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domingo, 3 de outubro de 2021

Ao Cair da Noite; Michael Cunningham

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Ao Cair da Noite, Michael Cunningham, 2010


Este foi, de entre os três livros que até agora li de Michael Cunningham, o que menos me entusiasmou. Centrado num casal bem sucedido com profissões ligadas à arte, pertencendo a uma elite culta e endinheirada, com um casamento de vinte anos, o único “contratempo” da relação é o afastamento da filha de ambos – Beatrice – a viver em Boston. Rebecca é editora de uma revista e Peter negoceia em arte.


A aparente estabilidade do casal é posta em causa com a chegada de Mizzy, o irmão mais novo de Beatrice, que se vai instalar no apartamento do casal. Muitas das certezas de Peter, até as mais íntimas, passam a ser questionadas. Sentimentos de culpa face ao afastamento da filha; a dor da perda do irmão Matthew; as dúvidas sobre se devia denunciar ou ocultar à mulher os consumos de droga de Mizzy; as dúvidas sobre o próprio valor da arte e de artistas actuais com quem trabalha; a atracção erótica que Mizzy exerce sobre ele, tudo isto é o cerne deste romance de Michael Cunningham que decorre em Nova York.


A estrutura do romance é feita de diálogos curtos e sincopados, em que Peter, sendo personagem, mas também narrador, dialoga com o leitor, faz reflexões, questionando os seus pensamentos, partilhando as suas dúvidas, hesitações, incertezas e fragilidades. É este questionamento, este diálogo constante, o que achei mais interessante no romance, esta humildade de pôr à prova todas as certezas, até aquelas que poderiam ser vistas como inquestionáveis.


Por fim, o livro está repleto de referências a artistas contemporâneos, sobretudo americanos. Nas considerações de Peter, negociante em arte, está implícita uma crítica ao mundo da arte e das galerias em que se move, ao reconhecimento e valorização que é dado a certos artistas em detrimento de outros, em função dos patrocínios e dos padrinhos que os promovem. “Não nos encaminhamos para um reino em que o lixo é tratado de facto como um tesouro?”


Em minha opinião, esta entorse que aqui versa o real valor da arte pode aplicar-se a outras áreas da vida actual, tão obcecada pelo sucesso e pela aparência e indiferente à essência e qualidade dos valores produzidos.


28 de Setembro de 2021


 

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Sangue do meu sangue, Michael Cunningham

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Sangue do meu Sangue, Michael Cunningham, 1995


A opinião de escritor admirável que tinha àcerca de Michael Cunningham quando, há já alguns anos, lera “As Horas”, foi reforçada com a leitura de “Sangue do meu Sangue”. A história começa em 1935, com Constantine, um rapaz grego que um dia partirá para os Estados Unidos para fugir da pobreza, movido pela quimera da terra das oportunidades. Aí namorará, irá casar e ter três filhos. A tensão entre o casal resulta não só das diferenças entre as culturas grega e americana, mas também das dificuldades financeiras iniciais e da forma como cada um lida com os filhos, desculpando ou não as birras, os caprichos e os sobressaltos do crescimento das crianças. A ascensão social da família, fruto do negócio de construção de casas baratas, vai acentuar a distância entre Constantine e a família, em vez de a diminuir. A inesquecível cena da fotografia de família para o cartão de Natal a enviar aos amigos não passa de uma capa que esconde a animosidade e a violência latente naquela família americana.


Com o crescer dos filhos – Susan, Billy e Zoe – cada um vai seguir o seu destino e os laços familiares vão-se tornar cada vez mais ténues e esporádicos. Casamentos, divórcios, relações fortuitas, escolher o fio da navalha, descobrir a sua identidade sexual, profunda insatisfação pessoal, o vírus da sida, o sentimento de fracasso, o viver de aparências, a fragilidade na doença, a decadência e a velhice, o reencontro e a aproximação, o amor, a solidariedade, o apaziguamento, o preconceito, a dificuldade em aceitar a diferença, a homofobia, os traumas recalcados, tudo isto vai surgindo, ao mesmo tempo em que vamos acompanhando as diversas personagens à medida que os anos passam. Até 1995 seguimos o que cada um faz, decide, sente, escolhe, sendo nesse ano que a instável “paz” e “harmonia” da família Stassos é definitivamente estilhaçada. A partir daí e até 2035, ou seja, cem anos depois da cena inicial em que o menino Constantine sonha conseguir arrancar o primeiro pimento, a primeira beringela e o primeiro tomate da sua pobre horta na Grécia natal, a narrativa correrá veloz. É o ciclo da vida e da morte. Na última cena, em 2035, Jamal quer estar sozinho quando deitar as cinzas dos pais – Will e Harry – na baía.


Admirável a forma como Michael Cunningham disseca as contradições e os sentimentos das pessoas, os seus sonhos e frustrações, as classes sociais e o estatuto que as mesmas conferem aos indivíduos, a falsidade do sonho americano, os negócios fraudulentos que geram milionários de um dia para o outro, a homossexualidade e a homofobia, a solidariedade e também as preocupações de ordem ambiental.


Sem dúvida um dos grandes livros que li este ano e que recomendo.


1 de Novembro de 2019

domingo, 12 de maio de 2019

Encontros inesperados

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Hoje foi dia de irmos distribuir o jornal de campanha da Marisa Matias para a Feira da Bagageira de Corroios. Iamos ao encontro das pessoas que gostam de encontrar pechinchas ou que são frequentadoras de feiras de velharias, convidando-as a levar o jornal para lhes lembrar que temos eleições europeias daqui a quinze dias e que é preciso fazer escolhas. O slogan - Lado a Lado - Pelo que é de Todos - e a imagem já conhecida da Marisa Matias despertam simpatia, bom acolhimento, mas também há quem diga que não está interessado ou dê a entender que são todos iguais... Para quem está habituado a fazer campanhas e a contactar pessoas na rua com propaganda política tem sempre muitas histórias para contar, mas há determinadas frases feitas que já cansam de tão batidas.


Mas voltemos à Bagageira. Todos os meses, num domingo determinado, dezenas de pessoas depositam as suas carrinhas e carros no terreno da Quinta da Marialva em Corroios e retiram e expõem o conteúdo das suas bagageiras, isto é, tudo o imaginável ou impensável que desejam despachar e para o qual já não há espaço lá em casa: roupa, sapatos, brinquedos, loiças, carrinhos, alfaias, cromos, discos, copos, loiças, bibelots, livros, botões, estampas, rendas, naperons, rádios, secadores, electrodomésticos, talheres, cactos, etc, etc, etc. Em bom estado, em mau estado, há de tudo, mesmo tudo.


Fui para lá com jornais e vim de lá com dois livros novinhos em folha por apenas 9€. "Sangue do meu Sangue" de Michael Cunningham ("Flesh and Blood") é de 1995, mas "A Mulher que correu atrás do Vento" é o mais recente livro de João Tordo, saído em Março deste ano.


 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...