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segunda-feira, 11 de julho de 2022

A Força da Idade, Simone de Beauvoir

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A Força da Idade, Simone de Beauvoir, 1960

“A Força da Idade” é dos livros que herdei da minha irmã, talvez o mais importante. Ela tinha-me oferecido “Os Mandarins”, pediu-me que lho emprestasse para o ler e quase chegou ao fim do 2º volume naquelas férias fatídicas. Chegou a minha vez de ler este belíssimo exemplar de “A Força da Idade” editado pela Bertrand e descobri, ao longo da leitura, sublinhados que inevitavelmente me fazem reviver as suas preocupações, os seus interesses e os seus medos. Foi pois um livro cuja leitura me remeteu invariavelmente para ela e para as nossas vivências. Por isso, as palavras que vou escrever sobre este livro que Simone de Beauvoir dedicou a Jean Paul Sartre, dedico-as à memória da minha irmã Isabel.

Tinha lido “Memórias de uma Menina Bem Comportada” há muitos anos e lembro-me que foi durante muito tempo um livro muito vivo na minha memória, mas passados tantos anos, algumas das referências que Simone de Beauvoir faz no início do livro, naturalmente, pessoas importantes e marcantes na sua juventude, mas que entretanto deixei de identificar. “A Força da Idade”, para além de um livro autobiográfico em que a autora detalha momentos marcantes da sua juventude, como viveu pela primeira vez e de forma intensa a sensação de liberdade, é também um documento histórico valioso sobre o período que antecede a 2ª guerra mundial até ao momento da Libertação de Paris em Agosto de 1944.

No Prólogo, Simone de Beauvoir avisa: “Lancei-me numa aventura imprudente, quando comecei a falar de mim. Começa-se e nunca mais se acaba. “ (…) “No entanto, devo preveni-los que não pretendo dizer tudo” (…) “a minha vida foi estreitamente ligada à de Jean Paul Sartre; mas a sua história espera contá-la ele próprio e deixo-lhe essa tarefa.” E, em nota de rodapé: “Neste livro consenti em omitir; nunca em mentir. Mas é provável que a memória me tenha traído em pequenas coisas…”

O livro está dividido em duas grandes partes; a primeira vai de Setembro de 1929 ao Verão de 1938 e a segunda, desde esse Verão quando a ameaça da guerra era já muito presente até 25 de Agosto de 1944, quando os últimos ocupantes nazis abandonaram a cidade de Paris onde Simone de Beauvoir vivia.

Simone de Beauvoir tem 21 anos, vai viver para Paris onde dá umas aulas que lhe permitem a liberdade de ter um quarto seu. “Quando Sartre voltou a Paris, em meados de Outubro, começou verdadeiramente a minha nova vida” (pág.15). O dinheiro era pouco, liam, iam ao teatro, descobriam o cinema sonoro, discutiam as teorias de Sartre, tinham uma visão idílica sobre a paz, considerando a ascensão das ideias de Hitler “um epifenómeno sem gravidade” (pág.16). O seu ideal de vida era escrever e para este jovem casal “a liberdade era a nossa única regra” (pág.40). Viviam longe da realidade, no entanto, Beauvoir refere numa visita a uma pequena fábrica de tomadas para lâmpadas eléctricas que, ao ver a dureza, insalubridade das condições de trabalho e monotonia das tarefas, que o seu “primeiro encontro com o trabalho foi como um soco no estômago” (pág.53).

