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terça-feira, 17 de março de 2026

As Pessoas Felizes, Agustina Bessa-Luís, 1975

 


“As Pessoas Felizes” – Agustina Bessa-Luís, , 1975

Há muito que estava para ler Agustina. Aliás, quando li a excelente biografia de Agustina Bessa-Luís “O Poço e a Estrada” escrita por Isabel Rio Novo, prometi a mim mesma que iria tirar da estante “A Sibila” do meio dos muitos livros de Agustina que herdei da minha irmã Isabel. Afinal comecei com “As Pessoas Felizes”, graças à proposta de leitura saída do Leia Mulheres que se reúne mensalmente no Museu do Aljube, Resistência e Liberdade, coincidente com o inesperado e injusto afastamento de Rita Rato da direcção deste excelente espaço de cultura e memória situado em Lisboa. Não me esqueço do momento em que o meu filho, então estudante do 3º ciclo, me apareceu com “Dentes de Rato”, para eu o ajudar na compreensão daquele livrinho de Agustina, num trabalho que tinha de apresentar na aula de Português. Nem os comentários de Mónica Baldaque, filha da autora, sobre a crítica a quem faz os programas de Língua Portuguesa, por escolherem “A Sibila” como obra a ser lida por jovens, que certamente, em vez de ficarem com apetência por ler e, especificamente Agustina Bessa-Luís, certamente irão ficar sem vontade de ler esta autora, no futuro.

Não quero ser injusta e fazer uma generalização abusiva, tanto mais que só li “As Pessoas Felizes” de Agustina. Mas, a partir do que li, considero uma leitura difícil, muitas vezes incompreensiva, que estilhaça o senso comum, a ordem previsível das coisas, repleta de aforismos. Uma leitura para ser feita lentamente, voltando muitas vezes atrás, tentando encontrar o fio à meada e muitas vezes não o encontrando… O facto de o livro fazer constantes referências a Anna Karénina e às suas personagens, livro que não li, e a Lev Tolstói e à sua vida, tornaram muitas vezes difícil de compreender algumas das páginas de “As Pessoas Felizes”. Como Isabel Rio Novo escreve em “O Poço e a Estrada” todos os livros de Agustina são biográficos, sem obedecerem a um plano, nascendo como um rio e, com efeito, descobri em Nel “estrela do paradoxo burguês” (p. 177) em “As Pessoas Felizes” muitas semelhanças com a vida de Agustina. Se não tivesse lido a biografia, teria tido mais dificuldade e menos interesse em chegar ao fim do livro.

“As Pessoas Felizes” foi escrito antes e depois do 25 de Abril e se só nas páginas finais do livro se sente que as personagens estão a viver a revolução e os choques nas relações entre as pessoas se intensificam, a verdade é que a autora quis, quanto a mim, mostrar que a pretensa concórdia e harmonia entre as pessoas é muito frágil e que o conflito e a separação das famílias são a norma. Nel, sendo mulher, não segue o padrão feminino tradicional, nem no matrimónio nem na maternidade, aliás tal como Agustina. A personalidade incomum da autora – “sou o que se chama conservadora”/ “sou uma pessoa tranquila, mas não conformada” – demarcando-se do feminismo, apoiou, contudo, o movimento pelo “Sim” à despenalização do aborto em 2007, aconselhava as jovens mães a não se deixarem prender na teia da maternidade e ela própria fez a escolha do homem com quem esteve casada durante 72 anos, saindo absolutamente dos cânones da época.

Em “As Pessoas Felizes” há uma crítica explícita à Mocidade Portuguesa, a Salazar como um moralista e uma pessoa obscura, uma crítica à educação sexual ou à ausência dela. Ou seja, sendo conservadora e de direita, Agustina era uma mulher insubmissa e com atitudes inusitadas e fora dos padrões da época e, embora haja neste seu livro mulheres sujeitas a “humilhações femininas” (p. 23), outras para além de Nel a personagem central, reflectem esse estilhaçar do senso comum que referi em parágrafo anterior. Nel que vai viver com os tios após a morte da mãe “detestou a gente grande. A gente grande era constituída por certo número de pessoas destinadas a lugares de mando ou dum servilismo prepotente. Gente feia, ocupada em coisas enfadonhas e intermináveis.” (págs. 47 e 48) “Nel tornou-se, na casa dos Carrancas, um autêntico pomo de discórdia” (p. 56). Nel era um problema para a tia Florinda “sobretudo porque ela não tinha, como as outras raparigas, o casamento como objectivo. Interessava-se pelos homens, de maneira apenas turística: frequentava-os, mas não pensava em habitá-los.” (p. 77) E quando, finalmente, Nel se casa, a prima atira-lhe estas palavras: “Casas-te porque é a única maneira de não andarem atrás de ti a fazerem-te perguntas obscenas. É chato. Querem saber que espécie de mulher tu és, se não tens cio, se és pela emancipação sexual, se tens a vagina estreita, se és lésbica, se tens o complexo de Édipo. Isto são palavras tuas, não acrescento nada, mas tens razão. É chato.” (p. 82)

