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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

"Gaza Está em Toda a Parte", Alexandra Lucas Coelho

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“Gaza está em toda a parte” – Alexandra Lucas Coelho, 2025

Conhecia Alexandra Lucas Coelho de ler no jornal “Público” as suas crónicas sobre o Brasil e Jerusalém, e também duma série que passou na televisão sobre livros, com um nome sugestivo “Volta ao Mundo em Cem Livros”. No entanto, nunca tinha lido nenhum livro escrito por ela e este ano não resisti na Feira do Livro de Lisboa a comprar o seu mais recente “Gaza Está em Toda a Parte”.

É uma colectânea de textos com a força do conhecimento da realidade palestina, ligada ao seu vínculo afectivo e político com aquele povo. Constituída por crónicas e reportagens já publicadas, tem ainda alguns textos inéditos e um conjunto valioso de fotografias captadas antes e depois do 7 de Outubro. Embora a maior parte do livro seja formado por crónicas e reportagens sobre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia depois do 7 de Outubro, a introdução é um trabalho jornalístico publicado na revista Visão História de Julho de 2017, que corresponde à última vez que Alexandra Lucas Coelho esteve em Gaza (Maio de 2017). Através da reportagem então feita, a autora mostra que as dificuldades para a vida daquele povo não começaram com o 7 de Outubro.  Experienciou ela própria ao entrar na Faixa de Gaza, por Erez no norte, quer pelos check points montados por Israel quer pelo Hamas, que compara ao “… cenário de uma distopia altamente militarizada” (pág. 15). “Gaza é uma prisão” (pág. 33) e isso reflecte-se na saúde física e mental da população, maioritariamente jovem, sem emprego, sem futuro, com elevados níveis de suicídio. Desemprego, escassez de água, frequentes cortes de electricidade, na altura, para dois milhões de habitantes, apenas dois psiquiatras! Apesar de a Faixa de Gaza se estender ao longo de 40 quilómetros junto ao Mar Mediterrâneo, os pescadores apenas podem pescar até 6 milhas, sujeitos a ser abatidos pela armada israelita, caso ultrapassem esse limite.

Uma prisão, um gueto, uma ratoeira, um campo de concentração que passou a campo de extermínio depois de 7 de Outubro. A Nakba de 1948 que nunca deixou de existir, que obrigou milhões de palestinianos a viver como refugiados na Síria, no Líbano, no Egipto e um pouco por todo o mundo ao longo dos últimos 75 anos, intensificou-se com o 7 de Outubro. Impossibilitada de poder ir ao terreno para fazer o seu trabalho como jornalista, Alexandra Lucas Coelho contextualiza a situação através de crónicas entre Outubro e Novembro de 2023. Atónitos com a destruição que se vai vendo através da comunicação social e pelas redes sociais, o tempo corre enquanto assistimos às mortes e à destruição ao vivo, sem que o mundo dito dos direitos humanos, o mundo “ocidental” mexa uma palha. Guterres passou a persona non grata quando levantou a voz contra Netanyahu e disse que “… o 7 de Outubro não aconteceu no vazio”. A Europa, refém da culpa do holocausto, é incapaz de denunciar o governo de Israel pelos bombardeamentos, destruição maciça e deslocação forçada das populações para sul da faixa de Gaza. Netanyahu utiliza a experiência do holocausto sobre os judeus na 2ª Guerra Mundial como arma de arremesso e chama antissemita a qualquer um que se oponha à política de extermínio que o seu governo de extrema direita está a impor ao povo de Gaza, para além das incursões dos colonos israelitas no território da Cisjordânia. Ao contrário da cobardia dos governantes europeus, os povos começam a manifestar-se nas ruas para dizer que a Palestina tem direito a ser livre. Numa troca de mensagens com W., o amigo palestino de Alexandra, ele pedira-lhe que contasse o que se estava a passar em Gaza, ciente do poder da solidariedade e da força das ruas.

