“A Analfabeta. Relato Autobiográfico”, Agota Kristof, 2004
Um livro que é um curto relato autobiográfico, mas cuja
leitura nos impele a descobrir mais sobre esta autora húngara, sobretudo avançar
na leitura de “A Trilogia da Cidade de K.”, o seu livro mais significativo.
Como se pode ser analfabeta aos 26 anos, quando aos 4 anos se
era leitora compulsiva e fluente, é a questão que nos é colocada? Para isso há
que conhecer o percurso da criança que aos 4 anos lia tudo o que lhe chegava às mãos, como se fosse
uma doença; que desenvolvia a capacidade de inventar e contar histórias tendo
os dois irmãos como destinatários; que, aos 14 anos, separada dos irmãos, do
pai e da mãe, a viver num internato que se assemelhava a algo “entre um
quartel e um convento, entre um orfanato e um reformatório” (pág. 17), era
a escrita de poemas e de um diário com um código secreto, a forma de sobreviver
ao silêncio, à disciplina e à ausência de liberdade. Ou então escrever pequenas
peças em que imitava os professores da escola ou do internato, que ela chama as
“palhaçadas” que faziam a alegria das suas colegas.
A Hungria está sob o domínio da União Soviética e um dos
grandes choques, para além do afastamento da família, é a obrigatoriedade de
falar uma língua inimiga. Resistir, sabotar é continuar a escrever na língua
materna. A sua ligação à resistência e posteriormente à revolta de 1956
obriga-a a fugir com a sua bebé, a atravessar a fronteira da Áustria e depois a
da Suíça. Como refugiada, deixou tudo para trás. “Deixei na Hungria o meu diário
secreto, assim como os meus primeiros poemas. Também deixei lá os meus irmãos,
os meus pais, sem aviso prévio, sem me despedir deles, sem sequer lhes dizer
adeus. Porém, acima de tudo, naquele dia, nesse dia de finais de novembro de
1956, perdi para sempre a minha pertença a um povo.” (pág. 42)
Na Suíça, tem casa, trabalho numa fábrica, mas não tem tempo
para ir às aulas de línguas. “Como teria sido a minha vida se não tivesse
deixado o meu país? Mais dura, mais pobre, penso eu, mas também menos
solitária, menos dilacerante; talvez feliz.” (pág. 47) (…)
“Na fábrica, todos são simpáticos
connosco. Sorriem-nos, falam-nos, porém, não compreendemos nada.
É aqui onde começa o deserto. Deserto
social, deserto cultural. Da exaltação dos dias da revolução e da fuga,
segue-se o silêncio, o vazio, a nostalgia dos dias em que tínhamos a sensação
de participar em algo importante, quem sabe histórico, as saudades de casa, da
família, dos amigos.
Esperávamos por algo quando aqui
chegámos. Não sabíamos o que esperávamos, mas certamente não era isto: dias de
trabalho, cinzentos, noites silenciosas, esta vida congelada, sem mudanças, sem
surpresas, sem esperança.” (pág. 50)
Este pequeno, mas precioso livro, traz-nos à reflexão a
realidade da vida de um/a refugiado/a, de um/a imigrante. Ágota viveu aos 26
anos o desafio de uma analfabeta. Sabia falar, mas não conseguia ler nem
escrever em francês. Um desafio que superou com as aulas no curso de verão, com
a consulta constante do dicionário, mas reconhece que embora tentasse escrever
o melhor que podia em francês, nunca conseguiria escrever como os escritores
que tiveram o francês como língua materna.
Agota Kristof nasceu
em 1935 e faleceu com 76 anos. Entre 1981 e 1984 escreveu as suas memórias de
infância que são acolhidas pelas Éditions du Seuil sob o título “O Grande Caderno”
e que foram traduzidas em 18 línguas. Na
badana de “A Analfabeta”, traduzido por Rui Paiva, pode ler-se: “No final da
sua vida, Agota Kristof deixa de escrever em francês e entrega todos os seus
manuscritos, a sua máquina de escrever, e o seu dicionário bilingue
húngaro-francês, ao Arquivo Literário Suíço. Em março de 2011, é-lhe atribuído
o Prémio Kossuth, o mais prestigiado prémio literário da Hungria. Foi, para
ela, um sinal de reconhecimento do seu país natal. Agota Kristof morre pouco
tempo depois, a 27 de Julho de 2011.”
23 de Julho de 2026

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