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domingo, 30 de junho de 2024

Maratona de Leitura

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"Manual de Pintura e Caligrafia", José Saramago, 1977


Ontem foi maratona de leitura. Uma experiência única, inesquecível. 9 horas a ler, sem pausas, dezenas de leitores e leitoras quiseram assim celebrar o 17º aniversário da Fundação José Saramago com a leitura do segundo romance deste autor.


Em tempos emprestei este livro, que nunca tinha lido. Ontem, as horas foram passando e as cerca de trezentas páginas foram partilhadas, lidas, ouvidas. Diferentes sotaques de um mesmo livro: português de Portugal, do Brasil, de África e também castelhano. E também emoção e lágrimas inesperadas. Inesquecível. 


Tanto que aquele Manual nos trouxe. H. Pintor insatisfeito, que se ajusta ao cliente que lhe paga. Escrever como alternativa à pintura, ou enquanto se espera por nova encomenda. Os amigos e as normas que se estabelecem entre eles. As experiências por Itália e a vontade de as registar em forma de narrativa de viagem, ou será antes uma autobiografia? As paredes grafittadas em Itália como forma de resistência. O fascismo cá e lá e também em Espanha e na Grécia. A sensação de medo quando pela primeira vez, ainda muito novo, é apanhado pela polícia com uns papéis nas mãos. Itália, Veneza, a Capela Sistina e já então a praga dos turistas. Portugal, a guerra colonial, o Verão de 73 e a sensação de que "alguma coisa se aproxima". O 25 de Abril e as portas de Caxias que se abrem.


Amores, amor. Insatisfação, rebeldia. Escrever (uma carta) pode ser a forma cobarde de não dizer pessoalmente... Escrever pode ser a forma de pensar com tempo. 


Tantas notas que retive de um livro, à medida que o fui ouvindo. Tantas e tantas reflexões que a escrita de Saramago sempre nos traz. 


Não podia deixar acabar o mês de Junho sem aqui vir deixar esta minha curtíssima nota sobre um dia completamente diferente que vivi e que não irei esquecer. 


29 de Junho de 2024 


17º aniversário da Fundação José Saramago


 


 

domingo, 8 de outubro de 2023

Levantado do Chão, José Saramago

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Levantado do Chão”, José Saramago, 1980


Este foi dos primeiros livros que li de José Saramago, há bastantes anos e numa altura em que não costumava fazer pequenos textos sobre as minhas leituras. Agora, que estou em vésperas de participar no Roteiro “Levantado do Chão” promovido pela Fundação José Saramago senti necessidade de reler esta obra que, na altura, me provocou uma grande emoção, não só pela forma como o Alentejo é retratado, mas também pelas semelhanças da família Mau-Tempo com a família do meu marido.


Lê-se este livro e é impossível ficar-se indiferente à mestria no manejo da língua, à riqueza vocabular e à análise social e das classes, com o foco no Alentejo ao longo do século passado. Na contracapa da edição (13ª) que tenho, pode ler-se “Um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi de poder dizer deste livro, quando o terminasse: «Isto é o Alentejo»”.


A família Mau-Tempo é a protagonista maior. Várias gerações desde Domingos e Sara da Conceição até Maria Adelaide, sem esquecer o avô João Mau-Tempo que viveu a tortura da estátua e o isolamento em Caxias. Todos de olho azul. Da monarquia passou-se à República mas sem mudanças para a vida do povo, até que chegou o 25 de Abril e a Reforma Agrária. A paisagem é o Alentejo, a ceifa das searas, o tirar a cortiça, o trabalho nos arrozais, ou na vinha. Os homens e as mulheres que só dispõem da sua força de trabalho, sujeitos ao poder assente em 3 pilares: o latifúndio (Lamberto, Norberto…) a igreja (o padre Agamedes) e a guarda (sargento Armamento, inspector Paveia…). A luta contra as máquinas, pelos trinta e três escudos, por trabalho, pela jornada das oito horas e quarenta escudos de salário. A luta pela dignidade, contra a fome e prepotência. O povo, as formigas, a canzoada, quando não é tratada como carneirada. E também os milhanos que do céu tudo observam e que, como as formigas, são as testemunhas de tudo o que acontece no latifúndio.


