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terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

A Poesia está de luto

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Hoje de manhã fui confrontada com uma notícia que era expectável, mas que nunca queremos ouvir.


"A Desobediente faleceu". Foi essa a mensagem que o meu filho me enviou, estava eu em Lisboa e ainda no começo de uma série de coisas que tinha de fazer. Foi um choque. Uma tristeza. 


Não tinha previsto entrar em nenhuma livraria, não fosse ser tentada, mas não resisti, já que estava em Alvalade e poderia encontar a Marta na Bertrand. Mas a Marta não estava e um dos primeiros livros que me chamou a atenção foi o livro da Adília Lopes. O livro chamou-me e foi esse que levei. O jovem que me atendeu quando lhe estendi "Pardais" questionou-me: - Não quer levar nenhum de Maria Teresa Horta? -  A Desobediente! - respondi-lhe. Hoje não. Hoje levo a Adília Lopes. Ainda deu para falarmos da maravilhosa biografia de Maria Teresa Horta feita por Patrícia Reis e lá segui para outro destino. 


"Nous n'avons plus d'argent pour enterrer nos morts.


Le prêtre est là, marquant le prix des funérailles;


Et les corps étendus, troués par les mitrailles,


Attendent un linceul, une croix, un remords."


Esta é a epígrafe que Adília Lopes escolheu da autoria de Marceline Desbordes-Valmore para abrir o seu livro de poemas com o título "Pardais". Folheio o livro e sorrio com alguns dos seus poemas, pequenos, mas que sabem tão bem neste dia soalheiro e frio de Fevereiro. Para cortar a tristeza desta(s) morte(s). 



"Sem liberdade não há felicidade."  (p. 20)


"Sem democracia não há alegria." (p. 21)


"Vale a pena escrever poemas." (encimado pelo poema de Fernando Pessoa "Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena) (p. 24)


"É preciso pensar no dia de amanhã alegremente."(p. 25)


"Não empolar. Não escarafunchar." (p. 26)


"Na montra de um café de Lisboa está escrito: A Vida é Super. Também acho." (p. 27)



Já hoje escrevi um pequeno texto de homenagem a Maria Teresa Horta. Poucas e pobres palavras para uma Mulher tão grande, para uma mulher cuja escrita e vida foram importantes para mim como feminista. Para uma Mulher que nunca foi consensual, que nunca vogou nas águas do senso comum, para uma Mulher que rompeu barreiras quando isso era tão difícil e que pagou pela sua desobediência e pela sua insubmissão. Uma Mulher que foi e é uma inspiração. 


Hoje é dia de ler Poesia. O futuro está aí para descobrir e divulgar poesia, as e os poetas.


Acreditar que a Poesia, a Literatura, a Cultura nos salvam.


4 de Fevereiro de 2025 


 


 


 

sábado, 24 de agosto de 2024

A Desobediente, Biografia de Maria Teresa Horta, 2024

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“A Desobediente – Biografia de Maria Teresa Horta”, Patrícia Reis, 2024


Antes de tudo, Patrícia Reis adverte o/a leitor/a que “esta não é uma biografia imparcial” (p. 17) nem é “uma radiografia” (p. 17) e que lhe “foi muito difícil terminar esta biografia” (p. 13). Ligam biografada e biógrafa o facto de serem amigas, jornalistas e a tristeza e a solidão de Maria Teresa Horta, desde a morte do marido, não ter deixado de, até certo ponto, contaminar a feitura deste livro.


Cada uma das cinco partes de que é feito “A Desobediente” tem, a encimar os diferentes capítulos que as constituem, os nomes de cinco das muitas obras de Maria Teresa Horta: “Espelho Inicial”, “Estranhezas”, “Anunciações”, “Jardim de Inverno” e “Poesis”.


A primeira parte – “Espelho Inicial” – que se ocupa da infância, da adolescência, da sua paixão por Luís de Barros e das escolhas de Maria Teresa Horta até ao nascimento do seu único filho, é o período estruturante de todo o resto da sua vida. Fala da mãe, da avó Camila sua grande aliada, do pai, do sentimento de desamor, de solidão e abandono, a percepção dos preconceitos em relação às mulheres e a intrepidez que desde sempre assume na escrita. A sua personalidade nos meios onde se move tem a marca da luta pela liberdade que então não existia em Portugal. Apaixonada pela escrita, pela poesia e também pelo cinema, para além de sócia de um cineclube, faz parte da direcção do cineclube ABC o que era inédito na altura. A censura, as intervenções da PIDE e o ódio visceral de Moreira Baptista secretário da Informação por Maria Teresa Horta são episódios num país que nega direitos básicos, que vicia as eleições e que manda assassinar Humberto Delgado, para além de torturar todos os que se opunham ao regime. No entanto, é também nesta altura que ela começa a entrar em contacto com escritores e a receber apoios e incentivos dos seus pares.


“Minha Senhora de Mim” foi uma pedra no charco na literatura feita até então por mulheres e de tal forma incomodou o poder, que a violenta agressão feita a Maria Teresa Horta por um grupo de legionários, iria motivar a criação de “Novas Cartas Portuguesas”. Jornalistas e também amigas de Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno decidem ao longo de nove meses escrever uma obra ímpar que vai abalar concepções sobre as mulheres, sobre a política e até sobre a própria criação literária. Uma sociedade podre e cheia de contradições não podia ficar indiferente àquela obra que é apreendida ao fim de três dias de ter sido publicada. Natália Correia, Maria Lamas, José Gomes Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues e tantos outros, para além de todos os apoios internacionais com destaque para Simone de Beauvoir e Marguerite Duras vão ser alguns dos nomes que acompanharam a onda de extraordinária solidariedade para com as três escritoras e que ficou conhecido como o processo das Três Marias que terminou com a sua absolvição no dia 7 de Maio de 1974.


