uma escrita poderosa como a montanha sempre presente,”densa”, “uma grande pedra ao sol”. E a fechar a tarde de calor tórrido “ Agora há só que fechar a do outro quarto que dá para o vale e uma serra longínqua. Toda a face da serra está já na sombra., breves manchas brancas assinalam aldeias de que não sei o nome.”

28 de Dezembro de 2020

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Cartas a Sandra, Vergílio Ferreira

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Cartas a Sandra, Vergílio Ferreira, 1996


Este foi o último livro escrito por Vergílio Ferreira. Abruptamente interrompido. Dez cartas dirigidas à mulher amada, já morta, tendo a última ficado incompleta, porque o autor faleceu no momento em que a escrevia.


A publicação de “Cartas a Sandra” é da inteira responsabilidade da filha que escreve uma apresentação a anteceder o romance. Entre várias pastas com escritos do pai, as dez cartas – “um projecto mutilado” – que constituem este romance estavam dactilografadas, pelo que ela considerou que teriam o objectivo de serem publicadas, possivelmente até para fazerem parte de um romance de que não deixou qualquer plano ou projecto. Para além da emoção que estas cartas provocam a Xana e também da dor por atitudes da juventude, elas reflectem o amor que os pais nutriam um pelo outro sendo tão diferentes entre si. A mãe tinha um temperamento frio, austero, pouco dado a exteriorizar sentimentos, como se poderá ler nas cartas, com referências quando ela o repreendia “que tolice” ou “não cresceu desde a adolescência”. (I carta)


Através dessas cartas, no isolamento da aldeia, uma escolha para estar consigo mesmo, perto da serra que amava, ele recorda a mulher para continuar a viver esse amor, para “dizer-te tudo o que não deixaste que te dissesse e devia ser a insensatez que tu dizias”. (I carta) Interpela-a “Alguma vez soubeste que eu me reprimia contigo? Um certo medo de te desagradar e de te perder?” (VII carta)


Nas cartas, são raras as referências a outras pessoas para além das breves visitas ou telefonemas da filha Xana. Para além de Deolinda que garante a rotina da manutenção da casa e das refeições de Paulo (narrador/autor) e do amigo o doutor Mário, os poucos contactos com pessoas da aldeia ou da vila mais próxima não merecem destaque. Numa das breves visitas de Xana à aldeia, por ocasião do Natal, ele refere na IV carta que durante a Ceia ele sentiu que eram quatro à mesa: ele, a filha, o neto e Sandra.


São densas estas cartas. Ternas, tristes, amorosas, plenas de recordações, Paulo penaliza-se por aquilo que não fez quando Sandra ainda era viva. “Havia o quotidiano da nossa vida e eu estava tão distraído” (V carta). Coloca-a num patamar superior porque para ele, Sandra não era “da ordem finita de se ser” (VII carta) e ao escrever-lhe, almeja “transpor a enorme distância que ia da minha condição terrestre à tua sacralidade e para lá dela ao teu corpo.” (IX carta), pois “como uma deusa que estivesse de passagem, jamais te falei assim porque tu ignoravas o que havia em ti de transcendência e querias que não houvesse e eu fosse mais quotidiano e talvez te magoasse.”… “desespero de relembrar quanto te amei para além de ti e quanto tu querias que não. Decerto a tua divindade perdeu-se no nosso uso mútuo dos dias e para sempre se manteve.” (IX carta). “O amor e a morte inserem-se um no outro, deves saber. Mas eu sobrevivi e isso é uma condenação.” (VII carta)


Para além da aldeia natal com vista para a serra, aldeia de que Sandra não gostava, são as recordações de Coimbra, das suas ruas, das baladas coimbrãs em dia da Queima das Fitas quando jovens universitários as referências que nos são dadas ver nestas cartas. O céu em dias de sol abrasador ou a escurecer com a chegada da noite, as noites frias e solitárias de Inverno, a grande figueira à porta de casa são o pano de fundo dos pensamentos saudosos de Paulo na “luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo.” (V carta)


Um livro belíssimo, poético, para ser lido devagar. Como o amor, sem pressas.


