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domingo, 22 de setembro de 2024

O Meu Pai Voava, Tânia Ganho

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“O Meu Pai Voava”, Tânia Ganho, 2024


Um livro incrível que me lembrou “Morreste-me” de José Luís Peixoto, que eu li depois da morte do meu pai. “O Meu Pai Voava” despertou em mim memórias de um momento particularmente difícil da minha vida quando confrontada com o fim, com a perda definitiva de alguém que se ama. O fim de um tempo.


O meu pai não voava, mas tinha um desgosto que era o de não ter podido voar; queria ser piloto. Nascido numa aldeia, contava-nos divertido que um dia, em criança, estava na sala de aula e ouviu um som lá fora e saiu disparado a correr para ver o que era aquilo que voava no céu! O fascínio pelos aviões levaram-no mais tarde à paixão pelo aeromodelismo, tendo sido campeão nacional e ibérico em diversas modalidades, tendo feito equipa com Júlio Isidro e outros grandes aeromodelistas. Torneiro mecânico, minucioso, perfeccionista, teve a fotografia como outro dos seus hobbies, fazendo da casa de banho o seu estúdio de revelação! A ida à Expo 98, todas as manhãs, aproveitando o passe que lhe oferecemos e que ele visitou de lés-a-lés, foi talvez um dos últimos grandes prazeres da sua vida. Para nós, a degenerescência ao longo de nove anos pela doença de Parkinson foi algo de muito doloroso, para a qual ninguém está preparado. “Deixou de sorrir com os olhos.” (pág. 30) assim sintetiza a autora/filha a imagem do pai numa fase avançada da doença.


Trago estas recordações aqui, porque elas irromperam à medida que ia lendo o maravilhoso livro de Tânia Ganho que, como ela refere logo no início, o escreveu para o pai e para a mãe, assim fazendo o luto. É uma homenagem ao pai e acaba também por ser uma homenagem à mãe, a pessoa que esteve sempre presente para suprir os despistanços de alguém sempre tão fora do mundo.


O facto de a autora ser tradutora não é alheio ao rigor no uso das palavras, tendo em conta o seu peso, o seu significado. De facto, como a mudança da preposição “entre nós ” em vez de “em nós” (pág. 9) faz toda a diferença; “mergulhar” em vez de “afundar-me no silêncio”(pág. 9)  ou “barras de protecção” em vez de “grades” (pág. 21). Em dado passo, a autora remete essa sua característica de rigor com a linguagem para a influência que o lado científico do pai exerceu sobre ela.


São capítulos curtos, que nos permitem conhecer a vida da família, as rotinas, as conversas à mesa, os assuntos que não eram tabu, a relação dela com o pai enquanto menina, jovem adolescente e quando o pai já estava doente no lar. Os remorsos, o sentimento de culpa, a dificuldade de gerir a incomunicabilidade gerada pela doença. É também um retrato de grande amor e proximidade com o filho que a acompanha ao longo do livro em momentos marcantes.


Um livro muito corajoso e muito belo. Até o formato se ajusta a um livro tão particular, a que não faltam fotografias de “um pai que voava". Uma homenagem ao pai.


“Havia todo um mundo que se encerrava naquele dia e eu precisava do meu pai para enfrentar o resto da vida. Era como se, deixando de ser a menina do papá, fosse obrigada a crescer, a ser adulta, e eu não queria ser adulta. Já o era há muitos anos, e já o perdera há muito tempo, mas a finitude do caixão, do corpo frio, de mãos entrelaçadas no peito, fez-me sentir que uma parte de mim morrera. A menina.” (pág. 69)


19 de Setembro de 2024

terça-feira, 30 de agosto de 2022

O Luto de Elias Gro, João Tordo

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“O Luto de Elias  Gro”, João Tordo, 2015