Sendo geralmente vaga a localização temporal dos acontecimentos que não surgem numa ordem cronológica perceptível, há, no entanto, a referência a 1961 “ano em que deflagrou o terrorismo no Ultramar” (p. 151). “A culpa abriu-se no coração dos portugueses, e eles aguardaram que ela se transformasse numa medalha ou numa pensão de sangue ou num luto apenas.” (p. 152). “Essa juventude que vivia a guerra ou era neonaturalista ou contestatária. Uns cumpriam o seu tempo de selva e batiam-se não como mercenários, mas também sem o espírito de invulnerabilidade que estimulou o racismo europeu.(…) Outros emigravam. Indocumentados, mas em grande parte munidos duma protecção familiar que tornava o exílio uma aventura de estação. (p. 153)

Já vai longo este texto, mas gostaria de fazer aqui algumas transcrições de trechos em que é feita referência a “pessoas felizes”.

O que faz as pessoas felizes é não terem vida interior. A vida privada raramente coincide com a vida interior.” (p. 118)

“João Afonso Carranca costumava dizer que a generosidade não é própria dos ricos, mas dos felizes. Eram pois pessoas felizes, moderadas nas paixões e nos pensamentos, capazes de vencer preconceitos, para acudir a necessidades. Pois todo o extremo as desgosta e toda a justiça por demais assídua as acaba por descontentar.” (p. 172)  

E quando em 1971 uma série de calamidades caiu sobre a família dos Carrancas “As pessoas felizes desagregavam-se.” (p. 175)

Termino, repetindo que ler Agustina Bessa-Luís não foi fácil. Houve coisas que não percebi, mas nem por isso não deixei de chegar ao fim do livro que terminou na página 184, como podia ter terminado umas tantas páginas antes, quando o rio tivesse secado.

17 de Março de 2026

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

O Poço e a Estrada, Biografia de Agustina Bessa-Luís, Isabel Rio Novo

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O Poço e a Estrada - Biografia de Agustina Bessa-Luís, Isabel Rio Novo, (2016-2018)


Quem me conhece sabe como gosto de biografias e de romances biográficos. Esta é a terceira biografia que leio publicada pela Contraponto, depois de Integrado Marginal de Bruno Vieira Amaral que biografou José Cardoso Pires e de A Desobediente de Patrícia Reis, sobre a vida e obra de Maria Teresa Horta. Todas elas valiosos e completos trabalhos de divulgação da obra dos biografados. Quando se acaba de ler a biografia de Agustina Bessa-Luís fica-se com um enorme respeito e gratidão pela biógrafa que, sem apoio da família da biografada, teve a coragem de se aventurar num trabalho minucioso e muito profundo sobre a vida e obra da escritora. Valendo-se do conhecimento da extensíssima obra da autora, de entrevistas e testemunhos de amigos e conhecidos, de pesquisas em arquivos e bibliotecas, só uma grande paixão pela obra permitiu um trabalho com o valor que é dado apreciar na leitura de O Poço e a Estrada. Eu, que pouquíssimo li de Agustina (o preconceito de me aventurar na leitura de uma autora com fama de difícil…) fico com vontade de deixar a preguiça e ir de seguida ler uma edição (5ª) d’ A Sibila da Guimarães Editores, que tenho cá em casa e que herdei da minha irmã Isabel.


Da leitura desta biografia, fica-se com a ideia da personagem invulgar, complexa, contraditória e nada consensual que foi Agustina Bessa-Luís. Impossível de catalogar, a sua paixão pela escrita foi a marca fundamental da sua vida. Criança observadora, silenciosa e precoce, gostava de estar sozinha e o gosto pela leitura e pela escrita revelou-se desde muito cedo e sempre aspirou a ser excepcional na escrita. Como Isabel Rio Novo refere, “…todos os romances de Agustina são biográficos…” (p. 16). A sua obra é extensa e a filha continua a trabalhar na organização de muito material escrito pela mãe que nunca foi publicado, como cartas e manuscritos de intervenções, entre outros.


