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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Anos de Brasa - Contos e Outros Escritos, 2025

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“Anos de Brasa – Contos e outros Escritos” – Luís Farinha, 2025

Tal como diz o título, “Anos de Brasa – Contos e outros Escritos” é constituído por um conjunto de dez pequenos contos, seguido de textos sobre personagens marcantes da nossa história recente e com ligação ao período revolucionário do 25 de Abril. É um livro denso, muito abrangente no retrato da sociedade portuguesa no período do 25 de Abril, assim como no que o antecedeu e nos anos seguintes. Dá-nos a perspectiva da complexidade desse período único que a nossa geração viveu e protagonizou. Daí o interesse de o trazer a este público que na altura teria entre os vinte e os trinta anos, como memória, mas também como testemunho num tempo de recuo nos direitos que estamos actualmente a viver, lembrando-nos que os direitos conquistados têm de ser preservados pois a sua existência não é um dado adquirido. E se hoje, para os jovens, é com estranheza e até incredulidade que escutam relatos do que era a ditadura e a vida antes do 25 de Abril, “Anos de Brasa” é um testemunho real a necessitar de ser divulgado.

Como se lê no prefácio de Maria Helena Ventura, o 25 de Abril de 74 foi “O confronto quase mítico dos oprimidos com o nada … e o quase tudo, na abertura de múltiplas perspectivas de futuro, … no desesperado anseio de bens essenciais por um proletariado exausto, contra a negação dos que temiam perder privilégios e se agarravam a um passado de 48 anos.”  E acrescenta que o “… povo que, não sendo uma massa homogénea, estava irmanado no despojamento de condições básicas de vida. E de repente, como se levantado do chão pelos braços dos mais fortes, afagava a decisão de obter iguais liberdades para a sua diversidade,” (pág. 7). O desafio era imenso: mudar a vida, mudar mentalidades e lutar contra os saudosistas, sem contar com o receio de represálias que se tinha incrustado ao longo de 48 anos de repressão e medo.  A energia que irrompeu, nunca antes vista, fez nascer uma coragem colectiva, um criar laços, um transformar os sonhos em realidade, não sem contradições, que constituíram esses “anos de brasa” que aqui nos traz Luís Farinha.

Num tempo em que o analfabetismo em Portugal era uma vergonha, sobretudo entre as mulheres e nos campos, foram as jornadas de alfabetização as primeiras acções que levaram centenas de jovens por esse país fora a descobrir esse mundo esquecido de tantas pessoas que só queriam saber escrever o seu nome para deixarem “a vergonha de ter o dedo no cartão de identidade” (pág. 20). O primeiro conto intitulado “Se tivesse durado mais algum tempo…”  mostra-nos quanto esses jovens – o “bando” – aprenderam (porventura mais do que ensinaram!) confrontando as suas teorias, os seus saberes académicos com a realidade, com a desconfiança, com os preconceitos e com o caciquismo viesse ele da igreja, ou de casa.  O grupo, sobretudo de alunas, “vinha à escola como se fosse dia de festa” com um objectivo muito prosaico: saber escrever o seu nome. “Ninguém estava ali para chegar de imediato às estrelas, talvez apenas para nascer com o dia e ver crescer na horta o fruto com que se dá de comer aos filhos.” (pág.25)

As revoluções, mesmo as que são feitas com cravos, são sempre momentos de profundas transformações e todos estes contos nos trazem essas memórias. O surgimento de partidos e organizações, antes na clandestinidade, trouxe ao de cima as diferenças ideológicas, o confronto entre grupos, estudantes e operários com as suas reivindicações, o radicalismo de quem esperou tanto tempo e agora queria tudo e já, o boicote e a sabotagem de quem não queria perder privilégios nem poder, a generosidade e o entusiasmo de quem queria mudar o mundo e o cepticismo de quem achava que “o mundo é feito de ricos e pobres.  Sempre foi assim e sempre será!” Nas revoluções, mesmo as que foram feitas com cravos, a luta de classes não deixa de existir. Antes fica mais acesa.