É o terceiro livro que leio de João Tordo e confesso que “Três Vidas”, o primeiro lido, foi o que mais de agradou. “O Luto de Elias Gro” é demasiado depressivo. O estado de desespero e aniquilamento a que o narrador se vai entregar desde que decide ir viver para uma ilha, num farol desactivado, vai-se adensando ao longo da narrativa. Quando esta já vai a caminhar para o final, a personagem de um médico que o visita numa cabana imunda pergunta-lhe se ele (narrador) acredita nele (médico). “Acredito no quê?, respondi, soerguendo-me no colchão. Que as pessoas são feitas de porcelana, respondeu ele. Tem tido algumas provas disso. Mas, diga-me, como é que tem tratado aqueles que o ouvem? Aqueles para quem escrevo esta história?, perguntei. Sim, esses. Tenho-os tratado com paciência e com carinho, garanti. Como espera que o tratem a si? É capaz de ser isso, concordei. Tem-se alongado nas descrições, passa demasiado tempo a ruminar, acrescentou ele. Tenha cuidado ou as pessoas aborrecem-se… O que lhe aconteceu, acontece-lhe a si e a mais ninguém. Mas todas as histórias são empatia, argumentei. Ou empatizamos com aquele que nos conta, ou com aqueles que nos são contados, ou, então, kaputt. Ao menos percebeu o que lhe quis dizer, prosseguiu o médico, que coçou a barba, correndo várias vezes os dedos pelo cabelo. Sobre a porcelana.(…) Está a falar de quem? Estou a falar de si, disse o médico. Você partiu-se em pedaços e agora não há meio de voltar atrás. Vai ter de aprender a viver feito em lascas. Estime as feridas. Cuide delas. Dê-lhes carinho quando precisarem de carinho e proteja-as quando assim tiver de ser. (…) Você não é robusto, é feito de vidro. Se o deixarem cair, desfaz-se. Reconheça, aceite e levante-se desse colchão bolorento.” (págs. 247 e 248) O mesmo médico que um dia, antes do exílio na ilha, lhe dissera “Dê tempo ao tempo e verá como, um dia, se sentirá mais apaziguado. A mim aconteceu-me”.(p.117)

Este é um livro de lutos. O de Elias, que se afunda no desgosto com a morte da jovem mulher; a do narrador com a morte da filha e abandono da mulher; a de Alma cuja filha não sobrevive ao naufrágio; a de Cecília cujo pai ausente não a consegue acompanhar no seu crescimento emocional. Cada um, à sua maneira, tenta sobreviver ou afundar-se no luto. Pela procura do transcendente, pela fé; isolando-se da agitação citadina, numa ilha, num farol sem qualquer conforto para além de um livro de contos de Borges, lutando contra os fantasmas com um par de luvas de boxe, ou com uma garrafa de whisky; sendo a figura maternal que vela por todos; passando da agressividade à ternura enquanto exibe a sua “erudição” nomeando as centenas de ossos de que é feito o corpo humano… Declinações de várias pessoas, mas em que o factor comum é um sofrimento imenso. Pessoas, feitas de porcelana. Fortes, quase a atingir o aniquilamento, a degradação física.

A dado passo, o narrador confessa, fruto da sua experiência de vida no farol “… que o homem transporta consigo o inferno, e que esse inferno não são os outros mas nós mesmos, quando entregues às nossas ideias mais acérrimas, às nossas intransigências mais cruéis, às nossas dúvidas mais corrosivas” (p.116). Voltando à frase inicial do livro, quando, muito doente e próximo da morte, Elias Gro fala com o narrador e lhe diz que “O paraíso deve consistir no cessar da dor” (p.15), encontro na epígrafe de “O Luto de Elias Gro” – citações de Jorge Luis Borges e Lars Drosler – o foco de toda a obra: “Que o céu exista, mesmo que o nosso lugar seja o inferno” (Jorge Luis Borges) e “Eu era passageiro e responsável por um naufrágio, passara uma vida inteira a cavar um buraco no casco e, agora, procurava o mastaréu para não morrer afogado.” (Lars Drosler)

 

30 de Agosto de 2022

 

quarta-feira, 16 de junho de 2021

A Ridícula Ideia de não voltar a ver-te, Rosa Montero, 2013

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Faz hoje precisamente 5 anos que terminei a leitura deste livro de que gostei muitíssimo. Republico aqui o que então escrevi e postei no facebook.