Luta é resistência e sendo este “um livro sobre o Alentejo”, a epígrafe de “Levantado do Chão” dedica-o “À memória de Germano Vidigal e José Adelino dos Santos, assassinados.” Germano Santos Vidigal “o homem que caiu e foi levantado irá morrer sem dizer uma palavra que seja.”(p. 169)… “Que pálido está este homem, nem parece o mesmo, a cara inchada, os lábios rebentados, e os olhos, coitados dos olhos, nem se vêem entre os papos, tão diferente de quando chegou…” (p. 173) “Está morto José Adelino dos Santos, apanhou com uma bala na cabeça e primeiro nem acreditou, sacudiu a cabeça como se lhe tivesse mordido um bicho, mas depois compreendeu, Ah malandros que me mataram , e caiu de costas, desamparado, não tinha ali a mulher que o ajudasse, fez-lhe o sangue uma almofada vermelha, muito obrigada.” (p. 314).


A narrativa é densa, o narrador escreve, divaga, reflecte, antecipa acontecimentos futuros, dialoga com o leitor, não poupa nas palavras, ironiza. Como escreve na pág. 310 “São exageros no narrador”. “Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.” (p. 59). “Não foi a conversa por diante, nem já interessava, porquanto pôde o narrador dizer quanto queria, é o seu privilégio…” (p. 279). E vai-nos contando o que se passa lá fora e que vai chegando ao Alentejo: a República, a guerra, o atentado a Salazar, a emigração para a França, o general Delgado e a fraude eleitoral, a fuga de Peniche, o Santa Maria, a índia e o fim do império, a guerra colonial, o assalto ao quartel de Beja e finalmente o 25 de Abril e o primeiro 1º de Maio. Para o povo o trabalho quando o havia, duríssimo e mal pago, a resistência, organização e luta. No terreno, os capatazes e a guarda asseguram que o poder do latifúndio e da ditadura não são beliscados. “O feitor é o chicote que mete na ordem a canzoada. É um cão escolhido entre os cães para morder os cães.” … “uma espécie de mula humana, uma aberração, um judas, o que traiu os seus semelhantes a troco de mais poder e de algum pão de sobra.” (p.72).


A escrita de Saramago não esquece o mau viver das mulheres, o come e cala, “De mulheres nem vale a pena falar, tão constante é o seu fado de parideiras e animais de carga.” (p.125), mas os tempos mudam e elas também querem lutar ao lado dos seus companheiros “Gracinda Mau-Tempo também quis vir, já não há quem segure as mulheres, isto pensam os mais velhos e antigos, mas não dizem nada…” (p.310).


Muito mais e melhor se poderá dizer e escrever sobre este romance extraordinário, uma verdadeira lição de história, de resistência duríssima contra um poder ditatorial em que o Latifúndio, a Igreja e o Governo estavam de braço dado, mas contra o qual o povo lutou para se levantar do chão.


 


8 de Outubro de 2023


(25 anos depois do dia em que foi anunciado o prémio Nobel da Literatura de 1998 atribuído a José Saramago)


 


Almerinda Bento  

sábado, 8 de outubro de 2022

As Pequenas Memórias, José Saramago

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As Pequenas Memórias”, José Saramago, 2006 

Há alguns anos que não leio nada de José Saramago, o que significa que quebrei o meu compromisso de ler um livro deste autor todos os anos, para ver se consigo ler toda a sua vasta obra. Assim, peguei n’ ”As Pequenas Memórias”, numa edição da Caminho de 2006, para me redimir do atraso.

Começa com a sua Azinhaga, quando menino. Mas rapidamente as memórias de infância levam-nos a Lisboa, para onde a família foi viver na Primavera de 1924. Em Lisboa e ao longo de 10 anos, ele, os pais e o irmão Francisco que viria a morrer na véspera de Natal de 1924, iriam viver em dez casas diferentes, partilhando casas com outros casais, como os Baratas.

José Saramago tinha tido a ideia de escrever este livro e chamar-lhe “O Livro das Tentações”, mas a acabou por lhe chamar “As Pequenas Memórias”, por serem “ as memórias pequenas de quando fui pequeno, simplesmente” (p. 38) É um pequeno livro, que se lê rapidamente e com prazer, porque é divertido e cheio de graça. Saramago fala dos pais, dos avós paternos e maternos, dos primos, dos vizinhos, dos colegas de escola, das descobertas, dos sonhos, dos medos, das lembranças mais remotas até aproximadamente à idade dos vinte anos.

São recordações de infância, momentos como o assombro da visão da luz da Lua numa madrugada que vai persistir na memória como uma paisagem única e inesquecível, o rio Almonda da sua aldeia, as pessoas marcantes no seu percurso. Escreve sobre as paixonetas de juventude, as descobertas sexuais precoces, as marotices da idade, os desastres que deixam cicatrizes, a descoberta de outros contextos sociais muito diferentes do da sua família que tem de compartilhar uma casa com outras famílias… Enfim, são flashes onde a ingenuidade e a ternura nos remetem para a epígrafe da contracapa do livro – “Deixa-te levar pela criança que foste” – retirada de “O Livro dos Conselhos”.

