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segunda-feira, 11 de julho de 2022

A Força da Idade, Simone de Beauvoir

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A Força da Idade, Simone de Beauvoir, 1960

“A Força da Idade” é dos livros que herdei da minha irmã, talvez o mais importante. Ela tinha-me oferecido “Os Mandarins”, pediu-me que lho emprestasse para o ler e quase chegou ao fim do 2º volume naquelas férias fatídicas. Chegou a minha vez de ler este belíssimo exemplar de “A Força da Idade” editado pela Bertrand e descobri, ao longo da leitura, sublinhados que inevitavelmente me fazem reviver as suas preocupações, os seus interesses e os seus medos. Foi pois um livro cuja leitura me remeteu invariavelmente para ela e para as nossas vivências. Por isso, as palavras que vou escrever sobre este livro que Simone de Beauvoir dedicou a Jean Paul Sartre, dedico-as à memória da minha irmã Isabel.

Tinha lido “Memórias de uma Menina Bem Comportada” há muitos anos e lembro-me que foi durante muito tempo um livro muito vivo na minha memória, mas passados tantos anos, algumas das referências que Simone de Beauvoir faz no início do livro, naturalmente, pessoas importantes e marcantes na sua juventude, mas que entretanto deixei de identificar. “A Força da Idade”, para além de um livro autobiográfico em que a autora detalha momentos marcantes da sua juventude, como viveu pela primeira vez e de forma intensa a sensação de liberdade, é também um documento histórico valioso sobre o período que antecede a 2ª guerra mundial até ao momento da Libertação de Paris em Agosto de 1944.

No Prólogo, Simone de Beauvoir avisa: “Lancei-me numa aventura imprudente, quando comecei a falar de mim. Começa-se e nunca mais se acaba. “ (…) “No entanto, devo preveni-los que não pretendo dizer tudo” (…) “a minha vida foi estreitamente ligada à de Jean Paul Sartre; mas a sua história espera contá-la ele próprio e deixo-lhe essa tarefa.” E, em nota de rodapé: “Neste livro consenti em omitir; nunca em mentir. Mas é provável que a memória me tenha traído em pequenas coisas…”

O livro está dividido em duas grandes partes; a primeira vai de Setembro de 1929 ao Verão de 1938 e a segunda, desde esse Verão quando a ameaça da guerra era já muito presente até 25 de Agosto de 1944, quando os últimos ocupantes nazis abandonaram a cidade de Paris onde Simone de Beauvoir vivia.

Simone de Beauvoir tem 21 anos, vai viver para Paris onde dá umas aulas que lhe permitem a liberdade de ter um quarto seu. “Quando Sartre voltou a Paris, em meados de Outubro, começou verdadeiramente a minha nova vida” (pág.15). O dinheiro era pouco, liam, iam ao teatro, descobriam o cinema sonoro, discutiam as teorias de Sartre, tinham uma visão idílica sobre a paz, considerando a ascensão das ideias de Hitler “um epifenómeno sem gravidade” (pág.16). O seu ideal de vida era escrever e para este jovem casal “a liberdade era a nossa única regra” (pág.40). Viviam longe da realidade, no entanto, Beauvoir refere numa visita a uma pequena fábrica de tomadas para lâmpadas eléctricas que, ao ver a dureza, insalubridade das condições de trabalho e monotonia das tarefas, que o seu “primeiro encontro com o trabalho foi como um soco no estômago” (pág.53).