 



Um dos livros que comprei nesta Feira do Livro e o terceiro que leio desta autora madrilena nascida no mesmo ano em que nasci e por quem tenho muita empatia. A leitura de “A Ridícula Ideia de não voltar a ver-te” que é um livro fascinante e comovente reforçou essa proximidade afectiva e ideológica com Rosa Montero. Um daqueles livros que nos ajudam a reforçar a convicção da indispensabilidade da luta feminista quando se anseia por um mundo mais justo e melhor para todos.

Logo no início, ela alerta que “este não é um livro sobre a morte”. Em minha opinião é um livro sobre a forma de enfrentar o luto por uma morte de alguém muito querido, um exercício de superação das limitações da vida que só a arte e a literatura têm a capacidade de fazer. Ela cita Fernando Pessoa “A literatura, como a arte em geral, é a demonstração de que a vida não basta.”

A vida literária e não só, está cheia de coincidências, um dos vários hashtags para que Rosa Montero nos remete ao longo do livro; foi no processo da doença de Pablo, marido de Rosa Montero, que lhe chegou às mãos o diário que Marie Curie escreveu ao longo do ano que se seguiu ao falecimento repentino de Pierre Curie. Assim, o centro desta obra de Rosa Montero é a personalidade extraordinária de Marie Curie (1867-1934). Rosa chama-a de “Mutante”. Ela foi uma pioneira absoluta: a única mulher que recebeu dois prémios Nobel em áreas diferentes (Física e Química), a única mulher no Panteão dos Homens Ilustres em Paris, a primeira mulher a licenciar-se em Ciências na Sorbonne, a primeira mulher a doutorar-se em Ciências em França, a primeira mulher a leccionar na Sorbonne… uma polaca que lutou de forma ímpar contra inúmeras adversidades – dificuldades económicas, inveja da comunidade científica, estranheza da sociedade pelo seu pioneirismo, conciliação da intensa vida profissional e familiar, problemas de saúde, verdadeiro linchamento público pelo seu relacionamento com Paul Langevin – nunca aceitando assumir o papel de vítima, antes rompendo e fazendo um caminho impressionante numa “época em que às mulheres quase nada era permitido”. Talvez por temperamento, certamente pela personalidade tenaz e pela sua postura face à vida e à sociedade, há em Marie Curie um desdenhar da sua feminilidade, pelo que nunca quis dar parte de fraca nem mesmo quando passava mal durante os períodos de gravidez, nunca fez referência aos problemas que teve de enfrentar por ser uma pioneira e única num mundo de homens nomeadamente quando foi candidata e quando recebeu o prémio Nobel, nem nunca associou os seus problemas de saúde e do marido aos trabalhos de investigação e de produção de rádio e de polónio. Quando o talento das mulheres tinha de ser escondido atrás de nomes masculinos ou elas tinham de se travestir de homens, sendo dados vários exemplos e até o caso da papisa Joana, e quando até ao século XX as mulheres não tinham saídas profissionais para além de operárias ou damas de companhia, como aceitar a ambição de uma mulher a querer ascender ao conhecimento e ter uma carreira? Daí ter sido alvo de campanhas sujas e ferozes contra ela, por inveja, por preconceito, porque se a ambição é natural num homem é impensável que possa ser assumida por mulheres! A culpa sim, ou o apagamento! Mas ambição não; não é coisa de mulheres!

Rosa Montero aproveita para nomear algumas cientistas e investigadoras que foram pioneiras, que abriram caminhos para grandes descobertas contemporâneas – Lise Meitner, Rosalind Franklin, Henrietta Swan Leavitt ou Jocelyn Bell - que mais tarde foram alvo de reconhecimento através da entrega dos “Nobel” a homens que, ou usurparam o trabalho delas ou nem sequer as nomearam quando receberam os galardões. O contrário do que aconteceu aquando da atribuição do primeiro Prémio Nobel da Física para Pierre Curie e Henri Becquerel pela descoberta do polónio e do rádio, que Pierre se recusou a receber caso o nome de Marie não fosse incluído. Um caso muito bicudo para a época que acabou com a inclusão do nome de Marie, mas com a atribuição do valor em dinheiro apenas aos dois homens, como se Marie não contasse! Coube a Pierre subir ao palco e fazer o discurso de agradecimento, tendo aproveitado para atribuir a Marie Curie todo o mérito pela descoberta. O palco para ele; o apagamento dela, sentada no meio da audiência. Talvez por isso a relação de laureados com o Nobel até 2011 seja de 786 homens para 44 mulheres. Quantas terão sido preteridas, esquecidas, apagadas?

