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quinta-feira, 23 de abril de 2020

O que andas a ler?

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O que andas a ler?
A UNESCO instituiu em 1995 o Dia Mundial do Livro.
A data foi escolhida por ser um dia importante para a literatura mundial - a 23 de Abril de 1616 faleceu Miguel de Cervantes e a 23 de Abril de 1899 nasceu Vladimir Nabokov. O dia 23 de Abril é também recordado como o dia em que nasceu e morreu William Shakespeare.
Nestes tempos de confinamento temos mais tempo para ler. Teremos? Ou foge-nos a cabeça e o corpo para outros mundos agora que os dias sao feitos de incerteza e de isolamento?
Este ano ainda só vou no sexto livro. Comecei com Autobiografia de JLPeixoto, depois A Mulher que correu atrás do Vento de João Tordo, Beloved de Toni Morrison, A Peste de Albert Camus, A História de um Caracol que descobriu a importância da lentidão de Luis Sepúlveda e agora ando a ler A Terceira Mãe de Julieta Monginho.
E já agora, volto à minha pergunta inicial: o que andas a ler?


 

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Autobiografia

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Autobiografia, José Luís Peixoto, 2019


Na dedicatória escrita no meu livro pelo autor, está resumida a essência deste livro que acabei de ler: “Para a Almerinda, estas páginas, como um espelho que reflete em muitas direções”. Só à medida que se vai avançando na leitura se percebe o sentido da dedicatória, a capa – um amontoado de papéis cortados e onde surgem separadas as letras que constituem o título do romance: AUTOBIOGRAFIA e o próprio título escolhido pelo autor.


Este é o quinto livro que leio de José Luís Peixoto e talvez um dos mais elaborados e que mais obriga à participação do leitor na compreensão do jogo de espelhos que nos é proposto. E quando, aparentemente, num dos últimos capítulos, o narrador – José – nos dá a chave do enigma, logo a seguir nos interpela “… na literatura, tem de se prestar muita atenção às aparências. Estava farto de juntar palavras? Depois de centenas de páginas escritas, gastam-se os olhos e a cabeça, perde-se algum sentido mas, em grande medida, escrever romances é ser capaz de resistir a esse cansaço. As explicações são uma saída fácil, uma desistência, não acha? A sério, não acha?” , sem que nos deixe o sossego de respostas acabadas. José e Saramago são e não são a mesma pessoa. É deste desconforto, deste desencontro/encontro que vive este romance. As notas que José escreve no seu caderno quando trabalha para escrever a biografia de Saramago, acrescentam mais interrogações à questão sobre o sujeito da “biografia ou, melhor, texto ficcional de cariz biográfico”.


As epígrafes transcritas de textos de José Saramago, desde a primeira que inicia o livro e que vão aparecendo ao longo do romance, são chaves que, ao serem revisitadas, nos ajudam nesta leitura complexa sobre as identidades:


“Não me escondo por trás do narrador” (p. 47); “Há que escolher. Memórias ou romance? Confissão ou ficção?” (p. 69); “Damos voltas e voltas, mas, na realidade, só há duas coisas: ou você escolhe a vida, ou se afasta dela.” (p. 73); “A vida, que parece uma linha reta, não o é” (p.101); “O leitor lê o romance para chegar ao romancista” (p. 116); “O leitor deve ter um papel que vai mais além de interpretar o sentido das palavras.” (p.120). “A literatura é o resultado de um diálogo de alguém consigo mesmo.” (p.284)


 


Ou quando o romance se vai aproximando do fim e José e Saramago dialogam:


“De novo as explicações? Não vale a pena seguirmos esse fio. Mas sempre soube que somos a mesma pessoa? Fiquei com essa desconfiança desde o título, Autobiografia é um espelho, como nós somos um espelho.


Somos?


Sim, somos. No entanto, não confie demasiado nos espelhos, os espelhos distorcem.” (p. 259)


“As explicações não explicam tudo.“


“A literatura é feita de espaços vazios a serem preenchidos por quem os interpreta, é isto? (p.260)


 


José é um jovem escritor no início da carreira literária, às voltas com a angústia de um segundo livro que não consegue escrever. Sem dinheiro, não resistindo ao álcool e ao jogo, endivida-se e é Bartolomeu que lhe vai emprestando dinheiro para sobreviver. Conhece Lídia, caboverdeana, apaixonada por Saramago e pela sua obra desde que o conheceu numa ida do escritor à sua ilha de Santo Antão quando ela tinha dezasseis anos. O seu interesse por José cresce quando ele lhe confidencia que é escritor e que anda a fazer a biografia de Saramago. Saramago é um escritor com 75 anos, em vésperas de ser agraciado como o Prémio Nobel da Literatura.