Explica-nos por que se chama Saramago e não apenas José de Sousa (p. 48) e, embora erradamente por vezes se diga que o seu nascimento foi a 18, de facto, ele nasceu a 16 de Novembro de 1922 (p.51). Apesar dos seus problemas de dislexia “calsse; sacanavense”…,  a verdade é que a sua aprendizagem autónoma da leitura através do “Diário de Notícias” que o pai trazia (p. 98) deixou todos estupefactos. Recorda a escolinha na Morais Soares onde aprendeu a desenhar as primeiras letras numa pedra. “A Toutinegra do Moinho”, o único livro que havia lá em casa (p.99), foi a sua primeira experiência de leitor, embora reconheça não se lembrar de nada do que lá estava, ao contrário de “Maria, a Fada dos Bosques”, um daqueles romances em fascículos então na moda, que eram lidos por uma vizinha à mãe analfabeta e a ele ainda muito criança. Na escola destacou-se na leitura e na escrita e também fez um brilharete com o Francês. Fez dois anos no Liceu Gil Vicente e depois seguiu para a Escola Industrial de Afonso Domingues em Xabregas, porque os recursos dos pais não permitiam um percurso liceal como estava destinado aos meninos com outras posses.

Nestas “As Pequenas Memórias”, Saramago quer tirar do olvido certas pessoas que viveram pouco tempo como o seu irmão Francisco que morreu com 4 anos, ou o primo José Dinis, com quem andava permanentemente à bulha. De forma comovente, os avós maternos estão muito presentes neste livro de memórias. O avô Jerónimo “ um homem sábio, calado, que só abre a boca para dizer o indispensável” (p. 129), pressentiu o fim poucos dias antes de morrer e foi “de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer” (p.130). E a avó Josefa a quem ouviu dizer, tinha ela noventa anos, “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer” (p. 131). Os avós maternos que, nas noites de frio, iam à pocilga buscar os bacorinhos mais frágeis e os deitavam na sua própria cama.

Este livro é de facto diferente de todos os que li até agora de José Saramago e não quero terminar este meu texto sem transcrever aqui o primeiro poema que ele escreveu, destinado a Ilda Reis com quem casou aos 22 anos. Saramago, que gostava de ir a casa do vizinho Chaves, pintor na Viúva Lamego, pediu-lhe que pintasse este poema num prato de cerâmica em forma de coração para oferecer à sua apaixonada:
Cautela que ninguém ouça

O segredo que te digo:

Dou-te um coração de louça

Porque o meu anda contigo.” (p. 54)

 

Notas:

Terminei este livro, exactamente no dia em que José Saramago, em 1998 recebeu o Prémio Nobel da Literatura.

Também neste dia assisti a um impressionante espectáculo de Dança pela Companhia de Dança Contemporânea de Évora em torno do “Ensaio sobre a Cegueira”, no Auditório Municipal do Seixal. Tal como com o livro, é impossível ficar indiferente depois de ver aqueles três bailarinos a actuar.

8 de Outubro de 2022

Almerinda Bento

 

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Memorial do Convento, 1982

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Esta é uma memória com 8 anos e, portanto, anterior ao meu blog e por isso, hoje publico-a aqui pela primeira vez. 