Por fim, este belo livro, fruto de um profundo trabalho de investigação e consulta de documentos sobre a vida e obra de Marie Curie, é valorizado com diversas fotografias de Marie Curie, do marido Pierre Curie, das filhas Irène e Ève e também de outras personagens e lugares que Rosa Montero convoca ao longo da obra. Encerra com o diário de Marie Curie, um sentido e sofrido testemunho da ainda jovem cientista entre Abril de 1906 a Abril de 1907, de onde é retirada a frase escolhida por Rosa Montero para título deste livro.



16 de junho de 16

 

domingo, 13 de setembro de 2020

Embalando a minha Biblioteca, Alberto Manguel

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Agora que Alberto Manguel decidiu doar a sua preciosa biblioteca ao município de Lisboa, recordo aqui o que escrevi há dois anos, quando li este belo livro do autor.


 


Embalando a minha Biblioteca, Uma Elegia e dez Divagações, Alberto Manguel,2018


 


Este livro de Alberto Manguel, nascido na Argentina e com cidadania canadiana tem a estrutura de uma elegia e dez divagações e é motivado por o autor ter sido obrigado a desmanchar e a embalar os cerca de 35 mil livros que constituíam a sua última biblioteca. Esta situava-se em França, num antigo celeiro anexo a um velho presbitério e a um jardim e ali ficaria, não fosse a burocracia que o forçou a partir e a enviar a sua amada biblioteca para o Canadá, onde continua encerrada em caixotes meticulosamente organizados e catalogados por queridos amigos que o ajudaram nessa penosa tarefa. Tratou-se de um enterro prematuro que lhe provocou raiva e luto, porque para o autor “se desembalar uma biblioteca é um acto selvagem de renascimento, embalá-la é sepultá-la ordenadamente antes do julgamento aparentemente final.” (p. 36)


São muitos os temas que desenvolve nessas divagações, desde as suas primeiras memórias ligadas às bibliotecas da infância nas diferentes terras onde viveu, enquanto filho de embaixador, que para ele são “uma espécie de autobiografia com várias camadas”. Revela-nos como os livros da infância e da adolescência que o marcaram para a vida continuam a ter uma força enorme e transportam consigo a presença das pessoas que lhos ofereceram. Jorge Luis Borges é uma referência constante ao longo deste livro, não só pela sua ligação ao escritor como à pessoa com quem trabalhou e a quem leu durante muitas horas quando Borges já perdera a visão. Também D. Quixote de la Mancha, ou seja, Alonso Quijano que se transforma em D. Quixote por via das suas leituras “tendo perdido os seus livros enquanto objectos, D. Quixote reconstrói mentalmente a sua biblioteca e encontra nas páginas recordadas a fonte de uma força renovada”. “A perda ajuda-nos a lembrar e a perda de uma biblioteca ajuda-nos a lembrar quem verdadeiramente somos” (p. 57).


Manguel revela um profundo sentimento de posse relativamente aos livros e a esta sua última biblioteca e daí o forte sentimento de perda, sendo a sua organização tão pessoal que, podendo ser vista por outros como um caos, lhe permitia saber exactamente o lugar de cada livro em cada uma das prateleiras. Escrever sobre este livro não é fácil e é certamente redutor, tantos são os autores referidos e tantas as referências literárias e porque cada divagação é um tema de análise: a necessidade de ligação, de comunicação entre os humanos e a insatisfação permanente; como se inicia o processo criativo e a incapacidade de através de palavras conseguirmos transmitir completamente as nossas ideias ou intenções; as bibliotecas que arderam ou foram destruídas e os autores que foram banidos, o que convoca o papel maldito da literatura e da arte para as ditaduras.


