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segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Notas sobre um Naufrágio, Davide Enia

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“Notas sobre um Naufrágio” – Davide Enia, 2017


Em nota na badana deste livro traduzido por Tânia Ganho, ela refere que este livro lhe foi sugerido por uma amiga italiana, depois de Tânia Ganho lhe ter recomendado “Um Muro no Meio do Caminho de Julieta Monginho. (https://almerindaagridoce.blogs.sapo.pt/um-muro-no-meio-do-caminho-julieta-16794)  Enquanto Julieta Monginho ficciona a partir da sua experiência como voluntária durante um mês, no Verão de 2016, num campo de refugiados numa ilha grega, Davide Enia em “Notas sobre um Naufrágio” traz-nos relatos e vozes de pessoas que conheceu em Lampedusa, em vários momentos, ao longo de três anos.


Mediterrâneo, o mar sonhado como meio de chegar à Europa para milhares de homens e mulheres fugidos da fome, da guerra, da violência, e que para muitos acaba por ser o seu cemitério. Lampedusa, a ilha mais próxima de África, um “contentor de opostos” onde “… convivem emergência e hipocrisia, burocracia e solidariedade” (pág. 16). Ao longo de três anos e em várias ocasiões, o autor, dramaturgo e actor Davide Enia assistiu a desembarques de náufragos, ouviu socorristas, mergulhadores, médicos, psicólogos, ilhéus, sobreviventes de naufrágios e também Paola e Melo donos de um B&B onde Davide fica, sempre que permanece na ilha.


Todas as vozes, todos os testemunhos são únicos e reflectem episódios, cenas, momentos inesquecíveis e marcantes para cada um dos protagonistas. “De todas as vezes, absolutamente todas, tenho a nítida sensação de me encontrar diante de seres humanos que carregam dentro de si um cemitério inteiro.” (pág. 12). Há uma enorme honestidade e ausência de sensacionalismo na escrita poética, muito sensível e até contida de Davide Enia nos relatos dramáticos que acompanhamos ao longo das duas centenas de páginas deste romance. O medo de Paola e Melo quando um dia vêem através da janela da sala, uma multidão de náufragos a aproximar-se da casa – “Trancamo-nos aqui dentro.” (pág. 31) – logo seguida de vergonha por essa reacção instintiva. “Nunca me esquecerei disso. Pregava uma coisa e na hora H, fazia outra. Já antes, tinha as minhas ideias de intelectual de esquerda: é preciso acolher, não se deve ter medo. Pois, no momento em que me vi metida naquela situação, porra…” (pág. 31). Há um registo que se repete – “O primeiro desembarque nunca se esquece” (pág. 34) – por parte de pessoas que tinham assistido a vários desembarques de refugiados. Para o ginecologista Pietro Bartolo, o primeiro a ser entrevistado sobre o naufrágio de 3 de Outubro de 2013, aquele foi “o evento divisor de águas” (pág. 53). Se há um mergulhador experiente que se recusa a falar sobre aquele dia trágico, dos vários testemunhos das pessoas cuja vida é a realidade dos desembarques e dos naufrágios, há um antes e um depois do 3 de Outubro. Num barco com 523 pessoas, conseguiram-se resgatar 155 sobreviventes e os restantes 368 foram cadáveres posteriormente recolhidos. “Fala-se demasiadas vezes dos seres humanos como números ou estatísticas, mas as pessoas são muito mais do que isso, acalentam esperanças e preces, inquietudes e tormentos.” (pág. 109). “Assistimos impotentes ao naufrágio e é como se a água entrasse dentro de nós” (pág. 91).