Ainda estou em estado de graça! ❤
Memorial do Convento, José Saramago, 1982
Escrever, fazer uma apreciação sobre uma obra de Saramago é uma imensa responsabilidade e desafio. Não por ele ser o Nobel português (mais que merecido), mas porque Saramago escreve incrivelmente bem, nos surpreende pela forma como escreve e pela forma como nos convoca a olhar para a vida, para as coisas do quotidiano, para o comezinho, transformando-o. Acho que essa é uma das dimensões e papel da Literatura. E Saramago é Mestre.
É impossível ficar-se indiferente com Saramago. “Memorial do Convento” é um livro que mete respeito pela subtileza e pela densidade, pela mestria no jogo das palavras e das ideias, pela profundidade do pensamento e da escrita. A pretexto da construção de uma obra monumental que o rei D. João V (O Magnânimo) – o rei-sol português – quis deixar como marca do seu reinado, Saramago faz um retrato da Lisboa caótica do século XVIII; do poder do rei enebriado pelas riquezas do Brasil, da Índia e de África; do clima de suspeição e medo que a Igreja e o Santo Ofício lançam sobre todos e todas que saem dos limites impostos, colocando-lhes o ferrete de heresia ou bruxaria; do povo cuja vida é sofrimento, trabalho, doença e morte, mas que também sabe usar da astúcia e das festas para sobreviver. O grande protagonista deste romance é de facto o Povo. É ele que vai à guerra e fica mutilado, é ele que prepara o palanque e todas as condições para que o rei lance a primeira pedra, é ele que carrega as pedras que hão-de fazer o convento, é ele que, ao lado das juntas de bois, “faz ombros” com eles para carregar os blocos maiores que hão-de ser a glória do rei, é ele que se junta para ver a comitiva real passar. O rei é uma figura menor, está ausente e aparece episodicamente ou para garantir a descendência real ou para satisfazer os seus desejos carnais ou para cumprir as obrigações da sua condição de rei como, por exemplo, os casamentos reais que mais não são que negócios entre as famílias nobres da Europa.
As grandes personagens, e sobre eles/as há tanto a dizer, são Baltazar Sete-Sóis, Blimunda Sete-Luas, o padre Bartolomeu de Gusmão (o Voador), Scarlati (o senhor Escarlate) e todos aqueles milhares de operários anónimos que acreditaram que a construção da grande obra em Mafra, que iria durar muitos anos, lhes iria permitir deixar a sua vida de miséria e fome! Só a descrição do que foi ir a Pêro Pinheiro buscar a pedra para a varanda sobre o pórtico da igreja nos dá a dimensão do esforço humano supremo das grandes obras faraónicas construídas a poder de braços e de vidas de muitos milhares de pessoas.
Blimunda e Baltazar elevam-se acima do comum dos mortais; eles encerram em si o amor, a comunhão e o respeito entre duas pessoas que não se anulam antes vivem a sua individualidade e se reforçam. Sendo que Blimunda tem todas as características para ser presa da Inquisição, dados os seus poderes especiais, ela é afinal quem resiste no trio que ousou acreditar que as vontades recolhidas conseguiriam fazer elevar a passarola no ar. Ao espírito inventivo do padre Bartolomeu de Gusmão juntou-se a força da música do cravo de Scarlatti.
Concluindo, ao longo da leitura de “Memorial do Convento” estas foram as palavras que frequentemente me ocorreram: amor, sonho, vontades, superação.
Setembro, 2014

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

"Se isto é um Homem"

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Hoje, no Dia Internacional da Memória das Vítimas do Holocausto, publico um texto que escrevi em 2013, após a leitura deste livro de Primo Levi.


“Se Isto é um Homem”, Primo Levi, 1958


Entre Dezembro de 1945 e Janeiro de 1947, Primo Levi escreveu o seu “Se isto é um Homem”. É o registo, a memória da sua experiência de recluso entre o dia 13 de Dezembro de 1943, então com 24 anos, altura em que foi capturado pela milícia fascista em Itália e depois deportado para Auschwitz onde conseguiu sobreviver até ao dia 27 de Janeiro de 1945, data da chegada das tropas russas ao campo de extermínio nazi.


É pois um registo na 1ª pessoa. Impressionante, brutal, este é o primeiro livro deste escritor italiano, químico de formação. Ao lê-lo, acho que qualquer apreciação que se faça é sempre uma leitura pessoal e limitada daquilo que foi mais relevante ou que mais nos impressionou. Muito haveria para dizer, farei apenas alguns registos, mas tal como Primo Levi sentiu necessidade de deixar para a posteridade uma experiência dramática e terrível da história da humanidade, para que não se esqueça, nem se apague da memória, considero que este é um livro de leitura obrigatória e inesquecível. Não há como lê-lo.


Logo no início, aquando da chegada ao campo de Auschwitz inicia-se o ritual paranóico das contagens, das esperas, da indignidade, do arbítrio, da desumanização. “Wieviel Stücke”? Quantas peças? Porque para os nazis “aquilo” não eram pessoas, homens, mulheres, crianças. Eram peças.


No meio do horror, do sem sentido da vida no campo – o Lager – do nunca se saber se no dia seguinte ainda se se está vivo, de os nazis tudo fazerem para que não haja uma réstia de humanidade entre aqueles cadáveres seminus que se arrastam e agonizam cheios de fome, frio, cansaço, Primo Levi realça alguns presos que se distinguiram porque conseguiram ser diferentes naquela massa humana sem poder, sem voz, cujo nome fora substituído por um número tatuado no braço. Alguns porque lutaram por preservar um mínimo de dignidade, nem que fosse o manter os hábitos de higiene, mesmo quando a água era gélida ou suja. A ausência de privacidade, a falta de espaço físico, o medo do desconhecido, o salve-se quem puder como forma de conseguir sobreviver, os negócios que se faziam para arranjar mais um pedaço de pão cinzento, os sonhos sempre iguais, as traições, as hierarquias mesmo entre os detidos, mas também as amizades inseparáveis (Alberto, Lorenzo, Arthur e Charles),


“… creio que devo justamente a Lorenzo o facto de estar vivo hoje; não tanto pela sua ajuda material, quanto por me ter constantemente lembrado com a sua presença, com a sua maneira tão linear e fácil de ser bom, que ainda existia um mundo justo para além do nosso, algo e alguém ainda puro e incontaminado, não corrupto e não selvagem, alheio ao ódio e ao medo; algo que mal se pode definir, uma remota possibilidade de bem, pela qual, porém, valia a pena conservar-se.


