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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie

Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie, 2013


Já conhecia Chimamanda de uma TED talk em que participou a falar sobre o perigo da história única e também da leitura de “Todos devemos ser Feministas”. Quer um quer outro deixaram-me maravilhada. Desta vez, “Americanah” um volumoso romance em que a personagem principal é uma jovem nigeriana e o seu percurso de vida na Nigéria, nos Estados Unidos e depois de novo na Nigéria. Mas é muito mais do que um romance. É, sobretudo, uma reflexão profunda sobre as sociedades nigeriana e norte americana das últimas décadas. Sobre o estado do mundo. E sim, “Americanah” tem a ver com a cor da pele, mas não é um livro a preto e branco.


Assolada por guerras civis e ditaduras, a Nigéria era para muitos jovens estudantes um país sem futuro, sem perspectivas. Os Estados Unidos da América representavam o sonho de aí poderem estudar e viver.  Como dizia a mãe de Obinze, o seu jovem namorado, quando Ifemelu se foi despedir dela “A Nigéria está a enxotar os seus melhores recursos.” Só que quando chega à “gloriosa América”, Ifemelu descobre que a realidade é muito diferente daquilo com que sonhara quando vivia em Lagos. Descobre uma sociedade de consumo, com falsas “necessidades” e “escolhas” que são impostas, nos supermercados, nos hábitos alimentares e de vida. A linguagem cheia de tiques, as palavras fetiche que as colegas usavam tudo isso foi um choque inicial, uma perplexidade, mas a que se foi acostumando. Ifemelu sempre fora considerada insubmissa e crítica e tinha esse filtro que, apesar das transformações a que vai ser sujeita, a levam a preservar a sua identidade, resistindo ao sotaque americano, investindo na leitura e fazendo amizade com a Associação de Estudantes Africanos que a vai ajudar a detectar as diferenças dos relacionamentos dos americanos, quando se trata de afro-americanos ou africanos. Ifemelu percebeu como os Americanos olhavam com comiseração para os Africanos, do alto da sua superioridade. Esta aprendizagem foi relevante e levou-a a iniciar um blogue sobre “estilos de vida”, resultado do que ia observando, mas cujo objecto era o tema “raça”. Esse blogue ajuda-a a sobreviver na América, ultrapassando os momentos mais difíceis, a solidão e torna-se famoso pela acutilância. “Eu sou de um país onde a raça não era um problema; não pensava em mim própria como negra, só me tornei negra quando vim para a América”, escreve num post. O blogue de Ifemelu é irónico sobre os tiques racistas e/ou politicamente correctos dos americanos brancos para com os africanos, catalogados como uma entidade única. No fim de cada post, faz sempre um apelo a que os seus leitores se pronunciem e façam sugestões.


Os cerca de treze anos que Ifemelu viveu nos EUA permitiram-lhe ter vários relacionamentos e conviver com diferentes tipos de pessoas, sobretudo com uma elite intelectual ligada à universidade, também ela com códigos, linguagem e registo fechados, um manancial para o seu blogue.  Vive intensamente o período eleitoral da campanha à presidência dos Estados Unidos que desemboca na eleição de Barack Obama. Inicialmente adepta de Hillary Clinton, a possibilidade de a América poder vir a ter um negro como presidente, leva-a a apoiar a campanha de Obama. Uma experiência única. Uma felicidade indescritível.


Mas a sua bolsa de investigação terminou e o apelo do regresso à Nigéria é mais forte. A sua terra natal, entretanto, transformara-se e, tal como anos antes ela se tinha adaptado à sociedade norte americana, agora era preciso adaptar-se à Nigéria actual. Uma sociedade de novos ricos, inundada por telemóveis, seduzida pelo que é estrangeiro, bajulando quem é poder, onde as igrejas manipulam os incautos e onde as aparências é que contam. As suas antigas amigas do secundário só falam em casamentos. Por norma “uma mulher não se casa com o homem de quem gosta. Casa-se com o homem que melhor a possa manter”. O desconforto de Ifemelu fá-la balançar entre a saudade de uma América organizada a que se habituara e a saudade duma Nigéria que tinha deixado quando jovem estudante universitária. O seu primeiro emprego numa revista que não a satisfaz leva-a a entusiasmar-se com a ideia de criar um novo blogue sobre a realidade nigeriana, sobre as pessoas concretas e seus problemas, sobre saúde, religiões, igrejas. Será “As Pequenas Redenções de Lagos”.