As caminhadas solitárias e a descoberta sistemática da região de Marselha, onde é colocada durante um ano, são um deslumbramento para Simone de Beauvoir. Segue-se Rouen, sem os encantos de Marselha, onde vai permanecer durante quatro anos, mas com a vantagem de estar mais próxima de Paris e de Sartre que dá aulas no Havre. Em Espanha, vencem as forças republicanas, mas na Alemanha as ideias de Hitler vão fazendo o seu caminho e na Itália os camisas negras estão cada vez mais presentes nas ruas. No entanto, apesar das perseguições aos judeus na Alemanha, os intelectuais nos quais Beauvoir e Sartre se incluíam encaravam isso com relativa serenidade e tinham uma visão distorcida sobre a situação política. Em finais de 1934, início de 1935 a situação económica deteriora-se, crescem os despedimentos e o desemprego. A xenofobia e as tendências nacionalistas de direita aprofundam-se. É interessante perceber a evolução no pensamento de Simone de Beauvoir que nessa altura só tinha interesse, ao nível da política externa, por o que se passava em Espanha em que as direitas estavam no poder, com a repressão selvática aos operários da Catalunha e das Astúrias. “Uma questão que nessa altura fazia correr muita tinta era o voto das mulheres; no momento das eleições municipais; Marie Vérone e Louise Weiss agitaram-se furiosamente; tinham razão; mas como eu era apolítica e não iria usar dos meus direitos, era-me absolutamente indiferente que nos reconhecessem ou não” (pág.183). O que a movia eram as questões da repressão que se fazia sentir, questiona-se sobre a pena de morte, mas do ponto de vista político a sua postura assim como a de Sartre era de meros espectadores (pág.186). A Frente Popular que introduzira grandes transformações sociais e melhoria na qualidade de vida dos operários franceses entra em declínio; os franquistas avançam em Espanha e Guernica é massacrada; a Grécia vive em ditadura e a pobreza do povo é indisfarçável. Só a URSS se mostrava desejosa de barrar o fascismo, mas “Nunca imagináramos a URSS como um paraíso, mas também nunca tínhamos posto seriamente em questão a construção socialista (…) Não haveria mais nenhum lugar no mundo onde se pudesse alojar a esperança?” (pág.245). As perseguições intensificam-se na Alemanha e a Europa vive uma onda de refugiados que se deslocam e que ninguém quer aceitar.

A Primavera de 1939 marca um ponto de viragem em Beauvoir, que faz um balanço dos seus últimos dez anos numa síntese que encerra a 1ª parte desta autobiografia. “Não é possível assinalar um dia, uma semana, nem mesmo um mês, para a conversão que então se deu em mim. Mas é certo que a Primavera de 1939 marca um corte na minha vida. Renunciei ao individualismo e ao anti-humanismo. Aprendi a solidariedade” (…) “É arbitrário cortar a vida aos bocados. No entanto, o ano de 1929, de que datam, ao mesmo tempo, o fim dos meus estudos, a minha emancipação económica, a saída da casa paterna, a ruptura das antigas amizades e o meu encontro com Sartre, abriu evidentemente para mim uma nova era. Em 1939, a minha existência mudou de uma maneira igualmente radical: a História apanhou-me para não mais me largar; por outro lado, dediquei-me a fundo para sempre à literatura. Encerrava-se uma época. Este período que acabo de contar fez-me passar da juventude à maturidade. Dominaram-me duas preocupações: viver e realizar a minha vocação ainda abstracta de escritor; isto é, encontrar o ponto de inserção da literatura na minha vida.” (pág. 302). “Todavia, ao fazer o balanço destes anos, parece-me que me deram muitíssimo: tantos livros, quadros e cidades, tantos rostos, tantas ideias, emoções e sentimentos! Nem tudo era falso.” (pág. 306)

No Verão de 1938, já com a ameaça iminente da guerra, ainda aproveita a natureza na Provença com Sartre, antes de regressar a Paris. A notícia da conclusão do pacto germano-soviético é o fim de toda e qualquer esperança. Os comboios sobrelotados, a mobilização e a angústia das pessoas são o sinal da viragem. No entanto, há ainda a crença de que a guerra não vai ser longa e que os fascismos vão ser liquidados e que a França e toda a Europa caminharão para o socialismo. É muito interessante o retrato que Beauvoir traça do estado de espírito das pessoas: inquietas, dando palpites, tentando adivinhar o futuro. Ela própria “sentia medo. Não receava por mim; nem por um instante pensei em fugir do País. Tinha receio por Sartre.” (…) ”E uma manhã a coisa aconteceu. Então, na minha solidão e angústia, comecei a escrever um diário. Parece-me mais vivo, mais exacto do que a narrativa que eu pudesse tirar dele.” (pág. 321) Vai então escrever um diário que começa a 1 de Setembro e vai até 14 de Julho do ano seguinte, com alguns períodos intermitentes, ou seja, todo o período em que está afastada de Sartre. Este diário é um retrato/documento vivo do quotidiano da França naquela época. A 1 de Setembro é declarada guerra à Polónia, Sartre é mobilizado para Nancy, as pessoas começam a comprar máscaras de gás, as rotinas alteram-se, os cafés fecham cedo e as boîtes não abrem. “O Flore está fechado. Sento-me na esplanada do Deux Magots e leio Journal, de Gide, de 1914; grande analogia com o momento presente” (pág. 326) Alguns dizem que esta guerra é uma brincadeira. “Durará muito tempo?”, pergunta Simone de Beauvoir. Num passeio pelos campos com Camille, “Voltamos através dos campos e aldeias. É um momento muito comovente e recordo-me do que Sartre me disse em Avinhão, e que é tão verdadeiro: que se pode viver numa grande doçura um presente rodeado de ameaças; não esqueço nada da guerra, da separação, da morte, do futuro bloqueado e no entanto nada pode apagar a ternura e a luminosidade da paisagem; como se fosse invadida por um sentimento que se basta a si próprio, que não pertence a nenhuma história, arrancado à sua própria história, de repente, completamente desinteressado.” (pág. 334). Na entrada de 25 de Outubro do diário, escreve Simone de Beauvoir: “Fernand diz que os jornais estão cheios de mentiras e que a guerra vai ser longa. Já não reajo a estas previsões. Trabalho no meu romance, dou aulas e vivo numa espécie de embrutecimento: nenhum futuro tem realidade.” (pág. 348)