É complexo e é-me difícil num pequeno texto, destacar alguns casos, porque todos são importantes. As mulheres e meninas que chegam grávidas em resultado de violações contínuas e repetidas, individuais ou em grupo. “Para uma mulher é sempre pior.” (pág. 52).  (…) “Há mulheres transformadas em brinquedos, usadas até se partirem.” (pág. 53). As crianças que sobrevivem.  O rapaz de doze anos que se recusava a comer, a dormir, a falar até que finalmente um mediador conseguiu que ele dissesse que o que desejava era falar com a mãe para lhe dizer que estava vivo. Há 8 meses que partira da sua terra. Ou Bemnet, um rapaz de 17 anos, da Eritreia, sobrevivente de um naufrágio em que morreram 75 pessoas sendo ele um dos cinco sobreviventes: “Lampedusa é a minha casa, o lugar onde renasci”. “Pus o pé em terra no dia 20 de Agosto. Esse dia tornou-se o meu segundo aniversário. Aqui, nasci pela segunda vez. (…) “Os meus amigos estão todos ali” (pág. 128) disse Bemnet apontando para o mar.


Os relatos são entrecortados com reflexões do autor em que surgem o pai, cardiologista reformado, amante da fotografia e o tio Beppe por quem o autor tem um amor muito especial e que está, ele também a lutar contra um linfoma. A doença, uma outra forma de naufrágio. É esse entrelaçar dos testemunhos de sobreviventes, de profissionais e de voluntários na tarefa do resgaste e da cura dos náufragos, com as histórias e personalidades do pai e do tio de Davide que torna este romance uma leitura memorável e de grande sensibilidade. Num tempo de ódios como aquele que vivemos, é um privilégio este livro ter-me chegado às mãos. Aconselho que o leiam.


Termino, escolhendo dois parágrafos do testemunho de Bartolo, o médico ginecologista:


Toda a gente sabe o que está a acontecer e finge não saber. É por isso que estou a falar convosco, porque cada voz individual pode ajudar a sensibilizar as pessoas. Somos gotas individualmente, mas muitas gotas podem fazer um oceano.”


“Escrevam, contem ao mundo inteiro o que viram, porque é preciso: no continente não têm noção do que está realmente a acontecer. Mas não me refiro só ao que se passa aqui em Lampedusa, esta ilha é apenas um ponto de passagem, a etapa de uma odisseia; refiro-me ao que acontece realmente a estes pobres coitados que aqui chegam, as atrocidades que são obrigados a sofrer, a humilhação da sua própria existência, o aviltamento dos seus sonhos e esperanças.” (pág. 52)


1 de Novembro de 2025


 


 

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio, Julieta Monginho

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Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio, Julieta Monginho, 2021

O terceiro livro que leio da autora e sempre a surpreender-me. O Rijksmuseum em Amsterdão que nunca visitei é central neste romance. Aliás, desta cidade, apenas conheci o aeroporto e o seu parque exterior com milhares de bicicletas estacionadas. Para me/nos orientar neste museu e nos seus quadros, em apêndice no final do livro, a autora faz-lhes uma referência. Tal como fiz em “O Nervo Ótico” de Maria Gaínza, procurei-os no Google e assim fiz uma “viagem” à distância, com toda a diferença que é estar na presença das obras.

Este livro é também uma viagem no espaço e no tempo em torno de várias personagens que ora vivem juntas, ora se afastam, que brigam, se reconciliam, que estão permanentemente em fuga, ou querem empreender uma fuga que lhes permita viver em harmonia. Este livro é um puzzle, uma construção de um lego que nos permite seguir pistas, para não nos perdermos. E se de vez em quando precisarmos de voltar atrás para encontrar os detalhes, as pedras, as chaves para abrir as portas deste dilúvio, o importante é que no fim compreendamos que, quaisquer que sejam as dificuldades da vida e do mundo que nos rodeia, o nosso movimento é sempre para nos salvarmos, para alcançarmos a felicidade.

A capa não podia ser mais apropriada. Um jovem louro, de mochila às costas, observa atentamente “A Ronda da Noite” de Rembrandt. A sinopse, na contracapa, que geralmente dispenso, é sintética e perfeita. Leo, que está sempre a desabafar connosco, leitores, tem uma relação muito forte com alguns dos quadros do museu, que visita assiduamente. Mário, o pai de Leo é segurança no museu e Leo encontra nesses quadros e nas suas figuras “a família” que não tem em casa. Primeiro as discussões, os gritos e depois as cenas são-lhe insuportáveis. “As Figuras dentro dos quadros, acolhiam-no como uma grande família, unida para sempre” (pág. 14), algo que nem Mário, nem Nina a mãe, nem Mart, o escritor companheiro do pai lhe conseguiam dar. A saída seria a fuga em que criasse uma máscara que fosse a síntese de detalhes de cada um dos quadros, mas “sem sorriso algum” (pág. 95). O grande problema era não poder levar o Cão Puck. Leo estabelece um pacto de silêncio com o leitor/a, a quem pede ideias, sugestões e a quem confia o seu plano de fuga.

