Mostrar mensagens com a etiqueta guerra. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta guerra. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 28 de outubro de 2025

As Migalhas de Beirute - S. Costa Brava

As Migalhas de Beirute.jpg


“As Migalhas de Beirute” – S. Costa Brava, 2019


 A minha escolha por este título da obra de uma autora que não conheço, mas que foi sugerida por uma das participantes do Círculo de Leitura da UNISSEIXAL, teve a ver com o interesse que tenho em perceber a complexidade dos conflitos no Médio Oriente, motivo de notícias desde que me conheço. A minha solidariedade com a causa palestina e com o direito de um povo a viver em paz na sua terra, o qual tem nos últimos dois anos sido alvo de um genocídio impensável por parte do governo israelita, mais me levou a fazer esta escolha. Na calha e a seguir, irei ler “Gaza está em toda a parte” de Alexandra Lucas Coelho, cujas crónicas e percurso sigo regularmente e que muito admiro.


“As Migalhas de Beirute” é um livro muito duro, cuja leitura não me foi fácil. O facto de a autora ter vivido no Médio Oriente e em Paris teve certamente peso na escolha do tema. A primeira parte do livro traz-nos através de datas e acontecimentos marcantes naquela zona do mundo e em Beirute, em particular, a história de um país dilacerado pela guerra civil, por conflitos gerados do exterior, que têm tido os EUA e a Europa como potências omnipresentes. O papel da França no conflito libanês é inegável, mesmo quando os governos tentam através de divisões e de mistificações fazer de conta que nada têm a ver com os conflitos. Independentemente das divisões religiosas, foi através do exacerbamento dessas divisões que se tentou sempre chamar de religiosas as guerras, quando desde sempre os conflitos se deveram a questões de ordem geopolítica num território muito apetecível para quem quer mandar no mundo.  Para além das mortes, a primeira parte do livro dá-nos a imagem de um país e de uma cidade divididos, com campos de milhares de refugiados palestinianos e com milhares de libaneses espalhados por todo o mundo, tentando refazer a vida como imigrantes. De forma larvar, o ódio vai-se instalando, os traumas de guerra não se apagam e a sede de vingança é aproveitada por milícias e grupos radicais que florescem num clima de desconfiança e de ódio generalizados.


A morte dos pais de Samir Bustani na Primavera de1988 é o ponto de partida para esta história de uma família libanesa. Apoiado por um tio há anos refugiado em Paris, o jovem Samir e a irmã vão conhecer uma realidade completamente diferente. No livro surgem temas em que se confrontam culturas, crenças e atitudes que dividem pessoas e famílias. A intolerância baseada na religião, a homossexualidade, a submissão da mulher na família, mas também a capacidade de resistir e continuar a viver num mundo em convulsão são alguns dos temas que o livro aborda.


Se o surgimento da internet foi uma ferramenta extraordinária para pôr em comunicação pessoas de todo o mundo, ou seja, um poderoso aliado da democracia, ela também tem sido usada para chegar a alvos frágeis e vulneráveis, facilmente manipuláveis que veem nela a resposta a frustrações e desilusões da vida. Muitos grupos extremistas têm-na usado em seu favor, radicalizando jovens inseguros, sem perspectivas de futuro, desiludidos da vida e facilmente ganhos quando lhes acenam com um paraíso que vingue anos e anos de frustração e infortúnio. O livro mostra-nos esse mundo de ódio que infelizmente contamina tanta gente, que gera destroços, migalhas e apenas destruição.


O ódio e a violência só geram cada vez mais ódio e violência. Todos perdemos e a democracia fica em risco. Será que temos capacidade de enfrentar a besta que nos quer destruir?


2 de Setembro de 2025


 

terça-feira, 3 de junho de 2025

Proibida na Normandia; Rosario Raro

Proibida na Normandia.jpg


“Proibida na Normandia” – Rosario Raro, 2024


Esta é a história de uma mulher invulgar, determinada, que, apesar da sua vida, por ser mulher, não ficou para a história. Jornalista e fotógrafa, Martha Gellhorn nunca receou cobrir guerras no terreno, sabendo que muitos dos seus colegas de profissão relatavam guerras como se as vivenciassem no terreno, quando muitas vezes se limitavam a escrever relatos sem nunca saírem dos hotéis onde estavam hospedados. Martha Gellhorn esteve na guerra de Espanha (1937), da Finlândia (1939) e da China (1940). Não se vergou quando lhe foi recusada a acreditação para viajar num navio militar, que era concedida aos seus colegas jornalistas. Martha Gellhorn foi a única mulher presente no desembarque das tropas aliadas na Normandia no dia 6 de Junho de 1944, mas o seu nome e as suas crónicas foram censuradas e apagadas como se ela nunca lá tivesse estado. “Proibida na Normandia” é o relato dessa história.


Ela estava bem consciente da realidade do mundo do jornalismo eivado de misoginia, condescendência e paternalismo para com as jornalistas. No seu trabalho no terreno, apercebia-se do papel que as mulheres desempenhavam na guerra nas mais variadas esferas, muitas vezes subalternizadas apesar de tantas vezes desempenharem missões estratégicas e fundamentais; nas suas crónicas, ao contrário, sempre as visibilizava, nomeava-as, retirando-as do anonimato e valorizando o trabalho que desempenhavam. Ela própria, que tantas vezes foi referida com mulher de Ernest Hemingway, sempre rejeitou ser “uma nota de rodapé” na vida do marido ou de outra pessoa (págs. 129 e 363). Porque se bateu pelo direito ao reconhecimento do seu trabalho na frente de guerra, por querer publicar a verdade, mesmo quando ela não seguia a orientação do poder e da comunicação social, foi considerada antipatriota e censurada. Além de nunca ter recebido a Bronze Star Medal concedida a Hemingway, a crónica de Martha não existiu e “a sua presença foi apagada da praia de aço de Omaha” (p. 357)


O romance centrado na guerra e sendo uma reflexão sobre os horrores e as sequelas das guerras, tem um desenvolvimento ao longo do tempo desde os preparativos nas semanas anteriores ao desembarque, o desembarque propriamente dito e as semanas seguintes. Passado um ano do dia do desembarque, a comunicação social quer esquecer os horrores dos campos de concentração e a comunicação social prefere romancear e realidade, em vez de publicar a verdade.


