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sábado, 24 de junho de 2023

Como um Marinheiro eu Partirei Uma Viagem com Jacques Brel, Nuno Costa Santos

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“Como um Marinheiro eu Partirei – Uma Viagem com Jacques Brel”, Nuno Costa Santos, 2023


Uma verdadeira revelação este livro. Chegada à Horta, na ilha do Faial, a caminho da marina, encontrei na montra da loja que fica ao lado do Café Sport Peter este livro, acabado de ser publicado. Não só porque era o primeiro dia de um passeio que iria incluir cinco ilhas do arquipélago dos Açores, mas porque sou da geração que ouviu e conhecia muitas das canções de Jacques Brel, aquele livro era irresistível. Comecei a lê-lo logo no primeiro dia da viagem e terminei-o dias depois já na ilha das Flores e com a intenção de o reler no continente a ouvir os poemas de Brel com alguns versos traduzidos ao longo da narrativa.


Há uma grande ternura na escrita desta história de um homem com um talento gigante, que um dia decidiu cortar radicalmente com uma vida pública em que os holofotes e a fama estavam no auge. Tal como uma relação que termina e em que as pessoas se afastam, a sua relação de amor com o público terminou, tendo o palco e os aplausos sido substituídos pelo mar. Brel foi “um homem de instintos e decisões inequívocas” (pág.33), alguém que não aceitava sentimentos pela metade, que “viveu do modo que quis, como quis, com quem quis.” (pág.143). Uma personagem complexa, impossível de ser caracterizada ou catalogada.


Esta “viagem com Jacques Brel”, como surge no título do livro de Nuno Costa Santos, é uma biografia de Brel, em que as vidas do biografado e do biógrafo se entrelaçam, se cruzam, tanto mais que “o ímpeto da comparação é inevitável” (pág.25). O narrador, logo no início da narrativa mostra a sua intenção de querer partir como um marinheiro, acompanhar Brel na sua viagem por mar até às ilhas Marquesas, onde se encontra sepultado Paul Gauguin. Estabelece diálogos e semelhanças com o poeta, fala das suas mágoas por ser um pai distante e ausente, mostra o desconforto quando vivendo no continente se sentia como um emigrante.


A estrutura desta “viagem” segue um roteiro com capítulos curtos em que as vidas de Brel e do narrador vão surgindo. Os títulos dos capítulos são como que o guião dessa viagem com algumas personagens decisivas. Sérgio Paixão, açoriano e autor do blogue “O Canto de Brel” é decisivo na construção desta biografia, pelo profundo conhecimento da obra de Brel e da passagem do poeta pela ilha do Faial no ano de 1974. De entre tantas mulheres e homens que passaram pela vida de Brel, uma referência especial a Jojo, o maior amigo e confidente de Brel, “o homem da sua vida”(pág. 93) e Delphine, a prostituta que “desconhecia que Jacques era o artista que actuava para plateias cheias de fãs à procura nas suas canções de um aconchego para as suas mazelas sentimentais.” (pág.62). O dr. Decq Mota, uma das amizades desinteressadas mas verdadeiras, que o tratou no curto período em que Brel passou pela ilha. Dinarte Branco, o actor que aceitou sem hesitação o convite para fazer o papel de Brel numa apresentação no Teatro Micaelense, o pescador Genuíno Madruga e o mestre na arte de scrimshaw Othan Rosa da Silveira.


O último capítulo “Estrelas Inacessíveis” é uma reflexão sobre o valor da amizade. Aquelas amizades que ocorreram num período tão curto da vida de Brel nos poucos dias em que ele esteve na ilha do Faial, foram momentos, acontecimentos, não planeados, desinteressados, afinal o que de melhor há num mundo tantas vezes dominado pela superficialidade das relações movidas por interesses não genuínos.


Um livro maravilhoso que irei sempre associar a Brel, à energia das suas canções e à maravilhosa viagem que fiz ao arquipélago açoriano. Depois de ter visitado a ilha do Faial e a região onde ocorreu a erupção do vulcão dos Capelinhos, torna-se inesquecível o diálogo imaginário entre os Capelinhos e Brel, dois vulcões em repouso.