As personagens destas páginas não são homens. A sua humanidade está sepultada, ou eles mesmos a sepultaram, debaixo da ofensa que sofreram ou que infligiram a outrem. …


Mas Lorenzo era um homem; a sua humanidade era pura e incontaminada, estava fora deste mundo de negação. Graças a Lorenzo, aconteceu-me não esquecer que também eu era um homem.”


O livro é não apenas um registo verídico e desapaixonado duma situação extrema, mas é também uma reflexão sobre a condição humana e um legado que nos é deixado para que a humanidade não volte a repetir os mesmos erros. Entre muitas, realço uma reflexão que o autor faz sobre o diferente significado das palavras quando se é livre ou quando se está privado da liberdade, tais como Inverno, ou fome, ou dor, ou cansaço, ou frio.


O livro é todo ele muito impressionante, adensando-se para o final com as selecções sobre quem vai para o crematório, ou quando se percebe que as tropas soviéticas se estão a aproximar o que pode significar a libertação ou a solução final para todos os prisioneiros, os últimos dias com a debandada dos alemães do campo e os prisioneiros e doentes sem forças e sem recursos para poderem ainda serem resgatados com vida. Um dos últimos capítulos, inesquecível, em vésperas da chegada das tropas russas, é o daquele preso que condenado à forca por ter tentado sublevar-se, grita “Ich bin der Letzte!” (Eu sou o último), num acto de resistência, e o silêncio, o medo e também a vergonha de todos os prisioneiros obrigados a testemunhar a cena do enforcamento de um homem que ousou lutar.


Por fim, dizer quanto a leitura deste livro me lembrou outras leituras: “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago, ou “Os Anagramas de Varsóvia” de Richard Zimler ou “O Rapaz do Pijama às Riscas” de John Boyne.


Fundamental ler este livro!


Setembro de 2013


 

sábado, 18 de dezembro de 2021

Viagem a Portugal, José Saramago

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O Viajante volta já


"A viagem acabou. 


Não é verdade. A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: «Não há mais que ver», sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já."


«Viagem a Portugal», José Saramago


associando a uma fotografia algures na A23 que me inspirou para esta composição


Dezembro 2021


 


 

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Autobiografia

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Autobiografia, José Luís Peixoto, 2019


Na dedicatória escrita no meu livro pelo autor, está resumida a essência deste livro que acabei de ler: “Para a Almerinda, estas páginas, como um espelho que reflete em muitas direções”. Só à medida que se vai avançando na leitura se percebe o sentido da dedicatória, a capa – um amontoado de papéis cortados e onde surgem separadas as letras que constituem o título do romance: AUTOBIOGRAFIA e o próprio título escolhido pelo autor.


Este é o quinto livro que leio de José Luís Peixoto e talvez um dos mais elaborados e que mais obriga à participação do leitor na compreensão do jogo de espelhos que nos é proposto. E quando, aparentemente, num dos últimos capítulos, o narrador – José – nos dá a chave do enigma, logo a seguir nos interpela “… na literatura, tem de se prestar muita atenção às aparências. Estava farto de juntar palavras? Depois de centenas de páginas escritas, gastam-se os olhos e a cabeça, perde-se algum sentido mas, em grande medida, escrever romances é ser capaz de resistir a esse cansaço. As explicações são uma saída fácil, uma desistência, não acha? A sério, não acha?” , sem que nos deixe o sossego de respostas acabadas. José e Saramago são e não são a mesma pessoa. É deste desconforto, deste desencontro/encontro que vive este romance. As notas que José escreve no seu caderno quando trabalha para escrever a biografia de Saramago, acrescentam mais interrogações à questão sobre o sujeito da “biografia ou, melhor, texto ficcional de cariz biográfico”.