“Casas sim! Barracas não!” quem não se lembra desta palavra de ordem? Tão actual nos dias de hoje, passados quase 52 anos de Abril. O direito à habitação como direito básico gera um movimento muito forte, com grande mobilização das mulheres, nas ocupações de casas devolutas. Também dessa altura, assiste-se à construção de casas da noite para o dia, só possível graças à solidariedade e entreajuda dos moradores, num tempo em que a força do povo conseguia mover montanhas e responder a necessidades básicas. Também aqui o associativismo através da constituição de Comissões de Moradores foi o impulso para enormes transformações ao nível das infraestruturas, acessíveis de forma assimétrica e muito rudimentar no todo nacional. Nas escolas, pela primeira vez, substituem-se os reitores, muitos coniventes com o antigo regime e experimenta-se a gestão democrática partilhada, enfrentando-se o gigantesco desafio de pensar a escola como bem público aberto a todas as crianças e jovens, independentemente das posses dos pais. Cometeram-se erros? Certamente, mas abriu-se a escola a todos e deram-se os passos essenciais para implantar a Escola Pública como uma das grandes conquistas que depois a Constituição inscreveu como direito fundamental.

A luta estudantil que tinha começado a ter expressão com o eclodir da guerra colonial, intensificou-se com a morte de Salazar e com o marcelismo que, ao contrário do que era expectável, não só não diminuiu a repressão, como a aumentou. Luís Farinha traz em “Anos de Brasa” as incursões da polícia de choque nas universidades e o intensificar da resistência estudantil que lutando contra os bufos e a ausência de liberdade de expressão, se mobiliza abertamente contra a guerra colonial. As tertúlias de intelectuais oposicionistas, as salas míticas de cinema e os cineclubes, alguns poucos professores que se distinguiram na época como o Padre Manuel Antunes, as leituras censuradas e proibidas que eram partilhadas, a morte do estudante Ribeiro dos Santos, todo esse caldo fervia e um dia permitiu a adesão popular massiva que levou o Povo a aprender rapidamente a falar nas assembleias e decidir sobre os seu destino.

Mas nada é linear e a história também não se faz sem sobressaltos, sem contradições, sem desilusões, sem cortes. O sonho da utopia e os caminhos para lá chegar eram diversos e desde cedo se percebeu que a alegria daquele 1º de Maio em que todo aquele mar de gente corria todo para o mesmo lado, não ia durar sempre. Para avançar na revolução era preciso acabar com privilégios, tirar o poder a quem sempre fora único dono e senhor. As nacionalizações e sobretudo a reforma agrária eram medidas demasiado avançadas para poderem resistir. Muitos problemas sociais subsistiram apesar das muitas leis que pela primeira vez deram direitos fundamentais a quem nunca os tinha vivido. Portugal abriu-se ao mundo, aderiu à CEE, acreditou que o fosso que nos separava do mundo iria diminuir. A queda do muro de Berlim e o fim da URSS constituiu para muitos o fim do tempo da utopia. Muitas certezas se desmoronam com a queda do muro, ao mesmo tempo que o individualismo vai paulatinamente substituir o espírito colectivo agregador que tinha irmanado tantos no sonho de um mundo mais igual e mais justo para todos.

A segunda parte de “Anos de Brasa” traz aos leitores testemunhos de conversas entre o estudioso, o historiador Luís Farinha e importantes figuras com relevo na construção deste período revolucionário. Emídio Guerreiro, exilado durante 42 anos, que considerava que tinha tido uma segunda vida aos 75 anos quando ocorreu o 25 de Abril. Homem duma energia e têmpera notáveis morreu com 105 anos em 2005. Não deixava ninguém com dúvidas quando afirmava que nunca tinha sido do PSD, mas sim do PPD.

António Borges Coelho com quem Luís Farinha fez um percurso enquanto aluno, enquanto parceiro nos corpos directivos do Museu do Aljube e enquanto parceiro na produção e divulgação da História em Revistas com o foco na memória da resistência. Homem vincadamente de esquerda, foi inovador em todos os campos a que dedicou a sua inteligência e conhecimento.

Álvaro Cunhal, personagem mítica, amado e odiado, que transformou a programada entrevista de meia hora em cinco horas de conversa. Afinal, aquele poço de sabedoria, o mítico secretário-geral era mesmo inacessível?