Alexandra Lucas Coelho traz ao longo do livro inúmeros nomes e exemplos de heroicidade num tempo de desumanidade e horror. O médico de Al-Shifa que se recusou a deixar o hospital e a abandonar os doentes à sua sorte; o herói e líder nacional Marwan Barghouti, preso desde 2002 e condenado a prisão perpétua; os milhares de jovens e crianças presos arbitrariamente nas prisões israelitas e sujeitos a torturas atrozes; Ahmed Tobasi e o seu Freedom Theatre que faz do teatro a sua forma de resistência; os Tamimi e os habitantes duma pequena aldeia da Cisjordânia empenhados em defender a sua água e a câmara que Bilal usou para documentar e levar ao mundo através do canal de You Tube as incursões dos buldozers israelitas; as consequências de se ser objector de consciência e recusar o serviço militar obrigatório como é o caso da jovem israelita Sofia Orr, presa por ser considerada traidora. Embora sejam uma ínfima minoria os israelitas que defendam abertamente os direitos humanos ou que sejam antimilitaristas, a maioria, mesmo criticando Netanyahu, apenas lutam pelo regresso dos reféns na posse do Hamas, mas não têm uma postura de defesa dos direitos humanos do povo palestino.

Entre Dezembro de 2023 e Janeiro de 2024 Alexandra Lucas Coelho esteve na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental e Israel onde fez reportagens e tirou fotografias que constituem a segunda parte do livro. Documentou as dificuldades do quotidiano dos refugiados em Jenin, a “Pequena Gaza”, a constante presença dos drones israelitas e a arrogância dos colonos a expulsar os palestinos do seu território. A autora testemunhou em Belém o “Natal mais triste de sempre”, sem turistas, apenas com jornalistas e correspondentes, em que a artista Rana Bishara colocou uma incubadora com Jesus morto pelas bombas israelitas no exterior da Basílica da Natividade, para lembrar as crianças mortas que o mundo não quer ver. E em Telavive a praça mais triste de Israel com uma mesa vazia posta à espera dos reféns ainda na posse do Hamas e o piano de um dos reféns presos. Na altura já estavam contabilizados 79 jornalistas palestinianos mortos na Faixa de Gaza, um número imenso, tendo em conta que desde o 7 de Outubro nunca mais tinha sido possível a entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza.

A terceira parte do livro é constituída por crónicas escritas entre Janeiro de 2024 e Março de 2025, altura em que “Gaza Está em Toda a Parte” vai para a gráfica. Longos meses em que a situação se agrava para os palestinos em Gaza e na Cisjordânia. A UNRWA agência para os refugiados palestinianos criada pela ONU em 1949 e que era um apoio indispensável para muitos palestinianos é extinta. A ajuda externa é impedida e a fome, a doença e a subnutrição de toda uma população chegam-nos diariamente pelos telejornais. A 2 de Fevereiro, na última mensagem de W. para a autora, ele escreve: “O meu povo hospitaleiro e decente tornou-se mendigo ou ladrão. Fomos privados de tudo, até da nossa humanidade”. (pág. 384). E R. o intérprete que Alexandra conhecera em 2017 usa a palavra ““pedintes” entre aspas, como se nem suportasse outra forma.” (pág. 384) Vozes fortes como a de Guterres e de Lula, Francesca Albanese ou Jorge Borrell, governos que se destacam como o de Espanha ou da Irlanda quebram o silêncio da maioria dos governantes da União Europeia subjugados à desumanidade do governo sionista de Netanyahu. A repressão sobre jovens manifestantes universitários nos EUA, em França e na Alemanha faz emergir cada vez de forma mais clara uma geração de jovens que se mobilizam pela defesa do futuro do planeta e pela defesa da paz no mundo. Apesar de o peso da direita e da extrema direita se acentuar em Israel e de os pró-Palestina serem uma ínfima minoria, a mais importante associação de direitos humanos israelita divulga um relatório arrasador com relatos de torturas a mando da dupla Ben-Gvir/Smotrich, para quem os palestinos não são gente, tal como para os nazis os judeus eram untermensch. Igualmente, Lee Mordechai, um historiador israelita documentou no relatório Bearing Witness to the Israel-Gaza War informação factual sobre o que se passa em Gaza. “Considera o ataque do Hamas e outros grupos a 7 de Outubro uma atrocidade. Tal como considera a resposta de Israel um genocídio, e no fim explica porquê.”  (pág. 489)