Anos antes, Mário vira-se forçado a abandonar o Alentejo, quando o pai e os companheiros da venda, “o peso de uma voz em fúria e o peso das vozes masculinas, unidas pelo escárnio, enfim reconciliadas” (pág. 78) o tinham expulsado “repelindo essa nódoa de virilidade” (pág.66). Agora, depois de expulso do museu, por não ter conseguido reprimir a sua fúria, reencontra-se com a velha mãe perdida no seu mundo, mas com lampejos de memórias, para a salvar do dilúvio. Quem resgatar? O que resgatar? “Depois de enrouquecer, sem resposta do filho, Mário abandonou-se a um canto do barco. As lágrimas da vida inteira corriam de uma só vez, rendidas à inutilidade da coragem, à ineficácia das fugas sucessivas. Não existem regressos nem reencontros, pensava ele. Todos os passos vãos, menos os que se encaminham para o fim.” (pág. 131).

Quando cheguei ao fim deste livro, percebi que numa segunda, terceira leitura iria certamente descobrir outros sentidos, mas foram o sentido da fuga e da luta pela felicidade as marcas que senti mais fortes, neste mais recente livro de Julieta Monginho, autora com diversos prémios ao longo duma carreira literária com mais de vinte e cinco anos.

Maio 2022

Almerinda Bento

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

#1 Hijab

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#1 Hijab


Tudo começou de uma forma simples.


Nas minhas aulas de desenho e pintura, a Joana propôs-nos um desafio diferente. Uma colagem. Primeiro fica-se de pé atrás, pensa-se que não se vai conseguir fazer (o meu lado negativo a funcionar), mas passado o primeiro momento de indecisão, a semente começa a germinar.


Tinha acabado de ler “Um Muro no Meio do Caminho” de Julieta Monginho e as mulheres sírias nos seus hijabs não me saíam da cabeça. Refugiadas/os, vidas suspensas numa “ilha que é uma prisão disfarçada de paraíso” à espera que a Europa sonhada, que os olha de lado e que os cerca de arame farpado, lhes dê um salvo-conduto que lhes permita concretizar os seus sonhos.


Hijab foi pois a minha primeira colagem. As palavras e as imagens que acompanharam o desenho conseguiram de algum modo estar em harmonia com o desenho e com o objectivo da colagem. Quando a acabei já sabia a quem a ia dar.

domingo, 3 de maio de 2020

A Terceira Mãe

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A Terceira Mãe, Julieta Monginho, 2008


De Julieta Monginho já conhecia “ Um Muro no Meio do Caminho” e confesso que de entre a vasta obra da autora, a escolha de “A Terceira Mãe” se deveu ao título e à capa belíssima e não ao facto de este livro ter ganho o Grande Prémio de Romance e Novela APE 2008. “Um Muro no Meio do Caminho” foi um dos grandes livros que li em2019. A escrita de Julieta Monginho e a sua sensibilidade não deixam ninguém indiferente.


Talvez por a estrutura temporal do livro não ser linear, com capítulos curtos em que surgem as várias personagens que constituem o universo de Rosalina e por a leitura do livro ter decorrido neste período estranho de confinamento e de pandemia, possivelmente não aproveitei como devia a qualidade da escrita e nem sempre me foi fácil seguir a leitura, tendo por várias vezes parado e voltado atrás para melhor entender os contextos. Mas a linguagem é de uma delicadeza invejável que gostaria aqui de realçar.


