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quinta-feira, 28 de abril de 2022

71 anos

Elisabete Trinta.jpg


71 anos


Não sei o que o meu smartphone me vai dizer amanhã quanto tempo a mais estive ligada a ele. Mal me levantei, a indicação de que havia mensagens no facebook, no sms e no whatsapp “obrigou-me” a abri-las antes de tomar o pequeno-almoço. São rotinas a que já não escapamos.


Tinha levado a “Visão” da semana passada para a cozinha porque queria ler a entrevista do Sérgio Godinho a propósito dos 50 anos de “Os Sobreviventes” e as “Novíssimas Cartas Portuguesas”, 50 anos depois da publicação do livro das 3 Marias que a censura proibiu por considerar “insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública”. Em dia de aniversário, merecia começar bem o dia e bem acompanhada ao pequeno-almoço, já que o isolamento me tem estado a obrigar a ficar em casa... É verdade que nestes dias, acordo sempre triste porque já não tenho cá a mãe que às 8h 30m em ponto me ligava para me lembrar que tinha sido naquele hora que eu decidira sair para o mundo; porque já não tenho cá o pai e o seu sorriso doce a dar-me os parabéns; porque já não tenho cá a querida Bel que dava sempre aos outros mais do que aquilo que recebia. É impossível nestes dias de comemoração não lembrar as nossas festas em que estávamos todos juntos e sentir essa perda que só é colmatada com as recordações felizes.


Impressiona-me pensar que já passaram 71 anos. Um tempo que me permitiu fazer muitas amizades, viver muitas vidas, muitas experiências, elaborar pensamento e acção, descobrir tantas coisas e perceber que há tanto por conhecer e fazer. Neste dia em que agradeci tantas felicitações senti-me privilegiada e orgulhosa pela pessoa que sou.


Mais uma vez vou escrever a frase que mais escrevi e disse no dia de hoje: muito obrigada.


28 de Abril de 2022


Aguarela da minha amiga Eisabete Trinta

sábado, 29 de maio de 2021

Uma história com 50 anos

Três Marias.jpg


Antes que termine o mês de Maio, trago aqui o texto que escrevi para o Escola Informação deste mês. Ontem lembrámos Carolina Beatriz Ângelo nos 110 anos do seu gesto corajoso e generoso ao ser a primeira mulher a votar em Portugal. Há tanta mulher que rompeu com as cadeias do conservadorismo patriarcal que merece ser nomeada e celebrada. Aqui vai este meu modesto contributo. 


 


Uma história com 50 anos


Em Maio de 1971, três mulheres decidiram fazer um livro a seis mãos. Uma delas – Maria Teresa Horta - cobardemente agredida pela PIDE por causa do seu livro “Minha Senhora de Mim”, reagiu assim quando se encontrou no dia seguinte para almoçar com as amigas Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa:  “Uma mulher apanha uma tareia porque escreve um livro? O que é que eles fariam se fôssemos três a escrever um livro?”.


Foi assim que começou essa maravilhosa aventura que foi a escrita de “Novas Cartas Portuguesas” há precisamente 50 anos. Nove meses depois, tal como um parto, era publicado por Natália Correia, a única editora que teve a coragem de o publicar na íntegra. Três dias depois, a 1ª edição era recolhida e destruída pela censura, por conter “passagens francamente chocantes por imorais, constituindo uma ofensa aos costumes e à moral vigente no País”, nas palavras do censor.


Seguiu-se o chamado processo das “Três Marias”. Interrogadas separadamente pela PIDE/DGS na tentativa de saber quem tinha escrito o quê, o pacto de silêncio das Três Marias nunca foi quebrado. Aqueles 120 textos retratavam a sociedade portuguesa, a guerra colonial, a opressão das mulheres, a violência, a emigração, a pobreza, os espartilhos da família tradicional católica. Era um libelo contra a ideologia retrógrada, opressiva e castradora do antes do 25 de Abril. Aqueles textos que constituíam as “Novas Cartas Portuguesas” queriam estilhaçar a ditadura e iam ao cerne da opressão e ao estatuto das mulheres. Constituíam uma unidade na diversidade e as suas autoras eram responsáveis pelo todo, não se deixando intimidar por um regime no seu estertor. Se em Portugal só uma elite intelectual e mais esclarecida sabia do que se passava, fora de Portugal o impacto foi enorme: feministas movimentaram-se, houve manifestações junto às embaixadas de Portugal em várias cidades do mundo, a comunicação social mais influente de todo o mundo acompanhou o processo e em Junho de 1973, na Conferência da National Organization for Women, o processo das Três Marias foi votado como a primeira causa feminista internacional. A solidariedade feminista, para a qual o contributo de Simone de Beauvoir foi determinante, não deixou isolar as três escritoras e a sua obra teve um papel muito relevante no despertar das ideias feministas e emancipatórias depois do 25 de Abril de 1974 em Portugal.


Maria De Lourdes Pintasilgo, num artigo de opinião na revista Visão, por ocasião do 8 de Março, chamou a este livro “O livro esquecido”. “Além de uma obra literária invulgar, as Novas Cartas Portuguesas foram um acontecimento único.”


Não deixemos esquecer este livro, uma escrita de mulheres, de liberdade, que ajudou este país a quebrar as duras correntes do conservadorismo, um marco de resistência e de liberdade num país atrasado e oprimido.


Das três Marias, Maria Teresa Horta, que neste mês de Maio assinalou mais um aniversário, é a única que ainda vive e continua a surpreender-nos com a sua poesia e escrita marcadamente feminista, tendo este ano o seu livro “Estranhezas” recebido o Prémio Literário Casino da Póvoa, no festival literário Correntes d’Escritas. Maria Velho da Costa faleceu a 23 de Maio de 2020 e Maria Isabel Barreno em 2016.


Serão sempre as 3 Marias. Deixaram uma marca indelével na literatura e na história dos feminismos.


23 de Maio de 2021


Almerinda Bento

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...