As caminhadas solitárias e a descoberta sistemática da região de Marselha, onde é colocada durante um ano, são um deslumbramento para Simone de Beauvoir. Segue-se Rouen, sem os encantos de Marselha, onde vai permanecer durante quatro anos, mas com a vantagem de estar mais próxima de Paris e de Sartre que dá aulas no Havre. Em Espanha, vencem as forças republicanas, mas na Alemanha as ideias de Hitler vão fazendo o seu caminho e na Itália os camisas negras estão cada vez mais presentes nas ruas. No entanto, apesar das perseguições aos judeus na Alemanha, os intelectuais nos quais Beauvoir e Sartre se incluíam encaravam isso com relativa serenidade e tinham uma visão distorcida sobre a situação política. Em finais de 1934, início de 1935 a situação económica deteriora-se, crescem os despedimentos e o desemprego. A xenofobia e as tendências nacionalistas de direita aprofundam-se. É interessante perceber a evolução no pensamento de Simone de Beauvoir que nessa altura só tinha interesse, ao nível da política externa, por o que se passava em Espanha em que as direitas estavam no poder, com a repressão selvática aos operários da Catalunha e das Astúrias. “Uma questão que nessa altura fazia correr muita tinta era o voto das mulheres; no momento das eleições municipais; Marie Vérone e Louise Weiss agitaram-se furiosamente; tinham razão; mas como eu era apolítica e não iria usar dos meus direitos, era-me absolutamente indiferente que nos reconhecessem ou não” (pág.183). O que a movia eram as questões da repressão que se fazia sentir, questiona-se sobre a pena de morte, mas do ponto de vista político a sua postura assim como a de Sartre era de meros espectadores (pág.186). A Frente Popular que introduzira grandes transformações sociais e melhoria na qualidade de vida dos operários franceses entra em declínio; os franquistas avançam em Espanha e Guernica é massacrada; a Grécia vive em ditadura e a pobreza do povo é indisfarçável. Só a URSS se mostrava desejosa de barrar o fascismo, mas “Nunca imagináramos a URSS como um paraíso, mas também nunca tínhamos posto seriamente em questão a construção socialista (…) Não haveria mais nenhum lugar no mundo onde se pudesse alojar a esperança?” (pág.245). As perseguições intensificam-se na Alemanha e a Europa vive uma onda de refugiados que se deslocam e que ninguém quer aceitar.

A Primavera de 1939 marca um ponto de viragem em Beauvoir, que faz um balanço dos seus últimos dez anos numa síntese que encerra a 1ª parte desta autobiografia. “Não é possível assinalar um dia, uma semana, nem mesmo um mês, para a conversão que então se deu em mim. Mas é certo que a Primavera de 1939 marca um corte na minha vida. Renunciei ao individualismo e ao anti-humanismo. Aprendi a solidariedade” (…) “É arbitrário cortar a vida aos bocados. No entanto, o ano de 1929, de que datam, ao mesmo tempo, o fim dos meus estudos, a minha emancipação económica, a saída da casa paterna, a ruptura das antigas amizades e o meu encontro com Sartre, abriu evidentemente para mim uma nova era. Em 1939, a minha existência mudou de uma maneira igualmente radical: a História apanhou-me para não mais me largar; por outro lado, dediquei-me a fundo para sempre à literatura. Encerrava-se uma época. Este período que acabo de contar fez-me passar da juventude à maturidade. Dominaram-me duas preocupações: viver e realizar a minha vocação ainda abstracta de escritor; isto é, encontrar o ponto de inserção da literatura na minha vida.” (pág. 302). “Todavia, ao fazer o balanço destes anos, parece-me que me deram muitíssimo: tantos livros, quadros e cidades, tantos rostos, tantas ideias, emoções e sentimentos! Nem tudo era falso.” (pág. 306)

