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quarta-feira, 21 de julho de 2021

Casa da Malta, Fernando Namora

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Casa da Malta, Fernando Namora, 1945


Em boa hora, decidi, no início deste ano, ir buscar à estante livros que preguiçosamente vão sendo esquecidos e passados à frente pelas novidades. Este foi um livro que me foi oferecido em 1988 e que só agora li. É um livrinho que se lê depressa e que tem a vantagem de ser precedido de um excelente prefácio de uma edição revista pelo autor, escrito em 1961, que nos ajuda a compreender ainda melhor esta novela de Fernando Namora, a segunda obra da sua autoria. Jovem médico, desterrado numa aldeia, “Havia em frente do meu consultório um pequeno adro e nele um casebre meio derruído, sem dono, ou assim poderia imaginá-lo, pois quem o habitava era gente erradia que vinha e partia sem se saber quando…. A malta”. Como ele explica, no seu prefácio, “O livro já existia dentro de mim, naquele gosto intenso de um fruto saboreado antes de o colhermos da árvore, de tanto lhe anteciparmos o paladar, quando, certa tarde (conheceis as sestas imóveis da aldeia, a modorra que, ou nos sepulta, ou nos obriga a fendê-la com um berro de socorro?), a aventura começou: oito dias de trabalho febril, o único livro de ficção que, até hoje, escrevi de rajada. E, todavia, é de todos eles o mais tranquilo.”


Esta novela é constituída por seis capítulos que contam histórias de pessoas que passam por aquela “espécie de saguão” abandonado, onde pernoitam malteses, vagabundos, ciganos. Os de “lá de fora” olhavam-nos com desprezo, “uns leprosos”, “abriam fossos de ódio e de repulsa”, mas afinal quem eram afinal esses “estranhos”? Abílio que um dia partira a correr mundo para fugir à fome e que agora regressava cheio de saudades da sua vila? Um grupo de ratinhos a caminho da ceifa e que repartem a comida que levam para o caminho? A cigana em trabalho de parto? O Ricocas saído da choça para onde a justiça dos ricos o atirou por ter batido num polícia? O Troupas a quem o fogo tudo roubou. O Manel sem raízes e que quer seguir com os ratinhos, como se fossem a família que perdeu? A Carminda que só queria ter o filho em terra firme, longe do areal onde o marido montara o negócio? Ou Graça, a rapariga da mala, diferente de todos eles mas que fugia duma experiência de sedução, ciúme e violência? “Todos ali eram uns desgraçados! A desgraça os solidarizava, naquele calor instintivo e fraterno, como reses de um rebanho acossado pelos lobos. A desgraça os solidarizava, tal como eram, sem fingimentos.” Sentados à volta do lume, partilhando o pouco que tinham, naquela casa havia “uma solidariedade que os confundia e identificava.” Troupas, que ficou sem nada, emociona-se com o nascimento da criança e diz: “Hoje, estou contente com o mundo e não tenho nada na cabeça que seja das coisas feias que eu vivi. Nasceu uma criança e eu posso morrer: ela virá fazer a viagem por mim.”


O narrador, o escritor, o médico desenraizado está no meio daquela gente da casa da malta. É um deles. Solidariza-se com esse povo. Identifica-se com aquele “calor humano”. No prefácio desta edição revista pelo autor, Fernando Namora diz que abomina rótulos e clubismos, mas alude ao neo-realismo com que se identifica, não como moda, nem se submetendo a fórmulas ou cenários específicos. “A minha presença no neo-realismo não é a de quem adere, de quem se arregimentou”. A sua independência não quer dizer individualismo, nem solidão. “Os meus livros representam quase um itinerário de geografia humana, por mim percorrido; as andanças do homem explicam a do escritor.”


O que mais poderei dizer sobre este livro de Fernando Namora para além de o aconselhar? Ao livro e ao prefácio, uma interessante reflexão sobre a vida literária e sobre a profunda ligação da experiência literária com a sua experiência humana. É sempre bom conhecer ou voltar a ler os nossos escritores contemporâneos.