Para se deslocarem, os franceses precisam de salvo-condutos, o que não é fácil de conseguir. As cartas que recebe de Sartre, em parte incerta, são abertas pela censura. Mais tarde, em código, ela consegue perceber que ele está na Alsácia. No PCF há demissões por desacordo com o pacto germano-soviético. Em Maio os alemães invadem a Holanda, a Bélgica e o Luxemburgo e a 4 de Junho a região de Paris é bombardeada. A vida muda radicalmente para Simone de Beauvoir que tem de ficar na cidade por causa da sua profissão. Sente-se enclausurada. Mas, com o avanço das tropas ocupantes, os professores são dispensados e os exames adiados. Paris é o caos, sem gasolina, sem comida para os franceses, mas os alemães pavoneiam-se e culpam os ingleses e os judeus pela situação de penúria que vivem os habitantes da cidade. É nessa altura que Simone de Beauvoir aprende a andar de bicicleta, o que lhe vai ser muito útil e para Sartre nas suas muitas deslocações. A repressão e o peso da ideologia nazi entram no quotidiano das pessoas. As notícias são escassas e deturpadas, alguns amigos começam a vacilar. Outros desaparecem.

Quando Sartre que estivera preso é libertado, quer seguir a política e cria um pequeno grupo – “Socialismo e Liberdade “ – à semelhança de muitos que existiam, que ajude à resistência aos ocupantes e colaboracionistas. O “trio” que Simone, Sartre e Olga constituíram antes da guerra, é agora alargado, como se fossem uma “família”. Partilham o pouco que têm, apoiam-se nas dificuldades que são cada vez maiores, a informação é escassa, os avanços das forças inglesas andam a par das execuções, das prisões e dos envios das pessoas para os campos de concentração, embora nessa altura ainda pouco se soubesse sobre os campos de concentração, as resistências organizam-se, mas há que estar atento aos delatores. Em contraponto ao ambiente hostil da ocupação e da guerra, à rudeza do frio e da fome, este grupo de intelectuais – Camus, Dullin, Picasso, Dora Marr, os Leiris, Éluard, Malraux … – fazia do Flore a sua casa e alimentava a sua amizade com a alegria de viver o momento e de aproveitar ao máximo o facto de estarem vivos. Tinham grandes projectos para o futuro e antecipavam o que fariam no pós-guerra. Sartre cria textos para peças de teatro, Simone trabalha no segundo romance e o seu reconhecimento como escritora surge quando finalmente “A Convidada”, o seu primeiro romance é editado e sobre ele são escritas críticas em jornais de referência. Simone de Beauvoir era finalmente reconhecida como escritora, ganha notoriedade e esse reconhecimento dá-lhe grande satisfação pessoal.

Como referi anteriormente, a parte final de “A Força da Idade” é o retrato dos dias que antecederam a vitória sobre o ocupante nazi e que foi sentida antecipadamente pela “família” que há tanto tempo a desejava. A Libertação não foi conseguida sem muito sofrimento e sem que o terror estivesse presente até ao fim. Simone de Beauvoir faz também aqui um balanço, uma reflexão sobre a guerra e o peso que ela irá transportar para a sua vida do pós-guerra e que não mais se apagará. Dos muitos amigos e amigas que vão surgindo ao longo das mais de quinhentas páginas, ela destaca o jovem Bourla cuja morte lhe é insuportável

