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terça-feira, 28 de abril de 2026

A Livraria Perdida, Evie Woods

 



“A Livraria Perdida” – Evie Woods, 2023

 

Hoje são dezenas os livros que atraem amantes de livros e de gatos com títulos e capas sugestivos, que muitas vezes acabam por ser meros produtos facilmente vendáveis, mas de fraca qualidade literária. “A Livraria Perdida” foi-me oferecido por amigas que sabem desta minha ligação aos livros e à literatura e acho que, também por o romance se passar na cidade de Dublin e ter referências a James Joyce, autor de que lemos “Dubliners”, deve ter sido determinante na escolha deste livro que me ofereceram. 

Se houve aspectos muito interessantes no livro, confesso que com muito menos folhas, o livro não perderia muito. A parte relacionada com os encontros/desencontros amorosos das duas personagens me aborreceu bastante; achei mesmo que o livro tem muitas passagens xaroposas e muitos lugares comuns que me deram vontade de as saltar. Também as partes relacionadas com o realismo mágico são um bocado incongruentes, alguns aspectos da narrativa são pouco consistentes e nem todas as pontas soltas se conjugam, mas mesmo assim gostei de ir até ao fim na leitura do livro da irlandesa Evie Woods.

São três os narradores do livro, cujos nomes dão título aos diferentes capítulos. Embora Opaline Carlisle – a mais interessante – tenha vivido no século passado, há um vínculo (ou múltiplos vínculos) que os une a todos: a paixão pela literatura e por manuscritos e livros raros; a violência e o abandono nas relações familiares; a capacidade de superação. Opaline é uma mulher muito corajosa para a época, alguém que ama a liberdade mais do que tudo e, portanto, não se sujeita à submissão de um casamento arranjado

Se o tema da violência doméstica surge bem retratado, foi, no entanto, a questão do encarceramento da jovem Opaline Carlisle durante dezoito anos no hospício do distrito de Cornacht na Irlanda, o que mexeu mais comigo ao longo da leitura deste livro, lembrando-me a recente leitura do maravilhoso “Pequenas Coisas com Estas” de Claire Keegan. “Eu tinha ouvido falar de lares para mães e bebés na Irlanda – sítios para onde mães solteiras eram enviadas pelas famílias para terem os seus bebés em segredo.” (pág. 238) Mulheres com comportamentos fora da norma, neste caso a gravidez de Opaline e a recusa de casar com alguém que ela não escolheu, o que a levou a fugir de casa, eram aprisionadas em hospícios longe da vista de todos e “diagnosticadas” de loucas, de violentas, de histéricas, enfim “mulheres problemáticas, com ideias inconvenientes.” (pág. 259). Lucia, a filha de James Joyce que sofria de esquizofrenia, foi internada numa destas instituições em 1932 e por lá ficou por cinquenta anos…

Pensar que este tipo de instituições geridas por freiras e financiadas pela igreja Católica, em parceria com o estado irlandês, resistiram e persistiram até 1996, é verdadeiramente chocante. Como diz a nota final no livro de Claire Keegan a que faço referência “Não se sabe quantas raparigas e mulheres foram escondidas, aprisionadas e obrigadas a trabalhar nestas instituições. Dez mil é a estimativa mais moderada; trinta mil seria provavelmente um número mais exato”

23 de Abril de 2026

sábado, 20 de abril de 2024

Dublin - 6

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Dublin -6


E aqui chegámos ao quinto e último dia em Dublin, também o dia de anos da Guiomar. Vai ser Dublin só de manhã porque temos o transfer logo às 15:15, para uma viagem que parte do aeroporto às 18:45.


Hoje está um tempo bonito de sol. Começámos pela maravilhosa Catedral de St. Patrick, precedida de uma volta pelo parque adjacente de St. Patrick. A catedral é linda e tem mais de seiscentas pessoas sepultadas no seu interior e no exterior. Logo à entrada , o local onde Jonathan Swift o autor de As Viagens de Gulliver que foi deão desta catedral  e a sua amada Stella estão sepultados. Esta catedral nacional da Irlanda deve o seu nome a St. Patrick que aí perto baptizou pagãos em finais do século XII. Os restauros a que foi sujeita no século XIX foram-no com os fundos da família Guiness. Não tem imagens de santos, mas tem efígies de irlandeses famosos. Handel praticou no órgão desta catedral , antes da primeira apresentação pública de Massiah, em 1742. Além dos vitrais muito bonitos, o chão está coberto de mosaicos com padrões muito coloridos e tem várias capelas , havendo numa delas uma “Árvore da Vida” onde os visitantes são convidados a deixar uma mensagem dedicada a alguém muito querido.


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Quis com a minha mensagem recordar e homenagear o Povo martirizado da Palestina. Sem dúvida uma catedral muito bela.