19 de Julho de 2021 

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Da Meia-Noite às Seis, Patrícia Reis

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Da meia-noite às seis, Patrícia Reis, 2021


Patrícia Reis uma revelação e este já é o seu décimo livro. Já tinha lido apreciações sobre “Crianças Invisíveis” e recentemente li no JL, não só a entrevista que lhe foi feita, mas também os textos de Miguel Real e de Valter Hugo Mãe sobre este livro que decidi comprar, aproveitando para fazer uma troca de livro repetido entre os muitos que recebi nos anos. Excelente escolha.


A dedicatória a Maria Teresa Horta, a quem há tempos faleceu o marido, não podia ser mais ajustada. Susana Ribeiro de Andrade, uma das personagens principais deste livro, é confrontada com o fim inexorável e irreversível do amor da sua vida, na sequência de ter sido contaminado com o vírus. Está-se em 2022 e a pandemia continua implacável, a fazer o seu caminho. O choque brutal desta morte deixa-a sem chão, apenas com as memórias do homem que amava, o seu companheiro com quem continuava a conversar de mão dada! A viagem a Roma, as preferências literárias dele por Camus, Agustina ou o “Adriano” de Marguerite Yourcenar que ela não lera (e que ele dizia que era um daqueles livros que não podem deixar de ser lidos), todas essas memórias são aquilo a que se agarra num tempo de luto, em que interrompe momentaneamente a sua actividade profissional numa estação de rádio.


No regresso, aceita o horário das “horas mortas”, aquele que é desvalorizado (“seria aquilo trabalho” pensam até alguns colegas), por ser rotineiro, por ter uma audiência menos interessante, aquele que afinal ninguém quer. Rui Vieira também voltara à rádio na noite de Natal de 2019. Quem quer trabalhar nesses dias? Quando se pensa que já não servimos porque temos uma incapacidade, quando se é descartável, valha-nos uma vaga porque há que cumprir a quota das pessoas com deficiência… De tudo isto nos fala Patrícia Reis: das discriminações, da homofobia, do racismo, da solidão, da precariedade que ficou mais exposta com a pandemia, mas também do verso da medalha: da solidariedade, da revolução que é dar voz às pessoas, de que há que descobrir o lado positivo da vida, de que a felicidade é possível e que muitas vezes está ali mesmo ao nosso lado.


Este livro é também um elogio aos trabalhadores da cultura, ao extraordinário poder da rádio, da voz, do sentido e da força das palavras. Li este livro rapidamente, com uma profunda empatia, não conseguindo deixar de fazer muitos sublinhados, o que não é habitual em mim. O “aquário” de onde Susana Ribeiro de Andrade faz as suas emissões da meia-noite às seis, os emails de Rui Vieira com as notícias que Susana irá ler a cada hora e as conversas que ambos trocam a partir do computador de Rui, os gestos automatizados de higienização por causa da pandemia, em suma, este mundo confinado coloca-nos a eles e a nós, num cenário que não é de ficção, mas da real fragilidade humana para a qual nunca estamos preparados.


Mesmo quando as canções são de uma play list que o computador escolheu, é sempre possível pôr um pauzinho na engrenagem do sistema e introduzir Caetano Veloso a perguntar em “Cajuína” : “Existirmos: a que será que se destina?”


9 de Maio de 2021


 


 

terça-feira, 7 de julho de 2020

Street Books

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De facto, se se quer ver alguma coisa que valha a pena, é na RTP2.


Por acaso, porque tinha acabado de ver La Otra Mirada e a intenção era apagar a televisão, dei com este documentário maravilhoso que me comoveu.


Um projecto incrível em Portland, Oregon. Streetbooks, ou seja, uma Biblioteca Itinerante.Tão simples e tão lindo como isto: levar livros a quem vive na rua. Pessoas que um dia deixaram de ter dinheiro para pagar a renda e que foram postas na rua. Pessoas que não têm um rendimento que lhes permita ter um tecto, uma casa para viver. Pessoas com 32 anos que vivem na rua desde os 17. Pessoas. Homeless. Sem-abrigo. 