 Para além da minúcia e detalhe usados ao longo de todo o livro na descrição das paisagens e percursos que fazem ela e Sartre em toda a França, mas também noutros países como a Espanha, a Itália ou a Grécia; Simone de Beauvoir como observadora de tudo o que a rodeia é exaustiva na caracterização daqueles que lhe estão mais próximos e, de forma muito particular, partilha nas suas memórias a importância da literatura na sua vida “a literatura tornou-se-me tão necessária como o ar que respirava” (pág. 509); as dúvidas e inseguranças em todo o processo criativo, os elementos usados na construção de “L’Invitée”, mas também de “Le Sang des Autres” e “Tous les Hommes sont Mortels”, o que acho de grande interesse para quem estudar estas três primeiras obras da autora, na medida em que estão intrinsecamente ligadas à sua vivência e às pessoas que fizeram parte dos seus relacionamentos mais íntimos.

Por fim e assumindo que muitíssimo mais poderia dizer sobre este livro, não posso deixar de aqui transcrever um parágrafo que surge na parte final do livro, que reflecte as preocupações desta professora, filósofa, feminista, fundamental para o pensamento do feminismo e das feministas. A propósito do seu círculo de amigos, intelectuais quase todos oriundos do surrealismo, escreve Beauvoir: “ Tirei ainda um outro proveito dessa intimidade. Conhecia poucas mulheres da minha idade e nenhuma que levasse uma vida clássica de casada; os problemas de Stépha, Camille, Louise Perron, Colette Audry e os meus eram, na minha opinião, individuais e não generalizados. Em muitos pontos, compreendera quanto, antes da guerra, pecara por abstracção: sabia agora que não era indiferente ser judeu ou ariano; mas não me tinha apercebido de que houvesse uma condição feminina. Subitamente, encontrei um grande número de mulheres que tinham ultrapassado os quarenta e que, através da diversidade das suas possibilidades e méritos, haviam tido uma experiência idêntica: tinham vivido como «seres relativos». Como eu escrevia, como a minha situação era diferente da delas, e também, penso eu, como sabia escutar, disseram-me muita coisa; comecei a dar conta das dificuldades, das aparentes facilidades, dos logros e dos obstáculos que a maioria das mulheres encontra pelo caminho; senti também que, naquela medida, eram simultaneamente diminuídas e enriquecidas. Não dava ainda muita importância a um assunto que só indirectamente me dizia respeito, mas a minha atenção foi despertada.” (pág. 481)

10 de Julho de 2022

Almerinda Bento

 

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Da Meia-Noite às Seis, Patrícia Reis

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Da meia-noite às seis, Patrícia Reis, 2021


Patrícia Reis uma revelação e este já é o seu décimo livro. Já tinha lido apreciações sobre “Crianças Invisíveis” e recentemente li no JL, não só a entrevista que lhe foi feita, mas também os textos de Miguel Real e de Valter Hugo Mãe sobre este livro que decidi comprar, aproveitando para fazer uma troca de livro repetido entre os muitos que recebi nos anos. Excelente escolha.


A dedicatória a Maria Teresa Horta, a quem há tempos faleceu o marido, não podia ser mais ajustada. Susana Ribeiro de Andrade, uma das personagens principais deste livro, é confrontada com o fim inexorável e irreversível do amor da sua vida, na sequência de ter sido contaminado com o vírus. Está-se em 2022 e a pandemia continua implacável, a fazer o seu caminho. O choque brutal desta morte deixa-a sem chão, apenas com as memórias do homem que amava, o seu companheiro com quem continuava a conversar de mão dada! A viagem a Roma, as preferências literárias dele por Camus, Agustina ou o “Adriano” de Marguerite Yourcenar que ela não lera (e que ele dizia que era um daqueles livros que não podem deixar de ser lidos), todas essas memórias são aquilo a que se agarra num tempo de luto, em que interrompe momentaneamente a sua actividade profissional numa estação de rádio.


No regresso, aceita o horário das “horas mortas”, aquele que é desvalorizado (“seria aquilo trabalho” pensam até alguns colegas), por ser rotineiro, por ter uma audiência menos interessante, aquele que afinal ninguém quer. Rui Vieira também voltara à rádio na noite de Natal de 2019. Quem quer trabalhar nesses dias? Quando se pensa que já não servimos porque temos uma incapacidade, quando se é descartável, valha-nos uma vaga porque há que cumprir a quota das pessoas com deficiência… De tudo isto nos fala Patrícia Reis: das discriminações, da homofobia, do racismo, da solidão, da precariedade que ficou mais exposta com a pandemia, mas também do verso da medalha: da solidariedade, da revolução que é dar voz às pessoas, de que há que descobrir o lado positivo da vida, de que a felicidade é possível e que muitas vezes está ali mesmo ao nosso lado.