Ele, que gosta do toque dos livros e que é da geração que dava uma enorme importância aos dicionários, questiona-se sobre qual será o papel dos livros não virtuais para as gerações do terceiro milénio que veneram os gameboys ou os iphones e não os livros como objecto físico. O convite que recebeu em finais de 2015 para o cargo de director da Biblioteca Nacional da Argentina colocou-lhe e coloca-lhe problemas decisivos como este numa época em mudança acelerada e constante. Para além duma perspectiva estratégica de ligação às bibliotecas regionais dentro do seu país e de ligação a bibliotecas no estrangeiro, ele, enquanto director da Biblioteca Nacional da Argentina, tem a perspectiva de que uma biblioteca nacional seja aberta, inclusiva, que responda aos diversos interesses e necessidades da população, que atraia novos utilizadores e que mantenha os que já tem e isso é uma tarefa imensa e desafiante que lhe coloca muitas questões para as quais trabalha para responder. Para ele o ideal de biblioteca é que ela seja uma“Clínica da Alma” que funcione como “escola de empatia”.(p. 137)


Em minha opinião, esta grande e inesperada tarefa de dirigir uma Biblioteca Nacional que já antes tinha sido dirigida por Jorge Luis Borges, ajudou Manguel a descentrar-se da sua biblioteca pessoal encaixotada, a fazer o luto e a focar-se numa outra biblioteca, uma biblioteca para todos. Uma verdadeira epifania.


A terminar a última divagação, algumas frases reveladoras: “… o esvaziamento de uma biblioteca, por mais desolador que seja, e o embalar dos seus livros, por mais injusto, não têm de ser encarados como uma conclusão. Há novas ordens possíveis nas sombras, secretas mas implícitas, aparentes tão-só quando as velhas são desmanteladas. Nada que importe pode ser verdadeiramente substituído…” “«No meu fim está o meu começo», terá Maria Stuart, rainha da Escócia, bordado na sua roupa durante o cativeiro. Parece-me uma divisa adequada à minha biblioteca.”(p. 141)


 


1 de Junho de 2018                                   


Almerinda Bento

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Em Tudo havia Beleza [Ordesa] de Manuel Vilas

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Em Tudo havia Beleza  [Ordesa], Manuel Vilas, 2018


“Obrigada à vida, que me deu tanto.


Deu-me o riso e deu-me o pranto.


Assim distingo a sorte do quebranto,


os dois materiais que compõem o meu canto,


e o canto de vocês, que é o mesmo canto,


e o canto de todos, que é o meu próprio canto.”


                                                                               Violeta Parra


Abrir um livro em que o autor tenha escolhido para epígrafe este belo poema de Violeta Parra é, desde logo, um bom augúrio. À medida que se vai progredindo no livro, constituído por centena e meia de capítulos ou quadros, alguns muito breves, entramos na intimidade do autor/narrador que logo no início nos fala da sua dor e da impossibilidade de a medir ou quantificar. No seu caso, a somar aos infortúnios ou percalços da vida, a dor pela perda do pai e da mãe. Uma dor que ele vai tentar superar, se é que tal é possível!, pela escrita deste livro e pela fuga para um lugar mágico da sua infância, um lugar num vale cercado de montanhas onde foi muito feliz com os pais. Ordesa é esse lugar mágico, “Ordesa” é o nome original deste livro traduzido por Vasco Gato e que na sua versão portuguesa é “Em Tudo havia Beleza”.


