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terça-feira, 1 de julho de 2025

As Moscas de Outono, Irène Némirovsky

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“As Moscas de Outono” – Irène Némirovsky, 1931


Num espaço de um mês este é o segundo livro que leio desta escritora ucraniana de ascendência judia que faleceu prematuramente num campo de extermínio nazi em 1942. Como já em publicação anterior sobre “O Baile” referi, esta repetição e revelação deveram-se à escolha desta autora e do livro “As Moscas de Outono” para o encontro de Junho do Clube de Leitura de Leia Mulheres Lisboa.


Também este é um pequeno livro, muito conciso, que conta a história dos Karine que, de alguma forma, tem paralelismo com a vida de Irène Némirovsky. Trata-se de uma família abastada que tem de fugir na sequência da revolução russa, passando por Odessa, Marselha e finalmente Paris, que vive nessa altura a chegada da primeira vaga de emigrantes russos. A família Karine vive numa casa insalubre, mas, com o tempo, vai-se habituando à cidade, ao clima e à população, apesar de as condições de vida no exílio em nada se assemelharem às que deixara na Rússia. No entanto e como é apanágio de quem é forçado a exilar-se, a adaptação não é sem dor e nos diálogos dos diversos membros da família Karine perpassa o desespero, a tristeza, a saudade. “A vida, insensivelmente, organizava-se” (pág. 78), eles tinham as suas rotinas “jantavam à pressa, deitavam-se e dormiam sem um único sonho, derreados pelo afanoso dia de trabalho” (pág. 72). “Eles, (os Karine) iam, vinham, de um muro ao outro, silenciosamente, como as moscas de Outono, quando o calor, a luz e o verão aparecem, voam penosamente, exaustas e arreliadas, contra os vidros, arrastando as asas mortas” (pág. 52).  Ao contrário, Tatiana Ivanovna que era ama da família há 51 anos, não consegue adaptar-se à mudança e vive do passado, da sua amada terra, das recordações e da saudade dum tempo que terminou.  Sobretudo, faltava-lhe a neve da sua terra distante. “A velha sorria, fechou os olhos. Tinha nascido numa zona rural, longe dos Karine, no norte da Rússia, e para ela nunca havia demasiado gelo nem demasiado vento.” (pág. 25). A incompreensão de Tatiana por atitudes da jovem Loulou “És demasiado velha, não podes compreender” (pág. 60) e até a forma como a família encarava o assassinato ainda recente de Youri “uma tristeza enregelada” (pág. 63) fazem da velha ama uma personagem singular e, quanto a mim, central nesta obra. O seu alheamento num mundo em que não se consegue integrar são a sua forma de sobreviver.


Apenas um detalhe que achei interessante. O romance começa num Natal antes da revolução, quando Youri e Cyrille partem para a guerra e Tatiana se despede deles enquanto prepara as suas malas e termina em Paris, na noite de Natal quando os Karine saem para festejar em casa de amigos deixando a velha Tatiana em casa. É um ciclo que se fecha na noite de Natal.


Este romance, com tradução do francês de Diogo Oliveira Paiva, tem belíssimas descrições de ambientes e de estados de alma e revela uma enorme capacidade da autora em analisar as pessoas, conferindo-lhes densidade e autenticidade. Tal como “O Baile”, este “As Moscas de Outono” não mede o seu valor pela quantidade das páginas. Muito bom.


1 de Julho de 2025


 


 

quinta-feira, 5 de junho de 2025

O Baile, Irène Némirovsky

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“O Baile” – Irène Némirovsky, 1930


É um livro que se lê dum fôlego. Nunca tinha lido nada desta autora. Procurei “As Moscas de Outono” na Biblioteca Municipal a que estou ligada, por ser o livro que escolhemos este mês para o Leia Mulheres Lisboa e acabei por trazer “O Baile”, o único de Irène Némirovsky que a biblioteca municipal tinha.


Ao lê-lo, lembrei-me de Stefan Zweig e de “O Morto” de James Joyce em «Dubliners», talvez mais pelas personagens e pelos ambientes, do que propriamente pela história. Trata-se de um livro invulgar, perturbador, muito bem escrito e que fica a remoer, sobretudo pelo insólito.


Tudo se desenrola em torno de um casal de novos-ricos e da filha adolescente. Digamos que nenhum deles está de bem com a vida. Eles – os Kampf – porque querem ostentar um estatuto que não têm, mesmo que o dinheiro lhes sobre. O teste do algodão não engana; são inseguros, falsos, medíocres. Antoinette, a filha com catorze anos já não é uma criança, aspira a ser desejada porque já se sente uma mulher; a mãe, no entanto, trata-a como uma criança e tem uma relação conflituosa com a filha, não conseguindo compreender a filha nem estabelecer com ela uma relação minimamente empática nem maternal. Antoinette sente que ninguém a ama, é profundamente infeliz, sente-se “miserável e só como um cão perdido” (pág. 32). Por outro lado, acha os pais hipócritas. É em torno deste mal viver que se desenrola este pequeno conto que tem um desenlace insólito.


Perfídia? Intencionalidade? Vingança? Penso que sim. O desespero, a solidão e o desamor podem detonar reacções descontroladas protagonizadas por jovens. Temos assistido a isso,  aqui e ali no mundo.


5 de Junho de 2025

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...