24 de Junho de 2023


 

domingo, 6 de março de 2022

O Atalho dos Ninhos de Aranha, Italo Calvino

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O Atalho dos Ninhos de Aranha, Italo Calvino, 1947


Gosto sempre de ler um livro com um prefácio que me ajude a contextualizá-lo nas suas várias facetas. Em 1964 Italo Calvino fez um prefácio para o seu “O Atalho dos Ninhos de Aranha”de 1947. É um longo prefácio em que por várias vezes retoma a frase inicial “Este romance foi o primeiro que escrevi”. Escrito pouco depois da Libertação e da sua experiência como membro da Resistência à ocupação nazi, Calvino reflecte que o livro resulta da energia e da alegria do fim da guerra, da necessidade de verter para o papel a força da oralidade sem limites naquela época, de não querer pôr-se no papel de narrador que escreve as suas memórias de partigiano, pelo que decidiu que enfrentaria o tema “não de caras mas de esguelha. Devia ser tudo visto pelos olhos de uma criança, num ambiente de garotos e vagabundos. Inventei uma história que ficasse à margem da guerra de resistência, dos seus heroísmos e sacrifícios, mas que ao mesmo tempo nos transmitisse a sua cor, o sabor áspero, o ritmo…” Inconformista, avesso às directivas, cartilhas e imagens formatadas e normativas de conduta e militância, escolheu esse garoto – o pequeno Pin – antítese do herói socialista e do romantismo revolucionário, alguém que estilhaçasse os conceitos de herói e de consciência de classe.


O livro é dedicado a Kim – grande amigo e companheiro da Resistência de Italo Calvino – sendo que no capítulo IX a sua personalidade e características de dirigente político rigoroso e analítico são vertidas, dando um tom ideológico que corta, até certo ponto, o fio da narrativa em que Pin e os partigiani são os protagonistas. Pin é a criança que cresce de forma um tanto ou quanto selvagem, sem regras, sem amor, que mascara a sua solidão e desamparo com provocações aos mais velhos, a sua forma de entrar no mundo dos homens e de se sentir um deles. Ele quer ser acolhido pelos grandes, pelos homens da taberna, pelos partigiani, é coscuvilheiro, desvenda os segredos do bairro pobre, canta canções que os homens gostam de ouvir. Para os homens da taberna, Pin é importante porque é irmão da Morena do Beco Comprido. Para Lupo Rosso, Pin é importante porque tem uma arma, escondida num lugar único, mágico, que só ele conhece – o atalho dos ninhos de aranha – a sua única riqueza. Quando é confrontado com a possibilidade de desvendar onde fica esse atalho que leva à arma escondida, Pin hesita porque “o lugar dos ninhos de aranha é um grande segredo e é necessário que seja um verdadeiro amigo, em tudo e para tudo” (pág. 92)


Só há um homem de entre todos aqueles que olha para Pin como uma criança que precisa de carinho, ele também adulto carente. “Primo o grande, doce e cruel Primo” (pág. 211) é o único que “o leva pela mão, aquela grande mão, macia e quente como pão.” (pág. 226).


No prefácio, Italo Calvino escreve a certa altura “A Resistência representou a fusão entre paisagem e pessoas” (pág. 12) . Na minha memória, os bosques, os esconderijos, as casas abandonadas onde homens sujos se amontoam, o vale, os viveiros de cravos, os campos de rododendros, a preocupação dos homens ao encontro da coluna dos alemães: “É um dia azul como os outros, tão azul que quase faz medo, um dia com cantos de passarinhos que quase faz medo ouvir.” (pág. 189).


Um livro lindíssimo.


3 de Março de 2022


 

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Por este Mundo Acima, Patrícia Reis

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Por este Mundo Acima, Patrícia Reis, 2011


Este foi o último livro que li em 2021, terminado exactamente no último dia do ano, mas sobre o qual só agora tenho oportunidade de escrever. Foi com este livro, um fechar de ano em beleza. Um livro extraordinário, o segundo que leio de Patrícia Reis e a certeza de que é uma autora cuja obra quero continuar a descobrir.