Há, mesmo a acabar o livro, um desânimo uma desesperança expressos no vaticínio de H. G. Wells: «Se não acabarmos com a guerra, a guerra acabará connosco». A narradora imagina o mundo dois séculos depois e pergunta-se “Como será o mundo a 6 de Junho de 2144? Quem o contará?” (p. 361)


3 de Junho de 2025


Almerinda Bento


 

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Outrora e Outros Tempos, Olga Tokarczuk

Outrora e outros Tempos.jpg


 


Outrora e outros Tempos”, Olga Tokarczuk, 1992


Este é o primeiro romance escrito pela autora polaca e o terceiro que leio dela, depois de “Viagens” e “Conduz o Arado sobre os Ossos dos Mortos”. Mal entrei na leitura de “Outrora e outros Tempos”, logo me lembrei de “Viagens” e da sua estrutura fragmentária, que obriga o leitor a um exercício de concentração e memorização que a minha leitura que se prolongou no tempo, por vezes dificultou. Mas, mais uma vez, o assombro por uma narrativa invulgar que se desenrola ao longo do século passado desde o início da primeira Grande Guerra e que se situa em Outrora, descrito como “um lugar situado no centro do Universo”(pág.7).


É um romance em que o tempo da História se entrelaça com os tempos das histórias das pessoas. Enquanto os homens fazem a guerra, as mulheres acreditam que a guerra vai ser rápida, esperam por eles, sentem a falta deles, apaixonam-se. Eles regressam, a vida retoma o seu curso até que uma nova guerra se abate. Na guerra não há vencidos nem vencedores, porque a violência, quer seja feita pelos ocupantes alemães quer pelos invasores russos, não se distingue porque é cega e igualmente bárbara: tudo o que mexe é abatido, mesmo que seja uma mulher a proteger o seu filho e as violações são o desfecho para o guerreiro quando as metralhadoras estão em repouso. Seguem-se as nacionalizações, os funcionários do Estado que gozam de privilégios, a vodca, a bebida que corre nas festas, as mulheres que continuam a desempenhar os papéis tradicionais, a cozinhar, a ser abusadas, a ser exibidas como objectos, mas também a rebelar-se, a fugir de Outrora, para nunca mais voltar (Ruta), ou para voltar só no fim, quando já é “tarde demais” (Adelka).


Numa conversa entre Ruta e Izydor, ambos da mesma idade e filhos de Kloska e de Genowefa, diz Ruta: “O mundo é mau. Tu próprio o viste. Quem é o Deus que criou um mundo assim? Ou Ele próprio é mau ou permite o mal. Ou, então, anda muito confuso.” (pág. 173) . A reflexão sobre Deus que a autora nos propõe surge ao longo do livro em vários capítulos nomeados “O Tempo de Jogar”, um estranho labirinto composto por círculos ou esferas, chamados Mundos. “Quem sou Eu? , pergunta Deus. “Deus ou ser humano, ou talvez uma coisa e outra ao mesmo tempo, ou nenhuma delas? Fui Eu que criei as pessoas ou foram elas que Me criaram a Mim?” (pág.91).


E sempre a natureza. As árvores, a relva, a floresta, os cogumelos, os dentes-de-leão, o rio, as tílias, tantas e tantas plantas, a lembrar outros livros de Olga Tocarczuk, que nos ajudam a ver o passar das estações do ano e os ciclos da vida que se sucedem, assim como “a decomposição, o apodrecimento e a destruição” (pág.139). “As pessoas pensam que vivem mais intensamente do que os animais, as plantas e ainda mais do que as coisas. Os animais pressentem que vivem mais intensamente do que as plantas e as coisas. As plantas sonham que vivem mais intensamente do que as coisas. Mas as coisas perduram e este perdurar é mais vida do que qualquer outra coisa.” (pág.44).


E a propósito das coisas, o moinho de café de Misia é central nesta história. Trazido pelo pai Michal como espólio da primeira grande guerra, o cheiro que rescendia da gavetinha onde os grãos moídos caíam, trazia-lhe segurança, a lembrança do café e da casa. “Talvez os moinhos de café sejam o eixo da realidade, em torno do qual tudo gira e evolui, talvez sejam mais importantes para o mundo do que as pessoas. Quem sabe se aquele moinho de café de Misia, único, não era o pilar da aldeia chamada Outrora?” (págs.46 e 47). No final, quando Adelka volta a Outrora, depois de duas dezenas de anos ausente e observa o desalinho da casa onde vive Pawel, o pai, e os velhos objectos da cozinha, “o seu olhar repousou sobre o moinho de café que tinha uma barriguinha de porcelana e uma gavetita maneirinha. Hesitou um instante e, depois, tirou rapidamente o moinho de café da prateleira e escondeu-o na mala.” (pág.267). Não desejada e perante a atitude do pai de rejeitar a presença da filha e o seu apoio, Adelka parte. “Ainda teve de esperar mais de uma hora na paragem à espera do autocarro. Quando o autocarro chegou, ela era a única passageira. Abriu a mala e tirou o moinho de café. Começou a girar a manivela devagarinho e o motorista lançou pelo retrovisor um olhar surpreendido.” (pág.268)


Um livro que aconselho vivamente. Olga Tokarczuk tem o condão de nos surpreender, de nos deixar a pensar, de nos impelir a acompanhá-la ao subverter a ordem estabelecida, ao questionar a “normalidade”.


