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domingo, 12 de fevereiro de 2023

Um Dia chegarei a Sagres, Nélida Piñon

Um Dia Chegarei a Sagres


“Um Dia chegarei a Sagres”, Nélida Piñon, 2021


 


Este livro foi-me oferecido pela minha amiga Guilhermina, grande amiga e editora em Portugal de Nélida Piñon, um dos “Amigos e Cúmplices de Lisboa” a quem a autora dedicou este livro. Com tantos livros que vou amontoando e em lista de espera para serem lidos, acabei por iniciar a sua leitura após o anúncio da morte da escritora brasileira de ascendência galega, em finais de 2022. Nélida Piñon foi uma personalidade marcante da cultura e literatura brasileiras, tendo sido a primeira mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras em 1966. A sua obra é extensa, tais como são os prémios e galardões com que foi distinguida ao longo da vida.


“Um Dia chegarei a Sagres” é uma odisseia que decorre no século XIX e para a escrita da qual a autora se preparou ao longo de vários anos, tendo sido parcialmente escrita em Portugal. Nas palavras da própria autora “ Cheguei a Portugal sabendo por onde caminhar, mas precisava estar lá pessoalmente para captar a paisagem, os enigmas do povo, os locais onde o sangue foi derramado. Eu precisava descobrir de onde veio esse nosso idioma deslumbrante. Sou valente, audaciosa. Enfrentei a pandemia com a minha literatura”.


Mateus é o centro desta história. Homem do Minho, criado e educado pelo avô Vicente, Mateus tem um sonho. “Um dia chegarei a Sagres” é o mantra que repete ao longo do livro. A narrativa começa com Mateus em Lisboa, pobre, velho e doente, sabendo que já tem pouco tempo de vida e por isso quer contar a sua história.


Sagres foi o sonho, a ambição, mas foi também o local onde deixou os seus fantasmas. Na sua terra natal “a vida reduzia-se à terra, aos animais, ao sexo, ao pão e ao vinho. O sonho fora abolido.” (pág. 58) São, no entanto, o avô e o professor Vasco da Gama, que pela primeira vez lhe falara do Infante D. Henrique, as suas referências de infância, que o levam a ter esse sonho, essa ambição. “Enquanto forcejava o intelecto daqueles alunos a crer na soberania da história, eu acatava os seus preceitos sem resistência. Como sabendo que falava da vida que alguém no passado vivera por mim e que eu agora prosseguia em seu nome.” (pág. 22). “Na cozinha, à noite, perdia-me em conjeturas, de como chegar um dia a Sagres, a pé ou de barco. Ao encontro do Avis…” (pág. 23).


E enquanto não chega esse momento da partida, depois da morte do avô Vicente, a única pessoa que o ligava à terra, é o amor aos animais o único amor que Mateus conhece: a ovelha Antónia, o jumento Jesus, a galinha Filomena. Tal como o avô Jerónimo de Saramago, também o avô Vicente acolhia os animais em casa nas noites de Inverno. “ A morte do jumento doeu-me como nenhuma outra” (pág. 46). Mais tarde, já na viagem de Lisboa a caminho de Sagres adoptará o cão Infante que vai passar a ser o seu melhor amigo.


O amor, a ausência de amor, a inacessibilidade do amor, o sexo e a sexualidade são igualmente temas muito fortes nesta obra. A personagem da mãe Joana que o rejeitou à nascença levam-no a descarregar nas mulheres com quem tem relacionamentos sexuais a falta de amor que nunca recebeu da mãe. O amor por Leocádia tornado inacessível pelo poder controlador da tia Matilde. E a “teia de aranha” (pág. 261) em que o Africano “marcado por um estigma que só eu conheço” (pág. 293) o vai enredando, que o “afligia e atraía ao mesmo tempo” (pág. 262), irmana-o, pois “Minha febre é como a sua. Ambos sofremos.” (pág. 265).


