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terça-feira, 28 de abril de 2026

A Livraria Perdida, Evie Woods

 



“A Livraria Perdida” – Evie Woods, 2023

 

Hoje são dezenas os livros que atraem amantes de livros e de gatos com títulos e capas sugestivos, que muitas vezes acabam por ser meros produtos facilmente vendáveis, mas de fraca qualidade literária. “A Livraria Perdida” foi-me oferecido por amigas que sabem desta minha ligação aos livros e à literatura e acho que, também por o romance se passar na cidade de Dublin e ter referências a James Joyce, autor de que lemos “Dubliners”, deve ter sido determinante na escolha deste livro que me ofereceram. 

Se houve aspectos muito interessantes no livro, confesso que com muito menos folhas, o livro não perderia muito. A parte relacionada com os encontros/desencontros amorosos das duas personagens me aborreceu bastante; achei mesmo que o livro tem muitas passagens xaroposas e muitos lugares comuns que me deram vontade de as saltar. Também as partes relacionadas com o realismo mágico são um bocado incongruentes, alguns aspectos da narrativa são pouco consistentes e nem todas as pontas soltas se conjugam, mas mesmo assim gostei de ir até ao fim na leitura do livro da irlandesa Evie Woods.

São três os narradores do livro, cujos nomes dão título aos diferentes capítulos. Embora Opaline Carlisle – a mais interessante – tenha vivido no século passado, há um vínculo (ou múltiplos vínculos) que os une a todos: a paixão pela literatura e por manuscritos e livros raros; a violência e o abandono nas relações familiares; a capacidade de superação. Opaline é uma mulher muito corajosa para a época, alguém que ama a liberdade mais do que tudo e, portanto, não se sujeita à submissão de um casamento arranjado

Se o tema da violência doméstica surge bem retratado, foi, no entanto, a questão do encarceramento da jovem Opaline Carlisle durante dezoito anos no hospício do distrito de Cornacht na Irlanda, o que mexeu mais comigo ao longo da leitura deste livro, lembrando-me a recente leitura do maravilhoso “Pequenas Coisas com Estas” de Claire Keegan. “Eu tinha ouvido falar de lares para mães e bebés na Irlanda – sítios para onde mães solteiras eram enviadas pelas famílias para terem os seus bebés em segredo.” (pág. 238) Mulheres com comportamentos fora da norma, neste caso a gravidez de Opaline e a recusa de casar com alguém que ela não escolheu, o que a levou a fugir de casa, eram aprisionadas em hospícios longe da vista de todos e “diagnosticadas” de loucas, de violentas, de histéricas, enfim “mulheres problemáticas, com ideias inconvenientes.” (pág. 259). Lucia, a filha de James Joyce que sofria de esquizofrenia, foi internada numa destas instituições em 1932 e por lá ficou por cinquenta anos…

Pensar que este tipo de instituições geridas por freiras e financiadas pela igreja Católica, em parceria com o estado irlandês, resistiram e persistiram até 1996, é verdadeiramente chocante. Como diz a nota final no livro de Claire Keegan a que faço referência “Não se sabe quantas raparigas e mulheres foram escondidas, aprisionadas e obrigadas a trabalhar nestas instituições. Dez mil é a estimativa mais moderada; trinta mil seria provavelmente um número mais exato”

23 de Abril de 2026

sábado, 27 de dezembro de 2025

Uma pilha incompleta

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Uma pilha incompleta

De facto, a imagem não corresponde aos livros que li ao longo deste ano de 2025. A pilha está incompleta. Estes são os que tenho neste momento em casa. Como li vinte e quatro livros, os dez que faltam aqui, ou estão emprestados, ou requisitei-os na biblioteca municipal e, portanto, não podem fazer parte da fotografia.

Foram seis autores homens e dezassete autoras mulheres, o que geralmente me acontece, e nem é por num dos clubes de leitura que frequento, só lermos mulheres escritoras. Onze autores portugueses e doze estrangeiros e aqui o equilíbrio é maior. A maioria das obras foram escritas já neste século e apenas cinco no século passado.

Ora então aqui os trago de novo, por ordem de leitura entre Janeiro e Dezembro. Um mundo emoções, de descobertas, de grandes leituras.

“Na Terra dos Outros” - Manuel Abrantes, 2024

O que ela se interrogava era como faria para abrandar e imobilizar a bicicleta sem tombar desamparada. Ocorreu-lhe que seria mais prudente conservar-se em movimento, rua após rua, esquina após esquina. Ali estavam já os dois jovens diante do bloco de apartamentos, os seus filhos adolescentes a olharem para ela pasmados, tão pasmados que seriam incapazes de rir ou de protestar.” 

 

“Do Outro Lado do Sonho” - Ursula K. Le Guin, 1971

 “Poderia alguém, mesmo são, viver neste mundo sem dar em doido?” 

 

“Um Dia na Vida de Abed Salama” - Nathan Thrall, 2023 

 “O acidente destruíra todas as famílias, cada uma à sua maneira”. 

 

“El-Rei, Nosso Senhor, Sebastião José” - Ana Cristina Silva, 2024

“Quantas vezes se tem a oportunidade de mudar um país e ao mesmo tempo derrubar os inimigos?”

 

“Corpo Vegetal” - Julieta Monginho, 2024

Vale a pena avançar quando “já ninguém acredita em nada” e já ninguém acredita no #metoo?

 

“Anónimos de Abril” – Vol. 1, José Fialho Gouveia, Rogério Charraz, Joana Alegre, 2005 

 “O medo foi sempre a grande arma da repressão. Todavia, há alturas na vida em que não se pode recuar. Essa era a altura. Tinha de vencer o medo.” 

“Proibida na Normandia” – Rosario Raro, 2024

«Se não acabarmos com a guerra, a guerra acabará connosco». 

 

“O Baile” – Irène Némirovsky, 1930 

É em torno deste mal viver que se desenrola este pequeno conto que tem um desenlace insólito.

 

 “Filho da Pide” – Paulo Jorge Pereira, 2023

passado meio século sobre a queda dos fascismos, foi então possível começar a compreender os fenómenos ocultos (ou silenciados) do consentimento coletivo ou mesmo da colaboração de vastos grupos sociais ou instituições que, de forma conivente, ajudaram e permitiram manter uma violência irrestrita das polícias políticas sobre os seus compatriotas resistentes.”