6 de Maio de 2024


(Estava a escrever este texto quando soube da minha querida amiga “Olímpia que partiu hoje para longe do sofrimento”. Em memória dela, certa que as suas ideias e escolhas tinham grande consonância com a as ideias e escolhas de Olga ToKarczuk)

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Memória de Elefante, António Lobo Antunes

Memória de Elefante.jpg


Memória de Elefante, António Lobo Antunes, 1979


Um dos muitos livros que pensei que ainda não tinha lido, mas a verdade é que o folheio e descubro anotações, marcas de leitura antiga. A memória apagou-se; não tenho memória de elefante… mas reparo que, quer as anotações, quer os sublinhados não passaram um quarto do livro, pelo que não o devo ter concluído na altura. Na badana desta edição do Círculo de Leitores, leio que este foi o primeiro romance de António Lobo Antunes.


O narrador é um psiquiatra “vazio de tudo” (pág. 76) a viver um período negro na sua vida. A juntar ao total desprazer pelo sítio onde trabalha ”a inumana máquina concentracionária do hospital” (pág. 49), pelas pessoas com quem trabalha, é crítico do sistema que gera a doença mental e também crítico da própria psiquiatria ”aqui estou eu a colaborar não colaborando com a continuação disto, com a pavorosa máquina doente da Saúde Mental trituradora no ovo dos germenzinhos de liberdade que em nós nascem sob a forma canhestra de um protesto inquieto, pactuando mediante o meu silêncio, o ordenado que recebo, a carreira que me oferece; como resistir por dentro, quase sem ajuda, à inércia eficaz e mole da psiquiatria institucional, inventora da grande linha branca de separar a «normalidade» da «loucura»? (pág. 46). O narrador não consegue suportar a solidão pelo fim recente do casamento que o afastou das filhas e da mulher, que no entanto continua a amar, “Desde que se separara da mulher perdera lastro e sentido” (pág. 92). As lembranças persistentes da guerra de África onde combateu perseguem-no como uma sombra: “Como sempre que se recordava de Angola, um roldão de lembranças em desordem subiu-lhe das tripas à cabeça na veemência das lágrimas contidas” (pág. 40) ou “Porque será que continuamente me recordo do inferno, interrogou-se ele: por de lá não ter escapado ainda ou por o haver substituído por outra qualidade de tortura”? (pág. 128)


Era através da ironia que procurava esconder a ternura de que se envergonha e o afecto que o apavora. Só mesmo a mulher o conseguia compreender. “Fizera da vida uma camisola-de-forças em que se lhe tornava impossível mover-se, atado pelas correias do desgosto de si próprio e do isolamento que o impregnava de uma amarga tristeza sem manhãs.” (pág. 106).


Este é também um romance de Lisboa, das ruas por onde o psiquiatra conduz na sua deslocação ao dentista e à sessão de análise de grupo ao fim do dia de trabalho, dos restaurantes “manjedouras” onde ainda se fumava, antes de se dirigir pela marginal a caminho do seu apartamento no Monte Estoril “uma ilha estrangeira a que se achava incapaz de se adaptar, longe dos ruídos e dos cheiros da sua floresta natal.” (pág. 162)


Agora que o termino, penso que percebo por que não o li até ao fim, numa altura em que teria pouco mais de trinta anos. É deveras um livro pesado, carregado de angústia e solidão, profundamente pessimista,  com uma escrita densa e carregada de metáforas nem sempre fáceis ou acessíveis e com uma estrutura de períodos longos, que obrigam a que frequentemente se volte atrás para se apanhar o fio à meada da ideia principal. A capa desta edição de Dezembro de 1984 (a décima) representa um fragmento de uma pintura surrealista de Rudolf Hauner «A Arca de Ulisses» e está em perfeita sintonia com o tema do livro.


Recordo aqui uma longa entrevista feita por Cristina Margato a António Lobo Antunes, publicada em finais de 2016 no «Expresso» em que, tal com acontece com o narrador protagonista de “Memória de Elefante”, António Lobo Antunes diz que “Não me é fácil viver comigo. Parece que estou sempre em guerra civil.” e refere que “Todos os livros são autobiográficos. Acabamos por só falar daquilo que, no fundo, conhecemos.” Nessa entrevista e sobre “Memória de Elefante”, o autor refere: “Depois, o primeiro livro ninguém o queria publicar.”(…) “Memória de Elefante”, com todas as ingenuidades que tem, já teve trinta e tal edições. Uma vez chegou-me uma edição e eu ia almoçar… Pus-me a folheá-la e espantei-me. O livro não tem nada que ver com o que faço agora. O que me surpreendeu foi a força do livro. Quer dizer… se eu fosse editor pensava: “Este miúdo vai escrever coisas do caraças.” Mas é um livro desequilibrado, cheio de defeitos, começa como a história familiar e acaba como uma saga.”


28 de Agosto de 2023


Almerinda Bento

terça-feira, 5 de julho de 2022

Terra Sonâmbula, Mia Couto, 1992

Terra Sonâmbula.jpg

(Para assinalar o dia do aniversário de Mia Couto, mais um texto da série leituras pré blogue)

“Terra Sonâmbula”, Mia Couto, 1992

“Terra Sonâmbula” é o primeiro romance de Mia Couto. É um livro belo, difícil, singular. A linguagem poética característica dos livros de Mia Couto é surpreendente e recria o português com a singularidade da oralidade moçambicana. Um romance carregado de poesia. Dá vontade de fazer um glossário com palavras e expressões que nos surpreendem a cada linha.

