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domingo, 23 de fevereiro de 2025

Do Outro Lado do Sonho

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Do Outro Lado do Sonho, Ursula K. Le Guin, 1971


Leitura terminada. Confesso que tenho dificuldade em escrever sobre este livro, mas como vai ser objecto da próxima conversa no Leia Mulheres Lisboa, será certamente um debate vivo e com diferentes opiniões.


Eu não sou apreciadora de ficção científica. Acho que ao longo das cerca de duzentas páginas do livro, há muitas voltas e atalhos que me fizeram sentir perdida e confusa. O tema tem a ver com o sonho e a realidade. Afinal o que é sonho, o que é realidade?


O livro foi escrito em 1971. Passa-se nos Estados Unidos da América, no final dos anos 80. “Nova Iorque estava em vias de se tornar uma das maiores vítimas do efeito de estufa, enquanto o gelo polar continuava a fundir-se e o mar continuava a subir; na verdade, toda a costa de Boston estava ameaçada.” “A subnutrição, a superpopulação e a intensa poluição do ambiente eram normais” (pág. 34). George Orr vive em Portland e nas suas deslocações diárias para o trabalho, no comboio, “entre milhares de pessoas. Sentia aquele peso esmagador que se abatia interminavelmente sobre si. Pensou que estava a viver um pesadelo, daqueles que levam uma pessoa a acordar quando está a a dormir.” (pág. 42). “Poderia alguém, mesmo são, viver neste mundo sem dar em doido?” (pág. 48) É neste ambiente que George Orr, alguém que se privava de sonhar, que tinha medo de sonhar porque os seus sonhos alteravam os acontecimentos e que queria curar-se para aprender a não sonhar com efeito, acabou nas mãos de um psiquiatra que o utilizou como instrumento para as suas experiências. Mas Orr queria ser curado e não usado.


A partir do momento em que entra no esquema das sessões com o psiquiatra que o hipnotiza e lhe controla os sonhos, Orr sente-se usado, quer desistir, mas é impotente e não consegue libertar-se. Ele está “apanhado, como um rato numa ratoeira” (pág. 75). Afinal as mudanças operadas pelo dr. Haber só vieram piorar a situação. Na nova realidade tudo estava padronizado, todos se vestiam da mesma maneira, todos tinham a pele cinzenta e os problemas raciais deixaram de existir, mas embora fossem tolerados os doentes mentais, era considerado crime ter-se uma doença incurável, contagiosa ou hereditária. Não havia espaço para se “perder tempo com sofrimentos desnecessários” (pág. 131). A nova realidade era outro pesadelo.


Nesta história estranha em que há máquinas que condicionam sonhos, em que há extraterrestres pacíficos que se integram na sociedade como empresários, em que há vírus cancerígenos que dizimam populações, também há lugar ao amor que consegue sobrepor-se ao caos que o homem criou. Onde acaba a realidade e começa o pesadelo?


Em minha opinião, o título original deste livro de ficção científica “The Lathe of Heaven”, que pode ser traduzido por O Torno do Céu, aponta para a figura do psiquiatra Dr. Haber, qual deus com a ambição de moldar a mente do seu paciente, levando-o a imaginar viver uma realidade que de facto não existe. Uma coisa é certa: o problema das alterações climáticas não é ficção, a poluição é o ar que respiramos, o degelo polar e o risco de as regiões costeiras ficarem submersas são a realidade. A realidade como pesadelo é o triste legado que a humanidade está a deixar para os vindouros.


16 de Fevereiro de 2025


 

domingo, 12 de fevereiro de 2023

Um Dia chegarei a Sagres, Nélida Piñon

Um Dia Chegarei a Sagres


“Um Dia chegarei a Sagres”, Nélida Piñon, 2021


 


Este livro foi-me oferecido pela minha amiga Guilhermina, grande amiga e editora em Portugal de Nélida Piñon, um dos “Amigos e Cúmplices de Lisboa” a quem a autora dedicou este livro. Com tantos livros que vou amontoando e em lista de espera para serem lidos, acabei por iniciar a sua leitura após o anúncio da morte da escritora brasileira de ascendência galega, em finais de 2022. Nélida Piñon foi uma personalidade marcante da cultura e literatura brasileiras, tendo sido a primeira mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras em 1966. A sua obra é extensa, tais como são os prémios e galardões com que foi distinguida ao longo da vida.


