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domingo, 24 de dezembro de 2023

Em teu Ventre, José Luís Peixoto

 


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Hoje, em véspera de dia de Natal, recordo aqui este livro que terminei há precisamente 7 anos. Lembrando a minha mãe e as mães que por todo o mundo sempre põem os outros (filhos, marido) à frente de tudo e muitas vezes se esquecem de si. 


"Em teu Ventre”, José Luís Peixoto, 2015
Este romance de José Luís Peixoto decorre em Fátima, no ano de 1917, entre Maio e Outubro. É um livro centrado em Lúcia e em todo o ambiente que se viveu naquela terra desde que a jovem pastora de nove anos afirmou ter visto uma aparição. Lúcia é uma criança do campo que não sabe ler, mas que com a imaginação própria da sua idade faz diálogos com os objectos e com o que a natureza lhe dá. Educada no seio de uma família religiosa, com uma mãe austera que não admite mentiras nem é muito sensível às brincadeiras das crianças, com um pai mais amigo da taberna do que de casa, tem duas irmãs mais velhas e um irmão prestes a ser recrutado para a guerra em França. As suas brincadeiras com os dois primos também pastores – Jacinta e Francisco – entrelaçam-se com o trabalho no campo e com o cuidar dos animais à sua guarda.
É um livro que perturba porque faz o retrato de um Portugal rural, atrasado, analfabeto, religioso, subserviente. A pobreza tem como contrapartida a caridade como forma de expiação para os pecadores. O analfabetismo e a religião são os ingredientes que moldam as consciências das pessoas no Portugal rural e atrasado de há um século. Os detentores do poder são além do administrador do concelho a Igreja, que tem como missão a subjugação e o condicionamento das pessoas pelo temor, pela culpa e pela interiorização do pecado.
E depois há as mães: a mãe de Lúcia, a mãe do autor, a mãe de Cristo, as mães que estão sempre presentes, mesmo quando não estão, as mães que cuidam, que choram, que trabalham, que não descansam, que acreditam no milagre da cura do filho, que rezam para que o filho seja poupado à guerra, as mães que desculpam as bebedeiras dos maridos, as mães que são as últimas a sentar-se à mesa e a comer porque primeiro é para o marido e os filhos…


(“Todas as pessoas têm direito a descanso, menos as mães. Para cada tarefa, profissão ou encargo há direito a uma folga, menos para as mães. Se alguma mãe demonstrar a mínima fadiga de ser mãe, haverá logo uma besta, ignorante de limpar baba e de parir, que se oferecerá para a pôr em causa. Não é mãe, não sabe ser mãe, não foi feita para ser mãe, dirá. Mas, se todas as pessoas têm direito a descanso, será que as mães não são pessoas? A culpa é nossa. Sim, a culpa é das mães. Deixámos que fossem os filhos a definir-nos.”)


E quem se lembra das mães que antes de serem mães foram meninas?
(“Duvido que sejas capaz de me imaginar com dez anos. Já fui nova, sabias? Quando nasceste, em setembro, eu tinha trinta e dois anos feitos em junho. Talvez consigas suspeitar o que foi para mim ter-te com trinta e dois anos, até acredito nisso. Lembro-me de estares na minha barriga, nos últimos meses era um barrigão, mas tu não és capaz de me imaginar com dez anos, duvido. Não sou essa menina que imaginas quando tentas imaginar-me com dez anos. Fui uma menina que nunca conhecerás.”)


A mãe de Lúcia é forte, austera, receia que as revelações de Lúcia tragam castigos divinos porque para ela são mentiras, não passam de imaginação da filha. O prior acompanha a mãe de Lúcia na descrença das palavras da pequena pastora, mas logo uma outra Maria (da Capelinha), impelida na crença da salvação do filho e focada no desígnio da construção de uma capelinha junto ao local da aparição, movimenta a aldeia e pressiona Lúcia a garantir da veracidade das aparições. Neste jogo do esconde e do empurra, a pobre Lúcia sente-se perdida, confusa, chora, ausenta-se, quer que a deixem em paz, entristece-se, sente-se um joguete. É um joguete. E por que não “construir uma estância rentável, comparável à que existe em Lourdes?”
José Luís Peixoto usa de grande sensibilidade no tratamento desta ocorrência que passou à categoria de milagre e que tem sido analisada de vários ângulos, embora seja corrente e se tenha estabelecido como local de peregrinação e de culto por parte de pessoas crentes provenientes de todo o mundo. O autor não impõe a sua visão, antes nos dá a liberdade de pensar e fazer um juízo sobre como e por que surgiu Fátima e o culto a ela associado.


Dezembro de 2016
Almerinda Bento

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago

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Recordando um maravilhoso livro que li nas férias de Verão, há 3 anos.