Isabel Rio Novo traça nesta sua biografia vários aspectos que gostaria de referir e que nos permitem ter uma visão muito abrangente, não só da vida como da obra de Agustina. Sendo uma mulher que nasceu no início da década de 20 do século passado, nunca foi muito ligada ao meio intelectual da sua geração, nem apreciava eventos literários nem livrarias. No entanto, estabeleceu amizades duradouras e íntimas com autores como Ferreira de Castro, José Régio, Ilse Losa ou Eugénio de Andrade ou com Sophia de Mello Breyner ou o casal Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes. Nunca se furtou a grandes disputas públicas e desenvolveu ódios de estimação que ficaram célebres como com Jaime Brasil, o sobrinho de Teixeira de Pascoaes ou Natália Correia. “Cúmplices, mas sempre em choque” (p. 333), assim é referido o seu relacionamento com Manoel de Oliveira que, sendo uma relação de amor-ódio, correspondia de facto a uma admiração recíproca entre ambos.


Oriunda de uma família abastada e conservadora, há na biografia de Agustina momentos verdadeiramente inusitados, como por exemplo, um namoro e casamento nada convencionais, depois de ela própria ter posto n’ O Primeiro de Janeiro aquele que foi “ao longo de três anos… o único anúncio de cariz pessoal colocado por uma rapariga solteira.” (p. 132). Dessa ousadia, à revelia da família, resultou um casamento de grande entendimento e cumplicidade que durou 72 anos. Mesmo como esposa, mãe e avó, Agustina nunca seguiu os papéis que tradicionalmente eram impostos às mulheres, chegando mesmo a aconselhar as jovens escritoras a não se consumirem no papel de mães como fez em conversa com Inês Pedrosa “Agora vão começar a falar-lhe no casalinho, não vá nisso. É uma prisão que fazem às mulheres. Tomar conta de crianças dá muito trabalho, e depois não tem tempo para escrever. Olhe que no meu tempo era muito mais difícil ter só uma filha, e foi o que eu fiz.” (p. 159). Embora sendo uma mulher com um percurso cívico de direita, dizendo que as suas simpatias se situavam no centro-esquerda, a verdade é que também neste campo os seus posicionamentos são cheios de ambiguidades. “Em certo aspecto, sou o que se chama conservadora. No que se refere a um enraizamento que constitui o melhor da minha cultura” (p. 290). Desiludida e frustrada com o estado do país antes do 25 de Abril, o rumo da revolução gerou nela desconfiança, mas no final da sua presença pública na vida do país, apoiou sem hesitação a campanha do SIM pela despenalização do aborto a pedido da mulher, no referendo de 2007. Este percurso não pode deixar de ser polémico, algo que era indiferente para Agustina, insubmissa, independente e imprevisível.


A fama de Agustina surgiu e consolidou-se com a publicação de “A Sibila” em 1953. Agustina tinha 32 anos. A partir daí, os prémios e as homenagens sucedem-se e isso vai dar um impulso e um entusiasmo cada vez maior a Agustina para escrever. Isabel Rio Novo passa em revista toda a obra da escritora que lhe vai granjear ao longo da sua longa vida, homenagens, condecorações, prémios, nomeações para cargos de direcção e relevância em várias instituições, inclusivamente o seu nome foi ventilado em 1981 para o Prémio Nobel da Literatura. Havia por parte da escritora “um aparente desinteresse pela sua reputação literária” (p. 354), de acordo com testemunho de Lídia Jorge. Realço aqui que Agustina Bessa-Luís foi a primeira mulher a ser admitida na Academia de Ciências de Lisboa em 1989, uma instituição que durante 210 anos apenas tinha acolhido homens como seus membros.


Falar de Agustina é também falar das casas de família e as casas onde viveu com o marido desde a infância até à morte: Amarante, Régua, Póvoa, Coimbra, Esposende e Porto, com especial destaque para o número 100 da Rua do Gólgota, “a casa ideal” (p. 219); das viagens que fez com o marido, com Sophia de Mello Breyner e com o casal Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes. E, finalmente, da profunda ligação e cumplicidade que Agustina teve com o marido Alberto Luís, que a apoiava na transcrição dos manuscritos que ela lhe lia e que continuou a representá-la em actos públicos em que era homenageada e a que já não podia comparecer por estar doente.