“Um Dia chegarei a Sagres” é uma odisseia que decorre no século XIX e para a escrita da qual a autora se preparou ao longo de vários anos, tendo sido parcialmente escrita em Portugal. Nas palavras da própria autora “ Cheguei a Portugal sabendo por onde caminhar, mas precisava estar lá pessoalmente para captar a paisagem, os enigmas do povo, os locais onde o sangue foi derramado. Eu precisava descobrir de onde veio esse nosso idioma deslumbrante. Sou valente, audaciosa. Enfrentei a pandemia com a minha literatura”.


Mateus é o centro desta história. Homem do Minho, criado e educado pelo avô Vicente, Mateus tem um sonho. “Um dia chegarei a Sagres” é o mantra que repete ao longo do livro. A narrativa começa com Mateus em Lisboa, pobre, velho e doente, sabendo que já tem pouco tempo de vida e por isso quer contar a sua história.


Sagres foi o sonho, a ambição, mas foi também o local onde deixou os seus fantasmas. Na sua terra natal “a vida reduzia-se à terra, aos animais, ao sexo, ao pão e ao vinho. O sonho fora abolido.” (pág. 58) São, no entanto, o avô e o professor Vasco da Gama, que pela primeira vez lhe falara do Infante D. Henrique, as suas referências de infância, que o levam a ter esse sonho, essa ambição. “Enquanto forcejava o intelecto daqueles alunos a crer na soberania da história, eu acatava os seus preceitos sem resistência. Como sabendo que falava da vida que alguém no passado vivera por mim e que eu agora prosseguia em seu nome.” (pág. 22). “Na cozinha, à noite, perdia-me em conjeturas, de como chegar um dia a Sagres, a pé ou de barco. Ao encontro do Avis…” (pág. 23).


E enquanto não chega esse momento da partida, depois da morte do avô Vicente, a única pessoa que o ligava à terra, é o amor aos animais o único amor que Mateus conhece: a ovelha Antónia, o jumento Jesus, a galinha Filomena. Tal como o avô Jerónimo de Saramago, também o avô Vicente acolhia os animais em casa nas noites de Inverno. “ A morte do jumento doeu-me como nenhuma outra” (pág. 46). Mais tarde, já na viagem de Lisboa a caminho de Sagres adoptará o cão Infante que vai passar a ser o seu melhor amigo.


O amor, a ausência de amor, a inacessibilidade do amor, o sexo e a sexualidade são igualmente temas muito fortes nesta obra. A personagem da mãe Joana que o rejeitou à nascença levam-no a descarregar nas mulheres com quem tem relacionamentos sexuais a falta de amor que nunca recebeu da mãe. O amor por Leocádia tornado inacessível pelo poder controlador da tia Matilde. E a “teia de aranha” (pág. 261) em que o Africano “marcado por um estigma que só eu conheço” (pág. 293) o vai enredando, que o “afligia e atraía ao mesmo tempo” (pág. 262), irmana-o, pois “Minha febre é como a sua. Ambos sofremos.” (pág. 265).


Outras personagens marcam esta história que nos é narrada por Mateus, de que destaco Ambrósio e Amélia, ambas realçadas pela sua personalidade e sobretudo pela coragem em enfrentarem a pobreza e a fome, em muito assemelhando-se aos navegantes. Ambrósio é o alfarrabista que o acolhe na sua casa em Sagres e que compartilha com Mateus a paixão pelo conhecimento e pela história. Amélia, a mulher sem-abrigo que Mateus vai acolher em Lisboa, no final da vida – “a Bárbara reencarnada” que “Morreu para salvar Camões” (pág. 356) – com quem vai aprender “lições de generosidade” (pág. 353) e com quem se vai abrir como nunca antes fizera. “Amélia é a luz do dia. Sei-me vivo graças a ela. Ao deslizar em volta a mim ainda deitado, espera o meu coração se animar. Como querendo ela na sua modéstia apagar as doloridas razões que me expulsaram da paisagem do Algarve e trouxeram-me de volta a Lisboa, junto com meus fantasmas.” (pág. 379)


“Um Dia chegarei a Sagres” tem como protagonista o povo que sonha e que sofre através de Mateus que narra a sua história. Alguns momentos marcantes como os descobrimentos, a figura do Infante e de D. Sebastião, o terramoto de Lisboa, a escravatura no Brasil, os reinados de D. Maria II ou D. Pedro V, põem em confronto os privilégios da Igreja e da Nobreza e a pobreza persistente do Povo. Uma escrita poderosa que revela um domínio perfeito e rico das palavras, fazendo jus ao profundo amor da escritora pela língua portuguesa.


