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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Nem Todas as Árvores Morrem de Pé - Luísa Sobral

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“Nem Todas as Árvores Morrem de Pé” -Luísa Sobral, 2025

No prefácio deste livro, Luísa Sobral revela-nos ser uma escutadora, uma boa ouvinte, que aproveita muito do material de escuta ocasional para as suas criações enquanto autora de canções. Neste caso, para a escrita de “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé” o seu primeiro romance. A partir duma “história incrível” lida num jornal de Vila Real, que uma amiga lhe enviou através de uma mensagem de whatsapp, aquela história, não só deu azo a uma canção que ela escreveu logo naquela noite, como lhe ficou a matutar e deu origem a este “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé”. Confesso que o Prólogo, que li logo que comprei o livro, é avassalador, muito visual e pus o livro de parte. Mas, na manhã seguinte, voltei a pegar-lhe e li-o em dois dias.

Para já o livro é visualmente muito bonito, para além da escrita poética e bem elaborada, na sua estrutura. Para quem quiser começar pela canção, basta usar o código QR logo a abrir o livro. Depois a capa e as ilustrações de plantas da autoria de Camila Beirão, as quais encimam todos os capítulos da narradora, apaixonada pela natureza e que organiza um herbário com todas as espécies que colhe nas suas saídas para o campo. A narrativa é fragmentária e a história da narradora e das restantes personagens vai-se desvendando aos poucos.  Surgem capítulos com a letra em itálico sendo Emmi a narradora; as cartas de Markus para Emmi e os capítulos também em itálico da Tia da narradora. É da conjugação destes capítulos, interligados com pequenas frases/reflexões/pensamentos, que se constrói este belo livro, muito bem escrito. Detectei que a escolha dos títulos dos capítulos com o nome de plantas, seguido do nome científico e das características das plantas, nomeadamente o seu poder curativo, não foi casual, antes deliberada, o que torna o romance ainda mais interessante.

A história tem como ponto central o Muro de Berlim construído 2 anos antes de M. a narradora ter nascido. O Muro é o regime opressivo, o peso da suspeita e do medo, aquilo que dividiu famílias durante vinte e oito anos. Dividida entre o amor ao pai e o medo de não corresponder ao modelo que ele queria, sente-se rejeitada pela mãe sem ter para isso uma explicação. Tímida, sem vontade própria, foi Mavie a ama que a acompanhou até à entrada na escola e lhe incutiu o amor às plantas e aos seus efeitos curativos. O seu refúgio na natureza e a paixão em fazer um herbário eram os seus momentos de felicidade, ela que “só sabia falar com as plantas” (pág. 22) e para quem “o medo era a minha doença crónica” (pág. 61).

Em contraponto ao Muro, a liberdade protagonizada pelas plantas que a narradora colecciona, o herbário, Mavie, Klaus, Matteo, Francesca, Angelo e a concretização da fuga. Os traumas de infância são de tal forma profundos que é com indiferença que toma conhecimento da queda do Muro. Afinal, os pais são uma cicatriz que continua aberta e aquando do seu casamento com Matteo, “o passado não foi convidado” (pág. 110).  

Emmi, a mãe da narradora, é uma personagem importante nesta história. Os seus sonhos de um amor feliz são brutalmente truncados com uma revelação inesperada. Deprimida, frustrada, encerra-se num mutismo que é ódio primeiro e depois indiferença e numa rejeição da filha recém-nascida que o marido atribui a uma “depressão” o que a ela pareceu “um bom diagnóstico para ser deixada em paz” (pág. 130). O ódio que sempre nutriu pela filha, a quem tratava por miúda, só deixou de existir quando soube que a filha tinha tido a coragem para fugir, a coragem que ela nunca tinha conseguido ter.  Emmi sentia-se cobarde, sentia que estava morta há anos e quando teve conhecimento da fuga “naquele dia comecei a amar a miúda. A minha filha” (pág. 152).

Não revelo mais nada sobre a história, pois vale mesmo a pena ser descoberta.  Quero ainda confessar que este livro me invocou duas amigas. Por causa da capa e das ilustrações botânicas do livro, a Manuela Rosa, professora de desenho e pintura, cujas estimulantes oficinas acompanho mensalmente na Quinta da Fidalga e a Irene Alves, amiga de um clube de leitura, que me ofereceu o “Herbarium” de Emily Dickinson com folhas e flores recolhidas nos campos de Amherst e com “poemas botânicos” traduzidos pela maravilhosa Ana Luísa Amaral.

