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quarta-feira, 5 de abril de 2023

As Coisas que faltam, Rita da Nova

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As Coisas que faltam, Rita da Nova, 2023


Fui ao lançamento de “As Coisas que faltam” porque tinha gosto em conhecer pessoalmente a Rita, que apenas conhecia pelo seu blogue. Quando cheguei naquela tarde à acolhedora e para mim nova Livraria Martins em Lisboa, fiquei espantada com a imensa quantidade de jovens numa apresentação de um livro, que ali aguardavam a sua vez para ouvir e conversar com a autora. Percebi então que aqueles jovens eram seguidores da Rita nas várias redes sociais em que ela se move. Percebi também que além da avó da Rita, eu era a pessoa mais velha, muito mais velha, naquela pequena multidão que se espalhava pela sala e subia pelas escadas que levam ao andar superior da livraria.


O assunto deste primeiro romance de Rita da Nova – uma rapariga que luta por conhecer o pai – fica claro logo na frase inicial do livro: “Aos oito anos perguntei pela primeira vez à minha mãe se podia conhecer o meu pai.” Para quem esteve naquela apresentação do livro, percebe-se a importância da avó na sua vida, cuja presença a autora nomeia mais de uma vez. Aliás, dedica-lhe o livro, assim como ao pai: “Para a minha avó, a minha pessoa. Para o meu pai, que voltou atrás por mim”. Em Agradecimentos, no final do romance, esclarece-se como aquelas duas pessoas foram determinantes na sua vida e motivadoras para a escrita de “As Coisas que faltam”: “Tinha nove anos quando conheci o meu pai. Morava com a minha avó materna nessa altura, como morei durante vários anos, e foi ela quem sentiu necessidade de chamar o meu pai até mim.” … “Talvez por ter tido a sorte de uma segunda oportunidade com o meu pai – e por «sorte» entenda-se «uma grande avó» -, sempre me fascinou imaginar uma realidade alternativa em que nada disto tivesse acontecido.”


Sendo um livro bastante directo, coloca-nos, no entanto, vários temas para reflexão: o peso da ausência da figura paterna numa sociedade que encara isso uma “falha”, desde logo quando na escola se espera que as crianças desenhem uma árvore genealógica onde a mãe e o pai têm de existir; a dor de uma relação entre mãe e filha em que não há comunicação, onde não há intimidade, onde até o toque e a emoção estão ausentes e os efeitos no futuro adulto; a pressão e o assédio sobre uma rapariga tão comuns numa empresa de homens; como uma relação possessiva e que não respeita o outro, passa pela despersonalização e termina numa relação abusiva e violenta. De forma subtil, a narradora Ana Luís conseguiu, através da caracterização das personagens (mãe, tia Ermelinda, Fernando, Raul) levar o/a leitor/a a prever o desfecho. Aliás, por vezes dialoga com quem a está a ler e levanta o véu, antecipando o que vai acontecer. Gostei do recurso às cartas enviadas pela mãe ao pai que sintetizam uma relação de abandono, de solidão, de falta de comunicação.


Desejo a Rita da Nova muitas leituras, a convicção de que um próximo ainda será uma história com uma relação muito umbilical “o resto será uma história para outra altura” (pág. 253), mas a certeza de que no futuro os voos a irão levar a outras geografias.


2 de Abril de 2023

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Eliete - A Vida Normal

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Eliete – A Vida Normal, Dulce Maria Cardoso, 2018


“Todas as famílias, as felizes e as infelizes, tinham segredos, todas as famílias sabiam que a verdade devia ser desprezada como qualquer outra minudência que amesquinhe a vida”. (pág. 226).


Esta citação é, quanto a mim, a chave deste “Eliete - A Vida Normal” (I Parte). Um livro “circular” em que as pontas da última e da primeira páginas se ligam, nos abanam e nos deixam na ansiedade duma Eliete Parte II, que se gostaria de ter logo ali à mão.


