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sexta-feira, 28 de março de 2025

El-Rei, Nosso Senhor, Sebastião José, Ana Cristina Silva

 


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El-Rei, Nosso Senhor, Sebastião José, Ana Cristina Silva, 2024


 


Neste romance biográfico sobre a vida e obra de Sebastião José de Carvalho e Melo, Ana Cristina Silva ajuda-nos e recordar a segunda metade do século XVIII em Portugal, sobretudo o período de vigência do rei D. José I, altura em que Sebastião José conseguiu alcançar a notoriedade que o levou a ficar na História.


O romance está organizado em dezoito capítulos encimados por um sumário que acompanha a vida do Marquês de Pombal que nem sempre segue uma ordem cronológica.


Nascido no último ano do século XVII e falecido em 1782, foi ao longo de vinte anos do reinado de D. José I que paulatinamente ganhou uma relevância e um poder tal, passando de “fidalgote” à segunda figura do reino. Ainda no tempo de D. João V tinha sido enviado para Londres como embaixador e para Viena como emissário para mediar o conflito entre o papado e Maria Teresa de Áustria, mas só em 1750, ao ser nomeado secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, o rei D. José I lhe atribui um cargo de peso no reino. No entanto, são o terramoto de Lisboa em 1755 e a tentativa de regicídio em 1758, as peças fundamentais para a ascensão de Sebastião José na vida política portuguesa da altura. Homem ambicioso, com uma energia imensa e grande capacidade de trabalho, para além da visão do mundo e da realidade do país e da cidade de Lisboa após o terramoto, Sebastião José aproveitou o seu lugar de privilégio como secretário do reino para se vingar das humilhações, invejas e intrigas de quem o via como “fidalgote” e passar a figura temível da corte a quem todos faziam vénias. Com uma visão moderna para a cidade arrasada, rodeou-se de grandes nomes para construir uma Lisboa nova, de modo a que “nunca mais ninguém apelidaria Lisboa de «a famosa estrebaria»” (pág. 33). Tendo como principais alvos a abater o duque de Aveiro, os Távora e os jesuítas da Companhia de Jesus, conseguiu insinuar-se junto ao rei e encontrar culpados para o atentado ao rei, sendo implacável e sem remorsos nas punições que decretou. “Quantas vezes se tem a oportunidade de mudar um país e ao mesmo tempo derrubar os inimigos?” (p. 148). No entanto e desde sempre, Sebastião José se apercebeu que sendo a segunda pessoa mais importante do reino, a sua dependência do rei era absoluta. Em 1759, quando o rei lhe conferiu o título de conde de Oeiras, ele que nunca antes tinha tido um título nobiliárquico, “o seu sangue passou a ser o sangue da alta nobreza” (p. 195).


O declínio físico do rei assolado por várias doenças ditou o fim do conde de Oeiras, que entretanto, aos 70 anos, tinha também recebido o título de Marquês de Pombal. Afinal, a vassalagem, a preferência por “ser temido a amado” (pág. 288) ocultava a hipocrisia dos vassalos do rei, os ódios contra o secretário de D. José I, a sua fragilidade e o ódio do povo que se manifestava n’”as piadas e versos que pretendiam evidenciar a familiaridade reiterada do secretário do Reino com o crime e a malvadez.” (pág. 330). A morte do rei e a subida ao trono de D. Maria conduzem à exoneração e exílio de Sebastião José para a vila de Pombal, longe da corte e sem acesso ao conforto do seu magnífico palácio de Oeiras que a sua mulher Eleonor Ernestina tão dedicadamente tinha providenciado. O processo dos marqueses de Távora é aberto, os quais são ilibados, ao passo que o Marquês de Pombal é considerado culpado, sendo poupado à morte devido ao seu estado de saúde extremamente débil.  


Muitíssimo inteligente, toda a sua vida foi pautada pelo tacticismo e a ambição de que o seu nome perdurasse para a história como um grande político com uma obra vastíssima em vários campos, no sentido de engrandecer o país, retirando-o do obscurantismo e fanatismo e dos abusos da velha aliança com a Inglaterra. Por isso, na fase final da sua vida, quando o brilho do poder já não incidia sobre ele, dedica-se a escrever tentando deixar as memórias da sua acção de modo a que a sua reputação não fique manchada para o futuro.


Como é timbre da escrita de Ana Cristina Silva, neste romance histórico a autora é exímia em analisar os estados de alma de um homem com uma personalidade complexa, ambicioso, implacável com os seus adversários, apaixonado, sensível, brutal, manipulador e que apesar do seu poder absoluto, tinha momentos de absoluta solidão e fragilidade. Só alguém como Ana Cristina Silva para mostrar uma época importantíssima da nossa história, a partir duma personagem que, passados quase três séculos, continua a ser controversa.