“O Ano da Morte de Ricardo Reis”, José Saramago, 1984
Uma das minhas leituras de férias e mais um dos livros de José Saramago já há algum tempo à espera de chegar a sua vez. Como sempre, fascinante, denso, com incursões inesperadas a propósito de tudo e de nada, desde expressões da nossa linguagem do dia-a-dia, até deambulações sobre a vida, a morte, o ser, o existir, o sonho… sobretudo nos encontros de Ricardo Reis com Fernando Pessoa. Surpreendente, para ser lido com calma, saboreando os caminhos que Saramago nos convida a seguir ao longo das páginas deste romance.
Em finais de Dezembro de 1935, Ricardo Reis chega de barco a Lisboa, vindo do Brasil onde esteve dezasseis anos a viver. É o reencontro com a sua cidade, ficando alojado no Hotel Bragança na Rua do Alecrim, não sabendo ainda por quanto tempo lá vai ficar. Sem planos definidos, Ricardo Reis é uma personagem solitária que vai observando e apreendendo a realidade da cidade, do país e do mundo, sem se envolver directamente, antes colocando-se de fora.
No entanto, o cemitério dos Prazeres onde está sepultado Fernando Pessoa falecido em 30 de Novembro de 1935, é o primeiro local que Ricardo Reis visita mal chega a Lisboa. No primeiro dia do ano de 1936, quando a euforia do novo ano é vivida lá fora e Ricardo Reis já se recolheu ao seu quarto no hotel Bragança, Fernando Pessoa (ou o seu fantasma) visita-o pela primeira vez e avisa-o de que só poderão ter mais oito meses para se encontrarem e explica que tal como quando estamos no ventre das nossas mães não somos ainda vistos, mas todos os dias elas pensam em nós, após a morte cada dia vamos sendo esquecidos um pouco “salvo casos excepcionais nove meses é quando basta para o total olvido”.
O “Senhor Doutor Reis” como é tratado pelos empregados e hóspedes do hotel é um homem solitário, embora goste de almoçar em pequenos restaurantes pedindo ao empregado que não levante o prato à sua frente e deixe cheios o seu copo e o do seu companheiro imaginário. Gosta de observar e imaginar histórias sobre alguns hóspedes que jantam e frequentam o hotel e cria uma familiaridade por vezes forçada com o gerente – Salvador – com Pimenta que lhe carrega as malas e com Lídia a empregada que lhe limpa o quarto e lhe leva o pequeno almoço. Por outro lado, sendo alguém que se instala durante algum tempo no hotel sem ocupação nem ligações familiares ou sociais conhecidas, é observado não só pelo gerente e pelo empregado do hotel, mas também pela polícia política que quer saber as motivações daquele estranho doutor Ricardo Reis que regressou a Portugal vindo do Brasil. As notícias que lê todos os dias nos jornais para se pôr a par do que se passa no mundo e em Portugal pintam um retrato idílico de um país em que o salazarismo começa a fazer o seu caminho. O país da ideologia da família unida e feliz, em paz, em confronto com as convulsões que se vivem na vizinha Espanha e no Brasil. O país da sopa dos pobres e das obras de caridade em todas as paróquias e freguesias. O país onde se morre de doença e de falta de trabalho. O país dos milagres de Fátima e da devoção ao chefe, arregimentando os seus seguidores na Mocidade Portuguesa, na Legião e em outros instrumentos de propaganda como a Obra das Mães pela Educação Nacional. O país dos filhos de pais incógnitos. O país da discricionaridade e da devassa da vida privada, dos interrogatórios e da intimidação sem quaisquer motivos, o início da triste história da PVDE/PIDE. No fim do interrogatório à saída da António Maria Cardoso, Ricardo Reis sentiu um fedor a cebola que exalava Victor, o informador. Mas também noutros momentos esse fedor rondava por perto.
Lisboa, a cidade de Pessoa, a cidade onde Ricardo Reis veio para morrer, é uma cidade cinzenta e triste em que a chuva cai impiedosa. O Carnaval também é molhado e sem graça. No Verão, o calor é sufocante. A condizer com o ambiente de suspeição e desconfiança do Estado Novo, a cidade é mesquinha, coscuvilheira, intromete-se na vida dos outros. Seja primeiro no hotel Bragança, ou mais tarde quando Ricardo Reis aluga um andar na Rua de Santa Catarina, as vizinhas espreitam, conjecturam, mexericam, imiscuem-se. Até para os dois velhos que se sentam junto à estátua do Adamastor, aquele novo morador de Santa Catarina não deixa de ser um motivo de interesse para matar as horas de ócio e de conversa. Felizmente para Ricardo Reis, daquele segundo andar há uma vista deslumbrante para o Tejo.
Em Espanha, depois da vitória das esquerdas nas eleições é para Lisboa que fogem e se refugiam os detentores de riquezas, aguardando a reviravolta que não tardará com o golpe fascista liderado por Franco. Na Alemanha e na Itália, os ditadores lançam os seus instrumentos de propaganda e preparam os seus seguidores para um dos períodos mais negros da história da humanidade. No Brasil o comunista Luís Carlos Prestes é preso. As notícias dos jornais portugueses dão conta de que no estrangeiro Portugal é visto como o país que finalmente vive um período de paz e prosperidade.
E agora, as duas personagens femininas que se relacionam com Ricardo Reis. Lídia – a musa das Odes de Ricardo Reis – e Marcenda são duas personagens centrais nesta obra e neste período da vida de Ricardo Reis. Como é apanágio de Saramago, as suas heroínas são sempre mulheres fortes e decididas. Lídia, empregada no hotel onde Ricardo Reis vai viver os primeiros tempos após a sua chegada a Lisboa, é senhora de si, apaixona-se pelo doutor Ricardo Reis mesmo sabendo das diferenças sociais que a impedem de poder ter uma vida social sem ambiguidades com aquele com quem se relaciona sexualmente. Marcenda, a jovem hóspede do hotel que todos os meses vem com o pai para uma consulta médica, encontra em Ricardo Reis uma pessoa mais velha que a trata como uma adulta e não como uma criança a quem se escondem verdades dolorosas.
Muito mais haveria a dizer sobre este denso romance de José Saramago, repleto de referências poéticas a Camões, à “Mensagem” de Fernando Pessoa e aos seus muitos heterónimos, entre outros. Não sendo especialista na obra do poeta, limito-me aqui a fazer este breve apontamento sobre esta obra de Saramago que penso ser um manancial para os/as amantes da literatura e, sobretudo, para os/as estudiosos/as da poesia de Pessoa e dos seus diversos heterónimos.

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...