 

“As Malditas”. Camila Sosa Villada, 2019

“O meu pai e a minha mãe sentiam vergonha de mim. (…) Mas eu também sentia vergonha deles”

 

“As Moscas de Outono” – Irène Némirovsky, 1931

Eles, (os Karine) iam, vinham, de um muro ao outro, silenciosamente, como as moscas de Outono, quando o calor, a luz e o verão aparecem, voam penosamente, exaustas e arreliadas, contra os vidros, arrastando as asas mortas” 

 

“Cartas para minha Avó” – Djamila Ribeiro, 2024 

Minha mãe teve suas asas cortadas por muitas tesouras, e dizer a ela que a compreendíamos foi como fazer um pedaço se colar.” 

 

“Memória de uma Epifania” – Maria João Vaz, 2023

“De uma forma geral, as pessoas sabem pouco sobre o que é ser trans, e o que julgam saber está cheio de equívocos.” 

 

“O Regresso de Júlia Mann a Paraty” – Teolinda Gersão, 2021

 “A Alemanha regrediu milénios, e mergulhou numa barbárie a que poderíamos chamar pré-histórica. Parecia impossível, mas aconteceu” 

 

“A Outra Filha” – Annie Ernaux, 2011

“Tu só existes através da impressão que deixaste na minha existência. Escrever-te mais não é do que percorrer a tua ausência. Descrever a herança de ausência. És uma forma vazia impossível de preencher com a escrita.” 

 

“Autobiografia de uma Mulher Romântica” – Natália Nunes, 1954 

 “Fui repelida e desprezada por ser uma romântica. Pois não serei eu quem desminta a minha natureza! Se não tenho lugar neste mundo fujo para as penhas nas alturas solitárias e levo a minha alma, que o meu corpo de bicho montês sabe contentar-se com as caricias das fragas e com os beijos dos arbustos!”

 

“As Migalhas de Beirute” – S. Costa Brava, 2019 

O ódio e a violência só geram cada vez mais ódio e violência. Todos perdemos e a democracia fica em risco. Será que temos capacidade de enfrentar a besta que nos quer destruir?

 

“Anos de Brasa” – Luís Farinha, 2025

“Quem nos garantia que os «analfabetos» desejavam ter consciência de si e do mundo em troca de aprender a escrever e ler nomes de coisas?”

 

“Como Animais” – Violaine Bérot, 2021

“Nós

as fadas

vemos

o que alguns homens

por vezes

fazem às mulheres

sem lhes perguntarem

nada.

 

Sem pedirem

às mulheres

o seu consentimento

sem lho pedirem

os homens

antes.”

 

“O Quinto Filho” – Doris Lessing, 1988

Condenação, crítica e incompreensão: Ben parecia causar estas emoções, fazê-las emergir nas pessoas, trazendo-as ao de cima…” 

 

“Notas sobre um Naufrágio” – Davide Enia, 2017 

“De todas as vezes, absolutamente todas, tenho a nítida sensação de me encontrar diante de seres humanos que carregam dentro de si um cemitério inteiro.

 

“Gaza Está em Toda a Parte” – Alexandra Lucas Coelho, 2025

“A Europa disse: nunca mais, e era mentira. Estamos a ver o genocídio ao minuto num campo de concentração”

 

“Regresso a Reims” – Didier Eribon, 2009 

Estamos sempre em equilíbrio instável entre o significado ofensivo da palavra injuriosa e a sua reapropriação orgulhosa. Nunca se é totalmente livre, nunca se está libertado.” 

 

  “Pequenas Coisas como Estas” – Claire Keegan, 2021

a última lavandaria de Madalena só foi encerrada em 1996. Não se sabe quantas raparigas e mulheres foram escondidas, aprisionadas e obrigadas a trabalhar nestas instituições. Dez mil é a estimativa mais moderada; trinta mil seria provavelmente um número mais exato.”

 

27 de Dezembro de 2025

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Foi um Bom Ano (de leituras)!

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Foi um bom ano!


Costumo dizer que quem não tem o hábito de ler, nem sabe o que perde. Em cada livro que lemos há um mundo novo que se abre, um diálogo que encetamos, uma caixa onde descobrimos preciosidades inimagináveis. Quem me conhece, sabe como a leitura é das actividades que mais prazer me dá e como depois de cada livro que leio, gosto de escrever um pequeno texto com a minha leitura pessoal. Só então dou por terminada a leitura. Às vezes, fico até com dificuldade de passar para outro livro, porque o anterior ainda anda às voltas na minha cabeça.


No final de cada ano, agarro na agenda onde listei os livros que li e depois faço aqui uma pequena publicação-síntese. É um clássico. A fotografia não reflecte essa lista, porque alguns dos livros que li requisitei-os na Biblioteca Municipal e outros emprestei-os e não os tinha comigo para a “fotografia de família”.


Como em anos anteriores, leio uma média de dois livros por mês. Este ano foram vinte e dois, melhor, vinte e um e meio porque ainda ando a meio da maravilhosa biografia de Agustina Bessa-Luís da autoria de Isabel Rio Novo, que penso terminar ainda durante as férias de Natal. Tento sempre escolher de forma paritária os autores, para que não sejam só homens ou só mulheres, ou só nacionais ou internacionais. Tento também não ir só atrás das modas ou do que que as livrarias (im)põem nas montras, embora este ano tenha usado menos o velho modo aleatório dos “potes” de livros “há muito à espera da sua vez” e “as novidades compradas ou oferecidas”. E como sigo três clubes de leitura – Unisseixal, Leia Mulheres Lisboa e Ler à Esquerda – tenho de tentar seguir as escolhas que são feitas pelos grupos. Li onze autores portugueses e onze autores estrangeiros; oito escritores e catorze escritoras.


Reli Maria Judite de Carvalho e Eça de Queirós no Círculo de Leitura da Unisseixal. Participei pela primeira vez numa maratona de leitura integral do “Manual de Pintura e Caligrafia” no dia do 17º aniversário da Fundação José Saramago e, promovido pela FEM com o apoio da livraria Snob, fizemos a maratona de leitura de “Novas Cartas Portuguesas”, para celebrar os 50 anos da absolvição das Três Marias.