O livro está dividido em 3 partes: Rosalina, Mena e Joana. Avó, mãe, filha. Na primeira parte  ̶  Rosalina  ̶  que é a parte mais extensa do romance, somos logo confrontados com a menina, que com a idade de quatro anos, foi levada de casa dos pais para casa da tia Alice e do tio Celestino. Rosalina é o “espaço vazio” entre os seis irmãos. Uma infância em que passou da Casa de Pedra para a Casa de Colmo onde o tio salazarista não se entusiasmava com o gosto pelas artes da sobrinha e lhe impôs um marido rico ainda menina. Uma menina que se preenchia desenhando e pintando pássaros em fitas de seda: “Os pássaros voavam continuamente. Desenhava-lhes as asas, às vezes só duas pinceladas negras que voavam, nódoa negra sobre o azul. Voava, ficava no pano, nódoa, lágrima. Inchava, a gaveta onde guardava as fitas que podiam prender, atar as mãos, amarrar o cabelo, apequenar os pés até sangrarem como os de uma gueixa. Ou então levarem-na com o vento a dar a volta ao mundo. A gaveta inchava e transbordava à medida que a barriga lhe inchava e transbordava, faixas de seda com asas perdidas, panos sobre panos sobre a vontade de voar. A mais bonita era branca e nela Rosalina tinha desenhado um melro sorridente. Cantava, o pássaro, quando Rosalina lhe fazia cócegas nas penas. Cantava «L’Amour», como ela cantara no primeiro sonho livre. Foi para cantar essa ária que o desenhou.”


Tal como mais tarde se preencherá com o filho Luís, ou com a filha Mena. Ou indo atrás da voz com as rezas à senhora de Fátima, acreditando no seu poder milagreiro para curar o segundo marido. Para trás ficaram os seus dotes no manejo dos pincéis ou no toque do piano. Vivendo, sobrevivendo à depressão, ultrapassando-a, descobrindo sempre alguma coisa nova naquela natureza-morta de Cézanne, cheia de vida. Ela é a D. Lina para o enteado, a D. Lina para o vizinho apaixonado do prédio em frente, a Mamie para a neta Joana.


Rosalina, aquela que percorre serenamente décadas em que o mundo se transforma, se democratiza, se moderniza. O esteio de Mena; o porto de abrigo de Joana. Mena e as suas fúrias e frustrações porque teve de mudar de terra, porque não concluiu o Conservatório, porque teve um marido violento, porque não tem dinheiro, porque não consegue comunicar com a filha. Joana à procura de si, à procura de ser feliz, à procura de crescer como responde à mãe quando esta lhe dizia que ela pertencia a “uma geração à qual nunca foi proibido nada, mas que pode guardar tanta fúria, tanto desespero”. E também a querer fugir de fantasmas, quando esses fantasmas podem estar ligados por uma fita pintada com um melro.


É disto que trata este livro. Um percurso de mulheres. Uma inquietação.


 


30 de Abril de 2020


Almerinda Bento


 


 


 


 

quinta-feira, 23 de abril de 2020

O que andas a ler?

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O que andas a ler?
A UNESCO instituiu em 1995 o Dia Mundial do Livro.
A data foi escolhida por ser um dia importante para a literatura mundial - a 23 de Abril de 1616 faleceu Miguel de Cervantes e a 23 de Abril de 1899 nasceu Vladimir Nabokov. O dia 23 de Abril é também recordado como o dia em que nasceu e morreu William Shakespeare.
Nestes tempos de confinamento temos mais tempo para ler. Teremos? Ou foge-nos a cabeça e o corpo para outros mundos agora que os dias sao feitos de incerteza e de isolamento?
Este ano ainda só vou no sexto livro. Comecei com Autobiografia de JLPeixoto, depois A Mulher que correu atrás do Vento de João Tordo, Beloved de Toni Morrison, A Peste de Albert Camus, A História de um Caracol que descobriu a importância da lentidão de Luis Sepúlveda e agora ando a ler A Terceira Mãe de Julieta Monginho.
E já agora, volto à minha pergunta inicial: o que andas a ler?


 

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Na calha

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Continua a ser muito difícil resistir, como se não tivesse tantos cá por casa que ainda não li, tantos que me emprestaram para ler e que ainda não li e não devolvi! Sorry, sorry, sorry!


As minhas últimas aquisições e que espero ler até ao final deste ano.


Falta pouco para acabar "Sangue do meu Sangue".


Até já.


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"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...