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terça-feira, 24 de junho de 2025

Filho da Pide, Paulo Jorge Pereira

 


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“Filho da Pide” – Paulo Jorge Pereira, 2023


Ao ler este livro, não pude deixar de recordar outras leituras e outras personagens: “As Longas Noites de Caxias” de Ana Cristina Silva e a tenebrosa Leninha; João Balseiro e tantos mortos pela Pide como Germano Vidigal e José Adelino dos Santos, a quem José Saramago dedica o seu “Levantado do Chão”. E claro, Aurora Rodrigues, a grande mulher que sofreu e resistiu mais tempo à tortura do sono às mãos da única Pide que subiu a chefe de brigada Madalena Oliveira, uma mulher impiedosa, sádica e sem pingo de humanidade.


A obra é prefaciada pelo professor Luís Farinha, que ressalta que “passado meio século sobre a queda dos fascismos, foi então possível começar a compreender os fenómenos ocultos (ou silenciados) do consentimento coletivo ou mesmo da colaboração de vastos grupos sociais ou instituições que, de forma conivente, ajudaram e permitiram manter uma violência irrestrita das polícias políticas sobre os seus compatriotas resistentes.” (pág. 6). Logo a abrir o livro, o autor faz um aviso relativamente ao facto de que se trata de uma obra de ficção e dedica-a a todas as pessoas que lutaram contra a ditadura em Portugal.


Agora, que vivemos, cinquenta anos após Abril, o momento mais perigoso da nossa história recente em que as forças revanchistas e de extrema direita se sentem à vontade para atacar os mais vulneráveis, a leitura deste livro é muito actual e até premonitória, pois avisa para os perigos daqueles que nunca estiveram a dormir. “Voltaremos, nós não desistimos” (pág. 101) diz, a certa altura, o inspector da PIDE ao neto. Também na epígrafe ao livro, na citação de Chico Buarque no discurso de aceitação do Prémio Camões 2019 “A ameaça fascista persiste no Brasil como um pouco por toda a parte” o tema do risco do fascismo que está sempre à espreita, nos alerta para o perigo constante dos saudosistas do passado. Cá os temos, umas vezes vêm “em pezinhos de lã” outras “com botas cardadas”.


A figura central é Carlos, o narrador, em busca de descobrir o seu passado, a sua origem. Ao longo do romance surgem várias personagens, em tempos e lugares distintos; algumas, aparentemente desligadas, mas que convergem para a criação de uma história, de uma época, de um enquadramento. A personagem de Filomena é o retrato de como se cria e cresce um(a) fascista. O amor a Salazar e o ódio aos comunistas precisou de toda uma estrutura que alimentou o ódio, que criou o medo e a desconfiança, que viveu da impunidade e da brutalidade. Lisboa, por muito soalheira que seja, não pode ignorar as sombras que se escondem encostadas a uma esquina, ou atrás de uma porta a escutar o que se passa na casa dos vizinhos. Lisboa brilhou em Abril, mas a justiça foi branda e tolerante e até concedeu pensões a torcionários enquanto a negou ao principal herói da revolução.  Lisboa quis pôr os traços da ditadura para baixo do tapete, modernizou-se, chamou turistas, gentrificou-se, apagou a sede da António Maria Cardoso e transformou-a num condomínio de luxo… Mas afinal é possível um povo, um país libertar-se da carga duma ditadura de 48 anos? “Não sei, filho. Vou vendo as notícias e sigo de longe o que se passa em Portugal, mas há muita coisa que me preocupa... Continua a haver aquele estilo mesquinho de gente que dá graxa ao patrão para ser promovida… Depois, há os que estão sempre à espreita da vida dos outros para poderem contar qualquer coisa que prejudique o parceiro do lado, mesmo que seja mentira. Esses são do mesmo estilo que eram os bufos de outros tempos…” (pág. 232)


Este romance parte da necessidade de “contar aquelas histórias”, para que não se percam na falta de memória, pois há sempre quem esteja “à espera de uma oportunidade para que o mal volte a ganhar poder” (pág. 238). Termino fazendo referência ao documentário “Aqueles Que Ficaram (Em Toda a Parte Todo o Mundo Tem) de Marianela Valverde e Humberto Candeias, testemunhos de familiares de presos políticos e de opositores que viveram na clandestinidade. Documentos cuja divulgação se afigura cada vez mais urgente.


16 de Junho de 2025


 


 


 


 


 


 


 

sábado, 31 de maio de 2025

Anónimos de Abril - Volume I

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“Anónimos de Abril” – Vol. 1, José Fialho Gouveia, Rogério Charraz, Joana Alegre, 2005


Este é o primeiro volume de um projecto que começou em Janeiro do ano passado com o espectáculo Anónimo de Abril em Lisboa, no Tivoli. O livro reúne histórias de doze mulheres e homens que lutaram pela liberdade, que estiveram entre aqueles muitos milhares que exultaram na rua com a revolução, mas de quem a História não fala.


