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domingo, 6 de março de 2022

O Atalho dos Ninhos de Aranha, Italo Calvino

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O Atalho dos Ninhos de Aranha, Italo Calvino, 1947


Gosto sempre de ler um livro com um prefácio que me ajude a contextualizá-lo nas suas várias facetas. Em 1964 Italo Calvino fez um prefácio para o seu “O Atalho dos Ninhos de Aranha”de 1947. É um longo prefácio em que por várias vezes retoma a frase inicial “Este romance foi o primeiro que escrevi”. Escrito pouco depois da Libertação e da sua experiência como membro da Resistência à ocupação nazi, Calvino reflecte que o livro resulta da energia e da alegria do fim da guerra, da necessidade de verter para o papel a força da oralidade sem limites naquela época, de não querer pôr-se no papel de narrador que escreve as suas memórias de partigiano, pelo que decidiu que enfrentaria o tema “não de caras mas de esguelha. Devia ser tudo visto pelos olhos de uma criança, num ambiente de garotos e vagabundos. Inventei uma história que ficasse à margem da guerra de resistência, dos seus heroísmos e sacrifícios, mas que ao mesmo tempo nos transmitisse a sua cor, o sabor áspero, o ritmo…” Inconformista, avesso às directivas, cartilhas e imagens formatadas e normativas de conduta e militância, escolheu esse garoto – o pequeno Pin – antítese do herói socialista e do romantismo revolucionário, alguém que estilhaçasse os conceitos de herói e de consciência de classe.


O livro é dedicado a Kim – grande amigo e companheiro da Resistência de Italo Calvino – sendo que no capítulo IX a sua personalidade e características de dirigente político rigoroso e analítico são vertidas, dando um tom ideológico que corta, até certo ponto, o fio da narrativa em que Pin e os partigiani são os protagonistas. Pin é a criança que cresce de forma um tanto ou quanto selvagem, sem regras, sem amor, que mascara a sua solidão e desamparo com provocações aos mais velhos, a sua forma de entrar no mundo dos homens e de se sentir um deles. Ele quer ser acolhido pelos grandes, pelos homens da taberna, pelos partigiani, é coscuvilheiro, desvenda os segredos do bairro pobre, canta canções que os homens gostam de ouvir. Para os homens da taberna, Pin é importante porque é irmão da Morena do Beco Comprido. Para Lupo Rosso, Pin é importante porque tem uma arma, escondida num lugar único, mágico, que só ele conhece – o atalho dos ninhos de aranha – a sua única riqueza. Quando é confrontado com a possibilidade de desvendar onde fica esse atalho que leva à arma escondida, Pin hesita porque “o lugar dos ninhos de aranha é um grande segredo e é necessário que seja um verdadeiro amigo, em tudo e para tudo” (pág. 92)


Só há um homem de entre todos aqueles que olha para Pin como uma criança que precisa de carinho, ele também adulto carente. “Primo o grande, doce e cruel Primo” (pág. 211) é o único que “o leva pela mão, aquela grande mão, macia e quente como pão.” (pág. 226).


No prefácio, Italo Calvino escreve a certa altura “A Resistência representou a fusão entre paisagem e pessoas” (pág. 12) . Na minha memória, os bosques, os esconderijos, as casas abandonadas onde homens sujos se amontoam, o vale, os viveiros de cravos, os campos de rododendros, a preocupação dos homens ao encontro da coluna dos alemães: “É um dia azul como os outros, tão azul que quase faz medo, um dia com cantos de passarinhos que quase faz medo ouvir.” (pág. 189).


Um livro lindíssimo.


3 de Março de 2022


 

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Paddy, Sara, Muro, Desigualdade Salarial, Lula, Vox

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Paddy, Sara, Muro, Desigualdade Salarial, Lula, Vox…


Numa semana, estes nomes ou estes títulos encheram as páginas dos nossos jornais, foram motivo para peças nos telejornais, deram horas de debate nas redes sociais. Como sempre, a intensidade da notícia é alta, a reflexão frequentemente escassa e a avidez de novidades exige que se passe à notícia seguinte, porque o presente é que conta e se der boas audiências, tanto melhor.


Mas importa parar, reflectir e concluir que os acontecimentos não surgem e passam sem deixar marcas e algumas bem fortes para o futuro.


Paddy e o glamour do mundo digital. Muito empreendedorismo, muita tecnologia, muitos convidados topo de gama, numa cidade preparada para a enchente. Tudo brilha, muito neon como convém, mas no melhor pano cai a nódoa: o que seria da web summit sem 2700 voluntários a trabalhar sem ganhar e sem direitos?


Sara. Há Saras e Saras. Esta é jovem, sem-abrigo, negra e foi crucificada na praça pública porque abandonou o seu filho recém-nascido junto a um contentor. O que será feito do pai da criança? O que será a cabeça desta jovem mãe que deita o seu filho no lixo? Felizmente o bebé sobreviveu, possivelmente encontrará uma família que o vai acolher e amar. O presidente foi deitar um olho para dentro do contentor, possivelmente fez uma selfie. Vamo-nos esquecer da Sara?


Muro. 30 anos depois. Deitou-se aquele abaixo, outros ficaram e mais outros estão a ser construídos: na Palestina, no Sahara Ocidental, na fronteira do México, na Europa… A Europa fortaleza  que ficou mais muralhada contra os refugiados, os que fogem da guerra, olhados como terroristas. Contra os refugiados que não se afogaram no Mediterrâneo.


Desigualdade salarial. A partir de 8 de Novembro, tendo em conta a desigualdade entre os salários dos homens e das mulheres, é como se as mulheres trabalhassem à borla até ao final do ano. Como os/as voluntários da web summit. A velha consigna “para trabalho igual, salário igual” não passa de uma consigna. A desigualdade de género não é uma falácia.


Lula livre!  gritou-se na sexta-feira. A esperança na mobilização dos muitos cidadãos brasileiros na reposição da verdade e na luta contra um presidente corrupto, ignorante, reaccionário, incapaz. O Brasil merece respeito, democracia, liberdade.  Lembrando Chico Buarque “Canta a primavera, pá/Cá estou carente/Manda novamente/Algum cheirinho de alecrim”.


E finalmente, Vox. Não vale a pena ignorar que o Vox foi o grande vencedor da noite de domingo. Desgraçadamente. Mais de 3 mihões de espanhóis acharam que ali estava a solução para as suas vidas! Órban, Salvini, Erdogan, Marine le Pen, Bolsonaro, Trump, Ventura estão a esfregar as mãos de contentes. Nuvens negras no horizonte.


Concluo dizendo que há tanto motivo para lutar. Pela democracia, pela liberdade, pelos direitos para todos e todas. Tantos avanços, tantos recuos. Tanta certeza de que tudo já estava adquirido, mas a constatação de que os pequenos passos mesmo pequenos têm de ser acompanhados e não deixados sem guarda. Os sindicatos, os movimentos sociais, as forças e organizações de esquerda têm um papel insubstituível neste combate que não tem fim. Mãos à obra, que se está a fazer tarde.


(Este texto foi publicado a 12 de Novembro de 2019 no site do SPGL - Notícia do Dia)

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...