No Verão de 1938, já com a ameaça iminente da guerra, ainda aproveita a natureza na Provença com Sartre, antes de regressar a Paris. A notícia da conclusão do pacto germano-soviético é o fim de toda e qualquer esperança. Os comboios sobrelotados, a mobilização e a angústia das pessoas são o sinal da viragem. No entanto, há ainda a crença de que a guerra não vai ser longa e que os fascismos vão ser liquidados e que a França e toda a Europa caminharão para o socialismo. É muito interessante o retrato que Beauvoir traça do estado de espírito das pessoas: inquietas, dando palpites, tentando adivinhar o futuro. Ela própria “sentia medo. Não receava por mim; nem por um instante pensei em fugir do País. Tinha receio por Sartre.” (…) ”E uma manhã a coisa aconteceu. Então, na minha solidão e angústia, comecei a escrever um diário. Parece-me mais vivo, mais exacto do que a narrativa que eu pudesse tirar dele.” (pág. 321) Vai então escrever um diário que começa a 1 de Setembro e vai até 14 de Julho do ano seguinte, com alguns períodos intermitentes, ou seja, todo o período em que está afastada de Sartre. Este diário é um retrato/documento vivo do quotidiano da França naquela época. A 1 de Setembro é declarada guerra à Polónia, Sartre é mobilizado para Nancy, as pessoas começam a comprar máscaras de gás, as rotinas alteram-se, os cafés fecham cedo e as boîtes não abrem. “O Flore está fechado. Sento-me na esplanada do Deux Magots e leio Journal, de Gide, de 1914; grande analogia com o momento presente” (pág. 326) Alguns dizem que esta guerra é uma brincadeira. “Durará muito tempo?”, pergunta Simone de Beauvoir. Num passeio pelos campos com Camille, “Voltamos através dos campos e aldeias. É um momento muito comovente e recordo-me do que Sartre me disse em Avinhão, e que é tão verdadeiro: que se pode viver numa grande doçura um presente rodeado de ameaças; não esqueço nada da guerra, da separação, da morte, do futuro bloqueado e no entanto nada pode apagar a ternura e a luminosidade da paisagem; como se fosse invadida por um sentimento que se basta a si próprio, que não pertence a nenhuma história, arrancado à sua própria história, de repente, completamente desinteressado.” (pág. 334). Na entrada de 25 de Outubro do diário, escreve Simone de Beauvoir: “Fernand diz que os jornais estão cheios de mentiras e que a guerra vai ser longa. Já não reajo a estas previsões. Trabalho no meu romance, dou aulas e vivo numa espécie de embrutecimento: nenhum futuro tem realidade.” (pág. 348)

Para se deslocarem, os franceses precisam de salvo-condutos, o que não é fácil de conseguir. As cartas que recebe de Sartre, em parte incerta, são abertas pela censura. Mais tarde, em código, ela consegue perceber que ele está na Alsácia. No PCF há demissões por desacordo com o pacto germano-soviético. Em Maio os alemães invadem a Holanda, a Bélgica e o Luxemburgo e a 4 de Junho a região de Paris é bombardeada. A vida muda radicalmente para Simone de Beauvoir que tem de ficar na cidade por causa da sua profissão. Sente-se enclausurada. Mas, com o avanço das tropas ocupantes, os professores são dispensados e os exames adiados. Paris é o caos, sem gasolina, sem comida para os franceses, mas os alemães pavoneiam-se e culpam os ingleses e os judeus pela situação de penúria que vivem os habitantes da cidade. É nessa altura que Simone de Beauvoir aprende a andar de bicicleta, o que lhe vai ser muito útil e para Sartre nas suas muitas deslocações. A repressão e o peso da ideologia nazi entram no quotidiano das pessoas. As notícias são escassas e deturpadas, alguns amigos começam a vacilar. Outros desaparecem.

Quando Sartre que estivera preso é libertado, quer seguir a política e cria um pequeno grupo – “Socialismo e Liberdade “ – à semelhança de muitos que existiam, que ajude à resistência aos ocupantes e colaboracionistas. O “trio” que Simone, Sartre e Olga constituíram antes da guerra, é agora alargado, como se fossem uma “família”. Partilham o pouco que têm, apoiam-se nas dificuldades que são cada vez maiores, a informação é escassa, os avanços das forças inglesas andam a par das execuções, das prisões e dos envios das pessoas para os campos de concentração, embora nessa altura ainda pouco se soubesse sobre os campos de concentração, as resistências organizam-se, mas há que estar atento aos delatores. Em contraponto ao ambiente hostil da ocupação e da guerra, à rudeza do frio e da fome, este grupo de intelectuais – Camus, Dullin, Picasso, Dora Marr, os Leiris, Éluard, Malraux … – fazia do Flore a sua casa e alimentava a sua amizade com a alegria de viver o momento e de aproveitar ao máximo o facto de estarem vivos. Tinham grandes projectos para o futuro e antecipavam o que fariam no pós-guerra. Sartre cria textos para peças de teatro, Simone trabalha no segundo romance e o seu reconhecimento como escritora surge quando finalmente “A Convidada”, o seu primeiro romance é editado e sobre ele são escritas críticas em jornais de referência. Simone de Beauvoir era finalmente reconhecida como escritora, ganha notoriedade e esse reconhecimento dá-lhe grande satisfação pessoal.

