Mostrar mensagens com a etiqueta gaspar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta gaspar. Mostrar todas as mensagens

domingo, 14 de março de 2021

Manhã de Domingo

FB_IMG_1577319545241.jpg


Manhã de Domingo


Como sempre, o Gaspar reclama a sua ração da manhã. Nada a fazer. Acordar com um gato em cima da cara a abanar a cauda não permite recusas. Levanto-me, faço-lhe a vontade, volto para a cama. Afinal ainda é tão cedo. Volto-me na cama de um lado para o outro, sem conseguir retomar o sono interrompido. Deito-me de costas, olho para o tecto, começo a recordar o que tenho de fazer, o que está em falta, o que ando a adiar… Procrastinadora até morrer! Entretanto, o Gaspar já satisfeito, aninhou-se no edredon no côncavo das pernas do Vítor.


Levanto-me. Já não consigo conciliar o sono e a luz exterior que passa entre as frinchas do estore, diz-me que ficar na cama é um desperdício.


Olho para o telemóvel à procura de alguma mensagem. Hoje é o dia de Marielle. Há um ano já não podíamos sair de casa e pusemos fotografias nossas no facebook. Enxameámos as redes sociais com “Quem mandou matar Marielle?” Todos sabemos quem foi. O genocida que está no poder. Nas memórias que o facebook me traz, além do “Fevereiro de Almerinda”, os vários desenhos que fiz de Marielle, imagens numa escola em Santiago do Cacém onde há 5 anos fomos distribuir o folheto “No namoro só bate o coração”, uma citação de Miguel Torga: “Recomeça… se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum fruto queiras só metade.” Que maravilha! E depois uma fotografia enternecedora a preto e branco: dois velhos de costas, abraçados, a caminhar lado a lado como dois namorados, num passeio duma cidade. Londres? Paris? Edimburgo?


Volto à cozinha. Preparar o pequeno-almoço e buscar um jornal para ir lendo enquanto tomo o leite da manhã. Parece mentira, mas ainda não folheei a revista do Expresso do passado fim-de-semana. Na capa, uma personagem odiosa. O título é sugestivo e apropriado: Retrato de um populista quando jovem. Não me interessa. Costumo sempre ler a Revista da última página para trás e muitas vezes fico satisfeita e termino na secção Culturas. Procuro sempre notícias sobre livros e muitas vezes rasgo as folhas que me interessam. Talvez me venham a ser úteis mais tarde, quando e se ler aqueles livros.


Gosto de ler José Tolentino Mendonça. Há uma serenidade nas suas palavras e hoje ligo-as ao que li do Torga. Tolentino Mendonça sugere-nos que nos desembaracemos “do equívoco escondido na palavra “ideal”, que em vez do “sempre” e do “nunca” utilizemos o “quase sempre” e “quase nunca” e que façamos uma “conversão do olhar”, lembrando que “O essencial é saber ver… /Isso exige um estudo profundo, /Uma aprendizagem de desaprender.”, nas palavras de Alberto Caeiro.


E depois, Pedro Mexia faz-nos um roteiro pelas Livrarias da sua vida, muitas delas também livrarias da minha vida, da minha adolescência e da minha juventude, quando fui estudante universitária e residia em Lisboa. Destaco a Buchholz e a Barata. Conheci o senhor Barata quando a Barata ainda não era o que é hoje, na avenida de Roma. Ainda me lembro dos rostos dos funcionários que nos atendiam. Sabíamos que eles tinham livros proibidos. Hoje é proibido ir às livrarias, mas por outro motivo, que eu não entendo. A última vez que fui à Barata foi numa segunda feira de Maio, na fase de desconfinamento da primeira vaga da pandemia. Fomos à tarde, a seguir ao almoço e descobrimos com mágoa que o horário era reduzido – layoff, crise a pedir solidariedades – e que a Barata estava fechada às segundas-feiras à tarde! Logo ao lado, a Bertrand tinha uma longa fila de pessoas desejosas de entrar numa livraria, de comprar aquele livro, de voltar a sentir o cheiro do papel, de olhar para as capas dos livros expostos, de folhear, abrir um livro numa página qualquer e ler…


Entretanto, cá por casa já começou o dia e o Gaspar já deixou o aconchego do vão das pernas do seu dono.