Depois fomos à Christ Church Cathedral que deixámos para o fim porque fica mesmo em frente do nosso hotel. Menos sumptuosa, mas também muito bonita, é o mais antigo edifício de pedra de Dublin e ainda oferece uma parte de museu com peças, roupa e um espaço para compras de souvenirs.  


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Por fim, o Castelo de Dublin, também muito perto do hotel. Para além da galeria de todos os presidentes da Irlanda, logo à entrada uma sala com a cama onde esteve hospitalizado James Connoly. O Castelo, na segunda década do século passado, serviu de Hospital da Cruz Vermelha e os feridos da Revolta da Páscoa de 1916 foram levados para aqui, antes de serem fuzilados pelos britânicos. James Connoly, quando foi transferido daqui para a prisão Kilmainham Gaol, estava de tal forma debilitado devido aos ferimentos que foi amarrado a uma cadeira antes de ser fuzilado, o que causou tal horror que, muitas pessoas que não estavam ganhas para a luta destes patriotas que desejavam a independência, passaram depois daquela desumanidade para o lado dos independentistas. Na mesma sala do castelo de Dublin, numa parede as fotografias dos seis patriotas da Revolta da Páscoa e a fotografia da Proclamação do Governo Provisório da República da Irlanda, assinada por eles.


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Dirigimo-nos depois às proximidades do rio Liffey e acabámos por almoçar no mesmo sítio do primeiro dia, festejando o aniversário da Guiomar. Antes ainda, entrámos no Temple Bar para uma última  despedida a James Joyce. Foi entrada por saída, porque pouco havia para comer, só para beber.


Assim se fez a breve história destes cinco dias. Muita coisa ficou por ver, mas ficámos com o espírito da cidade e isso é que contou. Quando me perguntam: E foste aos Cliffs of Moher? E a Galway? Não, não. Só deu para ver um pouco de Dublin. Talvez numa próxima vez dê para ir a Dublinia, ao Chester Beatt Museum, à National Gallery of Ireland e ao National Museum of Ireland, a Kilmainham Gaol,ao EPIC, The Irish Emigration Museum, às Docklands, ao Dublin Writers Museum e ao James Joyce Centre, ao Little Museum of Dublin e a Bray ou aos Howth Cliffs ou à Henrietta Street…


Isto só para falar em Dublin que não é uma cidade muito grande. A minha ambição era muito maior quando fiz a lista de coisas a visitar…

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Dublin - 5

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Dublin – 5


Se ontem foi vento forte, hoje foi chuva todo o dia. Muita chuva mesmo, mas lá fomos a pé até Trinity , seguindo pela Dame Street. Não fica muito longe do hotel.


Tínhamos comprado os bilhetes online e depois foi fazer o espaço dedicado ao Book of Kells já muito movimentado e a seguir a maravilhosa Biblioteca – the Long Room – do Trinity College onde já estão os bustos das primeiras quatro mulheres que recentemente tiveram direito a entrar naquele espaço, onde só havia bustos de homens. São elas Mary Wollstonecraft grande pioneira dos direitos das mulheres e do feminismo, Rosalind Franklin cientista, Ada Lovelace matemática e Augusta Gregory, folclorista e dramaturga.


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Grande parte dos livros já foi retirada das estantes da biblioteca para limpeza e manutenção, para poderem ser preservados para as gerações futuras. No mesmo sentido da urgência de cuidar do que temos, a grande peça que se encontra no fundo da Grande Sala é um globo gigante, suspenso do tecto – a Terra vista do espaço, tal como os astronautas a vêem – numa comparação com a urgência de cuidar do planeta Terra para as gerações vindouras. Seguiu-se a parte da exposição imersiva de Kells e da Long Room, uma síntese belíssima do que vimos antes. Tudo muito belo e muito pedagógico. A seguir o Pavillion, espectacular, com estátuas falantes que nos situam na época e que falam com os visitantes sobre o seu papel para a História da humanidade. Nunca tinha visto uma coisa igual.


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Depois, descobrir a Sweny, uma farmácia transformada em pequena livraria – onde os escritores irlandeses estão em destaque. Não resisti a comprar um exemplar dos “Dubliners” com direito ao carimbo da Sweny, um sabonete de limão que é referido no Ulysses e um imã com a cara de James Joyce.


Mal se atravessa a rua, como estamos na zona onde viveu Oscar Wilde, lá está ele representado numa escultura, sentado à porta do Kennedys, local que foi o seu primeiro emprego quando tinha 14 anos. Foi aí que almoçámos, uma espécie de Martinho da Arcada em Dublin, desta vez dedicado a Oscar Wilde. O bar restaurante assinala “Kennedys, where stories began”.


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Como estávamos muito perto duma estação ferroviária e, como sou teimosa, apanhámos o comboio para ir até Howth, para ver os tais penhascos, mas com aquela imensa chuva e total ausência de visibilidade, limitámo-nos à agradável e barata viagem de ida e volta de comboio. Talvez a única coisa barata que fizemos em Dublin.