Por ordem cronológica da leitura ao longo dos 12 meses do ano, sem escolhas impossíveis de fazer do tipo “os 5 melhores”, aqui vai a minha lista:



  1. “Capitães da Areia”, Jorge Amado, 1937

  2. “Acreditar nas Feras”, Nastassja Martin, 2019

  3. “Paula Rego, A Luz e a Sombra, Uma Forma de Olhar”, Cristina Carvalho, 2023

  4. “Tanta Gente, Mariana”, Maria Judite de Carvalho, 1959

  5. “Vemo-nos em Agosto”, Gabriel Garcia Márquez, 2024 (lançamento)

  6. “Outrora e Outros Tempos”, Olga Tokarczuk, 1992

  7. “A Cidade e as Serras”, Eça de Queirós, 1901

  8. “Memórias de Adriano”, Marguerite Yourcenar, 1951

  9. “Manual de Pintura e Caligrafia”, José Saramago, 1977

  10. “A Desobediente”, Patrícia Reis, 2024

  11. “Os Cus de Judas”, António Lobo Antunes, 1979

  12. “A Boa Sorte”, Rosa Montero, 2020

  13. “O Meu Pai Voava”, Tânia Ganho, 2024

  14. “Fahrenheit 451”, Ray Bradbury, 1953

  15. “As Inseparáveis”, Simone de Beauvoir, 1954

  16. “Retrato de Corpo e Alma”, Luís Alpico, 2023

  17. “O Poço e a Estrada”, Isabel Rio Novo, 2019

  18. “Um Cão no Meio do Caminho”, Isabela Figueiredo, 2022

  19. “Atos Humanos”, Han Kang, 2017

  20. “Timbuktu”, Paul Auster, 1999

  21. “Monólogo de uma Mulher Chamada Maria com a sua Patroa”, Sara Barros Leitão, 2021

  22. “Caderno Proibido”, Alba de Céspedes, 1952.


e…“Novas Cartas Portuguesas”, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, 1972


Para o ano há mais.


Que seja um ano de boas leituras.


31 de Dezembro de 2024


 

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Fahrenheit 451, Ray Bradbury

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“Fahrenheit 451”, Ray Bradbury, 1953


Vi o filme “Fahrenheit 451” duas ou três vezes. Como será o livro? Tão impressionante como foi o filme quando o vi? Estas algumas das perguntas que formulei mal comecei a leitura. Esta edição, com um prefácio de Jaime Nogueira Pinto, abre com um “AVISO: Se tem a sorte de estar a ler Fahrenheit 451 pela primeira vez e ainda não viu o filme, deixe este prefácio para o fim.” Não era o meu caso! Por isso comecei pelo prefácio, onde JNP escreve sobre a importância das leituras na sua vida, para além da valorização desta obra em particular. Anotei algumas frases significativas, entre elas “Esta destruição dos livros é semelhante a um Apocalipse” (p. 14) ou “Os livros são perigosos e levam a pensar e a julgar criticamente”(p. 15).


O livro, com a tradução de Casimiro da Piedade, começa assim: “Era um prazer pôr fogo às coisas” (p. 23). Fahrenheit 451 passa-se num tempo em que “ninguém tem tempo para os outros” (p. 46), onde é fundamental as pessoas não terem tempo para pensar, em que é proibido conduzir devagar ou mesmo andar a pé pela rua, onde quem faz perguntas é considerado anti-social, onde as pessoas não se apercebem de coisas tão simples como a relva ou o orvalho, onde as crianças são um enfado, em que não há memória e nem existe a ideia de felicidade. Aliás, o mundo está em guerra, mas as pessoas estão de tal forma alheadas, que isso lhes é indiferente. As casas são à prova de fogo, têm as paredes revestidas com grandes ecrãs com personagens consideradas “família” e onde não há livros. Se os há, eles serão queimados. Para isso existem os bombeiros, para queimar livros, que ardem à temperatura de 451 graus Fahrenheit.


Guy Montag, bombeiro há dez anos, é um dia confrontado com uma pergunta que Clarisse, a jovem vizinha, lhe faz: “Alguma vez leu os livros que queimou?” (p. 28). Dias mais tarde, numa acção em casa de uma senhora denunciada por ser possuidora de livros, impressiona-o a senhora não querer deixar os livros e imolar-se com eles.


Clarisse percebera que Montag era recuperável, que não era como os outros. Com efeito, sempre que há tirania, há resistência e um dia o bombeiro que queimava livros irá juntar-se a outros homens que tiveram de fugir para sobreviver. Nesta sociedade distópica em que os sentimentos não existem, os focos de resistência são “acampamentos móveis”, pessoas que guardaram livros nas suas cabeças “aonde ninguém consegue aceder facilmente. Somos todos bocados e pedaços de história, literatura e direito internacional” (p. 194). “Vagabundos por fora, bibliotecas por dentro” (p. 195).


Quais fénix renascidas, num mundo arrasado pela guerra, o papel daqueles homens era poder ajudar alguém com a “carga” que transportavam. E usar o tempo que tinham. “Para tudo há um momento. Sim. Tempo para destruir e tempo para edificar. Sim. Tempo para calar e tempo para falar. Sim, tudo isso. Mas que mais? Que mais? “ (p. 208)


Gosto de livros que nos interrogam, que nos fazem reflectir e este, estando o autor longe de imaginar o peso das redes sociais na formação do pensamento, na difusão de (in)verdades nos dias de hoje, é profundamente actual. Não sei se fará parte da lista do Plano Nacional de Leitura, mas seria bom que fizesse, pois reflecte uma preocupação de Ray Bradbury na época (anos 50 do século passado) sobre “o modo como a televisão estava a destruir “o nosso interesse pela leitura e pela literatura e a transformar as pessoas em imbecis” (It is about people being turned into morons by TV”) (p. 15).


1 de Outubro de 2024

domingo, 6 de outubro de 2024

O Fernando e os livros

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Estava à espera do autocarro para o comboio quando vi o Fernando a sair do autocarro do outro lado da rua. Acenei-lhe e  ele atravessou a rua para vir falar-me. Há alguns meses que não nos víamos. 


Cumprimentamo-nos e ele mostra-me o que traz na mão.  - Almerinda, venho da feira da bagageira do Barreiro. Veja o que comprei: Jorge Amado, não podia perder. Olhe como está em bom estado e paguei 1euro por ele. Veja bem, um euro!