As epígrafes transcritas de textos de José Saramago, desde a primeira que inicia o livro e que vão aparecendo ao longo do romance, são chaves que, ao serem revisitadas, nos ajudam nesta leitura complexa sobre as identidades:


“Não me escondo por trás do narrador” (p. 47); “Há que escolher. Memórias ou romance? Confissão ou ficção?” (p. 69); “Damos voltas e voltas, mas, na realidade, só há duas coisas: ou você escolhe a vida, ou se afasta dela.” (p. 73); “A vida, que parece uma linha reta, não o é” (p.101); “O leitor lê o romance para chegar ao romancista” (p. 116); “O leitor deve ter um papel que vai mais além de interpretar o sentido das palavras.” (p.120). “A literatura é o resultado de um diálogo de alguém consigo mesmo.” (p.284)


 


Ou quando o romance se vai aproximando do fim e José e Saramago dialogam:


“De novo as explicações? Não vale a pena seguirmos esse fio. Mas sempre soube que somos a mesma pessoa? Fiquei com essa desconfiança desde o título, Autobiografia é um espelho, como nós somos um espelho.


Somos?


Sim, somos. No entanto, não confie demasiado nos espelhos, os espelhos distorcem.” (p. 259)


“As explicações não explicam tudo.“


“A literatura é feita de espaços vazios a serem preenchidos por quem os interpreta, é isto? (p.260)


 


José é um jovem escritor no início da carreira literária, às voltas com a angústia de um segundo livro que não consegue escrever. Sem dinheiro, não resistindo ao álcool e ao jogo, endivida-se e é Bartolomeu que lhe vai emprestando dinheiro para sobreviver. Conhece Lídia, caboverdeana, apaixonada por Saramago e pela sua obra desde que o conheceu numa ida do escritor à sua ilha de Santo Antão quando ela tinha dezasseis anos. O seu interesse por José cresce quando ele lhe confidencia que é escritor e que anda a fazer a biografia de Saramago. Saramago é um escritor com 75 anos, em vésperas de ser agraciado como o Prémio Nobel da Literatura.


Os livros de Saramago que as várias personagens desta “Autobiografia” transportam e andam a ler são os elos que as ligam: “Memorial do Convento”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “Manual de Pintura e Caligrafia” e por fim “Todos os Nomes” o último livro que Saramago escreveu em 1997, ano anterior à sua celebração como prémio Nobel da Literatura. O meu conhecimento da obra de Saramago é ainda incompleto, mas reconheci nos nomes de Bartolomeu e Lídia referências ao “Memorial do Convento” e a “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, tal como o encontro de José e de Saramago no Hotel Bragança não foi por acaso e a cegueira que atinge Fritz na viagem de avião a caminho de Goa para se encontrar com o pai também não, recordando o extraordinário “Ensaio sobre a Cegueira”. Possivelmente outras referências me escaparam!


Por fim, uma referência ao tempo, aos lugares onde as personagens se movem e ao papel desempenhado pelas figuras familiares. Lisboa é diversa, está muito presente e os lugares são muito precisos: Olivais Sul, Encarnação, Quinta do Mocho, Bairro das Colónias, Rua de Macau, Santa Apolónia, Biblioteca Nacional, Palácio das Galveias e a Lisboa da Expo 98. Bucelas onde a mãe de José ficou enquanto o marido emigrou para Frankfurt na Alemanha. Azinhaga onde o pequeno Saramago acompanhava o avô sentado à lareira, vendo e ouvindo a mãe e a avó nas tarefas domésticas, enquanto o pai se entretinha na taberna. Goa na Índia para onde o pai partiu, deixando Fritz e a mãe em Viena na Áustria. Santo Antão em Cabo Verde e Quinta do Mocho. Lanzarote, Lisboa, Madrid, Frankfurt. E Lisboa para onde José, Saramago, Fritz e Lídia vieram viver deixando definitivamente as suas terras da infância. As mulheres, sempre as mulheres: as mães, as avós e Pilar, discreta, mas, solidamente presente.  


Li este romance com bastante vagar. Reli certas passagens. Voltei atrás. Demorei-me. Precisei de me entranhar nele. Senti que tinha de continuar a descobrir o Saramago ainda não lido. Percebi que “Autobiografia” será um daqueles livros a que voltarei um dia, talvez para descobrir outros sentidos que uma primeira leitura não conseguiu alcançar.


30 de Janeiro de 2010


Almerinda Bento


 


 


 


 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Ensaio sobre a Cegueira

Recordando o que escrevi há uns anos, quando li este livro de José Saramago. Nem a propósito, o surgimento da epidemia com origem na China ocorreu quando lia "Autobiografia" de José Luís Peixoto.


 


Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago, 1995


Um livro intenso, que só podia ter sido escrito por uma pessoa muito reflexiva e preocupada com a condição humana.


Dedicado a Pilar e à filha Violante, José Saramago reflecte neste romance o amor e respeito que dedica às mulheres que têm neste livro um papel central.