Professor durante 23 anos, com um historial de abuso de drogas e de álcool a que consegue sobreviver, pai de dois filhos com quem a comunicação não é fácil, o seu divórcio aos 52 anos vai ter um efeito novo na sua vida. Tudo tem de ser reorientado, tudo passa a ter outro significado que o vai levar a dar à vida e morte dos pais uma importância que antes nunca tinha dado. Ele projecta-se nos pais, culpa-se por não lhes ter feito as perguntas para respostas que hoje já não pode ter, e antevê nos filhos aquilo que eles também sentirão quando ele já não existir. Sobretudo, culpa-se por aquilo que deixou de fazer, por aquilo que não verbalizou , pelos abraços que nunca conseguiram dar, talvez por pudor, as provas de amor que ficaram por dar e que agora já não são possíveis de demonstrar. Muitas vezes pensa e coloca-se no papel de uma terceira pessoa que lhe fala, lhe dá conselhos, ideias e sugestões, como que se distanciando dele, assumindo uma voz crítica. Há aspectos a que volta, que repisa, que repete, vertendo para o papel os medos, as dúvidas, as hesitações, os fantasmas.


Por isso, ao lê-lo senti que era um livro que fazia muito sentido, que fazia todo o sentido, porque é muito verdadeiro, muito palpável. Revi-me muitas vezes nele, encontrei-me nele e dei por mim por vezes a pensar: isto podia ter sido escrito por mim. Mas também penso que, pelo facto de a dor da morte e da perda definitiva estar sempre subjacente no livro, a sua leitura não será fácil para quem tiver esse sentimento de perda e de luto ainda muito recente. Não é fácil.


Enquanto é muito preciso nas datas de muitos acontecimentos da sua vida – nascimento em 1962; “No dia 9 de Junho de 2014 deixei de beber”; anos do nascimento,  casamento e cremação dos pais; concepção em Novembro de 1961; “Escrevo estas palavras a 9 de Maio de 2015” – a data do seu divórcio é imprecisa pois “não se sabe muito bem o momento, pois não é uma data, mas um processo…” É crítico e cáustico relativamente à instituição casamento. Transcrevo duas passagens, a primeira decorrente dum almoço com gente da cultura para que foi convidado pelo rei Felipe e por Letizia


 “É normal sentir compaixão pelos casais, especialmente pelos casais que começam a acumular anos de vínculo conjugal, porque todos sabemos que o casamento é a mais terrível das instituições humanas, pois requer sacrifício, requer renúncia, requer negação do instinto, requer mentira atrás de mentira, proporcionando em troca a paz social e a prosperidade económica.” (pág. 40)


A segunda, em que recorda o tio Rachmaninov, o irmão do pai


“E, para cúmulo, o Rachma divorciou-se. Isso é que foi espantoso.(…) O mais curioso é que lhe invejei essa vida. Julgo que o casamento de longa duração não é próprio da natureza humana. Fico contente que o Rachma tivesse sabido dar-se conta disso. Imagino que tenha sido isso. Os homens aceitam os casamentos de longa duração porque deixam de acreditar na juventude. 


Penso que após o seu divórcio se terá transformado noutro homem. Bem, entendo assim que o Rachma disse não a essa ordenação simbólica da realidade que existe por trás do casamento de longa duração, que é um pesadelo, que é uma prisão; claro que quem vive nesses casamentos sorri, e parece tratar-se de um sorriso verdadeiro. Acho que os casamentos de longa duração não valem a pena, percebo que esta afirmação seja exagerada, mas a renúncia às paixões também é um exagero do sacrifício razoável. Certos antropólogos dizem que a monogamia não é natural. Essa feira interminável de infidelidades entre homens e mulheres, de mal-entendidos dolorosos, está por trás da imposição da monogamia.


Talvez tenha sido o capitalismo eclesiástico a inventar os casamentos de longa duração.” (págs. 347 e 348)


E depois os lugares pontuam as diferentes fases da vida, desde logo Barbastro na região do Alto Aragão onde nasceu, Saragoça onde estudou, Madrid a imensa capital política, Ordesa e as montanhas que a cercam, a poderosa Catalunha ligada às viagens do pai quando o negócio do têxtil estava florescente e a Galiza onde o irmão do pai casou e se estabeleceu. Um mosaico da Espanha franquista, da Espanha pobre a que a sua família sempre pertenceu mesmo quando a prosperidade momentânea do caixeiro-viajante ou o sonho da sala exclusivamente usada pelas visitas da mãe não passaram de um breve episódio nas suas vidas. E depois fica o desamparo, a solidão, apanágio de quem é pobre, de quem só pode comprar electrodomésticos de marca branca, ou de quem opta por ter uma sala grande sem serventia em vez de uma casa de banho em condições! Do outro lado a monarquia e os que gravitam à volta do poder. A ironia em torno da Espanha e do seu povo não poupa os pais que não ligam a nada da política, para quem os interesses não vão além dos programas de culinária na televisão (o pai) ou o acompanhar todos os detalhes da vida de Julio Iglesias (a mãe).