José Medeiros Ferreira que no 3º Congresso da Oposição Democrática de Aveiro, em 1973, defendeu uma tese inovadora que um ano depois o MFA parecia decalcar. À teoria dos 3D como ficou conhecida – Democratizar, Descolonizar, Desenvolver – Medeiros Ferreira acrescentou - Socializar. Medeiros Ferreira ambicionava Portugal soberano, fora do controlo quer dos EUA quer da União Soviética.

O livro de José Saramago “Levantado do Chão” e o excelente roteiro que foi concebido pela Câmara Municipal de Montemor-o-Novo para dar a conhecer essa obra merece destaque nos “Anos de Brasa”. E cito: “Roteiro também para os leitores de Saramago e para muitos outros que hão-de começar a sê-lo se perceberem que a literatura, a verdadeira literatura, não é um devaneio deleitoso para entretenimento de ociosos, mas antes uma leitura profunda da vida para compreender e transformar o mundo.” (pág. 176)

Termina Luís Farinha esta sua lição de história com a referência a Manuel Francisco Rodrigues, professor e tradutor, um pacifista, naturista, adepto do vegetarianismo, considerado pela polícia política um “perigoso anarquista”, preso em 1940 quando entrou em Portugal vindo de Espanha. Passou pelo Aljube e pelo Tarrafal. A singularidade das suas ideias e pensamento sempre foram difíceis de serem entendidos por quem com ele lidou, sendo frequentemente considerado lunático. Reabilitado em 1963, voltou a exercer a sua profissão docente em Chaves.

Termino mais uma vez agradecendo a Luís Farinha esta sua incursão na literatura, trazendo-nos este retrato dum tempo que mudou o rumo da nossa história recente e que marcou a nossa juventude.

(Este texto consistiu na apresentação que fiz do livro "Anos de Brasa de Luís Farinha na sessáo do Círculo de Leitura da UNISSEIXAL, que contou com a presença do autor)

28 de Janeiro de 2026

Almerinda Bento

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Maria Antonieta, Stefan Zweig

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Maria Antonieta, Stefan Zweig, 1932


Quando há um ano li “Maria Stuart” decidi que queria ler “Maria Antonieta” uma das diversas biografias que o incansável Stefan Zweig escreveu ao longo da vida. Tal como “Maria Stuart”, “Maria Antonieta” é o resultado de um profundo trabalho de pesquisa, aliado a uma escrita irrepreensível e a uma reflexão pessoal sobre a personagem, a história e todo o ambiente na Europa e na corte francesa nos finais do século XVIII. Esta edição do Círculo de Leitores foi traduzida por Alice Ogando, tal como acontecera na biografia de “Maria Stuart”.


Maria Antonieta é uma personagem trágica, usada na infância como moeda para alianças entre famílias reais através de um casamento de conveniência, sem possibilidade de brincar e crescer num ambiente que não fosse regido pela etiqueta e pelas intrigas, fascinada pelo papel que lhe é atribuído, apesar de nem ela nem o jovem marido Luís XVI estarem à altura desse papel – ele mole e indeciso, ela fútil e superficial. São vinte anos de vida estouvada, com gastos exorbitantes e sem limites que geram uma reviravolta na atitude do povo que deixa de lhe ter o respeito e a estima que antes tivera, para a odiar, caluniar e desprezar. Quando o povo desperta, já é tarde demais para a rainha e para a os nobres que viviam na órbita desta jovem rainha que nuca quis ouvir os conselhos da sua mãe Maria Teresa, a imperatriz da Áustria. Aliás, ninguém tinha a noção da amplitude da revolta popular, uma verdadeira revolução. A rainha fica sozinha, todos os amigos desaparecem, excepto Hans Axel von Fersen, o único que tudo fez até ao fim para tentar salvá-la da justiça popular. Após a tomada da Bastilha a 14 de Julho, os acontecimentos precipitam-se e a roda da História nunca mais sorrirá a Luís XVI e a Maria Antonieta. Acaba Trianon, o palácio da evasão e da futilidade da rainha, a última noite em Versailles será a 5 de Outubro, para nunca mais voltarem. Numa viagem de seis horas para Paris, seguidos pela multidão em fúria, vão ficar presos nas Tulherias, desabitadas há mais de cem anos, desde os tempos de Luis XIV. A tentativa de fuga para Varennes, a constituição da Comuna a 10 de Agosto de 1792, o aprisionamento dos reis no Templo e a abolição da realeza com a decapitação do rei são a sequência de um momento histórico decisivo para a França e com reflexos na Europa. Maria Antonieta está completamente só, “todos a abandonaram” (pág. 370); inclusivamente, o imperador Francisco, sobrinho de Maria Antonieta não mexe uma palha para a ajudar. Só mesmo o embaixador Mercy e Fersen, tentam, no exterior, impedir que Maria Antonieta suba ao cadafalso. Mesmo na Conciergerie “a antecâmara da morte” (pág. 399), onde os carcereiros estabelecem relações de simpatia e amizade com a presa, o medo das represálias da Comuna e da Junta de Salvação Pública falam mais forte.