“Mesmo assim, estava em paz por estar em casa, por estar a escrever o seu blogue, por ter descoberto Lagos outra vez. Sentia-se por fim completamente realizada. “



  • “Então, ainda tens um blogue?



  • Ainda.



  • Sobre raça?



  • Não, só sobre a vida. A raça não resulta realmente aqui. Sinto que saí do avião em Lagos e deixei de ser negra.



  • Aposto que sim.”


 


 


Para além de Ifemelu, Obinze é a segunda principal personagem de “Americanah”, mas a tia Uju, Dike o seu filho e a mãe de Obinze são personagens muito interessantes. Obinze esbarra com as restrições de acesso a um visto para ir para os Estados Unidos em sequência dos acontecimentos do 11 de Setembro e tem de se virar para Inglaterra. “As pessoas estavam famintas de escolha e de certeza” e imigravam não apenas para fugir à guerra ou à pobreza. Mas, em Inglaterra, apesar da sua formação universitária, ele é um imigrante ilegal, é como se não existisse, pois não tem um número na segurança social que lhe permita trabalhar e viver. O tema da imigração está na ordem do dia e para Obinze a vulnerabilidade é o seu dia-a-dia. “A classe neste país está no próprio ar que as pessoas respiram.” O mundo paralelo é o que permite sobreviver e isso significa fazer negócio com um nigeriano que lhe passa o seu cartão, deixando de ser Obinze para passar a ser Vincent, ou estabelecer contactos com angariadores angolanos que lhe arranjem casamento com uma jovem naturalizada inglesa, para que assim ele possa obter cidadania europeia.


O racismo, difuso ou explícito, a imigração, a corrupção dos governos, e apesar de tudo isso, a capacidade de resistência e resiliência dos seres humanos são alguns dos muitos temas que Chimamananda Ngozi Adichie coloca neste livro. Ifemelu regressou ao seu país natal, transformada, mas não perdeu a sua identidade e as suas raízes. Ifemelu não é uma americanah típica.


“Americanah” é o livro de uma autora com fortes convicções e muito inspiradora.


Americanah.jpg


 

Mais um desafio...

Blog? Mas blog para quê?


A resposta às insistências da Helena para que criasse um blog para escrever os meus textos, sobretudo as minhas apreciações às leituras que ia fazendo. Eu até já colaborava há anos num outro blog da Cristina, para além do que ia postando na minha página de facebook. Parecia-me uma redundância, um sem sentido. Talvez assim os textos ficassem mais arrumados, mais fáceis de encontrar do que num dos dossiers que guardo na varanda!


Afinal foi uma nigeriana - Chimamanda Ngozi Adichie - que através da leitura de "Americanah" e da sua personagem Ifemelu (a Blogger) que me deu o empurrão para estar hoje aqui a escrever esta introdução ao meu blog. O blog, melhor, os blogs ajudaram-na a encontrar o seu caminho e a sentir-se realizada, primeiro nos Estados Unidos e depois na sua Nigéria natal.


"Lendo e Escrevendo" vai ser sobre livros, mas também artigos, notícias, filmes, exposições, viagens, conversas, sobre a vida que for captando, lendo e vivendo.


Obrigada às minhas amigas que me incentivaram e me ajudaram a abrir esta nova página na minha vida: Helena, Albertina, Cristina Duarte, Cristina Delgado, Luísa Bernardo e Chimamanda.


ALB


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  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...