Todos os fins de semana, o Fernando corre as feiras da bagageira à procura de pechinchas livrescas. Conhecia-o há anos, mas só de vista. Conheci-o melhor nas minhas aulas de Inglês no passado ano e como assíduo participante no Círculo de Leitura da Unisseixal.  Aí percebi que era um leitor compulsivo, apaixonado por Saramago e outros grandes nomes da literatura universal.


Depois disse-me que tinha cinco livros na mesinha de cabeceira à procura da sua vez. E entre eles Os Cus de Judas. Passámos a falar do livro, de António Lobo Antunes, do horror da guerra e das marcas da guerra nos homens que fizeram a guerra nas colónias. E ele disse-me que também ele tinha estado em Angola, no cu de Judas, como Lobo Antunes.


Depois lembrei-me daquela vez em que nos confiou, numa sessão do nosso círculo de leitores, que na tropa, enquanto todos jogavam, ele lia e encontrava na leitura o espaço de evasão duma guerra injusta e sem sentido. 


Pois é.  A literatura salva mesmo. 


5 de Setembro de 2024 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Mais um ano a viajar

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Junto em cima da mesa os 21 livros que me fizeram viajar ao longo deste ano. Não é muito diferente o número de livros que empilho este ano, se o comparar com os dos outros anos. O ritmo de leitura continua razoável e aceitável e fico satisfeita. Mas na pilha faltam dois: um que me foi emprestado - "A Hora do Lobo" - e o outro que o Vítor me deu  - "Se os Gatos desaparecessem" - e que não consigo encontrar na confusão e desarrumação, quando já não há prateleiras que cheguem para acomodar tanto livro. Será que o emprestei?


Apresento-os. Mas para quem quiser saber o que escrevi sobre eles, basta pesquisar neste meu blogue.


"Um dia chegarei a Sagres" de Nélida Piñon 


"Na cozinha, à noite, perdia-me em conjeturas, de como chegar um dia a Sagres, a pé ou de barco." 


"Misericórdia" de Lídia Jorge


"Não há mais nada que seja só meu, nem o meu corpo, nem o meu espírito"


"A Hora do Lobo" de César Afonso


"Na infância não havia tempo, não havia limites, apenas um mundo inteiro para descobrir ao sair da porta"


"As Coisas que faltam" de Rita da Nova


" ...o maravilhoso mundo da maternidade."


"O País debaixo da minha Pele" de Gioconda Belli


"... escrevo estas memórias em defesa dessa felicidade pela qual a vida e até a morte valem a pena."


"O Hóspede de Job" de José Cardoso Pires


"Na véspera, as mulheres tinham marchado sobre a Vila e, todas em coro, apresentaram-se na Câmara. Pediam pão para casa, trabalho para os maridos."


"Como um Marinheiro eu partirei" de Nuno Costa Santos


"A adolescência é poder ser eterno por um instante" 


"Diário de um Médico no Combate à Pandemia" de Gustavo Carona 


"A coesão, a união, a solidariedade à volta de uma causa atingiram níveis nunca antes sentidos por ninguém"


"Galileu em Pádua" de Alessandro De Angelis


"A Inquisição e a censura estão a regressar"


"Silêncio na Casa do Barulho" de Margarida Carpinteiro


"As crianças compreenderam que as pessoas grandes também apanham quando não obedecem."


 "Maria Antonieta" de Stefan Zweig


"Quando, enfim, a chamam diante do tribunal, é uma velha de cabelos brancos que sai dessa longa noite e que avança para a luz do dia, a que já não está habituada."


"As Primas" de Aurora Venturini


"Não éramos comuns, ou seja, não éramos normais."


 "Memória de Elefante" de António Lobo Antunes


"Fizera da vida uma camisola-de-forças em que se lhe tornava impossível mover-se..."


"Rebeldia" de Cristina Carvalho


"Afinal, todos vivemos com as nossas janelas. Umas abertas, outras sempre fechadas."


"Crónica do Rei-Poeta Al-Mu'Tamid" de Ana Cristina Silva


"Nasci com vocação para poeta, mas o destino quis que eu administrasse um reino."


"Se os Gatos desaparecessem do Mundo" de Genki Kawamura


"Só percebemos o que são as coisas realmente importantes quando as perdemos."


"Levantado do Chão" de José Saramago 


"De mulheres nem vale a pena falar, tão constante é o seu fado de parideiras e animais de carga."


"Gente de Dublin" de James Joyce


"Só o trabalho, sem brincadeira, faz de Jack um rapaz estúpido."


"Sol de Inverno" de Elisa Saraiva 


"...por momentos ninguém saiu do carro. Estavam a encontrar as forças necessárias para enfrentar a casa abandonada e as recordaçõpes feitas de lágrimas e dores."


"Caro Professor Germain" de Albert Camus


"A miséria é uma fortaleza sem ponte levadiça."


"As Meninas Proibidas de Cabul" de Jenny Nordberg


"No Afeganistão temos de matar tudo o que há dentro de nós para nos adaptarmos à sociedade . É a única maniera de sobreviver."


Estão pois nomeados os 21 lidos em 2023.


Escritos por 10 mulheres e 11 homens.


12 autores portugueses e 9 estrangeiros.


7 destes livros foram escritos no século passado e 14 já neste. 


Quero tentar manter estes equilíbrios nas escolhas das minhas leituras futuras.


Tenho tanto livro por ler. Tanto livro que vai ficar por ser lido porque o tempo de vida é finito. Mas sei quais vão ser os próximos: o mais recente romance biográfico de Cristina Carvalho "Paula Rego - a Luz e a Sombra uma Forma de Olhar" e "Capitães da Areia" de Jorge Amado, o livro escolhido pelo Círculo de Leitura da UNISSEIXAL, para a sessão de Janeiro.


Bom Ano. Boas Leituras.


28 de Dezembro de 2023

domingo, 17 de julho de 2022

A preparar as férias...

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E enquanto sigo a bom ritmo a excelente biografia de José Cardoso Pires, preparo as minhas leituras de férias, seguindo o acaso dos papelinhos que os meus dois potes contêm. Livros antigos/livros recentes. 

Siga.

 

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Contos de Cães e Maus Lobos, Valter Hugo Mãe

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Para ti, Zita, irmã do coração, que tiveste o carinho de me oferecer este belo livro num dia de anos. 