Esta biografia da autoria de Isabel Rio Novo é um convite à leitura da obra de Agustina. Todos os capítulos são encimados com epígrafes que são frases dos diferentes livros de Agustina, como que a abrir a porta aos leitores para ousarem lê-la. Inês Petrosa, citada na pág. 406 diz “Abre-se ao acaso um livro de Agustina, e sempre encontramos uma frase que nos inquieta ou nos consola.”.  Vamos então à epígrafe inicial do livro onde Isabel Rio Novo foi buscar o título da biografia de Agustina: “Viviam na aldeia e tinham no quintal um poço construído de cascalho e tão profundo que, diziam os velhos, se ouviam os galos cantar do outro lado; um dia, Marcelo, que tinha seis anos, inclinou-se para espreitar a mancha de água imóvel e viu uma estrada, branca, longa […]. Uma estrada no fundo do poço – ele jurava que a tinha visto. Aonde podia levar, como aventurar-se para chegar-lhe, para percorrê-la, medi-la, explorá-la?”


Agustina Bessa-Luís, O Manto


20 de Janeiro de 2025


Almerinda Bento 

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Da Meia-Noite às Seis, Patrícia Reis

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Da meia-noite às seis, Patrícia Reis, 2021


Patrícia Reis uma revelação e este já é o seu décimo livro. Já tinha lido apreciações sobre “Crianças Invisíveis” e recentemente li no JL, não só a entrevista que lhe foi feita, mas também os textos de Miguel Real e de Valter Hugo Mãe sobre este livro que decidi comprar, aproveitando para fazer uma troca de livro repetido entre os muitos que recebi nos anos. Excelente escolha.


A dedicatória a Maria Teresa Horta, a quem há tempos faleceu o marido, não podia ser mais ajustada. Susana Ribeiro de Andrade, uma das personagens principais deste livro, é confrontada com o fim inexorável e irreversível do amor da sua vida, na sequência de ter sido contaminado com o vírus. Está-se em 2022 e a pandemia continua implacável, a fazer o seu caminho. O choque brutal desta morte deixa-a sem chão, apenas com as memórias do homem que amava, o seu companheiro com quem continuava a conversar de mão dada! A viagem a Roma, as preferências literárias dele por Camus, Agustina ou o “Adriano” de Marguerite Yourcenar que ela não lera (e que ele dizia que era um daqueles livros que não podem deixar de ser lidos), todas essas memórias são aquilo a que se agarra num tempo de luto, em que interrompe momentaneamente a sua actividade profissional numa estação de rádio.


No regresso, aceita o horário das “horas mortas”, aquele que é desvalorizado (“seria aquilo trabalho” pensam até alguns colegas), por ser rotineiro, por ter uma audiência menos interessante, aquele que afinal ninguém quer. Rui Vieira também voltara à rádio na noite de Natal de 2019. Quem quer trabalhar nesses dias? Quando se pensa que já não servimos porque temos uma incapacidade, quando se é descartável, valha-nos uma vaga porque há que cumprir a quota das pessoas com deficiência… De tudo isto nos fala Patrícia Reis: das discriminações, da homofobia, do racismo, da solidão, da precariedade que ficou mais exposta com a pandemia, mas também do verso da medalha: da solidariedade, da revolução que é dar voz às pessoas, de que há que descobrir o lado positivo da vida, de que a felicidade é possível e que muitas vezes está ali mesmo ao nosso lado.


Este livro é também um elogio aos trabalhadores da cultura, ao extraordinário poder da rádio, da voz, do sentido e da força das palavras. Li este livro rapidamente, com uma profunda empatia, não conseguindo deixar de fazer muitos sublinhados, o que não é habitual em mim. O “aquário” de onde Susana Ribeiro de Andrade faz as suas emissões da meia-noite às seis, os emails de Rui Vieira com as notícias que Susana irá ler a cada hora e as conversas que ambos trocam a partir do computador de Rui, os gestos automatizados de higienização por causa da pandemia, em suma, este mundo confinado coloca-nos a eles e a nós, num cenário que não é de ficção, mas da real fragilidade humana para a qual nunca estamos preparados.


Mesmo quando as canções são de uma play list que o computador escolheu, é sempre possível pôr um pauzinho na engrenagem do sistema e introduzir Caetano Veloso a perguntar em “Cajuína” : “Existirmos: a que será que se destina?”


9 de Maio de 2021


 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...