É um livro difícil, sobre a guerra civil e sobre as consequências devastadoras na terra e nas gentes. As diversas personagens andam à deriva, em círculos, procuram mas não encontram, são náufragos, deslocados em fuga à procura de poiso seguro para viver. O medo é para muitos a única coisa que possuem. Farida, filha-gémea, facto já de si sinal de grande desgraça segundo as tradições locais, pergunta a dado momento: “Essa guerra algum dia há-de acabar?” Siqueleto, outra personagem diz que não está triste, apenas cansado da guerra.

O velho Tuahir e o pequeno Muidinga, este sem memória do passado e aquele sem perspectiva de futuro, encontram um velho machimbombo calcinado que se torna num precário, mas único refúgio-casa para se protegerem dos bandos e das feras. Junto ao autocarro encontram uma mala perdida e uns cadernos-diário de uma personagem: Kindzu. Estes cadernos que Muidinga vai lendo para si e para o seu companheiro Tuahir são um tesouro que agarra Muidinga àquele refúgio inóspito. As histórias que vai lendo ajudam-nos a viver para além do pesadelo da guerra, da solidão, do desespero.

“ – Problema é deixar este escuro entrar na cabeça da gente. Não podemos dançar nem rir. Então vamos para dentro desses cadernos. Lá podemos cantar, divertir. ” As histórias nos cadernos de Kindzu estão carregadas de magia, de crendices, de fantasia e alternam com a história de Muidinga e Tuahir sobrevivendo no machimbombo e nos percursos que os levam a lado nenhum. O que é sonho? O que é realidade? Quando são a mesma coisa, se fundem e nos intrigam?

Apesar do efeito regenerador que a magia dos cadernos de Kindzu despertava, Kindzu era “um sonhador de lembranças, um inventor de verdades. Um sonâmbulo passeando entre o fogo. Um sonâmbulo como a terra em que nascera.”  Para Muidinga não havia passado nem se vislumbra futuro.

“  - Tio, eu me sinto tão pequeno…

- É que você está só. Foi o que fez essa guerra: agora todos estamos sozinhos, mortos e vivos. Agora já não há país.”

Mia Couto quis neste livro trazer-nos a dor do seu povo que após dez anos de luta anti-colonial se viu logo de seguida envolvido numa longa guerra civil cujos efeitos perduram muito para além do fim oficial da guerra.

31 de Outubro de 2015

Almerinda Bento

 

 

quinta-feira, 17 de março de 2022

11 -12 -13

Rothko.jpg


11-12-13


Ano 2020


11 de Março – acabaram-se os beijinhos. Portugal registava 60 pessoas infectadas com covid 19 e eu desmarcava tudo a partir dessa data. Segundo a OMS, tinha-se entrado em pandemia e a doença já tinha atingido 114 países. O funeral da Conceição foi o último acto público a que fui antes de me fechar em casa.


12 de Março – o 1º dia em que fico em casa.


13 de Março – Portugal entra em estado de alerta até dia 9 de Abril; já se registaram 112 pessoas infectadas. A viagem programada a Berlim no final do mês fica sem efeito.


Ano de 2022


11 de Março – Bilbau é o destino que escolhemos para gastar algum do dinheiro da viagem a Berlim que não se realizou. O peso da guerra que deflagrou na Ucrânia desde 24 de Fevereiro não nos deixam pingo de motivação, mas lá vamos bem cedo a caminho do aeroporto. A covid continua, mas a guerra é avassaladora e parece que a pandemia deixou de existir. Só as máscaras e os controlos sanitários no aeroporto de Bilbau nos ajudam a lembrar aquilo que a comunicação social esqueceu. Será que o fim-de-semana em Bilbau nos ajudará a esquecer o que se passa no leste do continente europeu?


Da cidade de que só conhecia o aeroporto muito pequeno, ficara-me a imagem fugidia e longínqua daquela vez em que tinha ido a Irun, para uma reunião da MMM há vários anos com a Isabel Bento. Na preparação para esta vez, tinha pesquisado o tempo e alguns locais com interesse para visitar.


O primeiro dia foi mesmo para sentir o pulsar da cidade. Calma, acolhedora, num vale, com uma arquitectura equilibrada e harmoniosa, percorrer as margens do rio Nervión e perceber que aquela é uma cidade com muitos cães, com muitas pessoas em cadeiras de rodas, com corredores para bicicletas e onde nunca vimos dejectos de animais, raramente pontas de cigarros e só num sítio duas ou três máscaras atiradas no chão! Tudo tão distinto das nossas cidades, tão agradável e respeitador. Mau mesmo, o rio muito poluído, de um verde acastanhado baço e triste. Era preciso experimentar os primeiros pintxos e o Mercado da Ribeira foi a melhor escolha, com um painel logo na entrada a celebrar grandes mulheres e certamente a lembrar que naquela como em muitas outras cidades do estado espanhol, o 8 de Março é mesmo para ser celebrado. Depois foram as 7 calles que são o osso da Cidade Velha. Andar a pé, desfrutar do piso plano, mas perceber que muitas escadarias e subidas seriam preciso escalar, se queríamos conhecer a cidade para além da zona do rio Nervión.


À noite, seguimos para o lado oposto ao que tínhamos feito de manhã, para ver o edifício Guggenheim e a famosa Ponte Zubizuri da autoria de Santiago Calatrava. Fiquei fascinada e rendida quando me aproximei do Puppy de Jeff Koons. As flores eram mesmo flores a sério e o cheiro era real. Claro que a aranha Maman de Louise Bourgeois se impõe também pelo tamanho, mas o cachorro florido é uma verdadeira beleza. A chuva que não estava prevista obrigou-nos a mais uma entrada num bar, para mais uma bebida e mais um pintxo! Mas da molha não nos livrámos!