O que é viver, como é viver, depois de um desastre nunca antes visto, um acontecimento que dizima grande parte da humanidade, que nunca é revelado o que é, mas que ao longo do livro é designado por “o acidente”? Há o antes e o depois do “acidente”. Eduardo, o narrador, é um editor, arrogante, com a obsessão de fazer listas a propósito de tudo e de nada. Sobrevivente do “acidente”, procura na sua cidade – uma zona bem caracterizada de Lisboa – os amigos de sempre: Sofia, Lourenço e Jaime. Não os vai encontrar, mas vai descobrir segredos que o vão ajudar a compreender Sofia, a “menina-desastre”, a “rapariga-tesoura” afinal e tão-somente uma mulher só. Eduardo sente-se remetido à animalidade, o computador não serve para nada, as pilhagens aos bens que ainda restam são constantes, a cidade está totalmente destruída e irreconhecível. Sem amigos, sem futuro, desesperado, com saudades da música, como é possível sobreviver? Recorda-se da frase de uma escritora que lhe tinha dito que “em situações limite, somos apenas animais”. Ele é um sobrevivente que perdeu os amigos, que lamenta o que lhes poderia ter dito e que não disse e essa ideia de perda definitiva é-lhe insuportável.


Só a amizade poderá restituir-lhe o sentido da vida. “A amizade é a mais transformadora das forças humanas” (pág. 131) foi a convicção mais forte que tivera quando fora ao hospital ver o amigo Lourenço que tentara o suicídio. Este livro é com efeito “uma celebração da amizade” como a autora escreveu na mensagem que autografou no meu exemplar. Agora, depois d’“o acidente” vai ser uma criança que Eduardo encontra a dormir – Pedro – e um manuscrito que ele rejeitara e nunca publicara que lhe vão restituir a vontade de viver.


“Já te contei que encontrei uma criança? Diz coisas espantosas. Não sei como será agora. Tenho um manuscrito e uma criança.


Nunca me senti tão próximo da ideia de felicidade.” (pág. 142)


 


É preciso transmitir a vida, passar o testemunho, ensinar àquela criança tudo o que sabe, trazer de volta uma ideia de humanidade, abolir a palavra “tristeza” do vocabulário. A biblioteca da avó que ele vai reconstituindo, o clube de leitores que se vai criando, a memória, assim vai ganhando expressão um renascer das cinzas duma sociedade e duma humanidade devastadas. Ao ler este “Por este Mundo Acima” de Patrícia Reis não pude deixar de recordar “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury, a força daquela comunidade que resistia, guardando a memória dos livros em que cada pessoa era um livro vivo.


5 de Fevereiro de 2022


 

domingo, 10 de maio de 2020

A Peste, Albert Camus

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“A Peste”, Albert Camus, 1947


 


Há livros que parece que estão à nossa espera para serem abertos e lidos na hora certa. Foi a leitura de uma crónica num jornal em que se fazia referência a “A Peste” de Camus, que me levou a encontrar este livro, na minha estante, no meio de muitos outros.


Logo no início, o narrador situa-nos num dia de Abril nos anos 40 do século passado em Orão, uma cidade desinteressante como tantas outras: árida, sem pombas, sem árvores, sem jardins em que os interesses dos seus habitantes são fazer negócios e enriquecer. Até que um dia, aparece um rato morto no patamar do prédio onde mora o doutor Rieux. Poucos dias depois tudo está enxameado de ratos mortos. A surpresa inicial dá lugar ao pânico, até que as autoridades ousam pronunciar a palavra peste. As previsões das autoridades sanitárias apontam para a possibilidade de metade da população da cidade vir a morrer. Mas dever-se-á dar toda a informação à população? A cidade não tem soro, aguarda que o mesmo venha de França e, entretanto, é decretado o encerramento da cidade. Para alguns, o assunto é encarado com desinteresse, mas a corrida às lojas e o açambarcamento dos bens de primeira necessidade é o primeiro sinal do medo que se instala definitivamente. Preces colectivas, mercado negro, esquemas mafiosos para fugir da cidade, violências, pilhagens, incêndios, juízos de valor que são suprimidos, especulação nos géneros essenciais, enterros em massa, cansaço das equipas sanitárias, desespero.