A mudança na vida de Maria Antonieta operou uma transformação radical na sua atitude e é essa capacidade da escrita que torna este livro tão extraordinário e a personagem de Maria Antonieta tão dramática. “Desde a tomada da Bastilha até ao cadafalso, não cessa de se sentir completamente senhora dos seus direitos” (pág. 211) e, tal como me surpreendeu a descrição da morte de Maria Stuart, nesta biografia, a fibra de uma mulher que quis morrer com dignidade sem dar quaisquer trunfos aos que a acossaram e traíram e aos que a julgaram, mesmo sem terem documentos comprovativos, torna as últimas páginas deste livro verdadeiramente inesquecíveis. “ «Quando te resolves a ser quem és?», escrevia-lhe vinte anos antes, Maria Teresa, desesperada. Agora, a dois passos da morte, começa a encontrar em si mesma essa grandeza que só possuía exteriormente. Quando lhe perguntaram o seu nome, responde em voz alta e clara: «Maria Antonieta de Áustria Lorena, trinta e oito anos, viúva do rei de França.»” (pág. 417) Como num filme, Stefan Zweig é exímio na descrição da atitude e dos sentimentos da rainha e na descrição de toda a envolvência no percurso desde a cela na Conciergerie até ao cadafalso na Praça da Revolução, hoje Praça da Concórdia.


18 de Agosto de 2023


Almerinda Bento


Nota: Ao ler este livro sobre a rainha Maria Antonieta, não pude deixar de me lembrar da minha leitura de “As Luzes de Leonor” de Maria Teresa Horta. Lembro-me que D. Leonor de Almeida Portugal, 4ª Marquesa de Alorna estava em França, em Marselha e que partiu para Paris, porque queria viver de perto a revolução francesa que a fascina e atemoriza, porque a questiona sobre o mundo em que sempre viveu. Vai conhecer mulheres fascinantes, mulheres do povo que falam em liberdade e igualdade, em direitos. São tempos de grandes questionamentos, mas que a atraem imenso e nessa altura conhece Olympe de Gouges.


Leonor associa Paris à Roma incendiada por Nero. Sente-se deslocada entre os revolucionários e as amazonas, mas não quer partir. As mulheres encabeçam o cerco a Versalhes. Leonor não toma posição sobre a revolução e considera que nada será como dantes; é uma mera testemunha e regressa a Marselha.

domingo, 7 de maio de 2023

O País debaixo da minha pele, Memórias de Amor e Guerra, 2010

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O País debaixo da minha Pele, Gioconda Belli, 2010


Este livro de “memórias de amor e guerra” é um testemunho vibrante de uma mulher – desde a infância até ao ano 2000 – que muito cedo se emancipou, que conheceu “a alegria de abandonar o «eu» para abraçar o «nós»” e que escreveu “estas memórias em defesa dessa felicidade pela qual a vida e até a morte valem a pena”, como escreve na introdução ao livro. Apesar das vicissitudes, é um testemunho de esperança pois “O importante, percebo agora, não é ver cumpridos todos os sonhos, mas sim continuar, teimosamente, a sonhá-los.” (pág. 421).