“Contos de Cães e Maus Lobos”, Valter Hugo Mãe, 2015


À medida que fui lendo “Contos de Cães e Maus Lobos”, o quinto livro que leio de Valter Hugo Mãe, fui percebendo que me iria ser difícil escrever sobre os doze contos deste livro. Achei mesmo que me iria limitar a transcrever alguns excertos mais significativos que me tinham mais impressionado. Para além da escrita pessoalíssima de Valter Hugo Mãe, cada conto é acompanhado de imagens de artistas plásticos que o autor convidou. Destaco a capa belíssima de Paulo Damião que ilustra o primeiro conto “ A Menina que carregava Bocadinhos” e o prefácio de Mia Couto a que deu o título “Um Pequeno Prefácio para Contos Gigantes”. A certa altura, Mia Couto escreve: “ Tal como nos livros anteriores, há nesta antologia de contos o convite ao regresso a um recanto de que nunca saímos, um reencantamento de infância, uma cumplicidade de quem partilha vazios e silêncios”. (…) “ Está nestes contos aquilo que está em toda a sua obra: o questionar das nossas certezas mais fundas, uma visita às profundezas da alma.” (…) “E é por isso que estes contos, mais do que gigantescos, não têm tamanho.”


“A Menina que carregava bocadinhos” é o sonho de liberdade. “A liberdade também era isso, não voltar”… …a criada vestiu a sua blusa de princesa e soltou os cães que se puseram em rebuliço e latindo.” (pág. 29).


“O menino nadou para depois de uma onda grande e não voltou. A mãe estendeu as mãos na água buscando o seu corpo diluído. Julgava ela que o filho se diluíra como um cubo de açúcar incapaz de adocicar o mar. Jurou que o buscaria sempre. Haveria de o reconhecer nem que ele se tornasse ínfimo.” (pág. 37). Assim começa o segundo conto com o título “O menino de água”, que na nota do autor que figura no final do livro “é para todas as pessoas que acreditam que as crianças não se podem perder pela tragédia do mundo que os adultos criam.” (pág. 159).


Crescer não é fácil; por vezes é até doloroso e um processo solitário. Assim li “Querido monstro” de que escolhi esta passagem: “…nenhuma tristeza define obrigatoriamente o que podemos fazer no dia seguinte. No dia seguinte, ainda que guardemos a memória de cada dificuldade, podemos sempre optar por regressar à busca das ideias felizes.” (pág. 52).


Quando decidimos não agir em conformidade com aquilo que a sociedade espera de nós, podemos ser postos de lado ou ser considerados malucos. Assim aconteceu com “A princesa com alma de galinha”. “Um dia, a princesa disse que queria ser enfermeira e imediatamente correu pelo reino a notícia de que a moça estava maluca.” (pág. 59).


Da história de uma criança que vive no cimo de um monte isolado com a mãe e o pai que é guarda-florestal, transcrevo este parágrafo e relevo o papel determinante que certos professores e professoras têm nas nossas vidas e na nossa maneira de olhar para o mundo: “Percebi que para dentro de nós há um longo caminho e muita distância. Não somos nada feitos do mais imediato que se vê à superfície. Somos feitos daquilo que chega à alma e a alma tem um tamanho muito diferente do corpo.” (pág. 85).


“O rapaz que habitava os livros” fala de quando a paixão dos livros se sobrepõe a tudo. “Os livros não esquecem nada. Eles são para sempre a mesma memória admirável. Esquecer livros é uma agressão à sua própria natureza. Embora, na verdade, eles nem se devam importar, porque podem esperar eternamente.” (pág. 93). “Todos os livros são conversas que os escritores nos deixam. Podemos conversar com Camões, Shakespeare ou Machado de Assis, mesmo que tenham morrido há tantos anos. A morte não importa muito para os livros”. (pág. 95).


“Tinha um pássaro no coração. Era assim mesmo, o lugar mais decente para aprisionar um animal de estimação”. (pág. 106), do lindíssimo conto “Modo de amar”.


A história da menina do capuchinho vermelho e do lobo mau é recriada em “O mau lobo”. Aqui de novo a inocência da menina e do lobinho que vai ser curado com as mezinhas que a avó conhece.


“As mais belas coisas do mundo” foi talvez o conto que mais amei de entre os doze contos do livro, o qual nos fala da relação do narrador com o seu avô. Dá vontade de o transcrever todo, de o reler e reler e reler. “Eu entendi que o meu avô era como todas as mais belas coisas do mundo juntas numa só. E entendi que fazer-lhe justiça era acreditar que, um dia, alguém poderia reconhecer a sua influência em mim e, talvez, considerar de mim algo semelhante. Com maior erro ou virtude, eu prometi tentar.” (pág. 128).


Quando li “Quatro Velhos”, o penúltimo conto, não consegui deixar de pensar no conflito actual entre a Rússia e a Ucrânia!


Neste encantamento que é ler e ficar a matutar depois de cada conto, chego ao último “Bibliotecas” ilustrado por Jas e fico rendida logo com a primeira frase: “As bibliotecas deviam ser declaradas da família dos aeroportos, porque são lugares de partir e de chegar.” (pág. 149). Vira-se a página, no alvoroço da descoberta que Valter Hugo Mãe nos propõe sobre o que são as bibliotecas, e não resisto: “Adianta pouco manter os livros de capas fechadas. Eles têm memória absoluta. Vão saber esperar até que alguém os abra. Até que alguém se encoraje, esfaime, amadureça, reclame o direito de seguir maior viagem. E vão oferecer tudo, uma e outra vez, generosos e abundantes. Os livros oferecem o que são, o que sabem, uma e outra vez, sem se esgotarem, sem se aborrecerem de encontrar infinitamente pessoas novas. Os livros gostam de pessoas que nunca pegaram neles, porque têm surpresas para elas e divertem-se com isso. Os livros divertem-se muito.” (pág. 150). E a terminar: “Todos os livros são infinitos. Começam no texto e estendem-se pela imaginação. Por isso é que os textos são mais do que gigantescos, são absurdos de um tamanho que nem dá para calcular. Mesmo os contos, de pequenos não têm nada. Se os soubermos entender, crescemos também, até nos tornarmos monumentais pessoas. Edifícios humanos de profundo esplendor. // Devemos sempre lembrar que ler é esperar por melhor”. (págs. 151, 152)


Na Nota do Autor, que encerra o livro, acompanhada da arte de Duarte Vitória, Valter Hugo Mãe esclarece que “Não sei escrever para crianças. Acho que apenas ausculto a sua candura, mas não sei rigorosamente dirigir-me a elas. Sou desajeitado. Os contos que invento ficam arrevesados de ser uma coisa e outra. Talvez sejam a consciência magoada pela evidência de hoje me ter adulto”.