12 de Março – a excelente impressão sobre o hotel – Barceló Bilbao Nervion – ficou confirmada com o duche e o pequeno-almoço. Tudo muito bom, mas agora era preciso atravessar a ponte de Calatrava e conhecer o Guggenheim lá por dentro, ver o Puppy e a Aranha, mas de dia. Era sábado e o movimento na rua não se comparava com a calma da cidade que tínhamos desfrutado no dia anterior. Mas antes, subimos no Funicular Artxanda para conhecer o parque com esse nome e observar a cidade de Bilbau do alto. Muita sorte com o tempo que estava agradável e com óptima visibilidade. Muita gente no parque, muitas crianças e muitas pessoas da minha idade, ou seja, gente que já não é nova. Em Portugal, cada vez se vêem menos carrinhos de bebé a serem empurrados por jovens casais, mas aqui não. Há muitas crianças na rua, muitas crianças a brincar nos parques, muitas crianças a brincar livremente enquanto os pais e mães confraternizam ruidosamente nos cafés, nas esplanadas, na Plaza Nueva, que visitámos à noite e que é um verdadeiro festival de convívio e de animação. E os velhos não ficam em casa. Também mantêm o gosto por sair, por ir beber um copo, por passear ao longo do rio, por aproveitar a vida palpitante da rua.


Foi um dia esplêndido e muito intenso. Pela primeira vez vi um Rothko ao vivo no Museu Guggenheim, para além de muitos pintores de que já tinha visto obras noutros museus, como Robert Delaunay, Fernand Léger, Matisse, Modigliani e outros. Mas Rothko foi mesmo uma estreia absoluta! No piso térreo do museu, uma impressionante obra em aço de Richard Serra intitulada The Matter of Time. O fim da tarde foi para andar de barco, partindo do cais mesmo em frente ao hotel, seguindo por debaixo da ponte Zubizuri, olhando para o fantástico edifício de Frank Gehry, o Monumento do Sagrado Coração, a Universidade, o Estádio de San Mamés e depois toda a zona industrial com muitos edifícios há muito sem préstimo, com fábricas encerradas, lembrando uma época passada como acontece em Portugal. Foi também nesta parte do percurso de barco que mais se viam bandeiras lilás nas janelas, muitas mesmo, lembrando-me as companheiras feministas bascas, galegas e catalãs que conheci ao longo da vida.


13 de Março – a manhã tinha mesmo de ser para conhecer o Parque de El Arenal famoso por ser o local de exposição e venda de flores, para além de velharias, livros, moedas, ou seja, o sonho dos coleccionadores e dos amantes de flores. Os dois grandes telheiros que víramos nos dias anteriores vazios, estavam agora ocupados por vendedores com os seus produtos. Mas faltava-nos o grande Parque Etxebarria e a famosa Basílica de Begoña. Por ignorância, acabámos por lá chegar pelo caminho mais difícil, que parte da Praça Miguel Unamuno. Uma escadaria sem fim, embora ao lado houvesse um caminho paralelo sem escadas, mas igualmente difícil. Mas, chegar ao parque e entrar a basílica valeram bem a pena. Foi neste parque que vi mais gente de idade a passear, muitos casais com crianças, muitas pessoas a passear os seus cães e sempre o cuidado de apanhar os cocós que os animais naturalmente precisam de fazer…


A despedida para o almoço, antes do regresso ao aeroporto, foi de novo no Mercado da Ribera. Foram três dias muito agradáveis numa cidade que me surpreendeu pela arquitectura, pelas pessoas, pelo ambiente amigável, pela acessibilidade para todas as pessoas, pela vitalidade e onde me senti muito bem. Em três dias pode-se fazer muito, ver muita coisa e aproveitar o mais possível, desde que se esteja disponível para tal.


Foi uma pausa de que já tinha saudades.

terça-feira, 8 de março de 2022

A senhora da fotografia

A senhora da Fotografia.jpg


A senhora da fotografia


Hoje, ao olhar para a primeira página do Público, percebi que estava naquela fotografia a minha Notícia do Dia para o SPGL. Era óbvio. A guerra e os seus efeitos na vida das mulheres. É o 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres. Em muitos sítios, muitas empresas e instituições lembram-se de oferecer neste dia gerberas e outras flores às mulheres, para lhes dizer que pensam nelas, que gostam muito delas, que as respeitam… bla, bla, bla. Sempre achei hipócrita esse gesto, mas isso é porque tenho mau feitio… Mas voltando à fotografia da capa do jornal Público, um soldado apoia e agarra pela mão uma senhora idosa que caminha sobre uma prancha de madeira. Mais atrás crianças, mulheres e homens fazem fila e aguardam a sua vez de o fazer. A senhora idosa olha o soldado nos olhos e certamente agradece-lhe, não só pelo seu gesto, mas porque é um dos muitos milhares de homens que estão no terreno a suster o avanço das tropas russas e a defender a sua terra.


Na guerra, são as mulheres, as crianças, as pessoas idosas e os mais vulneráveis quem sofre de forma mais aguda os efeitos e as consequências da barbárie. As desigualdades aumentam, a violência de género chega a níveis inauditos pois muitas vezes os corpos das mulheres são despojos de guerra, a pobreza torna-se endémica, as crianças deixam de ter acesso à escola, tudo fica suspenso ou paralisado. Os direitos ficam em stand by quando não retrocedem e isso para as mulheres, na sociedade patriarcal em que vivemos é dramático.