26 de Março de 2025


Almerinda Bento

domingo, 12 de fevereiro de 2023

Um Dia chegarei a Sagres, Nélida Piñon

Um Dia Chegarei a Sagres


“Um Dia chegarei a Sagres”, Nélida Piñon, 2021


 


Este livro foi-me oferecido pela minha amiga Guilhermina, grande amiga e editora em Portugal de Nélida Piñon, um dos “Amigos e Cúmplices de Lisboa” a quem a autora dedicou este livro. Com tantos livros que vou amontoando e em lista de espera para serem lidos, acabei por iniciar a sua leitura após o anúncio da morte da escritora brasileira de ascendência galega, em finais de 2022. Nélida Piñon foi uma personalidade marcante da cultura e literatura brasileiras, tendo sido a primeira mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras em 1966. A sua obra é extensa, tais como são os prémios e galardões com que foi distinguida ao longo da vida.


“Um Dia chegarei a Sagres” é uma odisseia que decorre no século XIX e para a escrita da qual a autora se preparou ao longo de vários anos, tendo sido parcialmente escrita em Portugal. Nas palavras da própria autora “ Cheguei a Portugal sabendo por onde caminhar, mas precisava estar lá pessoalmente para captar a paisagem, os enigmas do povo, os locais onde o sangue foi derramado. Eu precisava descobrir de onde veio esse nosso idioma deslumbrante. Sou valente, audaciosa. Enfrentei a pandemia com a minha literatura”.


Mateus é o centro desta história. Homem do Minho, criado e educado pelo avô Vicente, Mateus tem um sonho. “Um dia chegarei a Sagres” é o mantra que repete ao longo do livro. A narrativa começa com Mateus em Lisboa, pobre, velho e doente, sabendo que já tem pouco tempo de vida e por isso quer contar a sua história.


Sagres foi o sonho, a ambição, mas foi também o local onde deixou os seus fantasmas. Na sua terra natal “a vida reduzia-se à terra, aos animais, ao sexo, ao pão e ao vinho. O sonho fora abolido.” (pág. 58) São, no entanto, o avô e o professor Vasco da Gama, que pela primeira vez lhe falara do Infante D. Henrique, as suas referências de infância, que o levam a ter esse sonho, essa ambição. “Enquanto forcejava o intelecto daqueles alunos a crer na soberania da história, eu acatava os seus preceitos sem resistência. Como sabendo que falava da vida que alguém no passado vivera por mim e que eu agora prosseguia em seu nome.” (pág. 22). “Na cozinha, à noite, perdia-me em conjeturas, de como chegar um dia a Sagres, a pé ou de barco. Ao encontro do Avis…” (pág. 23).


E enquanto não chega esse momento da partida, depois da morte do avô Vicente, a única pessoa que o ligava à terra, é o amor aos animais o único amor que Mateus conhece: a ovelha Antónia, o jumento Jesus, a galinha Filomena. Tal como o avô Jerónimo de Saramago, também o avô Vicente acolhia os animais em casa nas noites de Inverno. “ A morte do jumento doeu-me como nenhuma outra” (pág. 46). Mais tarde, já na viagem de Lisboa a caminho de Sagres adoptará o cão Infante que vai passar a ser o seu melhor amigo.


O amor, a ausência de amor, a inacessibilidade do amor, o sexo e a sexualidade são igualmente temas muito fortes nesta obra. A personagem da mãe Joana que o rejeitou à nascença levam-no a descarregar nas mulheres com quem tem relacionamentos sexuais a falta de amor que nunca recebeu da mãe. O amor por Leocádia tornado inacessível pelo poder controlador da tia Matilde. E a “teia de aranha” (pág. 261) em que o Africano “marcado por um estigma que só eu conheço” (pág. 293) o vai enredando, que o “afligia e atraía ao mesmo tempo” (pág. 262), irmana-o, pois “Minha febre é como a sua. Ambos sofremos.” (pág. 265).


Outras personagens marcam esta história que nos é narrada por Mateus, de que destaco Ambrósio e Amélia, ambas realçadas pela sua personalidade e sobretudo pela coragem em enfrentarem a pobreza e a fome, em muito assemelhando-se aos navegantes. Ambrósio é o alfarrabista que o acolhe na sua casa em Sagres e que compartilha com Mateus a paixão pelo conhecimento e pela história. Amélia, a mulher sem-abrigo que Mateus vai acolher em Lisboa, no final da vida – “a Bárbara reencarnada” que “Morreu para salvar Camões” (pág. 356) – com quem vai aprender “lições de generosidade” (pág. 353) e com quem se vai abrir como nunca antes fizera. “Amélia é a luz do dia. Sei-me vivo graças a ela. Ao deslizar em volta a mim ainda deitado, espera o meu coração se animar. Como querendo ela na sua modéstia apagar as doloridas razões que me expulsaram da paisagem do Algarve e trouxeram-me de volta a Lisboa, junto com meus fantasmas.” (pág. 379)


“Um Dia chegarei a Sagres” tem como protagonista o povo que sonha e que sofre através de Mateus que narra a sua história. Alguns momentos marcantes como os descobrimentos, a figura do Infante e de D. Sebastião, o terramoto de Lisboa, a escravatura no Brasil, os reinados de D. Maria II ou D. Pedro V, põem em confronto os privilégios da Igreja e da Nobreza e a pobreza persistente do Povo. Uma escrita poderosa que revela um domínio perfeito e rico das palavras, fazendo jus ao profundo amor da escritora pela língua portuguesa.


Almerinda Bento


5 de Fevereiro de 2023


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...