Mostrar mensagens com a etiqueta toni morrison. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta toni morrison. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

“Cartas para minha Avó” – Djamila Ribeiro

Cartas para minha Avó.jpg


“Cartas para minha Avó” – Djamila Ribeiro, 2024


 Este foi um dos livros que a minha amiga Guilhermina Gomes generosamente me ofereceu, na última vez que estivemos juntas. Em boa hora. Um livro extraordinário que devorei,  que interrompi para ouvir Milton Nascimento, ou me levou a anotar “Olho mais Azul” de Toni Morrison para ir buscar à Biblioteca Municipal. Um livro que me ensinou muito e me pôs a reflectir sobre muita da temática do racismo vivido por mulheres, pela primeira vez.


“Cartas para minha Avó” é tão actual; devia ser lido por todas as mulheres e … homens. É um livro autobiográfico em que, através de cartas que escreve à avó Antónia que teve sete filhos e faleceu aos 68 anos, nos fala de assuntos que nunca teve oportunidade de falar com a avó enquanto ela foi viva. É de racismo que fala, mas também de desigualdade de género, na pele de uma mulher negra. Djamila Ribeiro é das escritoras brasileiras mais lidas na actualidade, é filósofa, ocupa desde 2022 o lugar 28 da Academia Paulista das Letras, anteriormente ocupado pela escritora Lygia Fagundes Telles e a BBC incluiu-a na lista das 100 mulheres mais influentes e inspiradoras do mundo.


Logo no início do livro, dirigindo-se à avó, a narradora escreve: “Como você lidava com o racismo? Será que pensava sobre isso ou foi forçada a naturalizá-lo? Eu não tive tempo de lhe perguntar nada disso. Quais eram seus sonhos, seus medos?” (pág. 15) “Que saudade de suas mãos lindas, mãos com história, com calos, mas macias ao acarinhar e trançar meus cabelos.” (pág. 13) Lamenta não ter conhecido a avó e a mãe, Erani Benedita, como mulheres, para além dos seus papéis de avó e mãe. Recorda que não foi fácil ser uma menina preta e lembra que a rigidez e dureza da mãe ao educá-la e à irmã eram no sentido de que não podiam errar. Errar era um privilégio de brancos. “Estou-te preparando para a vida” (pág. 26), mas essa educação e todos os castigos que lhe infligia foram negativos na sua auto-estima, a acrescentar a todo um sistema de segregação social que vivenciou na escola e através dos modelos difundidos nos meios de comunicação social. Aquilo que não conseguiu compreender quando criança, percebeu mais tarde quando teve noção de que a “mãe foi um espírito livre enjaulado” “corroída” pela tristeza e invisibilidade. (pág. 61). “Minha mãe teve suas asas cortadas por muitas tesouras, e dizer a ela que a compreendíamos foi como fazer um pedaço se colar.” (pág. 61) Também só mais tarde, a narradora conseguiu perceber a diferença entre o Joaquim pai que sempre lutou por que as filhas fossem independentes e o Joaquim marido que no final da vida confessou à filha, chorando “Eu estou sofrendo porque fiz sua mãe sofrer.” (pág. 82)


A bagagem que a educação da avó e da mãe lhe deu permitiu-lhe recusar relações em que não se sentiu respeitada, relações controladoras e possessivas em que ela apenas era vista como instrumento de prazer. Mesmo que elas nunca tivessem sabido o que era o feminismo, quer a avó quer a mãe sempre lhe mostraram a importância de se defender. E isso foi determinante para ter com a filha Thulane, (que significa “a pacífica” ) uma relação diferente, aberta a falar sobre sexo e menstruação, por exemplo, aquilo a que ela chama quebrar o ciclo do não-dito.


Nestas cartas à avó, a narradora fala da sua experiência de maternidade, da ambivalência tão comum e tão pouco compreendida de sentimentos de felicidade e incompletude e da sua decisão de continuar a estudar, da grande luta pessoal para uma conciliação tão difícil. “Eu amava ser mãe, mas odiava o papel que a maternidade me impunha” (pág. 156); era “a abdicação da nossa existência como sujeito” (pág. 157).