14 de Março de 2021

domingo, 23 de junho de 2019

I'm a crazy Cat lady

o velho e o gato.jpg


Não consegui resistir a esta capa. Lá dentro uma história de amor entre um casal de velhos suecos e uma gata. Gata e não gato. Um livro de capa dura, com folhas com uma textura agradável ao tacto, desenhos deliciosos de Ane Gustavsson, uma leitura rápida e na qual, quem tem um gato, se revê.


Um dia, sem ser planeado nem desejado, uma gata instala-se na vida deste casal, habituado a viajar e a usufruir de uma reforma confortável. Como se costuma dizer, não foram eles que a escolheram, foi a gata que os escolheu a eles, que os adoptou. De forma subreptícia, impôs-se. Como era possível continuar a deixar aquele pobre gatinho a dormir no cesto das ferramentas no barracão do jardim naquele Inverno tão rigoroso e gélido? Teria fome? De quem seria?


Começa-se a dar ração e água e daí a pouco ela vai-se aproximando até que se empoleira na janela e aparece mal os proprietários da casa e do barracão abrem a janela ou a porta da entrada... Depois é a primeira ida ao veterinário, saber se é gato ou gata, a castração, as mudanças na vida do casal e na casa com a presença da gata, a abertura de uma gateira como solução sobretudo quando as ausências são mais prolongadas, as brincadeiras, a companhia, os hábitos de caçar ratos e de os trazer para casa... A tristeza e a sensação de perda, na primeira vez que ela desaparece, a habituação às rotinas e à personalidade da gata.


O autor e dono da gata é psiquiatra e tenta perceber o que "pensa" a sua gata, como reage e por que reage de certa maneira e,  sabendo que a lógica dos humanos não consegue chegar ao insondável dos felinos domésticos, acaba por se habituar a aceitar as subtilezas e imprevisibilidades de que é feita a vida da sua gata. Nas suas reflexões não deixa de referir autores apaixonados por gatos e a quem dedicaram livros e/ou poemas, como por exemplo Doris Lessing ou T. S. Eliot.


Chama-lhe Bichana, outras vezes Marota ou Dorminhoca e, a propósito do nome que se deve dar a um gato, lembra o poema de T.S.Eliot que refere que um gato deve ter 3 nomes: o primeiro deverá ser aquele por que é chamado habitualmente, o segundo deverá ser um nome único, especial, que mais nenhum gato tenha e que faça jus ao seu orgulho de gato e o terceiro será um nome secreto que só o próprio gato conhece e que nunca nenhum humano alguma vez conseguirá descobrir!


O poema "The naming of Cats" da autoria de T.S.Eliot é delicioso


The Naming of Cats is a difficult matter,
It isn’t just one of your holiday games;
You may think at first I’m as mad as a hatter
When I tell you, a cat must have THREE DIFFERENT NAMES.
First of all, there’s the name that the family use daily,
Such as Peter, Augustus, Alonzo, or James,
Such as Victor or Jonathan, George or Bill Bailey —
All of them sensible everyday names.
There are fancier names if you think they sound sweeter,
Some for the gentlemen, some for the dames:
Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter —
But all of them sensible everyday names.
But I tell you, a cat needs a name that’s particular,
A name that’s peculiar, and more dignified,
Else how can he keep up his tail perpendicular,
Or spread out his whiskers, or cherish his pride?
Of names of this kind, I can give you a quorum,
Such as Munkstrap, Quaxo, or Coricopat,
Such as Bombalurina, or else Jellylorum —
Names that never belong to more than one cat.
But above and beyond there’s still one name left over,
And that is the name that you never will guess;
The name that no human research can discover —
But THE CAT HIMSELF KNOWS, and will never confess.
When you notice a cat in profound meditation,
The reason, I tell you, is always the same:
His mind is engaged in a rapt contemplation
Of the thought, of the thought, of the thought of his name:
His ineffable effable
Effanineffable
Deep and inscrutable singular Name.


I am.jpg


A minha paixão por gatos é tardia e comecei a preparar a perspectiva de um gato na família, quando me reformasse. Tal como a perspectiva de que mais tempo para a leitura só seria possível quando me reformasse. E estes dois objectivos estão mesmo ligados. Andava a ler "Gatos e mais Gatos" de Doris Lessing quando a minha amiga Esmeralda me propôs a adopção de um gatinho que veio de Almada para viver connosco. De seu nome Gaspar. Sem segundo nome. Se tem um terceiro nome, nunca saberemos, porque ele nunca o confessará!


bom dia.jpg


 


 


 


 


 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...