Se quem ler este meu texto tiver ficado tentado a ler este “Contos de Cães e Maus Lobos” já me darei por feliz. É de facto um livro invulgar.


6 de Abril de 2022


 

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Por este Mundo Acima, Patrícia Reis

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Por este Mundo Acima, Patrícia Reis, 2011


Este foi o último livro que li em 2021, terminado exactamente no último dia do ano, mas sobre o qual só agora tenho oportunidade de escrever. Foi com este livro, um fechar de ano em beleza. Um livro extraordinário, o segundo que leio de Patrícia Reis e a certeza de que é uma autora cuja obra quero continuar a descobrir.


O que é viver, como é viver, depois de um desastre nunca antes visto, um acontecimento que dizima grande parte da humanidade, que nunca é revelado o que é, mas que ao longo do livro é designado por “o acidente”? Há o antes e o depois do “acidente”. Eduardo, o narrador, é um editor, arrogante, com a obsessão de fazer listas a propósito de tudo e de nada. Sobrevivente do “acidente”, procura na sua cidade – uma zona bem caracterizada de Lisboa – os amigos de sempre: Sofia, Lourenço e Jaime. Não os vai encontrar, mas vai descobrir segredos que o vão ajudar a compreender Sofia, a “menina-desastre”, a “rapariga-tesoura” afinal e tão-somente uma mulher só. Eduardo sente-se remetido à animalidade, o computador não serve para nada, as pilhagens aos bens que ainda restam são constantes, a cidade está totalmente destruída e irreconhecível. Sem amigos, sem futuro, desesperado, com saudades da música, como é possível sobreviver? Recorda-se da frase de uma escritora que lhe tinha dito que “em situações limite, somos apenas animais”. Ele é um sobrevivente que perdeu os amigos, que lamenta o que lhes poderia ter dito e que não disse e essa ideia de perda definitiva é-lhe insuportável.


Só a amizade poderá restituir-lhe o sentido da vida. “A amizade é a mais transformadora das forças humanas” (pág. 131) foi a convicção mais forte que tivera quando fora ao hospital ver o amigo Lourenço que tentara o suicídio. Este livro é com efeito “uma celebração da amizade” como a autora escreveu na mensagem que autografou no meu exemplar. Agora, depois d’“o acidente” vai ser uma criança que Eduardo encontra a dormir – Pedro – e um manuscrito que ele rejeitara e nunca publicara que lhe vão restituir a vontade de viver.


“Já te contei que encontrei uma criança? Diz coisas espantosas. Não sei como será agora. Tenho um manuscrito e uma criança.


Nunca me senti tão próximo da ideia de felicidade.” (pág. 142)


 


É preciso transmitir a vida, passar o testemunho, ensinar àquela criança tudo o que sabe, trazer de volta uma ideia de humanidade, abolir a palavra “tristeza” do vocabulário. A biblioteca da avó que ele vai reconstituindo, o clube de leitores que se vai criando, a memória, assim vai ganhando expressão um renascer das cinzas duma sociedade e duma humanidade devastadas. Ao ler este “Por este Mundo Acima” de Patrícia Reis não pude deixar de recordar “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury, a força daquela comunidade que resistia, guardando a memória dos livros em que cada pessoa era um livro vivo.


5 de Fevereiro de 2022


 

domingo, 10 de outubro de 2021

O Vício dos Livros, Afonso Cruz

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“O Vício dos Livros ” – Afonso Cruz, 2021


Tudo nos atrai neste livro. Desde logo o título, a ilustração da capa, o livro objecto em si, de capa dura. Do autor apenas tinha lido há anos “Nem todas as Baleias voam”, que fala da arte, de que não se consegue fugir quando se é capturado por ela.


E quando se é capturado pelos livros? “O Vício dos Livros” fala da extraordinária força dos livros. Do seu poder imenso. Basta ir seguindo os títulos dos textos de que é constituído este pequeno livro, uma espécie de roteiro que vamos seguindo. A leitura chega a conseguir afastar a morte: “A morte também é leitora, por isso, aconselho a que andem sempre com um livro na mão, porque, quando a morte chega e vê o livro, espreita para ver o que estamos a ler, tal como eu faço no autocarro, e distrai-se.” A leitura é um verdadeiro elixir para aumentar o tempo e a qualidade de vida, digo eu.


Por vezes, deparamos com surpresas no meio de livros esquecidos nas estantes. Pois “os livros são seres pacientes. Imóveis nas suas prateleiras, com uma espantosa resignação, podem esperar décadas ou séculos por um leitor.” Quantas vezes isso não nos aconteceu, embora eu nunca tenha conhecido “um esquifobético”, que se referia ao seu corpo como “neve”.


De entre os vários títulos que constituem “O Vício dos Livros”, quero salientar alguns que achei especiais.


 “Liberdade” que fala duma escritora árabe que, apontando para um niqab exposto numa loja, diz: Já fui uma mulher destas”… “Comecei a ler e libertei-me.”


“O Terceiro pulmão de Bagdade” que fala de lugares onde não se desiste. A Rua Al-Mutanabi em Bagdade é o terceiro pulmão da cidade pois, apesar de atentados suicidas que mataram e feriram dezenas de pessoas, continua a ser um local de resistência, onde livreiros, alfarrabistas e escritores expõem, vendem e trocam os seus livros. Em 2019, a Feira do Livro de Bagdade teve mais de um milhão de visitantes, o que é deveras extraordinário, se compararmos com outras feiras do livro de renome mundial.


“Gatos” pois “gatos e escritores são espécies claramente aparentadas: por trabalharem sós, pela contemplação e observação e curiosidade”.


“Bibliotecas” com referência à biblioteca do faraó Ramsés II que tinha os seguintes dizeres no cimo da porta de entrada: “Casa para terapia da alma”. Para Jorge Luis Borges “Uma biblioteca é uma autobiografia”.


Muitas vezes, já tarde nas nossas vidas, percebemos que não estivemos disponíveis nem atentos a ouvir e a aprender com os velhos, com os nossos familiares que já morreram e é assim que há “Histórias que se estragam”, porque “quando morre um velho, desaparece uma biblioteca”, segundo um adágio africano. É essa “luz por dentro”, o extraordinário conhecimento que descobrimos em tantos velhos através das suas histórias, das suas memórias e reflexões e a que tantas vezes damos pouco valor e atenção.