Nos EUA, Biden e Kamala Harris preparam as eleições e ignoram Gaza, não usam sequer os seus discursos para dar voz e denunciar o genocídio. A hipocrisia é tal que ao mesmo tempo que se fala em cessar fogo se enviam milhões em armamento para Israel. E tudo piorou ainda mais com a eleição de Trump. Na noite em que se anuncia o cessar fogo (Janeiro de 2025) são mortos 81 palestinianos. Tal como hoje, no final do ano de 2025, tenta-se normalizar o genocídio, como bem disse a Relatora Especial da ONU Francesca Albanese. Somos confrontados diariamente com projectos e discursos obscenos sobre o futuro da faixa de Gaza, como a dita Riviera do Médio Oriente. Há muitos anos Hannah Arendt afirmou que “a morte da empatia humana é um dos primeiros e mais reveladores sinais de uma cultura à beira da barbárie”.

Estou a escrever este breve texto sobre um livro imperdível, ao mesmo tempo que no meu computador surgem mensagens com votos de um Feliz Ano Novo. É com pessimismo que prevejo os acontecimentos de 2026, mas tento reter as palavras de Alexandra Lucas Coelho : “Mas o pessimismo é um luxo, os palestinianos não se dão a ele. Estão ocupados a tentar não morrer.” (pág. 474)

28 de Dezembro de 2025

Almerinda Bento

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Um Dia na Vida de Abed Salama, Nathan Thrall, 2023

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Um Dia na Vida de Abed Salama, Nathan Thrall, 2023


Desde que me conheço que ouço falar da Palestina e do conflito que opõe Israel à Palestina, com a anexação sistemática de território, com as restrições de mobilidade que tornam a Palestina uma prisão a céu aberto, dos quilómetros de muro que separam os territórios e os povos, das ocupações por colonatos israelitas, das prisões arbitrárias, das mulheres que dão à luz nos checkpoints porque não chegaram a tempo à maternidade… e penso que desde o dia 7 de Outubro de 2023 já ninguém pode dizer que não sabe, que não viu o genocídio que está a acontecer na faixa de Gaza e na Cisjordânia. Ele passa todos os dias nas televisões e já não há palavras para um horror desta envergadura.


Recentemente, vi “No Other Land” vencedor do óscar para melhor documentário, que retrata o dia a dia da ocupação israelita e a resistência palestiniana. Já depois de ter recebido o óscar, o realizador foi preso e agredido. Este “Um Dia na Vida de Abed Salama”, escolhido para leitura num dos clubes de leitura que acompanho, é um impressionante testemunho e relato de um episódio, mas é muito mais do que isso, porque nos dá o contexto histórico de um povo até aos nossos dias. Permito-me transcrever as palavras de Francisco Louçã, um dos coorganizadores deste clube de leitura, a propósito deste livro: "Thrall, judeu, educado na Califórnia, vive em Jerusalém (já viveu em Gaza) e é jornalista. Nunca escondeu o seu empenho na denúncia dos abusos da ocupação israelita. Este livro, de que a edição portuguesa foi a primeira tradução, foi publicado em 2023 e ganhou o Pullitzer numa categoria de não-ficção em 2024, e é uma poderosa reportagem sobre um pai que procura o filho, que pode ter sido vítima de um acidente com o seu transporte escolar. Não é um romance, mas retrata os seus personagens com um cuidado que faz disto uma grande peça da literatura. Não é um manifesto, mas mostra-nos as condições degradantes da vida da população palestiniana, bem como a persistência da resistência - e até a humanidade que se descobre em alguns dos representantes do outro lado. E é tremendo, caminhamos para o abismo e sabemo-lo desde a primeira página. É por isso uma desistência fatalista? Não, será mesmo um dos livros mais cheios de esperança dos últimos anos, pois naquele horror absoluto encontram-se gestos e emoções que compreendemos e nos comovem."