Almerinda Bento


5 de Fevereiro de 2023


 

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Memorial do Convento, 1982

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Esta é uma memória com 8 anos e, portanto, anterior ao meu blog e por isso, hoje publico-a aqui pela primeira vez. 

Ainda estou em estado de graça! ❤
Memorial do Convento, José Saramago, 1982
Escrever, fazer uma apreciação sobre uma obra de Saramago é uma imensa responsabilidade e desafio. Não por ele ser o Nobel português (mais que merecido), mas porque Saramago escreve incrivelmente bem, nos surpreende pela forma como escreve e pela forma como nos convoca a olhar para a vida, para as coisas do quotidiano, para o comezinho, transformando-o. Acho que essa é uma das dimensões e papel da Literatura. E Saramago é Mestre.
É impossível ficar-se indiferente com Saramago. “Memorial do Convento” é um livro que mete respeito pela subtileza e pela densidade, pela mestria no jogo das palavras e das ideias, pela profundidade do pensamento e da escrita. A pretexto da construção de uma obra monumental que o rei D. João V (O Magnânimo) – o rei-sol português – quis deixar como marca do seu reinado, Saramago faz um retrato da Lisboa caótica do século XVIII; do poder do rei enebriado pelas riquezas do Brasil, da Índia e de África; do clima de suspeição e medo que a Igreja e o Santo Ofício lançam sobre todos e todas que saem dos limites impostos, colocando-lhes o ferrete de heresia ou bruxaria; do povo cuja vida é sofrimento, trabalho, doença e morte, mas que também sabe usar da astúcia e das festas para sobreviver. O grande protagonista deste romance é de facto o Povo. É ele que vai à guerra e fica mutilado, é ele que prepara o palanque e todas as condições para que o rei lance a primeira pedra, é ele que carrega as pedras que hão-de fazer o convento, é ele que, ao lado das juntas de bois, “faz ombros” com eles para carregar os blocos maiores que hão-de ser a glória do rei, é ele que se junta para ver a comitiva real passar. O rei é uma figura menor, está ausente e aparece episodicamente ou para garantir a descendência real ou para satisfazer os seus desejos carnais ou para cumprir as obrigações da sua condição de rei como, por exemplo, os casamentos reais que mais não são que negócios entre as famílias nobres da Europa.
As grandes personagens, e sobre eles/as há tanto a dizer, são Baltazar Sete-Sóis, Blimunda Sete-Luas, o padre Bartolomeu de Gusmão (o Voador), Scarlati (o senhor Escarlate) e todos aqueles milhares de operários anónimos que acreditaram que a construção da grande obra em Mafra, que iria durar muitos anos, lhes iria permitir deixar a sua vida de miséria e fome! Só a descrição do que foi ir a Pêro Pinheiro buscar a pedra para a varanda sobre o pórtico da igreja nos dá a dimensão do esforço humano supremo das grandes obras faraónicas construídas a poder de braços e de vidas de muitos milhares de pessoas.
Blimunda e Baltazar elevam-se acima do comum dos mortais; eles encerram em si o amor, a comunhão e o respeito entre duas pessoas que não se anulam antes vivem a sua individualidade e se reforçam. Sendo que Blimunda tem todas as características para ser presa da Inquisição, dados os seus poderes especiais, ela é afinal quem resiste no trio que ousou acreditar que as vontades recolhidas conseguiriam fazer elevar a passarola no ar. Ao espírito inventivo do padre Bartolomeu de Gusmão juntou-se a força da música do cravo de Scarlatti.
Concluindo, ao longo da leitura de “Memorial do Convento” estas foram as palavras que frequentemente me ocorreram: amor, sonho, vontades, superação.
Setembro, 2014

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...