terça-feira, 1 de setembro de 2026

A Analfabeta . Relato Autobiográfico, Agota Kristof

 


“A Analfabeta. Relato Autobiográfico”, Agota Kristof, 2004

Um livro que é um curto relato autobiográfico, mas cuja leitura nos impele a descobrir mais sobre esta autora húngara, sobretudo avançar na leitura de “A Trilogia da Cidade de K.”, o seu livro mais significativo.

Como se pode ser analfabeta aos 26 anos, quando aos 4 anos se era leitora compulsiva e fluente, é a questão que nos é colocada? Para isso há que conhecer o percurso da criança que aos 4 anos lia  tudo o que lhe chegava às mãos, como se fosse uma doença; que desenvolvia a capacidade de inventar e contar histórias tendo os dois irmãos como destinatários; que, aos 14 anos, separada dos irmãos, do pai e da mãe, a viver num internato que se assemelhava a algo “entre um quartel e um convento, entre um orfanato e um reformatório” (pág. 17), era a escrita de poemas e de um diário com um código secreto, a forma de sobreviver ao silêncio, à disciplina e à ausência de liberdade. Ou então escrever pequenas peças em que imitava os professores da escola ou do internato, que ela chama as “palhaçadas” que faziam a alegria das suas colegas.

A Hungria está sob o domínio da União Soviética e um dos grandes choques, para além do afastamento da família, é a obrigatoriedade de falar uma língua inimiga. Resistir, sabotar é continuar a escrever na língua materna. A sua ligação à resistência e posteriormente à revolta de 1956 obriga-a a fugir com a sua bebé, a atravessar a fronteira da Áustria e depois a da Suíça. Como refugiada, deixou tudo para trás. “Deixei na Hungria o meu diário secreto, assim como os meus primeiros poemas. Também deixei lá os meus irmãos, os meus pais, sem aviso prévio, sem me despedir deles, sem sequer lhes dizer adeus. Porém, acima de tudo, naquele dia, nesse dia de finais de novembro de 1956, perdi para sempre a minha pertença a um povo.” (pág. 42)

Na Suíça, tem casa, trabalho numa fábrica, mas não tem tempo para ir às aulas de línguas. “Como teria sido a minha vida se não tivesse deixado o meu país? Mais dura, mais pobre, penso eu, mas também menos solitária, menos dilacerante; talvez feliz.” (pág. 47) (…)

“Na fábrica, todos são simpáticos connosco. Sorriem-nos, falam-nos, porém, não compreendemos nada.

É aqui onde começa o deserto. Deserto social, deserto cultural. Da exaltação dos dias da revolução e da fuga, segue-se o silêncio, o vazio, a nostalgia dos dias em que tínhamos a sensação de participar em algo importante, quem sabe histórico, as saudades de casa, da família, dos amigos.

Esperávamos por algo quando aqui chegámos. Não sabíamos o que esperávamos, mas certamente não era isto: dias de trabalho, cinzentos, noites silenciosas, esta vida congelada, sem mudanças, sem surpresas, sem esperança.” (pág. 50)

Este pequeno, mas precioso livro, traz-nos à reflexão a realidade da vida de um/a refugiado/a, de um/a imigrante. Ágota viveu aos 26 anos o desafio de uma analfabeta. Sabia falar, mas não conseguia ler nem escrever em francês. Um desafio que superou com as aulas no curso de verão, com a consulta constante do dicionário, mas reconhece que embora tentasse escrever o melhor que podia em francês, nunca conseguiria escrever como os escritores que tiveram o francês como língua materna.  

Agota  Kristof nasceu em 1935 e faleceu com 76 anos. Entre 1981 e 1984 escreveu as suas memórias de infância que são acolhidas pelas Éditions du Seuil sob o título “O Grande Caderno” e que foram traduzidas em 18 línguas.  Na badana de “A Analfabeta”, traduzido por Rui Paiva, pode ler-se: “No final da sua vida, Agota Kristof deixa de escrever em francês e entrega todos os seus manuscritos, a sua máquina de escrever, e o seu dicionário bilingue húngaro-francês, ao Arquivo Literário Suíço. Em março de 2011, é-lhe atribuído o Prémio Kossuth, o mais prestigiado prémio literário da Hungria. Foi, para ela, um sinal de reconhecimento do seu país natal. Agota Kristof morre pouco tempo depois, a 27 de Julho de 2011.”

23 de Julho de 2026



 


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