Gioconda Belli foi activista da Frente Sandinista de Libertação da Nicarágua. Proveniente de uma família da burguesia nicaraguense, a sua família era, no entanto, opositora à ditadura de Somoza que vigorou entre 1934 e 1979. De personalidade forte e apaixonada, desde nova quis tornar-se independente o que a levou a casar-se muito jovem e a trabalhar. Mas, ao longo da vida percebeu que ser independente é uma realização difícil e, como nunca se acomodou, não temeu fazer cortes com o “sossego” e com as expectativas que a sociedade reserva para as mulheres. Apaixonada e rebelde, não temeu afrontar a família, o marido, os camaradas de luta, os amantes, a sociedade. Por isso se apaixonou perdidamente, escreveu poesia sem amarras, participou em acções de grande perigo, discordou de orientações políticas da FSLN sempre que achava que estavam erradas, questionou o machismo dentro da organização e ao mais alto nível da liderança e no seio de outros países que, advogando a libertação de homens e mulheres, as subalternizavam ou apagavam… Nos anos 70, a revolução e a poesia irromperam na sua vida em oposição à ditadura e a um casamento sem chama. “Tinha criado asas. Sentia-me capaz de voar sozinha.” (pág. 76) Muito sincera neste seu testemunho de vida, não deixa de referir a sua ingenuidade, os momentos de desalento, os sentimentos de culpa quando tem de fazer escolhas definitivas e dolorosas.


Como refere logo a abrir a Introdução “Duas coisas que não escolhi determinaram a minha vida: o país onde nasci e o sexo com que vim ao mundo”. A lupa de género com que analisa inúmeras situações da sua vida é extremamente interessante, tanto mais que ela viveu no período da guerrilha papéis que a puseram ao mais alto nível do perigo e da responsabilidade. Sendo poeta, intelectual e mulher, conseguiu ter uma posição privilegiada que lhe permitiu mover-se de forma insuspeita em certos meios. Mas, após a revolução e no interior da organização, aparecia apagada atrás do chefe, uma subalterna, uma funcionária, não poucas vezes perfeitamente consciente de que se deixava apagar e anular submetida à paixão pelo chefe.


A narrativa é-nos apresentada sem ordem cronológica em dois momentos da vida da autora. Na Nicarágua, no exílio no México e na Costa Rica ao longo dos anos 70 e 80, período em que milita na FSLN e a partir dos finais dos anos 80 e 90 quando, casada com um cidadão norte-americano, vive alternadamente nos EUA e na Nicarágua. Para nos permitir uma melhor compreensão da sua narrativa, Gioconda Belli apresenta uma breve cronologia da história da Nicarágua desde a chegada de Cristóvão Colombo ao território da América Central em 1502, o período da longa ditadura somozista, vitória da FSLN em 1979 até à sua derrota nas eleições de 1990 e a chegada de Violeta Chamorro ao poder. Território estratégico sempre debaixo da cobiça dos governos dos EUA, a Nicarágua é sujeita a uma ofensiva feroz do governo de Donald Reagan com manobras militares provocatórias e sanções económicas duríssimas que minaram uma revolução politicamente frágil e cheia de debilidades sociais, em que a pobreza, o analfabetismo e as necessidades básicas eram profundas. A felicidade colectiva dos primeiros momentos precisava de ver respondidas tarefas gigantescas. Mas a improvisação, a ingenuidade e impreparação dos guerrilheiros, também eles minados por divisões, não conseguiram lograr que a revolução sandinista resistisse por muito tempo. Gioconda Belli não deixa de referir a imensa solidariedade internacional de muitos intelectuais de todo o mundo à causa nicaraguense, quer durante a luta contra a ditadura, quer já no período da revolução vitoriosa e o extraordinário empenho militante e voluntário da juventude da Nicarágua nas acções de alfabetização e nas campanhas do café.  


Este livro apaixonante, traduzido por Rui Pires Cabral, chegou-me às mãos por oferta de uma amiga cuja sobrinha, através da venda deste livro, angariou fundos para ir fazer voluntariado numa escola para crianças desfavorecidas na Colômbia. Nunca tinha ouvido falar de Gioconda Belli; aliás, nunca tinha lido nenhum autor nicaraguense e só através deste livro fiquei a saber que Gioconda Belli tem recebido inúmeros prémios literários pela sua obra poética e pelos romances.