Uma bicicleta onde os livros estão arrumados por temas, por categorias, por autores. Há banda desenhada, filosofia, livros de auto-ajuda, romances, clássicos, livros de arte. Correm a cidade e param junto a pessoas que vivem na rua e põem-lhes à disposição os livros que quiserem levar. Não precisam pagar nada. Só têm de preencher uma ficha, mas sem obrigação de devolver o livro. Mas se quiserem devolver e levar outro(s) a bicicleta estará nesse mesmo sítio na semana seguinte, nas semanas seguintes, para prestar um serviço. Muitas destas pessoas gostam de ler. A cultura é alimento também. É bonito ver como folheiam os livros, como os olhos sorriem, como escolhem, os comentários que vão fazendo, como este: "Levo o King Lear. É o único de Shakespeare que ainda não li". Como falam daquele livro de Camus ou o outro de Steinbeck ou escolhem um que parece que está mesmo novo, nem sequer tem ar de ter alguma vez sido folheado.


Um dos membros desta "comunidade" de streetbook bikers fala da depressão, a grande doença dos sem-abrigo e diz que a ideia do suicídio é frequente entre eles, que ele próprio a viveu. Os livros salvaram-no e, à laia de remate, diz que aprendeu que o suicídio não é saída nem solução. 


Lindo este documentário. Solidariedade, desapego, humanidade e nada, mesmo nada de caridade. 


 

domingo, 10 de maio de 2020

A Peste, Albert Camus

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“A Peste”, Albert Camus, 1947


 


Há livros que parece que estão à nossa espera para serem abertos e lidos na hora certa. Foi a leitura de uma crónica num jornal em que se fazia referência a “A Peste” de Camus, que me levou a encontrar este livro, na minha estante, no meio de muitos outros.


Logo no início, o narrador situa-nos num dia de Abril nos anos 40 do século passado em Orão, uma cidade desinteressante como tantas outras: árida, sem pombas, sem árvores, sem jardins em que os interesses dos seus habitantes são fazer negócios e enriquecer. Até que um dia, aparece um rato morto no patamar do prédio onde mora o doutor Rieux. Poucos dias depois tudo está enxameado de ratos mortos. A surpresa inicial dá lugar ao pânico, até que as autoridades ousam pronunciar a palavra peste. As previsões das autoridades sanitárias apontam para a possibilidade de metade da população da cidade vir a morrer. Mas dever-se-á dar toda a informação à população? A cidade não tem soro, aguarda que o mesmo venha de França e, entretanto, é decretado o encerramento da cidade. Para alguns, o assunto é encarado com desinteresse, mas a corrida às lojas e o açambarcamento dos bens de primeira necessidade é o primeiro sinal do medo que se instala definitivamente. Preces colectivas, mercado negro, esquemas mafiosos para fugir da cidade, violências, pilhagens, incêndios, juízos de valor que são suprimidos, especulação nos géneros essenciais, enterros em massa, cansaço das equipas sanitárias, desespero.


O que mais se ouve “Quando tudo isto tiver acabado…” ou palavras como “pico, planalto ou patamar” também aqui nos aparecem, o que revela que o padrão da pandemia daquela cidade Argelina se repete, mas agora em 2020 a um plano e a um nível muito mais alargado porque planetário.


O Dr. Rieux vai interagir com várias personagens que, embora sem formação nem ligação à saúde, são a sua equipa que o acompanha nas suas visitas domiciliárias e que actualiza os registos burocráticos necessários. Apoiam-se, lutam por salvar vidas, emocionam-se, desesperam, confessam-se, questionam-se. O padre Paneloux, que no início da peste fizera um discurso acusador, culpando os homens pela doença que se abatera sobre a cidade, perante o sofrimento e a morte de uma criança inocente, altera o seu discurso e põe em dúvida todas as suas certezas. Afinal será Deus mesmo misericordioso? Jean Tarrou que vai registando num caderno as suas impressões sobre a cidade, como se fosse um historiador, vem mais tarde confessar ao médico numa conversa num terraço de onde se conseguia ver o mar – “um lugar fora da peste” – que um dia decidiu “recusar tudo o que, de perto ou de longe, por boas ou más razões, faz morrer ou justificar que se faça morrer”, numa clara alusão a regimes opressores sustentados em pretensos grandes ideais. Joseph Grand, o eterno precário funcionário da Câmara, leva uma vida ascética e sonha encontrar as palavras certas para se exprimir e para escrever um dia um romance. Rambert, o jornalista apanhado pela peste e que quer sair da cidade para se juntar à pessoa que ama, que se exaspera por não ser atendido achando que as autoridades tomam decisões abstractas sem olhar ao particular, que tudo faz para tentar quebrar o cerco, mas que quando tem a oportunidade de sair, não consegue abandonar os seus amigos. Como era possível ser feliz, quando se tem vergonha de ser feliz sozinho, abandonando quem precisava de si? – assim pensa Rambert quando desiste de sair da cidade. Ao que o Dr. Rieux lhe diz: “Nada no mundo vale que nos afastemos daquilo que amamos”. Afinal o que é a coragem? É morrer por um ideal ou morrer por amor?