O livro começa com um prólogo que ajuda a situar-nos  em Anata, o local onde Abed Salama vive com a sua família. Um local caótico, sem infraestruturas, que antes tinha sido uma zona rural. Abed é casado com Haifa, tem dois filhos: Milad de 5 anos e Adam de 9. Milad vai fazer um passeio escolar e a carrinha em que viaja com os colegas e os professores é abalroada por um camião e incendeia-se. Aquilo que deveria ser um dia feliz para as crianças tornou-se uma tragédia para as cinco crianças e a professora que morreram e para o condutor da carrinha que ficou com danos irreversíveis. “O acidente destruíra todas as famílias, cada uma à sua maneira”. (p. 194)


O livro relata-nos as condições que propiciaram o desastre, a ausência da prestação de socorro pelas autoridades israelitas, os bombeiros que não apareceram, o não deixarem as ambulâncias palestinianas passarem nos postos de controlo, todo um labirinto de restrições que espelham a desumanidade das autoridades israelitas numa situação de desastre, mas que é o espelho do dia-a-dia da população árabe. As dificuldades de Abed até saber para que hospital Milad tinha sido levado, se estava vivo ou não resultam do facto de ser palestino, de ter um cartão de identidade de cor verde, sinal de que já tinha sido preso. Mas o livro está igualmente cheio de exemplos de solidariedade entre árabes e judeus, o que é o raio de esperança neste conflito sem fim à vista.


Quando pensamos na expulsão e fuga de mais de oitenta por cento dos palestinianos naquilo que foi a Nakba em 1948, as acções de resistência, as Intifadas, as prisões de crianças, os massacres, as organizações políticas no terreno com as suas diferenças, as traições, os acordos de Oslo, as resoluções nunca cumpridas, compreendemos que o ódio é o combustível para um conflito interminável e em que o desequilíbrio de forças é brutal. No documentário “No Other Land” é inesquecível a cena em que os tanques e os buldozers vêm derrubar uma escola, mas antes os soldados israelitas fecham a porta da escola para que as crianças não possam sair. Têm de saltar pela janela se não querem ficar debaixo dos escombros.


Este ódio está bem expresso no epílogo do livro “Um Dia na Vida de Abed Salama”, a propósito de uma reportagem televisiva feita pelo israelita Arik Weiss sobre o acidente da carrinha. “O motivo de interesse da história não era o acidente em si, mas a reacção de alguns jovens israelitas, que exultaram com a morte das crianças palestinianas. Arik ficara consternado com a enxurrada de publicações e comentários no Facebook que celebraram a perda de vidas:


«Hahahaha 10 mortos hahahaha, bom dia.»


«É só um autocarro cheio de palestinianos. Nada de especial. É pena que não tenham morrido mais.»


«Óptimo! Menos terroristas!!!!»


«Notícias alegres para começar a manhã.»


«O meu dia tornou-se uma doçura!»


O que chocara Arik não era tanto o conteúdo das mensagens, mas o facto de muitos dos seus autores exibirem livremente as suas identidades. Como afirmou na introdução da peça jornalística, essas pessoas escreviam sem se esconderem atrás de um teclado anónimo, sem vergonha. E muitas das publicações eram escritas por estudantes do ensino básico e secundário. Arik ficou intrigado com esse elemento. Estes adolescentes estavam a viver um período de paz invulgar. Alguns deles eram demasiado novos para se lembrarem da violência dos anos 90 e da Segunda Intifada, mas pareciam ser mais racistas do que as gerações mais velhas.” (p. 195)


“Um Dia na Vida de Abed Dalama” é um valioso trabalho de não-ficção, um instrumento muito honesto e corajoso para mostrar a realidade do conflito israelo-palestiniano. Um livro notável, a ler e divulgar.


26 de Fevereiro de 2025

domingo, 7 de abril de 2019

Ruanda, como foi possível?