Estas memórias terminam no ano 2000, quando Gioconda Belli vivia entre o seu país amado, a Nicarágua, e os Estados Unidos da América, o país do seu último marido. Neste ano de 2023, Gioconda Belli vive actualmente em Espanha, tendo aceitado a oferta do presidente Gabriel Boric do Chile para se naturalizar chilena. Com efeito, ela e mais de trezentos cidadãos da Nicarágua têm sido perseguidos e perderam a nacionalidade ao longo dos últimos cinco anos, na sequência da repressão e silenciamento de todas as vozes dissidentes, por um governo dirigido por Daniel Ortega, antigo combatente e dirigente sandinista que como ela ajudaram a derrubar a ditadura de Somoza. As voltas que o mundo dá!


6 de Maio de 2023


Almerinda Bento

domingo, 2 de outubro de 2022

À Procura da Manhã Clara, Ana Cristina Silva

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À Procura da Manhã Clara”, Ana Cristina Silva, 2022

 

Desde que li pela primeira vez o livro “O Rei do Monte Brasil” de Ana Cristina Silva, nunca mais deixei de acompanhar a sua produção literária. Fascina-me a sua capacidade de caracterização das personagens e o modo como organiza as suas narrativas, conseguindo criar uma empatia perfeita com o leitor.

Em “À Procura da Manhã Clara”, a narrativa é entremeada por cartas de Annie Silva pais, filha do último director da PIDE, dirigidas a diferentes pessoas. Logo no Prólogo, Annie estabelece a diferença entre a mãe que anotava na sua pequena agenda “coisas verdadeiramente ridículas” (pág. 11), e ela que desde sempre escreveu cartas “para exorcizar os sofrimentos de infância” (pág. 12). Amarfanhava-as, deitava-as fora e depois disso era capaz de sorrir. Mais tarde, já adulta, escreveu várias cartas aos pais, aos amores, aos amigos, mas nunca as enviou: “Nessas cartas jogava mais audaciosamente com a verdade e por isso mesmo nunca as enviei.” (pág. 13). Guardou-as numa caixa de sapatos e, ao relê-las, perto da morte, descobriu “quem tinha sido verdadeiramente” (pág. 13). Na última carta, dirigida a Che, Annie escreve “Estas cartas nunca enviadas retratam-me melhor do que todos os discursos por mim proferidos.” (pág. 273).

Annie é uma mulher idealista, apaixonada, com uma profunda ânsia de liberdade que sufoca numa relação de absoluto antagonismo com a mãe e com o regime retrógrado, conservador e opressivo da ditadura. Se o antagonismo entre filha e mãe não lhes dá azo a qualquer laivo de amor filial e maternal, tal não acontece na sua relação com o pai, cheia de sentimentos ambíguos, por estarem ideologicamente em lados opostos. Se a antipatia pela mãe tem a ver com um ideal de vida baseado nas aparências e na futilidade, saber que o pai, que sempre fora o seu herói, é o responsável pelo aparelho repressivo que persegue, tortura e mata, causa-lhe um imenso desgosto.

Portugal é um país triste e pobre, de mulheres sofridas, vestidas de negro, de olhos baixos, subjugadas e submissas. D. Nita, a mãe de Annie, é o símbolo da mulher da elite ligada ao poder, fútil e inclemente, minuciosamente caracterizada na sua vacuidade ao longo do livro, quer nos momentos em que está em alta, quer em situações como quando vai para a prisão ou quando é confrontada com a necessidade de apoiar a filha gravemente doente.

Os sentimentos altruístas e de apego à revolução cubana por parte de Annie, materializados na sua paixão por Che e pelos heróis da Sierra Maestra, no espírito de sacrifício em prol do colectivo e no seu empenhamento profissional nas missões em que participa como tradutora e intérprete, permanecem vivos até ao fim. Os desencontros amorosos, a degradação do rumo político a que aspirava em Portugal e no mundo, a morte do pai, as traições no país que escolheu para viver e a sua doença tornam Annie uma figura trágica e solitária, que a autora tão bem retrata.

 

Nota: Quando terminei a leitura das quase trezentas páginas do livro, voltei ao princípio e reli todas as cartas que Annie nunca enviou e que guardou na caixa de sapatos.