14 de Fevereiro de 2026

 

segunda-feira, 28 de março de 2022

Homens Imprudentemente Poéticos, Valter Hugo Mãe

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“Homens Imprudentemente Poéticos”, Valter Hugo Mãe, 2016


De cada vez que leio Valter Hugo Mãe percebo que estou a entrar num mundo muito próprio, em que a língua se transfigura e em que as personagens têm de ser lidas para além da capa exterior que as cobre. Comecei com o Sr. Silva e os companheiros de fim de vida no lar “Feliz Idade” em “a máquina de fazer espanhóis”(2010); seguiu-se Halla nos fiordes da Islândia, a sobreviver à morte da irmã gémea em “A Desumanização”(2013) e depois, o mais perturbador de todos, “o remorso de baltazar serapião” (2006) que lhe valeu o prémio José Saramago e que o Nobel classificou de “tsunami”.


Depois de algum tempo sem ler nenhum romance deste autor – para além das crónicas com o título Autobiografia Imaginária no JL – e porque já três novos livros de Valter Hugo Mãe se amontoavam na pilha dos “a ler/oferecidos”, foi a vez deste “Homens Imprudentemente Poéticos”. E quem são estes homens imprudentemente poéticos? Dois vizinhos num Japão antigo, o artesão Itaro e o oleiro Saburo, que criam uma inimizade incompreensível, como tantas vezes acontece. O artesão na arte de fazer leques é um homem obstinado, obcecado em fazer premonições sobre acontecimentos futuros, a partir da morte de animais/insectos. O oleiro, também ele um homem obstinado, pensando que conseguia salvar a mulher da morte que lhe havia sido profetizada por Itaro, faz crescer o jardim pela floresta adentro. Além destes dois homens que são afinal as personagens principais do romance, as figuras femininas são Matsu “que faz parte das pessoas diferentes” (pág. 47) é a irmã cega de Itaro, cuidada pela criada Kame. A senhora Kame, que tinha sido acolhida pela família do artesão, é a pessoa cuidadora, protectora, que está sempre presente em função dos outros “era um bicho domesticado. Viam-na com o carinho que se dava aos gatos enamorados por seus donos”.(pág. 38). E por fim, a senhora Fuyu, a mulher do oleiro Saburo, cuja presença ele teima em manter mesmo depois de morta, usando o seu quimono como espantalho nos canaviais, para afugentar os pássaros e, se possível, para a fazer voltar.


Como acontece com todos os livros de Valter Hugo Mãe, este é também muito visual. A floresta, lugar mágico povoado de bichos onde os suicidas procuram a sua morada derradeira, as violetas, as cerejeiras em flor, as flores do jardim, o lago Biwa e os seus peixes e, especialmente, o poço. A cena do poço no fundo do qual Itaro vai permanecer “sete sóis e sete luas” vai ser um lugar de descoberta, onde experiencia a mais profunda escuridão igual à cegueira da irmã e onde vence na luta contra o medo. É um dos capítulos mais intensos, assim como os três capítulos sobre a irmã Matsu que constituem a terceira parte do romance e que são duma enorme beleza poética.


Termino com alguns excertos para mim muito significativos:


“Contar-se-ia para sempre que um homem fora condenado a meditar no fundo de um poço durante sete sóis e sete luas e que, apavorado com o escuro, se amigou do próprio medo. Sentindo-lhe carinho.” (pág. 165)


“… o artesão cerrou os olhos, ainda mal acostumado à abundância da luz, e sentiu-se confortável  no escuro. Educara-se para o escuro. De verdade, sentiu nenhum medo da cegueira. Considerou que ficar sem ver era da ordem da limpeza. E o sábio disse: inclui-te naqueles que frequentam a universalidade.” (pág. 166)


“Ela sabia apenas da beleza das palavras porque era com elas que se explicava o mundo.”  (pág. 174)


“A cega, mais do que nunca, entendia o que era conhecer alguém e começava a dizer: conheço-te. Era a maneira mais exacta que tinha de afirmar que o via.” (pág. 177)


“Obstinado com pintar um novo leque, na expectativa do que lhe mostraria, tanto quanto outrora ansiava por saber o que veria no morto de algum bicho.” (pág. 183)


“Contava-se que saíra do poço tão imprudente quanto mágico.” (pág. 184)


“E Itaro pintava, demorava-se absurdamente a ver cada leque, e subitamente regressava à necessidade de pintar. Era inesgotável. Ele dizia. Que o deslumbre nunca se eternizava.” (pág. 184)


“… sei pouco, sei que há algo mais para saber. Pressentia que a arte era uma revelação, assentava numa suspeita mas nunca garantiria que resultado teria, afinal. Estava diante de um pressentimento de haver algo para descobrir mas faltava-lhe conhecer o quê. Apenas os leques, leque a leque, o levariam utopicamente mais além”. (pág. 185)


 


28 de Março de 2022


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...