Este livro é também um elogio aos trabalhadores da cultura, ao extraordinário poder da rádio, da voz, do sentido e da força das palavras. Li este livro rapidamente, com uma profunda empatia, não conseguindo deixar de fazer muitos sublinhados, o que não é habitual em mim. O “aquário” de onde Susana Ribeiro de Andrade faz as suas emissões da meia-noite às seis, os emails de Rui Vieira com as notícias que Susana irá ler a cada hora e as conversas que ambos trocam a partir do computador de Rui, os gestos automatizados de higienização por causa da pandemia, em suma, este mundo confinado coloca-nos a eles e a nós, num cenário que não é de ficção, mas da real fragilidade humana para a qual nunca estamos preparados.


Mesmo quando as canções são de uma play list que o computador escolheu, é sempre possível pôr um pauzinho na engrenagem do sistema e introduzir Caetano Veloso a perguntar em “Cajuína” : “Existirmos: a que será que se destina?”


9 de Maio de 2021


 


 

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Surpresa

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Às vezes, quando menos se espera ou quando menos se tinha programado... descobrimos aquele livro que nos vai baralhar o esquema pré concebido de leituras. Sou organizada ma non tropo e gosto de me surpreender com as surpresas que encontro pelo caminho.


"A Peste" foi um dos livros que li durante o período que baptizaram de "estado de emergência", sendo o segundo livro de Camus que li. Há muito, muito tempo tinha lido "O Estrangeiro", um daqueles livros que percebemos nos ajudaram a crescer e tentava perceber como me tinha vindo parar às mãos e em que altura da vida. Foi uma alegria quando o encontrei ladeado por outros da Livros Unibolso - Biblioteca Universal e ao lado de outros "irmãos" os Livros de Bolso Europa América. Foram colecções preciosas de divulgação a preços muito bons dos chamados clássicos que li nos inícios dos anos 70 e que levei ou que ficaram pelas Mouriscas, provavelmente porque foram lidos nos meses de calor das férias de Verão. 


Que feliz este reencontro de "O Estrangeiro". Para recordar, para reler. 

segunda-feira, 6 de abril de 2020

A Peste, Albert Camus

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E enquanto não escrevo aqui sobre "A Peste", livro de 1947 de Albert Camus, transcrevo aqui um parágrafo do livro, numa fase inicial do mesmo.


 


"A palavra «peste» acabava de ser pronunciada pela primeira vez. Neste momento da narrativa que deixa Rieux atrás da sua janela, permitir-se-á ao narrador que justifique a incerteza e o espanto do médico, visto que, com cambiantes, a sua reacção foi a da maior parte dos nossos concidadãos. Os flagelos, com efeito, são uma coisa comum, mas acredita-se dificilmente neles quando nos caem sobre a cabeça. Houve no mundo tantas pestes como guerras. E, contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. Rieux estava desprevenido como o estavam os seus concidadãos , e por isso é necessário compreender as suas hesitações . É por isso que é preciso compreender também que ele se dividisse entre a dúvida e a confiança. Quando rebenta uma guerra, as pessoas dizem: «Não pode durar muito, seria estúpido.» E, sem dúvida, uma guerra é muito estúpida, mas isso não a impede de durar. A estupidez insiste sempre , e compreendê-la-íamos se se não pensássemos sempre em nós. Os nossos concidadãos, a esse respeito, eram como toda a gente: pensavam em si próprios. Por outras palavras, eram humanistas: não acreditavam nos flagelos. O flagelo não está à medida do Homem; diz-se então que o flagelo é irreal, que é um mau sonho que vai passar. Ele, porém, não passa e, de mau sonho em mau sonho, são os homens que passam, e os humanistas em primeiro lugar, pois não tomaram as suas precauções. Os nossos concidadãos não eram mais culpados que os outros. Apenas se esqueciam de ser modestos e pensavam que tudo era ainda possível para eles, o que pressupunha que os flagelos eram impossíveis. Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões. Como poderiam ter pensado na peste , que suprime o futuro, as viagens e as discussões? Julgavam-se livres, e nunca alguém será livre enquanto existirem os flagelos." (págs. 49 e 50)


 


 

terça-feira, 17 de março de 2020

Lesson 18 - 17 March 2020

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Caras Alunas, Caro Aluno,


Cá estamos por email e espero estar convosco todas as terças feiras enquanto esta quarentena voluntária ou forçada a isso obrigar. 

