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terça-feira, 28 de novembro de 2023

Caro Professor Germain, Albert Camus

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“Caro Professor Germain – Cartas e Excertos”, Albert Camus, 1945 a 1959


 


Só recentemente, a 5 de Maio deste ano, no Dia Mundial da Língua Portuguesa, numa conferência promovida pela FENPROF e através da comunicação feita pelo professor António da Nóvoa, tive conhecimento das palavras de Albert Camus dedicadas ao seu professor da primária, quando em 1957 recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Quando em Setembro último a Livros do Brasil editou este “Caro Professor Germain – cartas e excertos”, decidi pela compra do livro, curiosa por conhecer esta outra faceta do escritor argelino, já que dele apenas conhecia “O Estrangeiro” e “A Peste”.


Na primeira carta aqui publicada, Camus tinha 34 anos, vivia em Paris, era casado e pai de um casal de gémeos. O professor, então com 61 anos e de regresso a Argel, mostra o desejo de se encontrar com o querido aluno antes de regressar a casa. A fórmula usada na saudação das cartas denota uma grande ternura e respeito entre os dois: “Meu caro rapaz” e “Caro Professor Germain”. Transcrevo algumas declarações de gratidão e carinho nestas cartas muito pessoais, para alguém que foi órfão de guerra e encontrou no professor dos primeiros anos de escolaridade o pai que nunca conheceu –“… um dos dois ou três homens a quem devo praticamente tudo” (pág. 16), “O senhor foi o melhor dos mestres” (pág. 17), “filho espiritual” (pág. 18). A gratidão de Camus para com o mestre é, não apenas porque sempre o tratou como um filho, mas enquanto professor, pelo conhecimento, pela forma motivadora e inovadora como abria perspectivas aos seus alunos, levando-os a pensar, a reflectir e a fazer escolhas. E sobretudo a gratidão por ter acreditado e investido nas suas capacidades, invertendo a roda do destino que o conduziria, devido à sua condição de pobre, a um futuro sem futuro porque “a miséria é uma fortaleza sem ponte levadiça.” (pág. 60). Daí que não se tenha esquecido de nomear o seu mestre no discurso na Suécia e tenha escrito na carta de 19 de Novembro de 1957 o seguinte: “mas quando soube da notícia, o meu primeiro pensamento, depois da minha mãe, foi para si. Sem o senhor, sem essa mão afetuosa que estendeu à pequena criança pobre que eu era, sem o seu ensinamento e exemplo, nada disto me teria acontecido.” (pág. 34)


As cartas trocadas entre Albert Camus e o professor Louis Germain são ternas trocas de palavras e de sentimentos que unem aluno e mestre e persistiram muito para além do período da escola primária, depois de Camus ter seguido o liceu com outros mestres. São cartas simples, falam sobre a família, os problemas de saúde, as erradas escolhas orçamentais que dão pouco à escola pública e os receios pelos ataques à escola laica, os conselhos do mestre ao antigo aluno para ter cuidado com a vida e não fazer excessos. Na última carta, de Outubro de 1959, Camus mostra o seu desapontamento com o estado do mundo “O mundo atual é um peso difícil de suportar. São homens como o senhor que ajudam a tolerá-lo. E, além disso, é feito de cimento armado.” (pág. 48)


A segunda parte do livro é um excerto de “O Primeiro Homem” um livro autobiográfico, inacabado, ainda em rascunho. O capítulo “A Escola” aqui publicado traz a público esse período decisivo na vida e no futuro de Camus, através das personagens Jacques e Bernard. É recriado o ambiente dos bairros pobres de Argel a cheirar a “especiarias e pobreza” (pág. 53), os cães e os gatos à procura de restos nos caixotes do lixo, os comerciantes árabes que vendem no mercado, o porto, os cais de carvão, a escola na rua Aumerat, as reguadas e os castigos corporais ainda vistos como método, as ofensas e as lutas entre alunos, o empenhamento do professor Bernard (Germain) para que os seus alunos mais desfavorecidos, porque órfãos da guerra, pudessem aceder a bolsas para continuar os seus estudos. É neste excerto que surgem a mãe e avó de Jacques (Camus) com personalidades tão diversas – a primeira uma mulher doce, a segunda dura e decidida – mas ambas familiarizadas com a pobreza, o trabalho e a morte. Sem a intervenção do professor junto à avó “uma velha mula teimosa” (pág. 75) o pequeno Jacques não teria continuado a estudar e ficaria apenas com os estudos básicos.


Apesar da grande evolução da escola e da mudança nos métodos pedagógicos desde a altura em que o livro foi escrito, “Caro Monsieur Germain” é uma homenagem à escola pública, ao professorado e à relação aluno/professor. Para além de local de aprendizagem e de socialização, a escola pode e deve ser um espaço de felicidade e de sonho. A certa altura, no seu romance autobiográfico, Camus parece que se esquece que criou a personagem Bernard e troca o nome pelo nome do seu professor primário: “Nas aulas do senhor Germain, pela primeira vez, eles sentiam que tinham uma existência própria e que eram tidos em grande apreço: eram considerados dignos de descobrir o mundo.” (pág. 61)


 


Almerinda Bento


22 de Novembro de 2023


 

terça-feira, 16 de julho de 2019

Quando umas simples palavras cruzadas trazem água no bico...

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Claro que me senti ofendida!


Eu que até costumo comprar o "Expresso" e me demoro nalguns artigos e nalgumas secções da Revista, mas nem sou muito amante de Palavras Cruzadas, fiquei perplexa com a forma insidiosa como se passa uma "mensagem" preconceituosa, reaccionária, redutora, discriminatória ... (podia acrescentar mais adjectivos) para apoucar uma classe profissional. Por acaso a minha classe profissional mas não foi por isso que me senti ofendida. O professorado tem uma relevância e importância fundamentais, pois dele tudo ou quase tudo deriva. Aliás, pede-se-lhe tarefas muito para além do que é suposto, sabendo-se quantas vezes a Escola e os seus profissionais substituem a Família, sobretudo nas sociedades actuais em que as crianças tantas vezes são "despejadas" nas escolas, enquantos pais e mães trabalham para além do horário normal para garantir um emprego precário ou algum dinheiro a mais ao fim do mês!


Pois é um jornal dito de "referência" que tem o desplante de definir "professor" desta forma. Sim, os professores fazem greve, é um direito que lhes assiste e não o fazem de ânimo leve, não o fazem por motivos fúteis. Mas definir um profissional assim, seja professor/a, operário/a, advogado/a, médico/a, enfermeiro/, juíz/a, camionista, bancário/a, motorista, jornalista ... revela um espírito tão pequenino e deixar passar este "lapso" num inofensivo "passatempo" de palavras cruzadas, logo na primeira linha horizontal, revela bem a falta de respeito, a falta de vergonha de quem o produziu? Chama-se Marcos Cruz (devia ser escrito em minúsculas) o autor deste nojo; é a direcção do Expresso que está em causa, porque deixou passar! 


Os sindicatos de Professores (FENPROF e SPGL) já exigiram um pedido de desculpas por parte do Expresso. Os Professores, as Professoras, estão fartos de ser desqualificados, de lhes serem descontados anos e anos de serviço, como se não tivessem trabalhado anos a fio!
Afinal são estes marcos cruz que, subrepticiamente, vão fazendo passar mensagens e ideologia que levam ao poder monstros como os Trumps, os Bolsonaros e tantos e tantos outros.


Gente que odeia o 25 de Abril e que vai pondo as unhas de fora.


 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...