Em torno da metáfora da peste, este livro convoca-nos a reflectir sobre o valor dos grandes ideais da humanidade em situações extremas: a amizade, a solidariedade, a paz, a crença num deus, a honestidade, a coragem, as convicções. A morte cuja magnitude e frieza quando vista pelo prisma dos números não deixa de ter o peso e o silêncio de uma derrota sempre que um indivíduo morre.


De repente, dez meses depois do primeiro sinal de peste, ela desaparece. A peste recua e o primeiro sinal é o regresso de ratos à cidade. “A doença partia como tinha vindo.” “Tinha-se apenas a impressão de que a doença se tinha esgotado por si ou talvez de que se retirava depois de ter alcançado os seus objectivos. De qualquer maneira, o seu papel tinha terminado.” Para Rieux, o médico habituado durante aqueles longos meses a conviver com dezenas e centenas de doentes que morreram de peste, a morte do seu amigo Tarrou, já depois de anunciado o fim da peste, foi a derrota definitiva.


No final, quando a cidade ainda receosa festeja com risos e com lágrimas o fim da peste, o Dr. Rieux volta ao terraço já sem o seu amigo Tarrou que nunca sucumbira na busca da paz e da felicidade, com a certeza de que “há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar”. Esta nota de esperança na humanidade é temperada com a ideia de que a alegria está sempre ameaçada pois “o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca.”


 


8 de Abril de 2020


Almerinda Bento

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Um Muro no Meio do Caminho, Julieta Monginho

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Um Muro no Meio do Caminho, Julieta Monginho, 2017


Um livro extraordinário.O primeiro que li de Julieta Monginho e que recebeu por unanimidade o prémio Fernando Namora. Já antes, em 2008, recebera o Grande Prémio de Romance e Novela da APE por outro livro, sendo significativa a sua produção literária. Depois de ter lido “Um Muro no Meio do Caminho” só posso dizer que tenho andado distraída, pois Julieta Monginho é uma escritora que merece ser conhecida e divulgada.


No Verão de 2016 aportou a uma ilha grega, não como turista, mas como voluntária num campo de refugiados. Este livro para o qual alerta os leitores que se trata de ficção (será mesmo?) traz-nos uma série de personagens cujas vidas estão suspensas numa “ilha que é uma prisão disfarçada de paraíso”. No meio do pó ou da lama, do calor asfixiante ou do frio inclemente que fustiga as tendas e os contentores onde se amontoam, dos ratos ou dos escorpiões, os refugiados são sobreviventes que ousaram fugir do inferno da guerra em Alepo, ou no Afeganistão e continuam a sonhar com uma Europa que os olha de lado, que os cerca de arame farpado, onde a roupa a secar é o sinal da dignidade daqueles seres humanos que estão ali para lembrar ao mundo o direito de asilo que lhes assiste por direito e a Declaração Universal dos Direitos Humanos que orgulhosamente a Europa assinala a cada 10 de Dezembro e que está na génese daquilo a que se convencionou chamar construção europeia.


As personagens que nos traz são a paleta do mundo que se encontra confinado num espaço exíguo que sendo Europa é como se não fosse e que aguardam o salvo-conduto até Atenas para daí seguirem para poderem concretizar os seus sonhos: jovens mulheres de hijab, rapazes rebeldes ou sonhadores (lunáticos?), mulheres sem chão porque perderam tudo, crianças não acompanhadas “sem casa nem futuro”, crianças abusadas, intérpretes, cineastas, voluntários incansáveis também eles “náufragos de idênticas perdas…”. São pessoas de carne e osso, escrevem e desenham em cadernos, trouxeram um telemóvel e um computador protegidos dentro dum saco de plástico, guardam a t-shirt que o filho vestia quando foi abatido, gostam de dançar e de fazer filmes, apaixonam-se. Revoltam-se, inventam esquemas para fugir, fintam a burocracia, desesperam. Quem é refugiado? Quem procura auxílio? Quem é livre?