Transcrevo a dedicatória a abrir o livro


“À Celeste,


à Aurora,


ao Alberto,


à Herculana,


ao Luíz, à Albina,


à Branca,


ao Fernando,


ao João, ao José, ao Fernando,


ao Francisco


e a todos aqueles que, de forma mais ou menos anónima, ousaram lutar contra um regime que durante quarenta e oito anos intimidou, espancou, prendeu, torturou e matou.”


São histórias de vidas simples, de luta, contadas pelas próprias ou pelos seus filhos/as ou netos, quando os pais ou avós já não estão vivos, ou a partir de registos em jornais da época numa pesquisa que, segundo os seus autores, “tem ainda muito caminho para percorrer”. No final de cada uma das histórias uma canção que pode ser ouvida e seguida através de um QR Code.


É um tributo singelo, mas muito bonito a pessoas a quem devemos a enorme gratidão pelo seu gesto, pelo seu heroísmo, pelo seu exemplo.


Celeste Caeiro a quem ficamos a dever o simbolismo dos cravos associados à revolução de Abril e que ainda teve a felicidade de descer a Avenida da Liberdade nos 50 anos do 25 de Abril.


Aurora Rodrigues que aprendeu na sua experiência na prisão da ditadura que “O medo foi sempre a grande arma da repressão. Todavia, há alturas na vida em que não se pode recuar. Essa era a altura. Tinha de vencer o medo.” (p. 25)


O padre Alberto Neto assassinado em 1987, tendo o  seu homicídio nunca sido esclarecido, “Tinha Deus por companheiro/ O Senhor como aliado/ E rezando foi guerreiro/ Contra a guerra e contra o Estado”. (p. 57)


O casal Herculana e Luíz Carvalho, os únicos familiares de um preso político no Tarrafal a visitarem o filho. Mas a sua acção e solidariedade tiveram um alcance muito para além do amor de pais, alargando-se a todos os presos que no Tarrafal estavam com o filho Guilherme.


Albina Fernandes, mulher dedicada ao ideal do partido, foi mãe de Daniela e de Rui Pato. O relato de sofrimento que foi a vida desta mulher e que é contado através dos filhos neste “Anónimos de Abril” é bem o retrato da brutalidade que foi a repressão perpetrada pela ditadura a quem se opunha ao regime. No documentário “Aqueles que Ficaram (Em Toda a Parte Todo o Mundo Tem)” da autoria de Marianela Valverde e Humberto Candeias, com testemunhos de familiares – mulheres e crianças – de presos políticos e militantes na clandestinidade, temos a perspectiva daqueles que se viram privados do contacto com os maridos e pais e dos traumas daí decorrentes.


Branca Carvalho, uma jovem que viveu praticamente um ano na clandestinidade e que, através de um relato em forma de carta ao filho, lhe explica as privações e imensas dificuldades que acarretava o facto de se abandonar tudo – família, amigos, trabalho – sem saber por quanto tempo, “As vidas que escolhêramos não tinham prazo de validade” (p. 101) Uma das questões que ela realça tem a ver com um aspecto que foi muito silenciado e que ela aborda: a marginalização ainda maior por que passavam as mulheres na clandestinidade, passando por mulheres do “casal”, numa posição de subalternidade - “sentia-me reduzida a tarefas domésticas, (,,,) “Cedo percebi que o Partido aproveitava mal as capacidades de trabalho das “suas” mulheres revolucionárias. Uma atitude algo machista disfarçada e dissimulada em razões de segurança, notaria, com amargura, muitos anos depois.” (p. 100)


Costuma-se dizer que o 25 de Abril foi uma revolução sem sangue, mas a verdade é que no final desse dia, quando Marcelo Caetano já se tinha rendido, a partir da sede da PIDE na António Maria Cardoso, uma rajada assassina acabou com a vida de 4 homens que se juntavam na alegria da vitória sobre a ditadura. São os Mortos de Abril como lhe chamam os autores do livro: Fernando Giesteira, José Barneto. João Arruda e Fernando Reis. “Só houve quatro mortos no 25 de Abril e a justiça foi branda com os elementos da PIDE. Ainda assim, o caminho para chegar à Liberdade interrompeu muitas vidas. Além dos que morreram às mãos da polícia política, convém não esquecer os mais de cem mil mortos na Guerra Colonial. O vermelho dos cravos de Abril também foi feito de sangue”. (p. 136)


O livro termina com um depoimento sobre Francisco de Sousa Mendes, um dos jovens militares que constituiu a coluna militar liderada por Salgueiro Maia que na madrugada do 25 de Abril partiu da Escola Prática de Cavalaria a caminho de Lisboa. Francisco é neto de Aristides de Sousa Mendes, que na sua qualidade de diplomata e desobedecendo às ordens de Salazar, salvou milhares de judeus ao conceder-lhes vistos que lhes permitiram fugir de uma morte certa.


Aguardemos pela continuação deste projecto de memória, agora que, como nunca antes, a memória da ditadura é tão importante para que não se caia de novo noutra.


5 de Maio de 2025

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...