Mas avanço no jornal. Folheio-o à procura de mais notícias neste dia em que as Mulheres são fonte de notícias, comentários, análises, estudos, estatísticas. Voilà! página 16 – Política – “Legislativas de 30 de Janeiro elegeram menos mulheres”. A jornalista Marta Roque escreve dois artigos: “Secretária de Estado da Igualdade defende «regras explícitas» na lei da paridade” e “Pandemia atrasou em 30 anos o progresso das mulheres na paridade”. Encaixado entre os dois artigos, lá aparece a fotografia do presidente e a referência à sua mensagem neste dia, numa coluna com o título “Marcelo: balanços nos direitos das mulheres ainda «insuficientes»”.


Agradeço à senhora da fotografia ter-me ajudado a escrever o que queria neste Dia Internacional das Mulheres. Uma fotografia muitas vezes vale muito mais do que cem palavras. Daqui a um ano como estaremos? Tivemos uma pandemia que ainda não se foi embora, entrámos numa guerra que não sabemos quando nem como vai terminar… As mulheres pioraram nas suas vidas com a pandemia e tudo isso se vai agravar com a guerra. Por isso elas querem e pedem Paz. Paz! Tão simples, mas tão difícil.


8 de Março de 2022


Almerinda Bento


Nota: Quinzenalmente, faço um pequeno artigo para o meu sindicato, o SPGL, sobre uma notícia do dia, a partir de um jornal à escolha. Hoje foi isto. 


 


 

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Natasha

IMG_7638.JPG


Natasha. Natalya.


Estive com a Natasha, dois dias antes de ela fazer 42 anos. Na altura ela disse-me que estava em Portugal há 21 anos, precisamente metade da sua vida tinha-a passado aqui.  


Nestes 21 anos casou, teve dois filhos – um rapaz e uma rapariga – divorciou-se depois de ter vivido uma situação grave de violência doméstica, sobreviveu, criou o seu próprio negócio depois de o patrão ter encerrado o salão de cabeleireiro, sobreviveu a uma pandemia que a obrigou-a a ter o seu próprio salão fechado… Natasha é uma mulher linda, uma lutadora nata, uma sobrevivente às intempéries da vida.


Quando lhe perguntava como ia a família reagindo às investidas russas quando ainda a guerra era uma palavra impensável e por cá se percebia pela comunicação social que a escalada agressiva era real, ela respondia-me com a serenidade que lhe conheço que os pais e irmã estavam tranquilos e que a haver problemas o plano B era a Polónia.


A serenidade de Natasha continuei a senti-la na sua voz quando lhe telefonei no início da semana passada. A família e o povo ucraniano já estavam habituados e depois da invasão da Crimeia tudo era possível… Depois do dia 24 envio-lhe uma mensagem escrita e ela responde-me destroçada por sentir que a sua cultura, a sua identidade, o seu modo de vida estão a ser postos em causa por Putin e pelo exército russo e agradece todo o carinho.


Fico com o coração destroçado. Vejo as imagens na televisão e vejo a Natasha em todas aquelas mulheres que carregam os filhos, meia dúzia de coisas essenciais, deixando para trás os filhos, os maridos, os pais, as casas, a sua vida.


O meu vizinho do lado também é ucraniano, mas não sei como se chama. Educado e simpático, a nossa relação é mais pelos gatos que ele tem e que eu tenho. Conversas de circunstância sobre gatos, o pagamento do condomínio sempre a horas, bom dia, boa tarde, até logo. Hoje encontrámo-nos na escada e disse-lhe que ia à manifestação pela paz na Ucrânia. Ergueu as sobrancelhas, sorriu e disse muito bom. Acrescentou que a família que vive perto da região “separatista” (assinalou as aspas com os dedos) de Donetsk, mas em território da Ucrânia, ainda está bem.


Junto-me aos manifestantes. Dizem que foram dez mil, não sei fazer essas contas. Logo as televisões irão dizer um número. Só sei que éramos muitos. Muitos jovens e muita gente de todas as idades. O azul e o amarelo predominavam nas bandeiras, na roupa, num lenço ao pescoço, no bandeirão que passou de mão em mão sobre as nossas cabeças. Gritámos Paz, Paz, Paz. Fim da Guerra. Batemos palmas. Estivemos juntos e solidários com um povo que está a ser invadido, que sofre e que resiste.


Os povos querem Paz e essa energia é irresistível. Por isso éramos tantos hoje aqui e um pouco por todo o mundo. Toda a força e solidariedade com o povo da Ucrânia.


27 de Fevereiro de 2022

domingo, 20 de fevereiro de 2022

A Guerra não tem Rosto de Mulher, Svetlana Alexievich

A Guerra não tem Rosto de Mulher.jpg


A Guerra não tem Rosto de Mulher”, Svetlana Alexievich, 2013


 


Enquanto fui lendo este livro, fui acompanhando pela comunicação social o aumento preocupante do conflito entre a Ucrânia e a Rússia. Sabendo nós o que os órgãos de comunicação social nos querem fazer crer, com encontros entre líderes, declarações solenes de parte a parte, retiradas estratégicas, receios de provocações, a verdade é que no dia em que terminei o livro, parece que o conflito está cada vez mais eminente. Nem a propósito, a ler um livro sobre a II Guerra Mundial, sobre o sofrimento do povo russo na perspectiva das mulheres, aquelas que estiveram na guerra mas que a sociedade russa fez por as esquecer e silenciar.


Svetlana Alexievich, que ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 2015 pela sua “escrita polifónica, monumento ao sofrimento e à coragem na nossa época”, é natural da Bielorrússia e a viver em Minsk, com a profissão de jornalista, quis, com este livro, publicado nos anos 80, ouvir as vozes das mulheres que combateram nas trincheiras, que estiveram na linha da frente e que, depois da guerra, não só não foram reconhecidas como fundamentais no esforço de guerra, como, muitas vezes foram ostracizadas e vilipendiadas.