Este livro coloca a sociedade perante um problema, uma epidemia, uma tragédia - a cegueira – e faz-nos percorrer a degradação a que os seres humanos podem chegar em condições extremas. Escolheu a cegueira, mas poderia ser outra coisa qualquer, funcionando como metáfora da ausência de esperança. “A cegueira é viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.” E a degradação é o caminho da desumanização, do salve-se quem puder, da selva. Não é por acaso que o local da quarentena é um manicómio desactivado! “ O mundo está todo aqui dentro.” O caos da vida sem perspectivas de saída, o desequilíbrio nas relações de poder mesmo quando todos estão cegos, a violência da cena em que os cegos malvados exigem trocar comida por sexo, a solidariedade entre as mulheres, a nudez dos corpos, o cheiro insuportável a excrementos e comida podre, o medo do contágio, a luta pela sobrevivência, o prazer de um copo de água, a condição infra-humana a que se chega, são alguns aspectos deste livro verdadeiramente inesquecíveis.


Para além das constantes e profundas reflexões sobre múltiplos temas que o autor coloca ao leitor, gostaria de referir a cuidada utilização do vocabulário ao longo de todo o livro, com constantes alusões a expressões quotidianas relacionadas com a visão como “justiça cega”, “mão cega”, “está à vista”, “está-se mesmo a ver” e outras. As sete personagens principais a quem nunca é dado um nome são também referenciadas por algo que se relaciona com os olhos: o primeiro cego, a mulher do cego, o médico (oftalmologista), a rapariga dos óculos escuros, o rapaz estrábico, o velho da venda preta e a mulher do médico, aliás a única personagem que vê e que a certa altura diz “… vocês não sabem, não podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos, não sou rainha, não, sou simplesmente a que nasceu para ver o horror, vocês sentem-no, eu sinto-o e vejo-o…” Para além dos humanos, o cão das lágrimas é, em minha opinião, igualmente uma das personagens centrais deste romance.


Pode-se dizer que este livro nos aponta um mundo apocalíptico e podemos recordar e traçar um paralelismo com situações catastróficas recentes como o Haiti após o terramoto, os regimes de ditadura onde as liberdades são suprimidas, ou as sociedades e países que se confrontam com uma dívida que empobrece os povos e os leva à desesperança, ao desespero e ao suicídio como actualmente já acontece na Grécia, por conta da ditadura dos mercados.


No entanto e, apesar do caos, do horror, do inimaginável, este romance é também um grito de esperança e um tributo à capacidade extraordinária de os seres humanos lidarem com a adversidade.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago

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Recordando um maravilhoso livro que li nas férias de Verão, há 3 anos.