Claramente identificada com valores de solidariedade e igualdade entre as pessoas e com especial atenção e sensibilidade para as barreiras que se erguem à emancipação e liberdade das mulheres, Julieta Monginho questiona os estereótipos, quer levar para aquela ilha e para aquelas raparigas e mulheres no Athena Centre for Women toda a bagagem teórica que trouxe de Portugal, mas coloca-se numa posição humilde, de questionamento e de profundo respeito por aquelas pessoas. “O que é que faço aqui se não lhes valho?” “… mas pouco podia fazer para ajudar.” ”Em que fresta da sua identidade entrava o meu paleio ocidental?” Afinal o testemunho escrito contido neste livro, com personagens e situações ficcionadas ou não, é por ventura o apoio que perdurará no tempo para a causa dos refugiados. Enquanto leitores/as não esqueceremos o apelo de Ashmahn, a jovem grávida, quando se despede da ilha ao encontro do marido na Alemanha “Vê e não esqueças. Vê e dá notícia.”


Este livro é uma denúncia. Um testemunho comovente. É o pulsar do real, dos nossos dias, das nossas vidas, do nosso mundo. Um abanar do acomodamento, da distância, daquilo que está longe e não me diz respeito, da insensibilidade. “O mundo já não se choca com nada.”  Valha-nos a literatura para derrubar os muros que estão no meio do caminho.


18 de Novembro de 2019


 

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Sangue do meu sangue, Michael Cunningham

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Sangue do meu Sangue, Michael Cunningham, 1995


A opinião de escritor admirável que tinha àcerca de Michael Cunningham quando, há já alguns anos, lera “As Horas”, foi reforçada com a leitura de “Sangue do meu Sangue”. A história começa em 1935, com Constantine, um rapaz grego que um dia partirá para os Estados Unidos para fugir da pobreza, movido pela quimera da terra das oportunidades. Aí namorará, irá casar e ter três filhos. A tensão entre o casal resulta não só das diferenças entre as culturas grega e americana, mas também das dificuldades financeiras iniciais e da forma como cada um lida com os filhos, desculpando ou não as birras, os caprichos e os sobressaltos do crescimento das crianças. A ascensão social da família, fruto do negócio de construção de casas baratas, vai acentuar a distância entre Constantine e a família, em vez de a diminuir. A inesquecível cena da fotografia de família para o cartão de Natal a enviar aos amigos não passa de uma capa que esconde a animosidade e a violência latente naquela família americana.


Com o crescer dos filhos – Susan, Billy e Zoe – cada um vai seguir o seu destino e os laços familiares vão-se tornar cada vez mais ténues e esporádicos. Casamentos, divórcios, relações fortuitas, escolher o fio da navalha, descobrir a sua identidade sexual, profunda insatisfação pessoal, o vírus da sida, o sentimento de fracasso, o viver de aparências, a fragilidade na doença, a decadência e a velhice, o reencontro e a aproximação, o amor, a solidariedade, o apaziguamento, o preconceito, a dificuldade em aceitar a diferença, a homofobia, os traumas recalcados, tudo isto vai surgindo, ao mesmo tempo em que vamos acompanhando as diversas personagens à medida que os anos passam. Até 1995 seguimos o que cada um faz, decide, sente, escolhe, sendo nesse ano que a instável “paz” e “harmonia” da família Stassos é definitivamente estilhaçada. A partir daí e até 2035, ou seja, cem anos depois da cena inicial em que o menino Constantine sonha conseguir arrancar o primeiro pimento, a primeira beringela e o primeiro tomate da sua pobre horta na Grécia natal, a narrativa correrá veloz. É o ciclo da vida e da morte. Na última cena, em 2035, Jamal quer estar sozinho quando deitar as cinzas dos pais – Will e Harry – na baía.


Admirável a forma como Michael Cunningham disseca as contradições e os sentimentos das pessoas, os seus sonhos e frustrações, as classes sociais e o estatuto que as mesmas conferem aos indivíduos, a falsidade do sonho americano, os negócios fraudulentos que geram milionários de um dia para o outro, a homossexualidade e a homofobia, a solidariedade e também as preocupações de ordem ambiental.