Com a urgência de reler “Para Sempre”.


29 de Novembro de 2020


 

segunda-feira, 22 de abril de 2019

As Palavras Poupadas, Maria Judite de Carvalho

 


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As Palavras Poupadas, Maria Judite de Carvalho, 1961


É impossível ficar indiferente à escrita de Maria Judite de Carvalho. Li alguns livros (crónicas e romances) dela nos anos 80 e mais tarde ainda um outro romance. Senti necessidade de a revisitar e ler mais, para confirmar o tom melancólico, mas sereno que eles me tinham deixado como marca. Confirmei a grande, enorme escritora da literatura portuguesa do século XX, injustamente pouco referenciada.


Há uma mágoa na sua escrita que nos atinge, porque é tão palpável, tão verdadeira. Num prefácio a “A Janela Fingida” – “Maria Judite de Carvalho: uma ternura magoada” – escreve Baptista Bastos: “De que falam todos os livros de Maria Judite de Carvalho? De pessoas, necessariamente. De uma lenta, insidiosa, obsidiante solidão. (…) Solidão, portanto, interpretada como violência imposta pela nossa sociedade; solidão como facto social. Solidão no realizado e no irrealizável, nos actos, no amor, na esperança, no sentido da vida, nas relações humanas, nos projectos. Solidão como sinónimo de falência. Eis porque nunca saímos «neutros» desta prosa neutra.”


Reli, pois, vários livros dela. Li outros pela primeira vez e saí exausta e magoada, mas continuando a colocar a escrita de Maria Judite de Carvalho num lugar bem elevado. E de tudo o que li dela, atrevo-me a escolher “As Palavras Poupadas” como o melhor entre os melhores, o mais perfeito e completo de entre os que li. Em torno da figura de Maria da Graça, que aos catorze anos é já uma pessoa triste, infeliz, sem mãe, que “fugia sempre a sentar-se perto de um espelho”, aos vinte e dois anos quando se apaixona por Claude, ou mais tarde já viúva e sozinha com o seu passado, são-nos apresentadas todas as personagens que a rodeiam: Claude o marido, Vasco a paixão da juventude e amante da madrasta, o pai, Leda a madrasta, Clotilde-minha-querida e Emília as amigas de Leda, Piedade a criada com o seu poder insidioso, o tio Rafael. De todas estas personagens, o tio Rafael só é referido uma única vez, mas vale a pena aqui transcrever como ele é descrito: “Ele era a gota de água no deserto e ao mesmo tempo a ovelha ronhosa da família, qualidades essas (ou defeitos, segundo o ângulo de visão) que se encontram frequentemente lado a lado. Um poeta, afinal, só mais tarde Graça o havia de compreender, um poeta que nunca escrevera versos e que a vida empregara traiçoeiramente (porque ela não gosta de poetas, a vida; «porque esse mandrião nunca quis estudar», dizia o pai) na casa Faria Benavente, Comissões e Consignações, da Rua dos Fanqueiros, onde, valha a verdade, raramente aparecia. Andava sempre sem dinheiro e cheio de dívidas, e o pai não lhe perdoava a sua total ausência de senso prático”.


A história de Maria da Graça é assim contada a partir da dança das personagens e de situações passadas, num puzzle extremamente bem articulado, numa escrita visual, inteligente, elegante, com diálogos convincentes, naturais e em que a ironia fina de Maria Judite de Carvalho, característica em todas as suas obras, tornou a leitura de “As Palavras Poupadas” difícil de interromper. O final, como geralmente acontece nos romances desta escritora, fica nas mãos do/a leitor/a, deixando-lhe a capacidade de participar e de dar o destino que bem entender às personagens que tão bem descreveu e de quem também em certa medida através de alusões ou pinceladas breves, deixou em aberto traços e caminhos por percorrer.


“As Palavras Poupadas” recebeu o prémio Camilo Castelo Branco.