É também com orgulho que conta à avó o que fez para quebrar o ciclo de pobreza e exclusão que tinha sido a vida da mãe e da avó. Trabalha e vai estudar Filosofia, mas “Eu me deparei com um curso branco, masculino e eurocêntrico” (pág. 168), mas a epifania deu-se quando conheceu pesquisadoras negras e teve contacto com feministas da América Latina que lhe alargaram a sua apreensão sobre o feminismo. Foi convidada para exercer cargos na área dos direitos humanos aquando da gestão de Fernando Haddad, teve a possibilidade de entrevistar Marielle Franco e assinala o papel que a leitura de grandes escritoras como Toni Morrison, Maya Angelou ou Alice Walker tiveram no seu percurso e no seu desenvolvimento como mulher e pensadora.


E finalmente, a história da avó e o seu exemplo não são alheios à sua escolha por uma espiritualidade profunda, por uma vivência simples e de grande comunhão com a filha Thulane.


Volto à ideia inicial. Um livro essencial para quem quer ter uma visão abrangente do feminismo, do racismo e da luta pela superação e combate ao racismo e à desigualdade,


5 de Julho de 2025


 


 


 


 


 

sábado, 22 de outubro de 2022

Torto Arado. Itamar Vieira Junior

Torto Arado.jpg

“Torto Arado”, Itamar Vieira Júnior , 2018

 

Este foi um daqueles livros que não parei de sublinhar, sublinhar, sublinhar. Um livro verdadeiramente excepcional, poético, poderoso, brutal, que me permitiu viver sentimentos muito fortes, como a raiva, respeito pela coragem das personagens e profunda admiração por um escritor que consegue de forma intensa e admirável assumir a pele de mulheres narradoras.

O exemplar que comprei tinha uma cinta com a indicação dos prémios obtidos por este romance do escritor baiano Itamar Vieira Junior: vencedor do Prémio Leya 2018 atribuído por unanimidade pelo júri, vencedor do Prémio Jabuti e finalista do Prémio Oceanos. Independentemente da sinopse motivadora na contracapa, o livro agarra o leitor desde a primeira página e consegue, ao longo das cerca de trezentas páginas, manter o interesse e a expectativa até ao final. Ao lê-lo, revivi “Beloved” de Toni Morrison e foi com satisfação que o encontrei na lista dos livros sugeridos pelo Plano Nacional de Leitura.

Oficialmente, a escravatura no Brasil terminou em 1888. O romance começa por volta dos finais dos anos vinte do século passado, mas os moradores da fazenda de Água Negra não sabem o que é serem livres. Descendentes de escravos vindos de África, as suas histórias têm um traço comum de errância, procurando um pedaço de terra onde pudessem trabalhar, instalar-se e criar família. Trabalham de domingo a domingo, vivem em casas precárias feitas de lama, não recebem salário e são espoliados dos poucos produtos que conseguem plantar nas suas pequenas roças, para além do armazém que o fazendeiro instalou e a que ficam amarrados, o qual os trabalhadores baptizaram de “um roubo” (p. 106). Os anos passam, as crianças crescem e tornam-se adultas, as leis mudam e o progresso vai chegando, mas para os trabalhadores e moradores da fazenda é “a mesma escravidão de antes fantasiada de liberdade” (p. 234).

Num mundo aparentemente imutável, com uma hierarquia de poder na fazenda em que os capatazes e subalternos reproduzem o poder e a ordem coloniais, os trabalhadores vivem submetidos a práticas religiosas de matriz africana, encontrando aí resposta aos seus males e aos seus medos. Mas a exploração não é só dos fazendeiros relativamente aos trabalhadores, invisíveis e sem quaisquer direitos. O padrão do poder patriarcal vive-se nas famílias. Os homens cobiçam as raparigas mal elas começam a tornar-se mulheres “com os olhares invasivos que nos despetalavam como flores” … “Muitas caíam sob o peso da insistência, não resistiam às abordagens, e com as bênçãos dos pais se uniam com seus corpos ainda em formação. Sucumbiam ao domínio do homem, dos capatazes, dos fazendeiros das cercanias.” (p. 55). “Éramos preparadas desde cedo para gerar novos trabalhadores para os senhores, fosse para as nossas terras de morada ou qualquer outro lugar onde precisassem” (p. 135). Mulheres tratadas como criadas, como receptáculos para a satisfação sexual dos homens, vítimas de violência extrema… Mas, para além de os pais de Bibiana e Belonísia terem uma visão diferente e perceberem que era preciso construir uma escola para os filhos dos trabalhadores, Severo, que vai ser sindicalista e lutar pela emancipação do seu povo, será quem, pela primeira vez, irá abrir novos horizontes e uma perspectiva de mudança e uma nova vida a Bibiana. “Nunca havia conhecido ninguém que me dissesse ser possível uma vida além da fazenda. Achava que ali havia nascido e que ali morreria, como acontecia à maioria das pessoas”. “Queria experimentar a vida, para ver o que poderia nos acontecer” (p. 76).