É um livro brutal, duro. A autora quis ouvir na primeira pessoa muitas centenas de mulheres cujas vozes gravou e que depois transcreveu numa polifonia única. Recordações de um tempo em que eram jovens com pouco mais de dezasseis anos, desejosas de combater e derrotar o inimigo nazi. A recolha destes testemunhos, que levou a autora a percorrer todo o país, iniciou-se nos anos 80, sendo que o livro foi recusado durante dois anos pela censura, por “não ter ideias soviéticas” (pág. 35), por “mostrar a sujidade da guerra” (pág. 37) e porque “Não precisamos da sua pequena história, precisamos de uma grande história. A história da Vitória” (pág. 39). Ainda hoje, o governo bielorrusso proíbe a edição dos seus livros que são lidos em russo e vendidos aos milhões.


 


“Começou a perestroika de Gorbachev… O meu livro foi logo publicado, teve uma tiragem vertiginosa: dois milhões de exemplares. Foi o tempo em que aconteciam muitas coisas impressionantes, de novo lançámo-nos com ímpeto não sabíamos bem para onde. De novo, para o futuro. Ainda não sabíamos (ou então esquecemos) que a revolução é sempre uma ilusão, sobretudo na nossa história” (pág. 30)


 


Este livro é de tal forma único e rico em testemunhos – “um coro de vozes” – que se torna difícil escrever sobre ele, escolher. O meu exemplar está repleto de anotações, sublinhados, dá vontade de transcrever tudo; imagino como terá sido hercúlea a tarefa da autora a “limpar” e deitar fora material de entre tudo o que recolheu, ouviu e gravou, para que resultasse nesta obra incrível.


 


“Os relatos femininos são diferentes e falam de coisas diferentes. A guerra «feminina» tem as suas cores, os seus cheiros, a sua iluminação e o seu espaço de sentimentos. Tem as suas palavras. Nesta guerra, não há heróis nem proezas incríveis, mas tão-só as pessoas ocupadas na sua actividade humana e simultaneamente desumana. Lá, não são só elas, as pessoas, a sofrer, mas também a terra, os pássaros, as árvores. Todos os que habitam a terra connosco. Estes sofrem sem palavras, o que é ainda mais horrível.”


… “Quero escrever a história desta guerra. A história feminina” (pág. 16)


 


Constituído por dezassete capítulos, o livro começa com o registo de excertos do diário do livro, onde a autora fala da influência que o livro “Sou de uma Aldeia em Chamas” de Ales Adamóvitch teve na sua obra e explica a sua estranheza por tudo o que lera sobre a guerra ter exclusivamente “voz masculina” e perceber que as mulheres, embora sendo protagonistas, estiveram sempre caladas, ninguém quis ouvir as suas vozes, dando como exemplo os casos da mãe e da avó. Os louros da vitória foram para os homens. Elas só foram homenageadas passados 30 anos sobre a guerra. Ao ir ao encontro daquelas que são as protagonistas do seu livro, mesmo passados tantos anos, sentiu que algumas tinham dificuldade em se libertar de uma narrativa da época (a verdade comum), sentindo-se constrangidas a contar a sua história, havia as que em dado momento já não conseguiam continuar “Não me quero lembrar” (pág. 47), mas também as que tinham ânsias de contar os detalhes, como as coisas se passaram (a verdade pessoal). “Por que é que só agora vieste ouvir-nos?” disseram-lhe algumas das narradoras.


De que falam aquelas mais de três centenas de narradoras de “A Guerra não tem Rosto de Mulher”, aquelas então raparigas russas de 1941? De solidão, de dúvidas, de medo, de ódio, de amor à Pátria, de vingança, de perdão, de reconciliação, de sentimentos de culpa, da roupa de homem que tiveram de vestir, de amor, de fervor ideológico, de escolhas dolorosas. Da fome e da solidariedade das populações sem o apoio das quais a vitória não teria sido possível. Dos cercos a Leninegrado e Estalinegrado. Os riscos e sacrifícios extremos dos partisans e sector clandestino são bem documentados no capítulo “Sobre batatas miudinhas…”, talvez um dos mais duros.


Elas ocuparam todas as profissões e não só as relacionadas com enfermagem. Muitas estiveram na linha da frente, o lugar mais desejado por elas, fruto do fervor ideológico e da convicção de que o inimigo seria vencido em pouco tempo, estiveram nos tanques, na Marinha, mas também nos “bastidores”: foram cozinheiras, lavadeiras, bombeiras, padeiras, fotógrafas, abastecedoras, no serviço postal, engenheiras civis… E as sapadoras, as que ficaram depois da guerra e que tiveram de ficar no terreno a desminar os campos.


Terminada a guerra, é o vazio para muitas delas. A esperança de que no fim da guerra todos se amariam rapidamente se esvai. As terras perderam os seus homens, as famílias estão desfeitas, elas sentem-se velhas. Muitos olham para elas com desconfiança, rotulam-nas de EC “esposas de campanha” (pág. 292). Elas receavam que ninguém quisesse casar com elas e os homens não as protegeram. A guerra terminara, mas para elas ia começar uma nova guerra. Os traumas que trouxeram da guerra ficaram e permanecem.


Termino, transcrevendo alguns excertos deste que foi o primeiro livro de Svetlana Alexievich e sobre o qual só tenho a dizer: leiam-no. Não mais o vão esquecer.