Quero dizer-vos que desde quinta-feira fui cancelando tudo e percebi que tudo estava a ser cancelado. Foi claro que não havia condições para fazer o que era habitual fazer-se porque tudo estava e está a ser posto em causa. Para quem compra ou tem acesso ao Público, vale bem a pena ler o artigo O Medo do filósofo José Gil. Eu, a propósito desse artigo, escrevi um texto para o SPGL, assim cumprindo a minha tarefa quinzenal de escrever para o sindicato. Se quiserem ler o meu texto, ele aqui está em anexo.

Pois como sabem temos de continuar a viver e ser muito resilientes, pacientes, fortes, esperançosos e optimistas, não negando a adversidade que se abateu a nível planetário. É mesmo, vai ser mesmo um tsunami. Um dia de cada vez, foi sempre a nossa consigna e agora mais do que nunca e com toda a propriedade. 

Quero dar-vos conta de como estou a viver por aqui. Em casa com o Vítor e o Gaspar. Com todos os recursos que tenho (livros, papel, computador que ficou bom mesmo na véspera da quarentena!, comida, medicamentos para a tensão e para o glaucoma, água, electricidade, ar para respirar, janelas para olhar e ver as árvores a dizerem-nos que a Primavera está aí, melros a darem-me os bons dias logo pela manhã, plantas que temos que cuidar, discos, aguarelas....) e temos imensos, se nos compararmos com os sem-abrigo, com os refugiados, com os pobres. Tenho-me lembrado mais e contactado com aquelas pessoas amigas ou familiares com quem estamos menos. É incrível como este estado de guerra nos aproxima daqueles que tantas vezes esquecemos ou descurámos. 

Comecei um diariozinho. Agarrei num caderninho que a Ana Cansado me tinha oferecido do Brasil, quando veio de uma Reunião Internacional da Marcha Mundial das Mulheres e todos os dias escrevo algumas coisas para memória futura. Nem a propósito, andávamos nas nossas aulas a ler "The Diary of a Young Girl" e a acompanhar como uma adolescente conseguia sobreviver enclausurada no Secret Annexe com mais sete pessoas num período de dois anos, para fugir à besta nazi. Anne Frank e o seu testemunho devem ser para nós um ponto de apoio, quando com o passar do tempo e com as mortes que saberemos pelas notícias, nos começarmos a tornar mais fragilizados e vulneráveis. Como cada uma/um de vós tem o livro e o CD, sugiro-vos que leiam e ouçam o CD ao mesmo tempo e, sempre que tenham alguma dúvida, mandem-me um email. Responder-vos-ei, I promise. Penso que na última aula ficámos em Tuesday, 27 April 1943. Certo?

Além do tal diário, estou a ler Toni Morrison "Beloved". Um livro belíssimo, mas confesso que tenho vagueado muito, parado e não tenho dado a este livro a atenção que ele merece. Mas é natural. A minha cabeça anda dispersa e muitas vezes, a atracção pelo telemóvel, pelo facebook retira-me o prazer que sabem tenho pelos livros. Quando acabar "Beloved" que requisitei na Biblioteca Municipal (não sei como o devolverei porque tudo está a fechar) já pus a seguir "A Peste" de Camus porque penso que tem tudo a ver com o nosso momento presente.

Depois desenho. As minhas duas professoras - Joana Verdelho e Manuela Rolão - estão sempre a incentivar-nos a desenhar, porque só com prática se consegue ter à vontade e evoluir. É como com o Inglês, ou qualquer língua estrangeira. Aceitei o desafio de um desenho por dia durante a quarentena, uma espécie de diário gráfico. O meu primeiro foi uma aguarela muito simples "No meu sofá" que postei no facebook e que o Vítor emoldurou. A ideia é todos os dias fazer um desenho. Vamos ver se sou capaz, mas molduras acabaram... 

Ouvir música. Descansar. Não fazer nada. Tentar pelo menos fazer uma saudação ao Sol, agora que não temos aulas de yôga. Ver filmes, aproveitando para ver aqueles que fomos comprando e que nunca arranjámos tempo para os ver. 

Algumas ideias. Já sabem que fico à espera dos vossos emails. em português, in English, as you like.

Beijos e até daqui a uma semana. 

Nota: à medida que vos ia escrevendo, achei que podia alargar este contacto para fora da minha turma de Inglês da UNISSEIXAL e vou publicar este texto no meu blogue. 

Almerinda

 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...