O que mais se ouve “Quando tudo isto tiver acabado…” ou palavras como “pico, planalto ou patamar” também aqui nos aparecem, o que revela que o padrão da pandemia daquela cidade Argelina se repete, mas agora em 2020 a um plano e a um nível muito mais alargado porque planetário.


O Dr. Rieux vai interagir com várias personagens que, embora sem formação nem ligação à saúde, são a sua equipa que o acompanha nas suas visitas domiciliárias e que actualiza os registos burocráticos necessários. Apoiam-se, lutam por salvar vidas, emocionam-se, desesperam, confessam-se, questionam-se. O padre Paneloux, que no início da peste fizera um discurso acusador, culpando os homens pela doença que se abatera sobre a cidade, perante o sofrimento e a morte de uma criança inocente, altera o seu discurso e põe em dúvida todas as suas certezas. Afinal será Deus mesmo misericordioso? Jean Tarrou que vai registando num caderno as suas impressões sobre a cidade, como se fosse um historiador, vem mais tarde confessar ao médico numa conversa num terraço de onde se conseguia ver o mar – “um lugar fora da peste” – que um dia decidiu “recusar tudo o que, de perto ou de longe, por boas ou más razões, faz morrer ou justificar que se faça morrer”, numa clara alusão a regimes opressores sustentados em pretensos grandes ideais. Joseph Grand, o eterno precário funcionário da Câmara, leva uma vida ascética e sonha encontrar as palavras certas para se exprimir e para escrever um dia um romance. Rambert, o jornalista apanhado pela peste e que quer sair da cidade para se juntar à pessoa que ama, que se exaspera por não ser atendido achando que as autoridades tomam decisões abstractas sem olhar ao particular, que tudo faz para tentar quebrar o cerco, mas que quando tem a oportunidade de sair, não consegue abandonar os seus amigos. Como era possível ser feliz, quando se tem vergonha de ser feliz sozinho, abandonando quem precisava de si? – assim pensa Rambert quando desiste de sair da cidade. Ao que o Dr. Rieux lhe diz: “Nada no mundo vale que nos afastemos daquilo que amamos”. Afinal o que é a coragem? É morrer por um ideal ou morrer por amor?


Em torno da metáfora da peste, este livro convoca-nos a reflectir sobre o valor dos grandes ideais da humanidade em situações extremas: a amizade, a solidariedade, a paz, a crença num deus, a honestidade, a coragem, as convicções. A morte cuja magnitude e frieza quando vista pelo prisma dos números não deixa de ter o peso e o silêncio de uma derrota sempre que um indivíduo morre.


De repente, dez meses depois do primeiro sinal de peste, ela desaparece. A peste recua e o primeiro sinal é o regresso de ratos à cidade. “A doença partia como tinha vindo.” “Tinha-se apenas a impressão de que a doença se tinha esgotado por si ou talvez de que se retirava depois de ter alcançado os seus objectivos. De qualquer maneira, o seu papel tinha terminado.” Para Rieux, o médico habituado durante aqueles longos meses a conviver com dezenas e centenas de doentes que morreram de peste, a morte do seu amigo Tarrou, já depois de anunciado o fim da peste, foi a derrota definitiva.


No final, quando a cidade ainda receosa festeja com risos e com lágrimas o fim da peste, o Dr. Rieux volta ao terraço já sem o seu amigo Tarrou que nunca sucumbira na busca da paz e da felicidade, com a certeza de que “há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar”. Esta nota de esperança na humanidade é temperada com a ideia de que a alegria está sempre ameaçada pois “o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca.”


 


8 de Abril de 2020


Almerinda Bento

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...