Como referi anteriormente, a parte final de “A Força da Idade” é o retrato dos dias que antecederam a vitória sobre o ocupante nazi e que foi sentida antecipadamente pela “família” que há tanto tempo a desejava. A Libertação não foi conseguida sem muito sofrimento e sem que o terror estivesse presente até ao fim. Simone de Beauvoir faz também aqui um balanço, uma reflexão sobre a guerra e o peso que ela irá transportar para a sua vida do pós-guerra e que não mais se apagará. Dos muitos amigos e amigas que vão surgindo ao longo das mais de quinhentas páginas, ela destaca o jovem Bourla cuja morte lhe é insuportável

 Para além da minúcia e detalhe usados ao longo de todo o livro na descrição das paisagens e percursos que fazem ela e Sartre em toda a França, mas também noutros países como a Espanha, a Itália ou a Grécia; Simone de Beauvoir como observadora de tudo o que a rodeia é exaustiva na caracterização daqueles que lhe estão mais próximos e, de forma muito particular, partilha nas suas memórias a importância da literatura na sua vida “a literatura tornou-se-me tão necessária como o ar que respirava” (pág. 509); as dúvidas e inseguranças em todo o processo criativo, os elementos usados na construção de “L’Invitée”, mas também de “Le Sang des Autres” e “Tous les Hommes sont Mortels”, o que acho de grande interesse para quem estudar estas três primeiras obras da autora, na medida em que estão intrinsecamente ligadas à sua vivência e às pessoas que fizeram parte dos seus relacionamentos mais íntimos.

Por fim e assumindo que muitíssimo mais poderia dizer sobre este livro, não posso deixar de aqui transcrever um parágrafo que surge na parte final do livro, que reflecte as preocupações desta professora, filósofa, feminista, fundamental para o pensamento do feminismo e das feministas. A propósito do seu círculo de amigos, intelectuais quase todos oriundos do surrealismo, escreve Beauvoir: “ Tirei ainda um outro proveito dessa intimidade. Conhecia poucas mulheres da minha idade e nenhuma que levasse uma vida clássica de casada; os problemas de Stépha, Camille, Louise Perron, Colette Audry e os meus eram, na minha opinião, individuais e não generalizados. Em muitos pontos, compreendera quanto, antes da guerra, pecara por abstracção: sabia agora que não era indiferente ser judeu ou ariano; mas não me tinha apercebido de que houvesse uma condição feminina. Subitamente, encontrei um grande número de mulheres que tinham ultrapassado os quarenta e que, através da diversidade das suas possibilidades e méritos, haviam tido uma experiência idêntica: tinham vivido como «seres relativos». Como eu escrevia, como a minha situação era diferente da delas, e também, penso eu, como sabia escutar, disseram-me muita coisa; comecei a dar conta das dificuldades, das aparentes facilidades, dos logros e dos obstáculos que a maioria das mulheres encontra pelo caminho; senti também que, naquela medida, eram simultaneamente diminuídas e enriquecidas. Não dava ainda muita importância a um assunto que só indirectamente me dizia respeito, mas a minha atenção foi despertada.” (pág. 481)

10 de Julho de 2022

Almerinda Bento

 

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Em Tudo havia Beleza [Ordesa] de Manuel Vilas

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Em Tudo havia Beleza  [Ordesa], Manuel Vilas, 2018


“Obrigada à vida, que me deu tanto.


Deu-me o riso e deu-me o pranto.


Assim distingo a sorte do quebranto,


os dois materiais que compõem o meu canto,


e o canto de vocês, que é o mesmo canto,


e o canto de todos, que é o meu próprio canto.”


                                                                               Violeta Parra


Abrir um livro em que o autor tenha escolhido para epígrafe este belo poema de Violeta Parra é, desde logo, um bom augúrio. À medida que se vai progredindo no livro, constituído por centena e meia de capítulos ou quadros, alguns muito breves, entramos na intimidade do autor/narrador que logo no início nos fala da sua dor e da impossibilidade de a medir ou quantificar. No seu caso, a somar aos infortúnios ou percalços da vida, a dor pela perda do pai e da mãe. Uma dor que ele vai tentar superar, se é que tal é possível!, pela escrita deste livro e pela fuga para um lugar mágico da sua infância, um lugar num vale cercado de montanhas onde foi muito feliz com os pais. Ordesa é esse lugar mágico, “Ordesa” é o nome original deste livro traduzido por Vasco Gato e que na sua versão portuguesa é “Em Tudo havia Beleza”.