O final deixou-me atarantada. Dulce Maria Cardoso, que só conhecia das crónicas da «Visão», tem uma capacidade prodigiosa de agarrar quem a lê e de surpreender pelo inesperado, pela escrita forte e desabrida. Eliete, a avó, a mamã, o Jorge, a Inês, a Márcia, a Milena, o Sr. Pereira, a Mónica, o Duarte … surgem-nos ao longo de cerca de trezentas páginas com a sua humanidade, sem artifícios nem maquilhagem. É a vida comezinha, é o dia-a-dia, com o sabor que cada idade tem, com o cansaço que os anos trazem, com a indiferença do estar mas não estar, com a sensação de que se perdeu o pé, com a constatação de que as recordações jazem nas tralhas da arrecadação. A vida passou a ser vivida através do facebook ou do Instagram, caçam-se pokémons ou homens no Tinder, em vez de sentimentos há emojis e likes, o virtual substituiu o real. Eliete, uma mulher na casa dos quarenta, com um curso de Relações Internacionais que nunca lhe serviu para nada, com uma formação de seis meses para guia e intérprete a preparar um futuro no desemprego e actualmente vendedora de imóveis é uma mulher profundamente insatisfeita com a sua vida, sente-se muito só e estranha, como se vivesse com estranhos que são afinal as pessoas que mais ama, mas que não conseguem expressar um afecto que existiu, mas que o tempo e a idade fizeram esmorecer.


O país também vai mudando. Da euforia dos dinheiros da CEE, passa-se à depressão e de novo à esperança. Os pontos altos no orgulho lusitano – Expo 98, Euro 2004, campeões europeus de futebol – dão lugar à depressão com a intervenção da troika. Também no mundo, o inimaginável acontece: Trump é eleito. Tudo isto vai surgindo de forma natural na escrita torrencial de Dulce Maria Cardoso, como pano de fundo da sociedade em que Eliete respira. As pequenas e as grandes coisas ligam-se umas às outras sem interrupções, nem pausas, duma forma natural e muitas vezes divertida. Até a decadência da avó com doença de Alzheimer é apresentada sem sentimentalismos nem eufemismos.


As pontas soltas que se unem e de que falei ao início começam no momento em que a avó tem o primeiro episódio que a leva ao hospital e o temporal que apanha Eliete na casa da avó. O que irá acontecer?


 


2 de Setembro de 2021


 

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Sangue do meu sangue, Michael Cunningham

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Sangue do meu Sangue, Michael Cunningham, 1995


A opinião de escritor admirável que tinha àcerca de Michael Cunningham quando, há já alguns anos, lera “As Horas”, foi reforçada com a leitura de “Sangue do meu Sangue”. A história começa em 1935, com Constantine, um rapaz grego que um dia partirá para os Estados Unidos para fugir da pobreza, movido pela quimera da terra das oportunidades. Aí namorará, irá casar e ter três filhos. A tensão entre o casal resulta não só das diferenças entre as culturas grega e americana, mas também das dificuldades financeiras iniciais e da forma como cada um lida com os filhos, desculpando ou não as birras, os caprichos e os sobressaltos do crescimento das crianças. A ascensão social da família, fruto do negócio de construção de casas baratas, vai acentuar a distância entre Constantine e a família, em vez de a diminuir. A inesquecível cena da fotografia de família para o cartão de Natal a enviar aos amigos não passa de uma capa que esconde a animosidade e a violência latente naquela família americana.


Com o crescer dos filhos – Susan, Billy e Zoe – cada um vai seguir o seu destino e os laços familiares vão-se tornar cada vez mais ténues e esporádicos. Casamentos, divórcios, relações fortuitas, escolher o fio da navalha, descobrir a sua identidade sexual, profunda insatisfação pessoal, o vírus da sida, o sentimento de fracasso, o viver de aparências, a fragilidade na doença, a decadência e a velhice, o reencontro e a aproximação, o amor, a solidariedade, o apaziguamento, o preconceito, a dificuldade em aceitar a diferença, a homofobia, os traumas recalcados, tudo isto vai surgindo, ao mesmo tempo em que vamos acompanhando as diversas personagens à medida que os anos passam. Até 1995 seguimos o que cada um faz, decide, sente, escolhe, sendo nesse ano que a instável “paz” e “harmonia” da família Stassos é definitivamente estilhaçada. A partir daí e até 2035, ou seja, cem anos depois da cena inicial em que o menino Constantine sonha conseguir arrancar o primeiro pimento, a primeira beringela e o primeiro tomate da sua pobre horta na Grécia natal, a narrativa correrá veloz. É o ciclo da vida e da morte. Na última cena, em 2035, Jamal quer estar sozinho quando deitar as cinzas dos pais – Will e Harry – na baía.


Admirável a forma como Michael Cunningham disseca as contradições e os sentimentos das pessoas, os seus sonhos e frustrações, as classes sociais e o estatuto que as mesmas conferem aos indivíduos, a falsidade do sonho americano, os negócios fraudulentos que geram milionários de um dia para o outro, a homossexualidade e a homofobia, a solidariedade e também as preocupações de ordem ambiental.


Sem dúvida um dos grandes livros que li este ano e que recomendo.


1 de Novembro de 2019

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...