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sábado, 25 de julho de 2020

Rimbaud, o Viajante e o seu Inferno, Ana Cristina Silva

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Rimbaud, o Viajante e o seu Inferno”, Ana Cristina Silva, 2020


 


Tenho poucas ou vagas referências sobre Rimbaud. Lembro-me, quando estudante, de ele ser falado na roda de amigos, certamente citado por poetas e músicos da época – Léo Ferré, Georges Brassens – quando a cultura francesa significava resistência e inconformismo e ainda não tinha sido submersa pela anglo-americana. “Rimbaud, o Viajante e o seu Inferno” foi o primeiro livro que comprei este ano, quando o desconfinamento nos permitiu voltar às livrarias. Era também um desejo de ler o mais recente livro de Ana Cristina Silva, autora cuja obra venho seguindo com muito interesse.


O livro está organizado em capítulos e dividido em duas partes. Em cada capítulo, a narradora (em itálico) faz-nos seguir o percurso de Rimbaud, introduzindo as principais personagens que marcam a vida do poeta: a mãe, Paul Verlaine, Mathilde Verlaine e a irmã Isabelle Rimbaud. Embora Rimbaud tenha sido considerado o expoente máximo do simbolismo, numa altura em que já tinha abandonado a poesia, a verdade é que ele desprezou esse rótulo nem a sua personalidade é catalogável, de tal forma é complexa e fora dos cânones.


Toda a vida em fuga: dos gritos da mãe, da prisão da escola, da ordem burguesa, da disciplina militar, das grilhetas do(s) amor(es), da fome e do frio, do desprezo dos poetas que não o reconhecem como poeta. Toda a vida em busca: do amor, da eternidade, das palavras com que é feita a poesia, do desconhecido.


Inconformista, colérico, contraditório, a busca sem limites das palavras com que fez poesia quando ainda muito jovem foi igual à ânsia de viajar sem limites. Multifacetado e exímio no manejo das palavras – professor de francês, poliglota, tradutor, marinheiro, empregado num circo, alistou-se na legião estrangeira do exército holandês, foi comerciante e até negociante de armas – procurou fugir à fome e à pobreza e por fim ambicionou enriquecer, fazendo uso das palavras para fazer negócios quando já não as queria para fazer poesia.


Para além das paixões de Rimbaud por Paul Verlaine e pela escrava abissínia, a relação mais duradoura foi com o seu criado Djami, tocante na sua dedicação e amor sem limites, a qual foi interrompida quando a doença de Verlaine o obrigou a regressar à Europa. Ana Cristina Silva não nos quer deixar com a impressão de que a relação entre Rimbaud e a mãe era uma relação de amor-ódio sem matizes. Apesar dos gritos, das repreensões e das proibições que invariavelmente levavam Rimbaud a desaparecer da casa materna, o poeta sente que ele acaba por ser o filho favorito, numa casa onde não havia beijos, nem abraços, nem quaisquer traços de afectividade da mãe para com os filhos. Rimbaud estima as irmãs e consegue estabelecer com elas relações de afecto e de cumplicidade, mas a aspereza da mãe, com a qual sempre conviveu desde criança, é-lhe impossível de suportar. Isabelle escreve ao irmão pedindo-lhe que regresse do deserto etíope e que volte a escrever poesia, tendo em conta a velhice e o desgosto da mãe por o filho estar tão distante. Nos seus pensamentos, Madame Rimbaud questiona-se culpando-se por ter sido demasiado severa com os filhos, mas achando que essa foi a melhor forma de os educar.


Esta é uma breve apreciação ao livro. Outros aspectos interessantes do livro que têm a ver com o período em que Rimbaud e Verlaine viveram (2ªmetade do século XIX) e que lhe dão um pano de fundo são, por exemplo, o facto de Rimbaud ter estado envolvido na Comuna de Paris, de ter sofrido a derrota dessa insurreição e de muitos dos seus amigos terem sido fuzilados. Rimbaud foi amputado na perna direita, tendo morrido em Marselha de cancro dos ossos e Verlaine faleceu cinco anos depois, na miséria. Mathilde, jovem esposa de Verlaine, foi vítima de violência doméstica e as suas hesitações em divorciar-se do marido tinham a ver com o facto de a sua reputação ficar manchada para o resto da vida por causa de ser uma mulher divorciada. Naquela época, “tudo o que dava sentido à vida de uma mulher era a estabilidade do matrimónio.” (p. 83)


Desejo que este livro de Ana Cristina Silva venha a ter o devido destaque e divulgação em sessões com a proximidade entre leitores e escritora que o distanciamento social não tem permitido. Parabéns por mais este livro de análise de sentimentos e personalidades, neste caso de um escritor que, como disse inicialmente, desconhecia.


 


23 de Julho de 2020


Almerinda Bento


 


 


 

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