Outras personagens marcam esta história que nos é narrada por Mateus, de que destaco Ambrósio e Amélia, ambas realçadas pela sua personalidade e sobretudo pela coragem em enfrentarem a pobreza e a fome, em muito assemelhando-se aos navegantes. Ambrósio é o alfarrabista que o acolhe na sua casa em Sagres e que compartilha com Mateus a paixão pelo conhecimento e pela história. Amélia, a mulher sem-abrigo que Mateus vai acolher em Lisboa, no final da vida – “a Bárbara reencarnada” que “Morreu para salvar Camões” (pág. 356) – com quem vai aprender “lições de generosidade” (pág. 353) e com quem se vai abrir como nunca antes fizera. “Amélia é a luz do dia. Sei-me vivo graças a ela. Ao deslizar em volta a mim ainda deitado, espera o meu coração se animar. Como querendo ela na sua modéstia apagar as doloridas razões que me expulsaram da paisagem do Algarve e trouxeram-me de volta a Lisboa, junto com meus fantasmas.” (pág. 379)


“Um Dia chegarei a Sagres” tem como protagonista o povo que sonha e que sofre através de Mateus que narra a sua história. Alguns momentos marcantes como os descobrimentos, a figura do Infante e de D. Sebastião, o terramoto de Lisboa, a escravatura no Brasil, os reinados de D. Maria II ou D. Pedro V, põem em confronto os privilégios da Igreja e da Nobreza e a pobreza persistente do Povo. Uma escrita poderosa que revela um domínio perfeito e rico das palavras, fazendo jus ao profundo amor da escritora pela língua portuguesa.


Almerinda Bento


5 de Fevereiro de 2023


 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

A Vida Mágica da Sementinha

A Sementinha

É a última sexta-feira do ano. Começo o dia a escrever os postais de Boas Festas, para assim poder riscar uma das tarefas da minha lista de coisas a fazer, antes que 2022 chegue ao fim. A aguarela que a Manuela Rosa fez para os postais deste ano é tão inspiradora e vou buscar também uma frase inspiradora de José Tolentino de Mendonça numa das suas crónicas no «Expresso» com o título “Milagres de todos os dias”. Não posso limitar-me a colocar os envelopes no marco mais próximo, porque não tenho selos suficientes e, por isso, sou obrigada a ir aos Correios. A fila não é longa, não trouxe na mala o livro da Nélida Piñon que ando a ler e os meus olhos caem naquele que penso ser o último livro de João Tordo “Cem Anos de Perdão” Não são de solidão, são de perdão. Decido começar a lê-lo, enquanto não chamam pelo meu número e, tal como me aconteceu com “As Três Vidas”, este é outro daqueles livros deste autor que agarra o leitor logo na primeira página. Levo, não levo? É melhor não. Além de muito caro, a pilha de livros à minha espera lá em casa obriga-me a voltar a colocar o livro na estante dos Correios. Pode ser que alguém o leve.

A simpatia da funcionária, que conheço há muitos anos, é o antídoto para tantas vezes que somos atendidos com má cara. Neste caso, não me parece que a simpatia seja causada pela época festiva em que todas as pessoas se cumprimentam e desejam festas felizes.

Saio e passo por alguém que vai entrar no edifício e me chama.

- Ó professora… foi minha professora. Está tão bem!

 São sempre momentos em que a minha timidez vem ao de cima.

- A sério? Foi na Paulo da Gama? Há quantos anos? Não me lembro da tua cara. Foram tantos, tantas e vocês transformaram-se.

- Lembro-me bem de si. Foi minha professora de Português no 5º e 6º anos. (…) Vou dizer à minha mãe para se inscrever na UNISSEIXAL. Pode ser que ela venha a ser sua aluna. Ah, e ainda lá tenho a Sementinha… 

Nem todas as profissões têm este condão de nos rejuvenescer, de nos recordar os tempos felizes e estes encontros ajudam-nos a não esquecer como os professores são importantes na vida dos jovens e das crianças.

Volto à frase inicial de José Tolentino de Mendonça que escolhi para as minhas mensagens de Natal e Bom Ano Novo: “Não há dia nenhum em que não sejamos visitados por um anjo.”

30 de Dezembro de 2022

 

 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...