Como se atesta em “O Vício dos Livros”, depois de se ler um livro, sai-se sempre modificado. Um livro não pode ser neutro, nem inodoro, nem algo que não cause sobressaltos no leitor. “A leitura é um diálogo entre autor e leitor”, “… deve resultar numa transformação e um leitor deverá saber que aquele que abre um livro não é a mesma pessoa que o fecha”. “Um bom livro dirige-se ao futuro de cada leitor e não ao seu presente”. Numa das suas muitas referências bibliográficas ao longo do livro, Afonso Cruz cita Graham Greene para dizer que “Quando abrimos um livro, abrimos um futuro”.


A impressão inicial no primeiro contacto visual e táctil com “O Vício dos Livros” é confirmada quando se chega à sua última página. Dá vontade de ir buscar-lhe excertos, pequenas citações. Daqueles livros a que se vai, a que se quer voltar sempre.


8 de Outubro de 2021


 

sábado, 28 de agosto de 2021

Hoje não havia jacarandás em flor...

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Hoje não havia jacarandás em flor…


Hoje não havia jacarandás em flor. Mas eles continuam lá. Muito calor. Muita gente. Livros ao alcance das mãos, a serem folheados, em sacos, livros em promoção, filas para pagar livros, filas para autógrafos. Há quem procure pechinchas, quem tente encontrar aquele livro, quem se socorra da lista de livros a comprar e que vai crescendo… quem queira simplesmente desfrutar da alegria do encontro com os livros a céu aberto.


Este ano já lá passei duas vezes, afinal de contas estava com um ano em atraso, porque em 2020 não ousei visitar a Feira do Livro.


Não sei se foi das máscaras, mas não encontrei ninguém conhecido. Conhecidos mesmo só os/as autores/as dos livros que comprei. A Patti Smith que conheço da música vai ser uma estreia enquanto escritora. Os outros já são meus conhecidos, mas como há sempre tanto neles a descobrir, trouxe mais uns livros que não sei onde vão caber, porque espaço nas estantes já não há.


Até dia 12 de Setembro, não digo que não volte lá. Mesmo sabendo que jacarandás em flor, só para o ano.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Em jeito de balanço (2)

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Em jeito de balanço (2)

Estou a ler o 21º livro este ano, mas como ainda não o acabei, este ano li vinte livros, ligeiramente menos do que em anos anteriores. Talvez se não tivéssemos interrompido as sessões mensais do Clube de Leitura da Bertrand do Chiado tivesse lido um pouco mais. Quem sabe?

A maioria são livros que comprei ou que já tinha, requisitados na Biblioteca Municipal, mas também li livros que me haviam sido emprestados e que devolvi, usando os serviços dos CTT, que nunca me falharam, excepto duma vez, mas isso não vem ao caso. Também não era um livro!

Da análise das leituras de 2020, li livros de oito homens, nove mulheres, dez autores portugueses e sete estrangeiros. Repeti Camus, Lídia Jorge e Vergílio Ferreira, tendo lido dois livros de cada um destes autores. Alguns dos livros que li este ano, já tinha lido há muitos anos e percebo como a memória me falha ou como já era muito ténue.

Fora deste grupo dos 20, “Essa Gente” de Chico Buarque ficou parado porque senti-me descontextualizada e perdida. E depois os que vou lendo: “A Escola dos Contra-Grupos” de Maria Gabriela Llansol, Augusto Joaquim et al,  “Homossexualidade e Resistência no Estado Novo” de Raquel Afonso e “Cuidar de quem Cuida” de José Soeiro, Mafalda Araújo e Sofia Figueiredo.

Como não dou estrelas para classificar os livros que leio, mas prefiro escrever sobre eles, ou não, esses registos bastam-me. Há livros que me ficam a matutar muito tempo na cabeça, outros que gostaria que não acabassem nunca, outros que demorei a ler porque me perdi ou porque quis perder-me, outros em que a urgência de chegar ao fim se tornou imperiosa. Nos livros o meu ritmo é muitas vezes como se estivesse num carro a pôr as mudanças. A princípio é sempre mais demorado, mas sobretudo quando chego ao meio, começo a deslizar como se estivesse numa rampa descendente. Destes nenhum ficou sem ser lido até ao fim.

Foram então assim, pela ordem de leitura:

“Autobiografia”, José Luís Peixoto, 2019

“A Mulher que correu atrás do Vento”, João Tordo, 2019

“Beloved”, Toni Morrison, 1987

“A Peste”, Albert Camus, 1947

“História de um Caracol que descobriu a Importância da Lentidão”, Luis Sepulveda, 2014

“A Terceira Mãe”, Julieta Monginho, 2008

“Leva-me Contigo” Afonso Reis Cabral, 2019

“Nocturnos”, Kazuo Ishiguro, 2009

“Humilhação e Glória”, Helena Vasconcelos, 2011

“Pássaros Feridos”, Colleen McCullough, 1977

“Rimbaud, o Viajante e o seu Inferno”, Ana Cristina Silva, 2020

“Lisboa, Chão Sagrado”, Ana Bárbara Pedrosa, 2019

“O Estrangeiro”, Albert Camus, 1942

“Marquesa de Alorna, Querida Leonor”, Luísa Paiva Boléo, 2017

“Conduz o teu Arado sobre os Ossos dos Mortos”, Olga Tokarczuk, 2009

“Os Memoráveis”, Lídia Jorge, 2014

“O Dia dos Prodígios”, Lídia Jorge, 1980

“A Caixa Negra”, Amos Oz, 1987

“Cartas a Sandra”, Vergílio Ferreira, 1996

“Para Sempre”, Vergílio Ferreira, 1983

 

Destes vinte livros, oito foram escritos no século passado, sendo os mais antigos os dois livros de Camus, tendo o livro de Ana Cristina Silva sido o mais recente, publicado em Janeiro de 2020 e que foi o primeiro livro que comprei quando voltei a entrar numa livraria depois do confinamento. 

Posso dizer que fiz um excelente ano de leituras.

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terça-feira, 7 de julho de 2020

Street Books

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De facto, se se quer ver alguma coisa que valha a pena, é na RTP2.