Os livros de Saramago que as várias personagens desta “Autobiografia” transportam e andam a ler são os elos que as ligam: “Memorial do Convento”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “Manual de Pintura e Caligrafia” e por fim “Todos os Nomes” o último livro que Saramago escreveu em 1997, ano anterior à sua celebração como prémio Nobel da Literatura. O meu conhecimento da obra de Saramago é ainda incompleto, mas reconheci nos nomes de Bartolomeu e Lídia referências ao “Memorial do Convento” e a “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, tal como o encontro de José e de Saramago no Hotel Bragança não foi por acaso e a cegueira que atinge Fritz na viagem de avião a caminho de Goa para se encontrar com o pai também não, recordando o extraordinário “Ensaio sobre a Cegueira”. Possivelmente outras referências me escaparam!


Por fim, uma referência ao tempo, aos lugares onde as personagens se movem e ao papel desempenhado pelas figuras familiares. Lisboa é diversa, está muito presente e os lugares são muito precisos: Olivais Sul, Encarnação, Quinta do Mocho, Bairro das Colónias, Rua de Macau, Santa Apolónia, Biblioteca Nacional, Palácio das Galveias e a Lisboa da Expo 98. Bucelas onde a mãe de José ficou enquanto o marido emigrou para Frankfurt na Alemanha. Azinhaga onde o pequeno Saramago acompanhava o avô sentado à lareira, vendo e ouvindo a mãe e a avó nas tarefas domésticas, enquanto o pai se entretinha na taberna. Goa na Índia para onde o pai partiu, deixando Fritz e a mãe em Viena na Áustria. Santo Antão em Cabo Verde e Quinta do Mocho. Lanzarote, Lisboa, Madrid, Frankfurt. E Lisboa para onde José, Saramago, Fritz e Lídia vieram viver deixando definitivamente as suas terras da infância. As mulheres, sempre as mulheres: as mães, as avós e Pilar, discreta, mas, solidamente presente.  


Li este romance com bastante vagar. Reli certas passagens. Voltei atrás. Demorei-me. Precisei de me entranhar nele. Senti que tinha de continuar a descobrir o Saramago ainda não lido. Percebi que “Autobiografia” será um daqueles livros a que voltarei um dia, talvez para descobrir outros sentidos que uma primeira leitura não conseguiu alcançar.


30 de Janeiro de 2010


Almerinda Bento


 


 


 


 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Ensaio sobre a Cegueira

Recordando o que escrevi há uns anos, quando li este livro de José Saramago. Nem a propósito, o surgimento da epidemia com origem na China ocorreu quando lia "Autobiografia" de José Luís Peixoto.


 


Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago, 1995


Um livro intenso, que só podia ter sido escrito por uma pessoa muito reflexiva e preocupada com a condição humana.


Dedicado a Pilar e à filha Violante, José Saramago reflecte neste romance o amor e respeito que dedica às mulheres que têm neste livro um papel central.


Este livro coloca a sociedade perante um problema, uma epidemia, uma tragédia - a cegueira – e faz-nos percorrer a degradação a que os seres humanos podem chegar em condições extremas. Escolheu a cegueira, mas poderia ser outra coisa qualquer, funcionando como metáfora da ausência de esperança. “A cegueira é viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.” E a degradação é o caminho da desumanização, do salve-se quem puder, da selva. Não é por acaso que o local da quarentena é um manicómio desactivado! “ O mundo está todo aqui dentro.” O caos da vida sem perspectivas de saída, o desequilíbrio nas relações de poder mesmo quando todos estão cegos, a violência da cena em que os cegos malvados exigem trocar comida por sexo, a solidariedade entre as mulheres, a nudez dos corpos, o cheiro insuportável a excrementos e comida podre, o medo do contágio, a luta pela sobrevivência, o prazer de um copo de água, a condição infra-humana a que se chega, são alguns aspectos deste livro verdadeiramente inesquecíveis.


Para além das constantes e profundas reflexões sobre múltiplos temas que o autor coloca ao leitor, gostaria de referir a cuidada utilização do vocabulário ao longo de todo o livro, com constantes alusões a expressões quotidianas relacionadas com a visão como “justiça cega”, “mão cega”, “está à vista”, “está-se mesmo a ver” e outras. As sete personagens principais a quem nunca é dado um nome são também referenciadas por algo que se relaciona com os olhos: o primeiro cego, a mulher do cego, o médico (oftalmologista), a rapariga dos óculos escuros, o rapaz estrábico, o velho da venda preta e a mulher do médico, aliás a única personagem que vê e que a certa altura diz “… vocês não sabem, não podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos, não sou rainha, não, sou simplesmente a que nasceu para ver o horror, vocês sentem-no, eu sinto-o e vejo-o…” Para além dos humanos, o cão das lágrimas é, em minha opinião, igualmente uma das personagens centrais deste romance.


Pode-se dizer que este livro nos aponta um mundo apocalíptico e podemos recordar e traçar um paralelismo com situações catastróficas recentes como o Haiti após o terramoto, os regimes de ditadura onde as liberdades são suprimidas, ou as sociedades e países que se confrontam com uma dívida que empobrece os povos e os leva à desesperança, ao desespero e ao suicídio como actualmente já acontece na Grécia, por conta da ditadura dos mercados.


No entanto e, apesar do caos, do horror, do inimaginável, este romance é também um grito de esperança e um tributo à capacidade extraordinária de os seres humanos lidarem com a adversidade.

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...