O desejo de liberdade, o direito à terra, o tomar a palavra e exprimir a revolta de séculos, a luta de resistência e emancipação dos quilombolas são os grandes temas deste maravilhosos romance que nos narra as lutas dos povos de uma fazenda no sertão do Brasil, centrado na personalidade e na coragem das mulheres. Bibiana e Belonísia, inesquecíveis personagens deste livro, apesar de as suas personalidades serem tão diferentes, ficarão, após um acidente que lhes mudará a vida para sempre, ligadas como se de siamesas se tratasse.

A uma semana de um resultado eleitoral decisivo para o futuro do Brasil, este romance é um grito de revolta contra a opressão, a força da coragem e da união quando chega o momento de desobedecer e de mudar. Oxalá o povo brasileiro tenha o discernimento para vencer o obscurantismo, a prepotência e a mentira.

22 de Outubro de 2022

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 23 de abril de 2020

O que andas a ler?

thank11.png


O que andas a ler?
A UNESCO instituiu em 1995 o Dia Mundial do Livro.
A data foi escolhida por ser um dia importante para a literatura mundial - a 23 de Abril de 1616 faleceu Miguel de Cervantes e a 23 de Abril de 1899 nasceu Vladimir Nabokov. O dia 23 de Abril é também recordado como o dia em que nasceu e morreu William Shakespeare.
Nestes tempos de confinamento temos mais tempo para ler. Teremos? Ou foge-nos a cabeça e o corpo para outros mundos agora que os dias sao feitos de incerteza e de isolamento?
Este ano ainda só vou no sexto livro. Comecei com Autobiografia de JLPeixoto, depois A Mulher que correu atrás do Vento de João Tordo, Beloved de Toni Morrison, A Peste de Albert Camus, A História de um Caracol que descobriu a importância da lentidão de Luis Sepúlveda e agora ando a ler A Terceira Mãe de Julieta Monginho.
E já agora, volto à minha pergunta inicial: o que andas a ler?


 

sexta-feira, 20 de março de 2020

As leituras do momento...

livros, leituras.jpg


Quase, quase a acabar "Beloved". Merecia ter tido da minha parte uma maior concentração, um maior carinho e atenção, mas em tempo de pandemia, muitas vezes saltei para outras coisas, interrompi, voltei atrás, perdi-me. Era o livro que levaria para o nosso Clube de Leitura da Bertrand do Chiado do passado dia 16, mas nessa altura já tudo estava a ser cancelado. Nesse dia já tínhamos 331 infectados e era preciso ficar em casa o mais possível. Hoje, quando escrevo este post e no dia em que fiz esta aguarela já ultrapassámos os 1000. Logo que este surto pandémico começar a abrandar e nós pudermos de novo voltar ao convívio do Clube de Leitura, falaremos das nossas experiências neste interregno no espaço e no tempo, enquanto estivemos em isolamento ou quarentena, mas teremos também oportunidade de falar sobre a obra de Toni Morrison, a norte americana que recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1993.


"A Peste" de Camus será o seguinte. Descobri que o tinha na estante, um dos muitos que ainda não tinha lido, apesar de há muitos anos "O Estrangeiro" ter sido um dos livros que me tocou e marcou decisivamente. Foi a referência ao livro no artigo "O vírus da nossa humanidade" de Álvaro Vasconcelos no Público que me levou a procurar no C de Autores Estrangeiros da minha estante e descobrir que "A Peste" estava lá.


E por fim "Diário de Anne Frank". Recentemente trazido de Mouriscas - era um dos livros da minha irmã Bel - porque queria comparar a edição que é uma tradução de Ilse Losa (só pode ser muito boa) com a versão reduzida "The Diary of a Young Girl" da Pearson English Readers. Aliás, na nossa última aula na turma de Inglês da UNISSEIXAL, lemos em inglês, ouvimos o CD e comparámos com o original. Mas, entretanto, tivemos que suspender as nossas aulas. Uma das minhas alunas até comentou por mensagem que a escolha deste livro para as nossas aulas parecia uma premonição quando comparamos o nosso confinamento forçado ao confinamento de Anne Frank. 


Lendo e escrevendo. Foi o nome que dei a este meu blogue que fez um ano em Fevereiro. Às vezes também desenhando. 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...