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Lembro aqui o Ruanda porque faz hoje precisamente 25 anos que se iniciou o genocídio. Entre 800 mil e um milhão de tutsis foram mortos pelos hutus, ou seja, estima-se que 70% da população tutsi foi dizimada.


A rivalidade entre hutus e tutsis era real e as condições objectivas vieram a ser cozinhadas ao longo de décadas, não só como reflexo do passado colonial belga, mas pelas políticas de desigualdade que cavaram fundo diferenças sociais que criaram o ódio entre as duas etnias. O discurso do ódio foi o instrumento que potenciou que a morte saísse à rua ao longo de três meses, sem que a chamada comunidade internacional interviesse ou fizesse parar uma das situações mais macabras que poderão ter ocorrido nos últimos anos, em que familiares, vizinhos e amigos deixaram de o ser e passaram a olhar-se como inimigos e alvos a matar. A regra foi matar tudo o que fosse tutsi, mas houve também casos de genuína humanidade e de coragem que se opôs a esta barbárie extrema. Vale a pena ver o excelente filme Hotel Ruanda.


Em Dezembro de 2004 estive em Kigali, dez anos depois do genocídio. A Marcha Mundial das Mulheres escolheu esse país de África para aí fazer a sua V Reunião Internacional e participei nesse encontro integrada na delegação da coordenação portuguesa para discutir e aprovar a Carta Mundial das Mulheres para a Humanidade. Em solidariedade com as mulheres ruandesas e de outros países vizinhos, assolados por guerras e conflitos onde as mulheres e as crianças eram das principais vítimas.


Desde então, pessoalmente, o genocídio do Ruanda passou a ter um significado maior, não só por ter estado naquele território, mas por ter contactado directamente pessoas (mulheres) marcadas pelo conflito. Conheci as ruandesas da Marcha que organizaram e participaram no Encontro; visitei associações apostadas em reconstruir as vidas de mulheres que ficaram emocionalmente mutiladas e destruídas pelas mortes dos seus entes queridos; visitei associações que trabalham os direitos das mulheres e que estão envolvidas no processo de reconciliação e de reconstrução do país a partir dos escombros do genocídio; visitei o Memorial do Genocídio. Um murro no estômago. Quando se sai depois de ver fotografias de crianças, peças de vestuário, brinquedos e objectos abruptamente largados, sons captados, frases, crânios e ossadas... temos de nos sentar e esperar que as pernas deixem de tremer. Impossível esquecer. Impossível ficar indiferente. Impossível sair igual ao que éramos quando entrámos.


Quando em 2004 o processo de reconciliação já estava em curso e nos parecia impossível haver perdão para tanta maldade, a verdade é que aquele povo martirizado percebeu que só se poderiam reerguer se encetassem um profundo trabalho de reconciliação. As mulheres tiveram nisto um papel fundamental e hoje elas desempenham tarefas e ocupam cargos políticos de grande relevância, sendo que o parlamento do Ruanda é dos mais paritários em todo o mundo. O povo ruandês percebeu que as etnias foram um factor decisivo no genocídio e por isso têm-se desenvolvido políticas de igualdade entre os cidadãos e retirou-se do discurso público referências às etnias geradoras de discriminações e ódios. Tanto trabalho feito. Tanto que ainda há por fazer, estou convencida.


Fico feliz por saber que o Ruanda continua a lutar para que aquele fatídico 7 de Abril de 1994 não mais se repita. Confio na maturidade daquele povo que aprendeu da pior maneira o que é o ódio entre as pessoas e que luta no dia a dia para que a paz seja duradoura.


Antes de 2004, ano em que pela primeira vez fui ao continente africano e a Kigali, o Ruanda era um país onde tinha acontecido um genocídio de que me lembrava por fotografias e notícias nos jornais. E o país onde foi rodado um filme maravilhoso - Gorilas na Bruma - que vi várias vezes. Não há como ter a possibilidade de conhecer os sítios ou viver as situações, para que elas passem a fazer parte da nossa pele e do nosso coração. Hoje não poderia deixar de lembrar Kigali e as pessoas que conheci durante os dias em que lá estive há 15 anos.


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"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...