Almerinda Bento


 

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Os Idólatras, Maria Judite de Carvalho

 


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Os Idólatras, Maria Judite de Carvalho, 1969


Sobre “Os Idólatras” escreveu Urbano Tavares Rodrigues numa nota biobibliográfica que esta foi a “sua única e excelente aventura no fantástico e na ficção científica”. Já Baptista Bastos no prefácio de “A Janela Roubada” intiulado «Maria Judite de Carvalho: uma ternura magoada» diz de “Os Idólatras” “lamentavelmente incompreendido por aparentemente inesperado”.


 “Os Idólatras” é constituído por 13 contos. Todos eles primorosamente escritos, mas tristes, premonitórios dum futuro assustador, onde as pessoas perderam a qualidade humana e onde a marca da solidão é comum. Logo no primeiro “A Floresta em sua Casa” as pessoas, face à quase inexistência de natureza e ao confinamento dos raros animais que ainda existem em espaços fechados, adquirem quadros a lembrar as pinturas exuberantes de Douanier Rousseau onde se escondem animais perigosos e ameaçadores é o retrato de uma sociedade geradora de loucos.


A fama que rouba a paz e a privacidade aos artistas idolatrados leva-os a esconder-se e a fugir do público sequioso e ávido é o tema do conto que dá o nome à colectânea de contos.


De novo a solidão, no conto “O meu pai era milionário”. Alguém com muito dinheiro que compra a sua “não morte” através da congelação do seu corpo. Cinquenta anos mais tarde, ao ser ressuscitada, enfrenta a solidão absoluta. Ninguém a ouve, ninguém a entende quando conta a sua história que começa por “o meu pai era um milionário”. Com efeito, a sua história não passa de um disco partido.


“Baía Triste” é a história de um astronauta que ficou no espaço. Para a mulher que não conseguiu reaver os despejos do marido, ele passa a ser o brilho de uma luz que se move no espaço.


Em “Casa de Repouso para Intelectuais e Artistas” a palavra “asilo” é proibida. Velhos artistas, outrora famosos, agora esquecidos, entretêm-se a lembrar o passado e a elogiar-se para receberem os elogios que o público já não lhes dá porque os esqueceu. “A velhice era uma coisa triste, mas não tanto como o esquecimento a que tinham sido votados. O escritor murmurava às vezes, de si para consigo: Dantes havia umas coisas chamadas literaturas… havia bibliotecas… havia livros…”


E por aí fora… Neste livro “Os Idólatras” a Terra não é um planeta habitável. Não há animais. Não há livros. Não há obras de arte. Não há gente. Há robots. Tudo está super organizado, desumanizado. As férias são passadas noutros planetas. As pessoas são ilhas. Não se amam. É a premonição dos quotidianos em função dos telemóveis, dos tablets, dos televisores, dos gadgets, da tecnologia. O tempo tem uma dimensão utilitária. Todo o tempo está compartimentado, agendado e não se pode perder e por isso as pessoas não conseguem viver com tempos mortos. Ficam infelizes, querem suicidar-se porque os tempos mortos não fazem sentido para elas. Mas no fim da vida, também há velhos que ainda querem comprar algum tempo para poderem viver aquilo que não viveram em vida…


Para terminar, o belíssimo “A Cidade do Êxito”. A senhora Bruce, que tinha sido uma famosa pintora de flores, é a única pessoa que não tem negócios relacionados com Marte. Vive numa casa que está a “estragar” a paisagem de arranha-céus, no meio de dois grandes edifícios como se fosse uma ilha. A sua casa térrea é um estorvo para os dois proprietários que tudo fazem para negociar com ela para que saia daquela casa e daquele sítio tão apetecível para que possam expandir os seus negócios. Ela sempre se recusa, o tempo passa e, entretanto, os vizinhos proprietários morrem, ela resiste e vive até aos 115 anos sem que ceda às pressões dos especuladores! Só a morte levará ao derrube e demolição da casa da senhora Bruce pelos funcionários camarários que no meio dos despojos levam quadros de flores como recordação.


Um livro de ficção que vale bem a pena ler. Maravilhosa e lúcida escrita.


Março 2019


Almerinda Bento


 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...