Professor durante 23 anos, com um historial de abuso de drogas e de álcool a que consegue sobreviver, pai de dois filhos com quem a comunicação não é fácil, o seu divórcio aos 52 anos vai ter um efeito novo na sua vida. Tudo tem de ser reorientado, tudo passa a ter outro significado que o vai levar a dar à vida e morte dos pais uma importância que antes nunca tinha dado. Ele projecta-se nos pais, culpa-se por não lhes ter feito as perguntas para respostas que hoje já não pode ter, e antevê nos filhos aquilo que eles também sentirão quando ele já não existir. Sobretudo, culpa-se por aquilo que deixou de fazer, por aquilo que não verbalizou , pelos abraços que nunca conseguiram dar, talvez por pudor, as provas de amor que ficaram por dar e que agora já não são possíveis de demonstrar. Muitas vezes pensa e coloca-se no papel de uma terceira pessoa que lhe fala, lhe dá conselhos, ideias e sugestões, como que se distanciando dele, assumindo uma voz crítica. Há aspectos a que volta, que repisa, que repete, vertendo para o papel os medos, as dúvidas, as hesitações, os fantasmas.


Por isso, ao lê-lo senti que era um livro que fazia muito sentido, que fazia todo o sentido, porque é muito verdadeiro, muito palpável. Revi-me muitas vezes nele, encontrei-me nele e dei por mim por vezes a pensar: isto podia ter sido escrito por mim. Mas também penso que, pelo facto de a dor da morte e da perda definitiva estar sempre subjacente no livro, a sua leitura não será fácil para quem tiver esse sentimento de perda e de luto ainda muito recente. Não é fácil.


Enquanto é muito preciso nas datas de muitos acontecimentos da sua vida – nascimento em 1962; “No dia 9 de Junho de 2014 deixei de beber”; anos do nascimento,  casamento e cremação dos pais; concepção em Novembro de 1961; “Escrevo estas palavras a 9 de Maio de 2015” – a data do seu divórcio é imprecisa pois “não se sabe muito bem o momento, pois não é uma data, mas um processo…” É crítico e cáustico relativamente à instituição casamento. Transcrevo duas passagens, a primeira decorrente dum almoço com gente da cultura para que foi convidado pelo rei Felipe e por Letizia


 “É normal sentir compaixão pelos casais, especialmente pelos casais que começam a acumular anos de vínculo conjugal, porque todos sabemos que o casamento é a mais terrível das instituições humanas, pois requer sacrifício, requer renúncia, requer negação do instinto, requer mentira atrás de mentira, proporcionando em troca a paz social e a prosperidade económica.” (pág. 40)


A segunda, em que recorda o tio Rachmaninov, o irmão do pai


“E, para cúmulo, o Rachma divorciou-se. Isso é que foi espantoso.(…) O mais curioso é que lhe invejei essa vida. Julgo que o casamento de longa duração não é próprio da natureza humana. Fico contente que o Rachma tivesse sabido dar-se conta disso. Imagino que tenha sido isso. Os homens aceitam os casamentos de longa duração porque deixam de acreditar na juventude. 


Penso que após o seu divórcio se terá transformado noutro homem. Bem, entendo assim que o Rachma disse não a essa ordenação simbólica da realidade que existe por trás do casamento de longa duração, que é um pesadelo, que é uma prisão; claro que quem vive nesses casamentos sorri, e parece tratar-se de um sorriso verdadeiro. Acho que os casamentos de longa duração não valem a pena, percebo que esta afirmação seja exagerada, mas a renúncia às paixões também é um exagero do sacrifício razoável. Certos antropólogos dizem que a monogamia não é natural. Essa feira interminável de infidelidades entre homens e mulheres, de mal-entendidos dolorosos, está por trás da imposição da monogamia.