O autor/narrador expõe-se, revela-nos acontecimentos marcantes da sua vida e nomeia os membros da sua família à medida que eles vão surgindo no livro com nomes de grandes mestres da música. O pai é Bach, a mãe é a Wagner, Vivaldi e Brahms são os nomes que dá aos filhos, Monteverdi e Händel são os tios maternos e Rachmaninov o tio irmão do pai, a viver na Galiza. Até ao rei ele dá um nome – Beethoven – o rei dos músicos. E depois a figura sinistra do padre G. que ele recorda como alguém que é o Mal, alguém cujo toque provocou nele um apagão, desde sempre associado a um sentimento de medo, o medo típico da vítima que se acha culpada do mal que lhe provocaram.


O pai – Johann Sebastian – é constantemente recordado como uma pessoa boa que atraía os desventurados. São muitas as marcas, anotações e sublinhados que fiz, mas deixo aqui apenas alguns em torno da figura do pai.


“O meu pai foi um artista do silêncio.” “A medicina ainda não é inteligente, é ainda uma simples prática, simples constatação de factos. Tem de descobrir a beleza e a salganhada imaterial de um tumor cancerígeno, porque num tumor cancerígeno também está a vontade de vida do corpo do homem que o traz dentro de si. É essa a razão de o meu pai ter escolhido o silêncio. Não havia nada a dizer. A medicina estava vazia, a religião nunca existiu, e ele já abandonara o seu carro. Os seres humanos já estavam na invisibilidade, não tinha nada para nos dizer” (pág. 70)


“Na realidade, eu nunca soube quem era o meu pai. Foi o ser mais tímido, enigmático, silencioso e elegante que conheci na minha vida. Quem foi? Não me dizendo quem era, o meu pai estava a forjar este livro.” (pág. 217)


“Éramos então pai e filho, de uma forma que nunca mais voltaríamos a ser.


Jogávamos muito bem.


Formávamos um único ser, fundíamo-nos.


Éramos amor.


Mas nunca falámos disso, nunca o dissemos.


Nunca.”  (págs. 264 e 265)


Sobre a mãe – a Wagner – limito-me a fazer esta transcrição: “Como sou parecido com a minha mãe, absolutamente igual.” (pág. 360)


Muito próximo do fim,


 “O mês de Junho aparecia por Barbastro como um deus a iluminar a vida das pessoas.


Era o paraíso. Foi o meu paraíso. Foram eles o meu paraíso, o meu pai e a minha mãe, como gostei deles, como fomos felizes e como nos desmoronámos. Que bela foi a nossa vida em conjunto, e tudo está perdido agora. E parece impossível.” (pág. 235)


Manuel Vilas tem uma produção poética intensa e a sua escrita é muita rica, mas simples, sem artifícios. Este romance autobiográfico surpreende pela escrita, mas não posso deixar de aqui referir o último capítulo (157) que se refere à noite da sua concepção quando os pais eram uns jovens a estrear a sua vida conjugal e um prédio em que tudo era  novo, em comparação com a decrepitude do mesmo prédio passados cinquenta anos. É um capítulo simplesmente belíssimo.


O epílogo – A família e a História – é como que a síntese, em poesia, das cerca de quatrocentas páginas que constituem o livro.


Termino, voltando ao princípio e ao icónico canto da grande Violeta Parra


 “ Obrigada à vida, que me deu tanto. Deu-me o riso e deu-me o pranto. …”


16 de Junho de 2019


Almerinda Bento

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...