Sem dúvida um dos grandes livros que li este ano e que recomendo.


1 de Novembro de 2019

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Memórias - Visconde Juromenha

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Memórias


Estou convencida que a classe docente é, porventura, uma das que têm mais histórias para contar. Vidas atribuladas, com a casa às costas, não sabendo como vai ser o ano a seguir. Uma terra nova, uma escola nova, novos colegas, novos alunos. Cada ano era sempre uma novidade, mesmo que se tivesse a sorte ou o azar de ficar na mesma escola.


O primeiro ano é quanto a mim inolvidável. Antes do 25 de Abril, na velhinha Escola Comercial e Industrial de Olhão, que tinha ganho espaço com as instalações do antigo matadouro desactivado, ali mesmo ao pé do mercado municipal, foi-me atribuído um horário de 30 horas lectivas! 10 turmas, Português, Inglês e História! Eu, que ainda andava a fazer as Pedagógicas e que tinha concluído o 3º ano de Germânicas, com aulas de segunda a sábado, só conseguia ir a casa nas férias ou para fazer as frequências das ditas Pedagógicas. Memórias de alunas quase da minha idade e também de crianças carentes, de crianças que gostavam de me acompanhar até casa, já que era o caminho que faziam desde a escola até à estação para apanharem o comboio até casa. E um dia, a advertência do director que me chamou para me dizer que “não ficava bem” aquele rancho de miúdos todos os dias atrás de mim! Afinal eu era uma professora! Talvez quisesse que os enxotasse?! Quando perto do final do ano adoeci (exactamente no Dia da Espiga em que estava combinada uma ida ao campo com uma das turmas) o meu quarto estava sempre cheio de flores – rosas – apanhadas nos canteiros da estação dos comboios pelos mesmos meninos e meninas que costumavam fazer-me escolta!


Depois de Olhão, Santiago do Cacém, Mem Martins, Amora, Seixal, Paio Pires e de novo Amora, embora todas estas últimas sejam escolas do mesmo concelho do Seixal.


Em todas elas fiz amizades e tenho recordações, embora seja a Paulo da Gama a minha maior referência, aquela a que posso chamar a minha escola do coração. Foi lá que fiz o estágio, foi lá que conheci os/as colegas mais dedicados à escola, aos alunos, ao ensino, aos projectos e onde vimos crescer muitos jovens a quem dedicámos o melhor dos nossos saberes e afectos. Não é por acaso que alguns desses jovens, hoje adultos, são nossos amigos no facebook e que vamos de algum modo acompanhando e mantendo laços de amizade. Não é por acaso que todos os anos, em Janeiro, juntamos perto de quarenta aposentados/as da Paulo da Gama num almoço de Ano Novo. Conseguimos, através da escola, estabelecer um vínculo que persiste para além do tempo e que resistiu às mudanças nas nossas rotinas.


Mas de todas as escolas que me marcaram, quero neste pequeno testemunho falar do ano de 77-78 quando estava a leccionar na Escola Preparatória Visconde de Juromenha, em Mem Martins. Era uma escola um pouco isolada, a especulação imobiliária estava no seu começo e as Mercês ainda não eram o amontoada de prédios dos nossos dias. Era um risco descer na estação das Mercês e ir a pé pelo pinhal até à escola, tanto mais que havia notícias de crianças que haviam sido atacadas por um predador à solta. Por isso descia-se na estação anterior – Rio de Mouro – e aguardava-se pela camioneta que ia directa da estação para a escola. A escola era pouco simpática, pouco acolhedora, era um edifício isolado e os assaltos ao fim de semana uma constante. No inverno, era preciso acender as luzes mais cedo e os poucos retroprojectores em uso mais outro equipamento ligado eram o suficiente para deitar abaixo o quadro eléctrico com capacidade muito limitada para as necessidades. Mesmo com restrições de uso, a verdade é que muitas das vezes a última aula da tarde já não era possível de dar, porque era impossível trabalhar sem luz. Concomitantemente, o Ministério da Educação não homologara a equipa de professores que tinha sido eleita para o Conselho Directivo da escola e em sua substituição indigitou um professor da sua confiança, uma primeira tentativa de restaurar a figura do director. Sottomayor Cardia, o então Ministro da Educação, respondia assim aos sectores mais conservadores da sociedade que nunca tinham visto com bons olhos que as escolas fossem dirigidas por professores eleitos pelos seus pares. Talvez pareça estranho o que se passou (muito estranho mesmo), mas a verdade é que os assaltos à escola ao fim de semana mais as falhas de luz que impediam o normal funcionamento da escola da parte da tarde e a recusa por parte do corpo docente em aceitar um professor que se gabava de ter uma moca de Rio Maior no seu carro, para além de exibir as suas preferências por figuras do antes do 25 de Abril, começaram a gerar um clima na comunidade e no seio de alguns encarregados de educação, a suspeita de que os assaltos tinham por detrás os professores da tarde que não queriam trabalhar! A larga maioria dos professores da tarde eram professores provisórios e eu era uma de entre eles.