Talvez tenha sido o capitalismo eclesiástico a inventar os casamentos de longa duração.” (págs. 347 e 348)


E depois os lugares pontuam as diferentes fases da vida, desde logo Barbastro na região do Alto Aragão onde nasceu, Saragoça onde estudou, Madrid a imensa capital política, Ordesa e as montanhas que a cercam, a poderosa Catalunha ligada às viagens do pai quando o negócio do têxtil estava florescente e a Galiza onde o irmão do pai casou e se estabeleceu. Um mosaico da Espanha franquista, da Espanha pobre a que a sua família sempre pertenceu mesmo quando a prosperidade momentânea do caixeiro-viajante ou o sonho da sala exclusivamente usada pelas visitas da mãe não passaram de um breve episódio nas suas vidas. E depois fica o desamparo, a solidão, apanágio de quem é pobre, de quem só pode comprar electrodomésticos de marca branca, ou de quem opta por ter uma sala grande sem serventia em vez de uma casa de banho em condições! Do outro lado a monarquia e os que gravitam à volta do poder. A ironia em torno da Espanha e do seu povo não poupa os pais que não ligam a nada da política, para quem os interesses não vão além dos programas de culinária na televisão (o pai) ou o acompanhar todos os detalhes da vida de Julio Iglesias (a mãe).


O autor/narrador expõe-se, revela-nos acontecimentos marcantes da sua vida e nomeia os membros da sua família à medida que eles vão surgindo no livro com nomes de grandes mestres da música. O pai é Bach, a mãe é a Wagner, Vivaldi e Brahms são os nomes que dá aos filhos, Monteverdi e Händel são os tios maternos e Rachmaninov o tio irmão do pai, a viver na Galiza. Até ao rei ele dá um nome – Beethoven – o rei dos músicos. E depois a figura sinistra do padre G. que ele recorda como alguém que é o Mal, alguém cujo toque provocou nele um apagão, desde sempre associado a um sentimento de medo, o medo típico da vítima que se acha culpada do mal que lhe provocaram.


O pai – Johann Sebastian – é constantemente recordado como uma pessoa boa que atraía os desventurados. São muitas as marcas, anotações e sublinhados que fiz, mas deixo aqui apenas alguns em torno da figura do pai.


“O meu pai foi um artista do silêncio.” “A medicina ainda não é inteligente, é ainda uma simples prática, simples constatação de factos. Tem de descobrir a beleza e a salganhada imaterial de um tumor cancerígeno, porque num tumor cancerígeno também está a vontade de vida do corpo do homem que o traz dentro de si. É essa a razão de o meu pai ter escolhido o silêncio. Não havia nada a dizer. A medicina estava vazia, a religião nunca existiu, e ele já abandonara o seu carro. Os seres humanos já estavam na invisibilidade, não tinha nada para nos dizer” (pág. 70)


“Na realidade, eu nunca soube quem era o meu pai. Foi o ser mais tímido, enigmático, silencioso e elegante que conheci na minha vida. Quem foi? Não me dizendo quem era, o meu pai estava a forjar este livro.” (pág. 217)


“Éramos então pai e filho, de uma forma que nunca mais voltaríamos a ser.


Jogávamos muito bem.


Formávamos um único ser, fundíamo-nos.


Éramos amor.


Mas nunca falámos disso, nunca o dissemos.


Nunca.”  (págs. 264 e 265)


Sobre a mãe – a Wagner – limito-me a fazer esta transcrição: “Como sou parecido com a minha mãe, absolutamente igual.” (pág. 360)


Muito próximo do fim,


 “O mês de Junho aparecia por Barbastro como um deus a iluminar a vida das pessoas.


Era o paraíso. Foi o meu paraíso. Foram eles o meu paraíso, o meu pai e a minha mãe, como gostei deles, como fomos felizes e como nos desmoronámos. Que bela foi a nossa vida em conjunto, e tudo está perdido agora. E parece impossível.” (pág. 235)


Manuel Vilas tem uma produção poética intensa e a sua escrita é muita rica, mas simples, sem artifícios. Este romance autobiográfico surpreende pela escrita, mas não posso deixar de aqui referir o último capítulo (157) que se refere à noite da sua concepção quando os pais eram uns jovens a estrear a sua vida conjugal e um prédio em que tudo era  novo, em comparação com a decrepitude do mesmo prédio passados cinquenta anos. É um capítulo simplesmente belíssimo.


O epílogo – A família e a História – é como que a síntese, em poesia, das cerca de quatrocentas páginas que constituem o livro.


Termino, voltando ao princípio e ao icónico canto da grande Violeta Parra


 “ Obrigada à vida, que me deu tanto. Deu-me o riso e deu-me o pranto. …”


16 de Junho de 2019


Almerinda Bento

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...