 


“Tenho pena dos que vão ler este livro e dos que não o vão ler…” (frase de uma das vozes deste livro. (pág. 33)


“Eu tinha uma trança muito bonita, saí já sem ela… sem a trança… Cortaram-me o cabelo à soldado.” “E não me devolveram o vestido. Não me deram tempo de entregar o vestido e a trança à minha mãe. Ela pedira muito para ficar com alguma coisa minha.” (pág. 51)


“A primeira vez é terrível… Mesmo terrível…” (pág. 54)


Mesmo que regresses viva de lá, a alma dói-te” (pág. 62)


“Certa vez, durante os exercícios… Não consigo lembrar-me disso sem chorar, não sei porquê… Era Primavera. Terminámos o exercício de tiro e regressávamos ao acampamento. Apanhei umas violetas. Um raminho pequeno, que atei à baioneta.” (pág. 98)


“Porque sobrevivi? Para quê? Penso… No meu entender, para poder contá-lo…” (pág. 135)


“Recordar é terrível, mas não recordar é mais terrível ainda.” (pág. 159)


“Depois da guerra nunca mais voltei a ser jovem.” (pág. 189)


“Todos ansiavam chegar vivos ao dia da Vitória” (pág. 277)


“Para os sapadores a guerra acabou uns anos depois da guerra… Imagine o que é estar à espera de uma explosão depois da Vitória? Estar à espera daquele instante…Oh, não! A morte depois da Vitória é a mais horrorosa. É como morrer duas vezes” (pág. 279)


“Não enterro o meu marido, enterro o meu amor.” (pág. 286)


 “Acho que, se não me tivesse apaixonado na guerra, não teria sobrevivido. O amor salvava. Salvou-me a mim.” (pág. 292)


“Na guerra nunca sorria”


“Na altura da minha partida para a frente, as cerejeiras do nosso pomar estavam em flor” (pág. 296)


“Será que é possível escrever sobre isto? Dantes não se podia…” (pág. 373)


 


19 de Fevereiro de 2022


 


 


 


 

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Um Muro no Meio do Caminho, Julieta Monginho

Um Muro no meio do Caminho.jpeg


Um Muro no Meio do Caminho, Julieta Monginho, 2017


Um livro extraordinário.O primeiro que li de Julieta Monginho e que recebeu por unanimidade o prémio Fernando Namora. Já antes, em 2008, recebera o Grande Prémio de Romance e Novela da APE por outro livro, sendo significativa a sua produção literária. Depois de ter lido “Um Muro no Meio do Caminho” só posso dizer que tenho andado distraída, pois Julieta Monginho é uma escritora que merece ser conhecida e divulgada.


No Verão de 2016 aportou a uma ilha grega, não como turista, mas como voluntária num campo de refugiados. Este livro para o qual alerta os leitores que se trata de ficção (será mesmo?) traz-nos uma série de personagens cujas vidas estão suspensas numa “ilha que é uma prisão disfarçada de paraíso”. No meio do pó ou da lama, do calor asfixiante ou do frio inclemente que fustiga as tendas e os contentores onde se amontoam, dos ratos ou dos escorpiões, os refugiados são sobreviventes que ousaram fugir do inferno da guerra em Alepo, ou no Afeganistão e continuam a sonhar com uma Europa que os olha de lado, que os cerca de arame farpado, onde a roupa a secar é o sinal da dignidade daqueles seres humanos que estão ali para lembrar ao mundo o direito de asilo que lhes assiste por direito e a Declaração Universal dos Direitos Humanos que orgulhosamente a Europa assinala a cada 10 de Dezembro e que está na génese daquilo a que se convencionou chamar construção europeia.


As personagens que nos traz são a paleta do mundo que se encontra confinado num espaço exíguo que sendo Europa é como se não fosse e que aguardam o salvo-conduto até Atenas para daí seguirem para poderem concretizar os seus sonhos: jovens mulheres de hijab, rapazes rebeldes ou sonhadores (lunáticos?), mulheres sem chão porque perderam tudo, crianças não acompanhadas “sem casa nem futuro”, crianças abusadas, intérpretes, cineastas, voluntários incansáveis também eles “náufragos de idênticas perdas…”. São pessoas de carne e osso, escrevem e desenham em cadernos, trouxeram um telemóvel e um computador protegidos dentro dum saco de plástico, guardam a t-shirt que o filho vestia quando foi abatido, gostam de dançar e de fazer filmes, apaixonam-se. Revoltam-se, inventam esquemas para fugir, fintam a burocracia, desesperam. Quem é refugiado? Quem procura auxílio? Quem é livre?


Claramente identificada com valores de solidariedade e igualdade entre as pessoas e com especial atenção e sensibilidade para as barreiras que se erguem à emancipação e liberdade das mulheres, Julieta Monginho questiona os estereótipos, quer levar para aquela ilha e para aquelas raparigas e mulheres no Athena Centre for Women toda a bagagem teórica que trouxe de Portugal, mas coloca-se numa posição humilde, de questionamento e de profundo respeito por aquelas pessoas. “O que é que faço aqui se não lhes valho?” “… mas pouco podia fazer para ajudar.” ”Em que fresta da sua identidade entrava o meu paleio ocidental?” Afinal o testemunho escrito contido neste livro, com personagens e situações ficcionadas ou não, é por ventura o apoio que perdurará no tempo para a causa dos refugiados. Enquanto leitores/as não esqueceremos o apelo de Ashmahn, a jovem grávida, quando se despede da ilha ao encontro do marido na Alemanha “Vê e não esqueças. Vê e dá notícia.”


Este livro é uma denúncia. Um testemunho comovente. É o pulsar do real, dos nossos dias, das nossas vidas, do nosso mundo. Um abanar do acomodamento, da distância, daquilo que está longe e não me diz respeito, da insensibilidade. “O mundo já não se choca com nada.”  Valha-nos a literatura para derrubar os muros que estão no meio do caminho.


18 de Novembro de 2019


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...