Até que um dia, aos 71 professores eventuais da Visconde Juromenha foi barrada a entrada na escola. Só os professores efectivos tinham acesso. Os suspeitos eram os professores provisórios e portanto era preciso impedi-los de entrar nas instalações. Mas como grande parte das aulas era dada por estes, criou-se um vazio que o ministério, de forma atamancada, como aliás todo aquele processo, colmatou colocando nos jornais diários um anúncio na secção dos anúncios a contratar professores. Um processo que devia/deve encher de vergonha qualquer ministério da educação que se preze do seu nome e da sua missão. Foram vários os candidatos que responderam ao anúncio, sem saberem que programas iam dar, sem conhecerem os manuais adoptados, simplesmente com a perspectiva de poderem em dois meses arranjar algum dinheiro para as férias…


Foi um processo vergonhoso, mas muito rico em ensinamentos e solidariedades. Antes de tudo, referir a Francisca. Uma colega de História, professora efectiva e que desde a primeira hora se pôs ao nosso lado, como se ela também fosse eventual. Era uma senhora de cabelos brancos, serena, determinada, que deixou sem resposta os três inquiridores ao lançar-lhes se não tinham vergonha de suspeitar de pessoas que não tinham quaisquer culpas e de contratarem para nos substituir pessoas sem qualquer qualificação para a docência. Essa ousadia valeu-lhe uma pena que posteriormente lhe foi retirada e que veio averbada em Diário da República. Depois, o papel do nosso sindicato, através do Pascoal e do Óscar. Enquanto duraram os inquéritos, diariamente, os dois acompanharam-nos, aconselharam-nos, deram-nos todo o apoio. A razão estava do nosso lado, mas a pressão psicológica motivada pelos inquéritos presenciais como se estivéssemos num tribunal, mais as notícias no pasquim “O Crime” onde aparecíamos como os autores dos assaltos à escola, eram geradores duma grande ansiedade. Sem as reuniões com os dirigentes sindicais, sem o apoio psicológico e financeiro, pois todos os sindicalizados receberam o seu salário durante aquele tempo em que estivemos impedidos de trabalhar, não teríamos conseguido aguentar todos os 71 até ao fim, como uma equipa que estava ali para resistir e vencer. E assim foi, resistimos e vencemos e o Ministério foi obrigado a readmitir-nos, pois éramos nós os professores daqueles alunos, éramos nós que os conhecíamos, éramos nós que lhes tínhamos dado as aulas e que os podíamos avaliar. Estávamos no final do ano e era preciso fazer a avaliação final. O Ministério da Educação chumbou!


Sempre me lembro deste episódio na minha vida profissional. Um episódio extremo de prepotência por parte do Ministério para com os professores. Um episódio em que o Ministério passou por cima da legalidade e da democracia para impor uma concepção de direcção da escola. Um episódio em que a união e solidariedade dos professores e do SPGL foram exemplares e que deve ficar nos anais da nossa história sindical. De que devemos orgulhar-nos.


Almerinda Bento


Nota: Sei que tenho algures o recorte do jornal com o anúncio a pedir professores para a Visconde Juromenha. Um documento que devia corar de vergonha quem na altura deu ordens para o publicar.


Este texto foi publicado em "Memórias 2018/2019", um projecto do Departamento de Professores e Educadores Aposentados.


A fotografia que encima este post foi publicada no Escola Informação nº 287 Maio 2019.


 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...