sexta-feira, 31 de julho de 2026

Coração sem Medo, Itamar Vieira Junior



“Coração sem Medo”, Itamar Vieira Junior, 2025

Que difícil é escrever sobre um livro e uma trilogia tão fortes, tão profundos, tão universais. Impossível não ficar com a sensação de que qualquer coisa que se escreva como reflexão depois desta leitura ficará sempre muito aquém e será muito pobre face a um trabalho de grande fôlego como é esta Trilogia da Terra. 

Neste “Coração sem Medo” vamos descobrir a ligação de Rita a Donana e a Carmelita que nos tinham aparecido em “Torto Arado”, tal como em “Salvar o Fogo” descobrimos Maria Cabocla (Mariinha) irmã de Luzia. As histórias entrelaçam-se, os anos passam e os lugares são diferentes, mas há um continuum que vem dum passado remoto, da escravização, da luta pela terra e pela dignidade, numa resistência contra as opressões sem fim que teimam em permanecer.

Em todos os três livros, partimos duma situação inicial dramática, em torno da qual se vai desenvolver a narrativa. Aqui Rita, que podia ser Ritinha, mas que ficou sendo Rita Preta, para o nome não ser confundido com o da patroa, confronta-se com uma situação limite: o desaparecimento de um filho. Numa sociedade profundamente injusta e desigual, violenta, marcada pelo atropelo de direitos, pela precariedade e pelo racismo, Rita Preta mora numa comunidade pobre em que os moradores são, à partida, tratados como bandidos. O pressuposto é que, se Cid, jovem adolescente filho de Rita Preta desapareceu, alguma coisa deve ter feito. Alguém a medo confessa que assistiu à cena da sua captura pela polícia. A aflição, o desespero inicial, o sentimento de culpa, o lutar, o não ficar parada, o resistir às ameaças, o vencer o medo, o cair e levantar-se, por tudo isto passa Rita Preta que tem de gerir o cuidar dos outros filhos e sobreviver com o pouco que tem, sem desistir de descobrir o paradeiro do filho desaparecido. Face às ameaças explícitas “Isso é o que fazemos com mulheres fortes” (pág. 141) só há duas hipóteses: calar ou expor-se. 

Neste mover o mundo para localizar o filho, Rita Preta também descobre solidariedades e outras mulheres a viver o mesmo drama, que se entreajudam, que partilham as suas histórias e fazem disso a sua força. “Quando alguém desaparece, é como se a vida não terminasse. Está faltando alguma coisa. É uma história sem ponto-final.” (pág. 261) E mesmo num mundo desumanizado e corrompido pela desesperança ainda há funcionários dos serviços com coração e humanidade, prisões onde há um espaço para a leitura e para a conversa, associações que dão o seu tempo para lutar contra a arbitrariedade. Sendo este um livro muito duro, ele consegue, no entanto, ser um raio de esperança para um futuro mais justo.

Um dia, no meio dos muitos afazeres, Rita Preta - trabalhadora precária, mãe sozinha com três filhos a cargo - desabafa: “Minha vida daria um livro.” (pág. 272). Mal ela sabia que um dia, Cainho, o filho do meio iria registar a história da mãe, da avó, da bisavó, das e dos que as antecederam, ligando a história da família à história do Brasil, da escravização, como forma de resistência, lutando contra o esquecimento, pelo direito à preservação da memória.

Esta Trilogia da Terra que agora chega ao fim é um registo vivo, não linear, com incursões em múltiplos tempos, espaços e personagens e trazendo diferentes vozes e narradores que irão permanecer vivos na memória por muito tempo.

29 de Julho de 2026

sábado, 18 de julho de 2026

"Salvar o Fogo", Itamar Vieira Junior

 


“Salvar o Fogo”, Itamar Vieira Junior, 2023

Antes de me lançar neste “Salvar o Fogo” e a seguir no “Coração sem Medo”, voltei à leitura de “Torto Arado” que tinha lido há quatro anos. Queria recordar um livro que tinha amado, para melhor me preparar para a abordagem da trilogia de Itamar Vieira Junior. “Salvar o Fogo” é soberbo, uma escrita mágica que nos leva ao Brasil sofrido da Tapera do Paraguaçu.

O centro da narrativa é a história de uma mulher que rejeita a sua maternidade, que decide entregar o fruto da violação às águas do Paraguaçu.  Um parto em noite de lua cheia, assim começa “Salvar o Fogo”.

A Tapera, onde Mundinho e Alzira criaram os seus filhos – Raimundo, Humberto, Joaquim, Zazau, Mariinha e Luzia – é um lugar marcado pela pobreza, sem futuro, de onde os rapazes partem para a cidade em busca do futuro, ou as meninas partem para casar. “O destino das meninas era o de serem levadas de suas famílias para cuidarem de homem e de casa, antes mesmo de se tornarem mulheres.” (pág. 201) Muitas vezes para nunca mais voltarem, ou apenas para a despedida do pai ou da mãe moribundos. Luzia é a única que não parte, a que está marcada com o anátema de ter poderes mágicos, de ser feiticeira e de transportar consigo o Mal.