“O Ano da Morte de Ricardo Reis”, José Saramago, 1984
Uma das minhas leituras de férias e mais um dos livros de José Saramago já há algum tempo à espera de chegar a sua vez. Como sempre, fascinante, denso, com incursões inesperadas a propósito de tudo e de nada, desde expressões da nossa linguagem do dia-a-dia, até deambulações sobre a vida, a morte, o ser, o existir, o sonho… sobretudo nos encontros de Ricardo Reis com Fernando Pessoa. Surpreendente, para ser lido com calma, saboreando os caminhos que Saramago nos convida a seguir ao longo das páginas deste romance.
Em finais de Dezembro de 1935, Ricardo Reis chega de barco a Lisboa, vindo do Brasil onde esteve dezasseis anos a viver. É o reencontro com a sua cidade, ficando alojado no Hotel Bragança na Rua do Alecrim, não sabendo ainda por quanto tempo lá vai ficar. Sem planos definidos, Ricardo Reis é uma personagem solitária que vai observando e apreendendo a realidade da cidade, do país e do mundo, sem se envolver directamente, antes colocando-se de fora.
No entanto, o cemitério dos Prazeres onde está sepultado Fernando Pessoa falecido em 30 de Novembro de 1935, é o primeiro local que Ricardo Reis visita mal chega a Lisboa. No primeiro dia do ano de 1936, quando a euforia do novo ano é vivida lá fora e Ricardo Reis já se recolheu ao seu quarto no hotel Bragança, Fernando Pessoa (ou o seu fantasma) visita-o pela primeira vez e avisa-o de que só poderão ter mais oito meses para se encontrarem e explica que tal como quando estamos no ventre das nossas mães não somos ainda vistos, mas todos os dias elas pensam em nós, após a morte cada dia vamos sendo esquecidos um pouco “salvo casos excepcionais nove meses é quando basta para o total olvido”.
O “Senhor Doutor Reis” como é tratado pelos empregados e hóspedes do hotel é um homem solitário, embora goste de almoçar em pequenos restaurantes pedindo ao empregado que não levante o prato à sua frente e deixe cheios o seu copo e o do seu companheiro imaginário. Gosta de observar e imaginar histórias sobre alguns hóspedes que jantam e frequentam o hotel e cria uma familiaridade por vezes forçada com o gerente – Salvador – com Pimenta que lhe carrega as malas e com Lídia a empregada que lhe limpa o quarto e lhe leva o pequeno almoço. Por outro lado, sendo alguém que se instala durante algum tempo no hotel sem ocupação nem ligações familiares ou sociais conhecidas, é observado não só pelo gerente e pelo empregado do hotel, mas também pela polícia política que quer saber as motivações daquele estranho doutor Ricardo Reis que regressou a Portugal vindo do Brasil. As notícias que lê todos os dias nos jornais para se pôr a par do que se passa no mundo e em Portugal pintam um retrato idílico de um país em que o salazarismo começa a fazer o seu caminho. O país da ideologia da família unida e feliz, em paz, em confronto com as convulsões que se vivem na vizinha Espanha e no Brasil. O país da sopa dos pobres e das obras de caridade em todas as paróquias e freguesias. O país onde se morre de doença e de falta de trabalho. O país dos milagres de Fátima e da devoção ao chefe, arregimentando os seus seguidores na Mocidade Portuguesa, na Legião e em outros instrumentos de propaganda como a Obra das Mães pela Educação Nacional. O país dos filhos de pais incógnitos. O país da discricionaridade e da devassa da vida privada, dos interrogatórios e da intimidação sem quaisquer motivos, o início da triste história da PVDE/PIDE. No fim do interrogatório à saída da António Maria Cardoso, Ricardo Reis sentiu um fedor a cebola que exalava Victor, o informador. Mas também noutros momentos esse fedor rondava por perto.
Lisboa, a cidade de Pessoa, a cidade onde Ricardo Reis veio para morrer, é uma cidade cinzenta e triste em que a chuva cai impiedosa. O Carnaval também é molhado e sem graça. No Verão, o calor é sufocante. A condizer com o ambiente de suspeição e desconfiança do Estado Novo, a cidade é mesquinha, coscuvilheira, intromete-se na vida dos outros. Seja primeiro no hotel Bragança, ou mais tarde quando Ricardo Reis aluga um andar na Rua de Santa Catarina, as vizinhas espreitam, conjecturam, mexericam, imiscuem-se. Até para os dois velhos que se sentam junto à estátua do Adamastor, aquele novo morador de Santa Catarina não deixa de ser um motivo de interesse para matar as horas de ócio e de conversa. Felizmente para Ricardo Reis, daquele segundo andar há uma vista deslumbrante para o Tejo.
Em Espanha, depois da vitória das esquerdas nas eleições é para Lisboa que fogem e se refugiam os detentores de riquezas, aguardando a reviravolta que não tardará com o golpe fascista liderado por Franco. Na Alemanha e na Itália, os ditadores lançam os seus instrumentos de propaganda e preparam os seus seguidores para um dos períodos mais negros da história da humanidade. No Brasil o comunista Luís Carlos Prestes é preso. As notícias dos jornais portugueses dão conta de que no estrangeiro Portugal é visto como o país que finalmente vive um período de paz e prosperidade.
E agora, as duas personagens femininas que se relacionam com Ricardo Reis. Lídia – a musa das Odes de Ricardo Reis – e Marcenda são duas personagens centrais nesta obra e neste período da vida de Ricardo Reis. Como é apanágio de Saramago, as suas heroínas são sempre mulheres fortes e decididas. Lídia, empregada no hotel onde Ricardo Reis vai viver os primeiros tempos após a sua chegada a Lisboa, é senhora de si, apaixona-se pelo doutor Ricardo Reis mesmo sabendo das diferenças sociais que a impedem de poder ter uma vida social sem ambiguidades com aquele com quem se relaciona sexualmente. Marcenda, a jovem hóspede do hotel que todos os meses vem com o pai para uma consulta médica, encontra em Ricardo Reis uma pessoa mais velha que a trata como uma adulta e não como uma criança a quem se escondem verdades dolorosas.
Muito mais haveria a dizer sobre este denso romance de José Saramago, repleto de referências poéticas a Camões, à “Mensagem” de Fernando Pessoa e aos seus muitos heterónimos, entre outros. Não sendo especialista na obra do poeta, limito-me aqui a fazer este breve apontamento sobre esta obra de Saramago que penso ser um manancial para os/as amantes da literatura e, sobretudo, para os/as estudiosos/as da poesia de Pessoa e dos seus diversos heterónimos.

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