Com um dia de chuva como aquele, nada melhor que passar pelo SPAR e comprar umas coisas para comer no hotel. Foi o que fizemos.


(continua)


 

quinta-feira, 12 de março de 2020

“A Mulher que correu atrás do Vento”

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"A Mulher que correu atrás do Vento" , João Tordo, 2019


 


Um romance longo, talvez até demasiado longo, constituído por partes datadas, distantes no tempo, mas que se encaixam e formam um puzzle de muitas peças. Tal como os puzzles, tem zonas mais difíceis de completar, outras mais fáceis, peças enganadoras, personagens sobreponíveis e às vezes, quando pensamos que já estamos a chegar ao fim e temos o puzzle resolvido, há um volte face e percebemos que afinal aquele desfecho do puzzle estava errado. O que é romance? O que é fantasia? O que é realidade? O título do livro e a epígrafe, retiradas do Eclesiastes «Vi tudo o que se faz debaixo do Sol e achei que tudo é ilusão e correr atrás do vento» são a chave deste romance que tem o vento lá dentro.


No longo posfácio, Beatriz, a narradora, dirige-se a quem a está a ler, como que se explica e escreve a certa altura (p. 428) “Qual é o interesse de uma narrativa? Sobretudo de uma narrativa como esta, que já vai longa e confusa, dividida em múltiplas perspectivas, escrita em vários tons, repleta de vozes diferentes e, por vezes, contraditórias? … Chego à conclusão de que esta narrativa – como todas as narrativas – não trata do que é, mas do que poderia ter sido; não do que foi, mas do que deveria ser.” E à pergunta de Luciano sobre o que ela anda a traduzir/escrever, ela reflecte: “Como podia eu explicar-lhe isto, se não com a enorme perda de tempo de que falava Luciano, esta compulsão inútil de que padecem os escritores, aqueles que escrevem mesmo que ninguém os leia, os que escrevem porque, se não o fizerem, continuarão a correr infinitamente atrás do vento? O tempo perdido de que falava Luciano é a coisa mais importante que existe.” (p.431) Quando no último dia de trabalho no escritório de advogados, Luciano quis saber o que Beatriz ia fazer do resto da sua vida, ela respondeu-lhe: “Vou escrever um livro. Ele riu-se com a sua boca de parvo e perguntou-me sobre o que era. E eu respondi que aquela pergunta era a mais ridícula de todos os tempos, porque os livros não eram sobre nada, nunca ninguém escreveu um livro sobre coisa nenhuma. Os livros eram sobre si mesmos, disse eu, sobre o próprio acto de os escrevermos.” (p. 435). Mas, mais à frente, a narradora dirige-se-nos a nós, leitores/as: “Então chega o momento em que eu explico a razão deste livro, que não é sobre o que foi, mas sobre o que poderia ter sido.” (p. 436)


“A Mulher que correu atrás do vento” é um livro sobre a culpa, o remorso, o abandono, a solidão. Um livro que quer resgatar a memória de alguém que ninguém recorda, de alguém que passou pela vida sem ser amado e que partiu cedo de mais. Uma sem-abrigo a quem as instituições não têm a obrigação de dar cama, quando atingem a maioridade. Uma sem abrigo a quem as instituições dão um banho, uma refeição e uma muda de roupa lavada. Lia. Lia poderia ter sido uma mulher com casa, afecto e dignidade.


Beatriz lutava desde o seu tempo de estudante universitária  com a tradução de “Ulisses” de James Joyce, ao mesmo tempo que se divide entre gostar e odiar “A História do Silêncio”, um bestseller na época. Carrega a sua bagagem livresca e literária, não se poupando a referências a personagens que se colam às personalidades das personagens do livro, como por exemplo Lisbeth Lorenz ou Graça Boyard, a Violet Venable de Subitamente no Verão Passado de Tennessee Williams. “A Gaivota” de Tcheckov, a obra de Munch ou de Kafka, os escritores malditos Rimbaud, Baudelaire ou Bukowski, “Crime e Castigo” e os clássicos russos, “Um Eléctrico Chamado Desejo” de Tennessee Williams, ou mesmo o filme “Filhos de um Deus Menor”, entre muitos outros, surgem ao longo das páginas do romance e obrigam-nos a que os revisitemos ou conheçamos, para uma melhor compreensão das inúmeras personagens deste extenso romance de João Tordo.


Termino com mais uma citação que considero pertinente e ajustada ao romance: “As coisas começam num lugar distante no tempo e na geografia e, depois, parecem repetir-se infindavelmente, tal qual um relógio cujos ponteiros atravessam a mesma hora todos os dias. Assim é a vida humana: a repetição dos mesmos erros, dos mesmos atalhos, das mesmas esperanças.”


Mouriscas, 24 de Fevereiro de 20


 


 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...