O povo pobre que trabalha a terra recebida dos seus antepassados é espoliado e desapossado das suas roças por gente sem escrúpulos a mando dos que querem constituir grandes propriedades. “Os pobres não tinham direito sequer à própria cova. A terra jamais seria dos pobres, nem mesmo depois de mortos.” (pág. 230) Para além dos senhores da terra, é a Igreja que manda na Tapera. O símbolo material do seu poder é o Mosteiro, a escola do Mosteiro, o abade Tomás e os cobradores a mando da Igreja, implacáveis a cobrar ao povo um imposto indevido. Além disso, é todo um sistema de opressão, de violação de direitos, de abuso, de apagamento das crenças e da cultura ancestral - “tudo coisa de gente índia e preta” (pág.142) - que faz com que a Igreja tenha as mãos manchadas de sangue, servindo-se da ignorância e do temor do povo para o virar contra si próprio, em vez de se rebelar contra quem o oprime.

As vidas dos “despossuídos” (pág. 239) da Tapera são vidas marcadas pela violência, sofrimento e resistência. Na Tapera há mulheres que morrem de melancolia, mulheres que engolem a raiva e se submetem para dar um futuro melhor aos filhos, mulheres que só têm possibilidade de viajar quando se tornem viúvas, mulheres que tapam a boca porque não têm dinheiro para pôr os dentes que lhes faltam, mulheres que são apedrejadas porque são apontadas como o símbolo do Mal, mulheres que enfrentam os homens que lhes roubam as terras, mulheres solidárias, mulheres que perdem o medo e se libertam. São sobreviventes e guerreiras.

A última parte do romance – A alma selvagem – entrelaça de forma magistral a história do Brasil, a colonização, a escravização, o passado e o presente, o antes e o agora, as narrativas dos diferentes narradores e protagonistas e em tempos diferentes. Ao ler as histórias destas mulheres e destes homens não consegui deixar de recordar a fantástica exposição Complexo Brasil acolhida na Fundação Calouste Gulbenkian neste ano e de recordar o manto de penas com que Luzia se cobre no final do romance, quando se dirige ao local da terra que era do pai: “Seu nome é coragem, e já não teme a morte.” (pág. 334)

17 de Julho de 2026

 

 

 

 

 


sábado, 11 de julho de 2026

"Perdeu-se Relógio de Senhora", Alice Brito

 




“Perdeu-se Relógio de Senhora”, Alice Brito, 2026

 

Este é o mais recente livro de Alice Brito e, para quem já leu os outros livros desta autora, vai reconhecer em pleno o seu estilo, a linguagem, os temas, a personalidade da escrita e também a frescura e novidade que os seus livros sempre trazem. Frases curtas, incisivas, certeiras. Como não podiam faltar, a cidade de Setúbal e José Afonso fazem parte integrante deste quarto romance de Alice Brito. E a voz da narradora, sem papas na língua, a pôr o dedo na ferida num tempo de retrocesso, de negação, de saudosismo é, certamente, uma marca de água da escrita de Alice Brito.

“Perdeu-se Relógio de Senhora” começa assim: “Tinha-se muita sede por esses tempos” (pág. 11). O romance traz-nos as vidas de três mulheres nascidas em tempos diferentes do século passado e em terras diferentes, as quais, por mero acaso, vão partilhar um apartamento na Duque d’Ávila em Lisboa. As múltiplas referências ligadas às suas vivências e percursos ao longo dos anos ajudam-nos a contextualizar aquele(s) tempo(s) e reflectem um cuidadoso trabalho de investigação que nos permite recordar o Portugal da segunda metade do século passado, como também as importantes lutas operárias e as transformações sociais anteriores. Um Portugal com “muita sede” que subalternizou as mulheres, sujeitou o povo a uma feroz repressão, onde o medo e a hipocrisia medraram - “um país trágico” (pág. 132) - mas em que a luta de classes nunca deixou de existir e que acabou por desembocar na “década de espanto” (pág. 221) quando finalmente Beatriz, Benvinda e Bia, tão diferentes, se encontraram e partilharam uma casa em comum.

Finalmente o 25 de Abril. “Há dias e dias. E aquele dia, um dia líquido em que se matou a sede, por muita tropelia e análise variada e avariada que se lhe faça, resgatou do pesadelo todo um povo que só queria ser gente. Gente a sério.” (pág. 315)

Este livro é uma necessidade num tempo em que comemoramos os 50 anos da liberdade e nos confrontamos com a falta de vergonha, com o desaforo da mentira e todos os tiques da subserviência à extrema direita saudosa do fascismo. Mas é também um grito de esperança e de amor a esse “dia de ouro na memória de quem penou o viver antes.” (…) “Falar de Abril, sem lhe juntar a palavra liberdade, ou alegria, ou coragem é o mesmo que trair um amigo pelo esquecimento, pela omissão ou pelo desprezo.” (pág. 316)

Ler este livro é continuar a dialogar com a acutilância e clareza da escrita de Alice Brito. Para quem ainda não conhece a obra desta autora defensora da causa feminista, é o incentivo para a descobrir, começando por “As Mulheres da Fonte Nova”, “Um romance histórico arrebatador sobre a dor e a sobrevivência das mulheres de todos os tempos”, transcrevendo as palavras de Cristina Carvalho num artigo no Jornal de Letras.

27 de Junho de 2026

Almerinda Bento

 

 

 

 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...