Por acaso, porque tinha acabado de ver La Otra Mirada e a intenção era apagar a televisão, dei com este documentário maravilhoso que me comoveu.


Um projecto incrível em Portland, Oregon. Streetbooks, ou seja, uma Biblioteca Itinerante.Tão simples e tão lindo como isto: levar livros a quem vive na rua. Pessoas que um dia deixaram de ter dinheiro para pagar a renda e que foram postas na rua. Pessoas que não têm um rendimento que lhes permita ter um tecto, uma casa para viver. Pessoas com 32 anos que vivem na rua desde os 17. Pessoas. Homeless. Sem-abrigo. 


Uma bicicleta onde os livros estão arrumados por temas, por categorias, por autores. Há banda desenhada, filosofia, livros de auto-ajuda, romances, clássicos, livros de arte. Correm a cidade e param junto a pessoas que vivem na rua e põem-lhes à disposição os livros que quiserem levar. Não precisam pagar nada. Só têm de preencher uma ficha, mas sem obrigação de devolver o livro. Mas se quiserem devolver e levar outro(s) a bicicleta estará nesse mesmo sítio na semana seguinte, nas semanas seguintes, para prestar um serviço. Muitas destas pessoas gostam de ler. A cultura é alimento também. É bonito ver como folheiam os livros, como os olhos sorriem, como escolhem, os comentários que vão fazendo, como este: "Levo o King Lear. É o único de Shakespeare que ainda não li". Como falam daquele livro de Camus ou o outro de Steinbeck ou escolhem um que parece que está mesmo novo, nem sequer tem ar de ter alguma vez sido folheado.


Um dos membros desta "comunidade" de streetbook bikers fala da depressão, a grande doença dos sem-abrigo e diz que a ideia do suicídio é frequente entre eles, que ele próprio a viveu. Os livros salvaram-no e, à laia de remate, diz que aprendeu que o suicídio não é saída nem solução. 


Lindo este documentário. Solidariedade, desapego, humanidade e nada, mesmo nada de caridade. 


 

terça-feira, 24 de março de 2020

O essencial

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Tudo está a fechar e bem.  Apenas temos aberto o que é estritamente essencial. 


Penso nas livrarias que já são poucas, antes da actual crise. Será que quando este vírus deixar de nos atormentar e quando for preciso colar todos os cacos e erguer de novo este país e a sua tão frágil economia, as livrarias, os livreiros e os livros serão considerados essenciais ou passarão à categoria do dispensável, do acessório, do que pode ficar para depois? Sabendo que em tempo de "normalidade" dificilmente as pequenas livrarias resistiam, afogadas no gigantismo excludente das grandes editoras e distribuidoras, como pensar na sobrevivência das pequenas, das independentes, das que acarinham autores e escritores que não estão debaixo dos holofotes da publicidade e do marketing? Hoje, na sempre excelente crónica matinal de Fernando Alves, retive a imagem dos livros que se vendem ao postigo mesmo quando o isolamento social impede a aproximação e o contacto directo entre quem ama os livros e os livreiros e a ideia de que "ler é uma emergência dentro do estado de emergência".


Em fundo musical "Os livros" de Caetano Veloso.


 

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Na calha

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Continua a ser muito difícil resistir, como se não tivesse tantos cá por casa que ainda não li, tantos que me emprestaram para ler e que ainda não li e não devolvi! Sorry, sorry, sorry!


As minhas últimas aquisições e que espero ler até ao final deste ano.


Falta pouco para acabar "Sangue do meu Sangue".


Até já.


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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Porque somos mais nómadas que sedentários

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Foram quase dois anos a viajar, no meu caso. E hoje a nossa viagem fez uma paragem e despediu-se num até breve, até já, até sempre de uma das nossas companheiras de viagem. Aquela que nos interpelava, que nos lançava novos desafios, que ia na carruagem da frente e que decidiu seguir o seu caminho, sair dum trilho que já não a satisfazia e que se lançou numa outra direcção, menos confortável mas mais desafiante.


"Os livros são de facto uma viagem", disse ela. E fomos buscar as nossas memórias, os nossos primeiros livros, alguns que nos fizeram crescer e que fizeram de nós aquilo que somos. Alguns que sublinhámos - os lápis são tão preciosos - outros a que acrescentámos as nossas notas e anotações, outros a que voltamos sempre ou de vez em quando e em que nos revemos.


Cada uma de nós entrou em paragens diferentes. Quando eu cheguei com o Ishiguro, pela mão da Teresa, já outras tinham entrado antes com a Ferrante ou a Sophia. Repeti Sandor Marai, aprofundei João Pinto Coelho, descobri Stefan Zweig que conhecia só de nome, rumei ao Farol com Virginia Woolf, deslumbrei-me com Maria Teresa Horta e as suas Luzes de Leonor, entrei nas Três Vidas de João Tordo, contorci-me com Kafka, desconstruí o Natal e os Reis Magos com Michel Tournier, apaixonei-me por Selma Lagerlöf pela mão de Cristina Carvalho, aprendi muito com Chimamanda Ngozie Adichie, uma inspiração, descobri a força da escrita de Grazia Deledda, a segunda mulher a receber o Nobel da Literautura, revisitei e de novo me deslumbrei com a contensão dorida de Maria Judite de Carvalho, aprendi a ler correctamente o nome de Olga Tokarczuk mas, sobretudo, fiquei rendida às suas Viagens, tal como amei Manuel Vilas e nunca mais esquecerei a viagem de comboio que fiz durante cinco semanas com Paul Theroux, numa viagem imensa que nunca tinha pensado fazer.


Mas o melhor de tudo é que todas estas viagens eu não teria feito se as tivesse pensado sozinha. Se não as tivesse compartilhado com estas minhas companheiras de viagens que, por seu lado, viajando comigo, olharam para as "paisagens" com outros olhos, outras perspectivas. Os seus olhos. As suas perspectivas.


E foi isto que fez das nossas viagens, viagens ricas, estimulantes, diversas, únicas e extremamente enriquecedoras.


A despedida tem sempre um aperto na garganta. Mas já temos alguém que não vai deixar o barco/comboio à deriva. Bem vinda.


Regresso a uma citação de Rubem Alves que muito gosto e que tem tudo a ver com esta nossa viagem e com a partida.


"Amar é ter um pássaro pousado no dedo.


Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar. "


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...