 

 

30 de Setembro de 2022

Almerinda Bento

 

 

 

 

domingo, 2 de janeiro de 2022

As Boas Intenções, Augusto Abelaira

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As Boas Intenções”, Augusto Abelaira, 1963


 


Este foi o penúltimo livro que li em 2021 e o segundo de Abelaira que leio este ano, depois de “A Cidade das Flores”. Quer “As Boas Intenções” quer “Sem Tecto entre Ruínas” que irei ler no início deste novo ano foram herdados da minha irmã, os quais aguardavam a sua vez há alguns anos.


“As Boas Intenções” foi escrito em 1963 e a sua acção decorre num período revolucionário, na transição entre a monarquia e a república, no início do século XX. O valor deste livro é acrescido com um posfácio escrito por Abelaira em Janeiro de 1978, que é o prefácio à 3ª edição, ou seja, quatro anos depois do 25 de Abril, “num dia de excessivo pessimismo, em plena crise governamental”. Em 1963, quando Abelaira escrevera “As Boas Intenções”, vivia-se um período de desalento, após o fracasso das ilusões suscitadas pela candidatura de Humberto Delgado e posteriormente a frustração que foi o golpe de Beja. O desalento do autor era o desalento dum povo sem esperança face a um ditador que parecia imortal. A literatura, aquele livro era uma espécie de “exorcismo”, “uma tentativa de interferir na História recorrendo a palavras mágicas”. “Só um milagre, portanto” podia deitar abaixo o regime de Salazar que parecia eterno. “Agora” (Janeiro de 1978), “que o nosso país caiu na mediocridade sem esperança, a literatura terá talvez de novo o seu papel. A magia ainda que disfarçada, digo.” Céptico em relação à possibilidade de sucesso de todas as revoluções e também da revolução de Abril, Abelaira considera “ingénuo” o seu texto, quase “um acto de superstição”, quando de novo confere à literatura o papel de enganar a História, de fazer magia, como se de um exorcismo se tratasse.


Como anteriormente referi, “As Boas Intenções” decorre no período pré-implantação da República, marcado por conspirações. Se há a crença de que o derrube da monarquia trará uma vida melhor ao povo, que os que apoiarem a República serão recompensados (com uma casa), os protagonistas mostram-se pessimistas: “As revoluções fazem-se com mentiras”. “A República não vai modificar a sorte destes homens. Para que servirá então? Para substituir clientelas?”pergunta Brenda a Vasco que lhe responde “Para entreabrir a porta por onde hão-de entrar os homens de boa vontade. Os das revoluções a sério” (pág. 234).


Maria Brenda, filha de Alexandre a Maria Carlota, envolvida no movimento conspirativo, debate com outros protagonistas a perspectiva que cada um tem sobre a revolução, sobre a mudança, sobre o presente e o futuro, sobre a realização pessoal versus satisfação do colectivo: “Sim, haverá uma revolução quando cada um de nós estiver disposto a fazê-la, só há revoluções quando somos nós que as fazemos.” A incerteza de que a revolução será vitoriosa é a falta de crença nos homens e nas ideias, a convicção de que “não há homens justos.”


O livro é um mosaico de momentos, de diálogos a acontecer entre diferentes protagonistas – Brenda e Vítor, Alexandre e Maria Carlota – que, embora distintos, têm traços comuns, são um continuum. Os anos passam, mas afinal as coisas não mudam, tudo se repete.


Lembrando a revolução de Abril e o que foi o movimento dos capitães que derrubou a ditadura em 1974, o último parágrafo de “As Boas Intenções” é extraordinariamente premonitório e refere-se à queda do regime monárquico a 5 de Outubro de 1910, com a entrada dos revoltosos no quartel de prevenção há várias noites: “Horas depois, com uma facilidade que tantos anos de sofrimento e de lutas não deixariam prever, quase sem resistência, meia dúzia de tiros ou pouco mais, o regime caía. Definitivamente?” (pág. 255)


Um livro que dá que pensar. Um mestre da literatura, atento, pessimista, para quem escrever foi uma forma de agir.


 


26 de Dezembro de 2021


 


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...