Mostrar mensagens com a etiqueta verão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta verão. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Três Verões, Julia Glass

Três Verões.jpg



Publico aqui o que escrevi há 8 anos, sobre uma das minhas leituras desse Verão de 2013

 

“Três Verões”, Julia Glass, 2002



O que nos faz gostar de um livro? O que nos faz lê-lo até ao fim?

Várias são as respostas possíveis, para mim neste caso, a escrita fluente, a proximidade e a pertinência de certas situações, a mestria da autora em manter o/a leitor/a ligado/a, mas também as referências às cidades ou locais onde a acção se passa, a presença da natureza, a riqueza e complexidade das diversas personagens deste livro com cerca de cinco centenas de páginas.

Os temas da morte, da “última morada”, da homossexualidade, da eutanásia, dos primeiros anos do surgimento da sida, da fertilidade ou da sua ausência, da inseminação artificial, o dar a vida e também o dar a morte, a solidariedade, a gravidez desejada e o aborto surgem ao longo do romance e colocam às personagens e ao/à leitor/a perplexidades, dúvidas e a necessidade de fazer escolhas. Foi tudo isto que me fez ficar ligada a este livro que uma amiga me havia emprestado há já algum tempo.

A acção desenvolve-se ao longo de três períodos diferentes, nos meses de Junho de 1989, 1995 e 1999. Na primeira parte, Paul McLeod na condição de recém-viúvo, parte numa excursão até à Grécia e às suas famosas ilhas. Mas é sobretudo através dele e das suas memórias, enquanto narrador, que entramos na sua vida na Escócia, casado com uma mulher independente, criadora e treinadora de cães pastores (collies) e pai de três rapazes. Mas a Grécia e sobretudo a ilha de Naxos fascinaram-no de tal modo que passou a ser local de posteriores viagens de férias, tendo acabado por aí falecer num desses verões.

O reencontro dos três filhos – Fenno e os gémeos David e Dennis - na Escócia, na segunda parte do livro, por ocasião da morte e funeral do pai, desvenda as personalidades das personagens e das famílias que entretanto se constituíram e é o ponto de partida para o enredo do livro. Fenno, o mais velho, há anos a residir em Nova York, homossexual, é o narrador e também a personagem central e mais marcante em todo o livro, a quem são colocados os desafios mais difíceis, desde ajudar o seu amigo Mal a morrer, até ser dador de esperma que permita a gravidez da mulher do seu irmão David.

Embora a estrutura do romance seja feita de cenas e capítulos que decorrem em momentos diferentes, em que somos levados a andar para a frente e para trás no tempo, a leitura é um puzzle que encaixa na perfeição. Para além dos temas tão actuais a que me referi anteriormente, a autora consegue transmitir-nos o seu amor pela natureza e ao nomear as flores das paisagens da Escócia – peónias, dedaleiras, íris, lilases, rosas, alfazema, gardénias, jacintos – é toda uma sinfonia de cheiros, de perfumes, de cores, um convite à leitura deste livro com todos os sentidos. Quase no final, o remate perfeito com a referência a “A Pastoral” de Beethoven.

Termino com a indicação de que este livro foi o vencedor do National Book Award.

11 Agosto 2013

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Já fizeste a mala?

20210730_170659.jpg


Estou a fazer, mas este ano não vou ser tão ambiciosa como em 2020. 


Eu sei que eles não se importam de viajar e que adoram que eu viaje com eles. Mesmo se voltarem sem terem sido abertos, sabem que não vão ficar esquecidos e que o seu dia há-de chegar. Sinto saudades de viajar com Paul Théroux, mas decidi que estes também não podiam esperar mais e que neste Agosto vão ser os meus companheiros de viagem. 


Os desenhos têm ficado parados e eu sei como tenho dificuldade de conciliar as duas actividades. Na bagagem também irá outro material. Logo se verá se serão as aguarelas ou os pastéis, mas será sempre desenho de observação e no campo o manancial de motivos é infinito. 


Agora que estou na minha estação preferida, ambiciono sempre agarrar com as duas mãos o dia, a luz, o calor, a calma, o silêncio. 


A todos e todas que vão seguindo estes meus escritos sem prazo nem obrigação, com a descontracção do tempo que se vive e que corre veloz, boas férias. Dias felizes. 

sábado, 25 de maio de 2019

O fascínio dos jacarandás

jacarandás.jpg


De repente, surgem as primeiras flores lilás na copa das árvores e ao fim de poucos dias é o fascínio dos jacarandás cobertos com as suas flores maravilhosas. Sem precisarmos de olhar para o calendário, olhamos para o céu e aquela explosão de flores de jacarandá anuncia para breve a festa dos livros no Parque Eduardo VII, a Feira do Livro. São também os primeiros sinais de que o Verão está a chegar.


Árvore originária do Brasil, o clima quente de Lisboa e de terras ao sul do Tejo, permitiu que ela se sentisse bem no nosso país, desde que, por ordem do director do Jardim Botânico de Lisboa, se instalou por cá, no início do século XIX. As flores não vão demorar muito tempo nas copas e irão atapetar os passeios cobrindo-os com um manto roxo, mas enquanto duram são uma delícia para os olhos.


Eugénio de Andrade também se deixou fascinar pelos jacarandás de Lisboa:


"São eles que anunciam o verão. 
Não sei doutra glória, doutro 
paraíso: à sua entrada os jacarandás 
estão em flor, um de cada lado. 
E um sorriso, tranquila morada, 
à minha espera. 
O espaço a toda a roda 
multiplica os seus espelhos, abre 
varandas para o mar. 
É como nos sonhos mais pueris: 
posso voar quase rente 
às nuvens altas – irmão dos pássaros –, 
perder-me no ar."


 


ou neste outro texto intitulado "Em Lisboa com Cesário Verde" in Homenagens e outros Epitáfios de 1986


"Nesta cidade, onde agora me sinto


mais estrangeiro do que os gatos persas;


nesta Lisboa, onde mansos e lisos


os dias passam a ver as gaivotas,


e a cor dos jacarandás floridos


se mistura  à do Tejo, em flor também,


só o Cesário vem ao meu encontro,


me faz companhia, quando de rua


em rua procuro um rumor distante


de passos ou aves, nem eu sei já bem.


Só ele ajusta a luz feliz dos seus


versos aos olhos ardidos que são


os meus agora; só ele traz a sombra


dum verão muito antigo, com corvetas


lentas ainda no rio, e a música,


o sumo do sol a escorrer da boca,


ó minha infância, meu jardim fechado,


ó meu poeta, talvez fosse contigo


que aprendi a pesar sílaba a sílaba


cada palavra, essas que tu levaste


quase sempre, como poucos mais,


à suprema perfeição da língua."


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...