A revolução aconteceu, mas as contradições criadas com as reivindicações das mulheres e com as reivindicações feministas não deixaram de existir por uma revolução democrática ter acontecido. Havia no Portugal acabado de chegar à democracia muita incompreensão e insensibilidade sobre as reivindicações específicas das mulheres, nomeadamente a questão do aborto, um tabú, a par de tudo o que tivesse a ver com os corpos das mulheres. Tema tão caro a Maria Teresa Horta, mulher assumidamente feminista, e que está no coração da sua poesia, desde sempre. Aliás, e como a biografia sobre Maria Teresa Horta abundantemente refere, nem o 25 de Abril trouxe maior visibilidade à obra da poetisa, nem lhe granjeou grande popularidade. Ser feminista não traz popularidade nem simpatia, mesmo no seio da esquerda. E então quanto à direita, nem se fala.  


Se a obra de Maria Teresa Horta está largamente divulgada, traduzida e estudada em todo o mundo, nomeadamente “Novas Cartas Portuguesas”, com destaque no Brasil, os prémios e o reconhecimento em Portugal vieram, embora tardiamente. A quarta parte da biografia dá destaque a algumas das suas obras e ao romance “As Luzes de Leonor – A Marquesa de Alorna, uma sedutora de anjos, poetas e heróis”, a que dedicou treze anos de intenso trabalho, uma verdadeira “devoção”, em que “Leonor e Teresa se confundem”. (pág. 357) Insubmissa, desobediente, coerente, Maria Teresa Horta recusa receber o prémio D. Dinis da Fundação Casa de Mateus das mãos do então primeiro-ministro Passos Coelho (2011).


A última parte da biografia começa com a morte inesperada de Luís de Barros, poucos meses antes da pandemia. A perda e a solidão são imensas, depois de uma vida de paixão intensa pelo marido ao longo de 56 anos. Maria Teresa Horta sabe que a salvação está na poesia e decide dedicar mais um livro ao marido, desta vez com o título “Paixão”. Embora mais limitada ao espaço da casa, continua sempre a escrever e sempre atenta ao mundo e à política. Mesmo a terminar a biografia, transcrevo este período que é significativo sobre esta mulher extraordinária: “O modo como está o mundo também te diz muito sobre o modo como está a vida das mulheres. Imagine-se as mulheres da Ucrânia, as atrocidades que sofrem, os devaneios pelos quais têm passado. As notícias são importantes por isso, para conseguirmos medir a pulsação das coisas”. (pág. 404)


É sempre com muito respeito e humildade que escrevo sobre livros que li e que me merecem consideração para fazer uma apreciação, como registo que gosto de partilhar. Este livro, entre outros, é um deles. Antes do mais pela consideração que me merece uma mulher feminista que toda a vida assumiu a liberdade e que nunca virou costas às dificuldades e às suas convicções mais profundas, numa postura de coragem e de coerência num mundo tão adverso à frontalidade e ao feminismo. E claro, também pela coragem da autora e pelo trabalho de grande fôlego e valor que é o de biografar uma mulher com uma vida tão rica e tão inspiradora. Parabéns. Muito obrigada às duas.


 


22 de Agosto de 2024


 


 


 


 

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Maria Antonieta, Stefan Zweig

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Maria Antonieta, Stefan Zweig, 1932


Quando há um ano li “Maria Stuart” decidi que queria ler “Maria Antonieta” uma das diversas biografias que o incansável Stefan Zweig escreveu ao longo da vida. Tal como “Maria Stuart”, “Maria Antonieta” é o resultado de um profundo trabalho de pesquisa, aliado a uma escrita irrepreensível e a uma reflexão pessoal sobre a personagem, a história e todo o ambiente na Europa e na corte francesa nos finais do século XVIII. Esta edição do Círculo de Leitores foi traduzida por Alice Ogando, tal como acontecera na biografia de “Maria Stuart”.


Maria Antonieta é uma personagem trágica, usada na infância como moeda para alianças entre famílias reais através de um casamento de conveniência, sem possibilidade de brincar e crescer num ambiente que não fosse regido pela etiqueta e pelas intrigas, fascinada pelo papel que lhe é atribuído, apesar de nem ela nem o jovem marido Luís XVI estarem à altura desse papel – ele mole e indeciso, ela fútil e superficial. São vinte anos de vida estouvada, com gastos exorbitantes e sem limites que geram uma reviravolta na atitude do povo que deixa de lhe ter o respeito e a estima que antes tivera, para a odiar, caluniar e desprezar. Quando o povo desperta, já é tarde demais para a rainha e para a os nobres que viviam na órbita desta jovem rainha que nuca quis ouvir os conselhos da sua mãe Maria Teresa, a imperatriz da Áustria. Aliás, ninguém tinha a noção da amplitude da revolta popular, uma verdadeira revolução. A rainha fica sozinha, todos os amigos desaparecem, excepto Hans Axel von Fersen, o único que tudo fez até ao fim para tentar salvá-la da justiça popular. Após a tomada da Bastilha a 14 de Julho, os acontecimentos precipitam-se e a roda da História nunca mais sorrirá a Luís XVI e a Maria Antonieta. Acaba Trianon, o palácio da evasão e da futilidade da rainha, a última noite em Versailles será a 5 de Outubro, para nunca mais voltarem. Numa viagem de seis horas para Paris, seguidos pela multidão em fúria, vão ficar presos nas Tulherias, desabitadas há mais de cem anos, desde os tempos de Luis XIV. A tentativa de fuga para Varennes, a constituição da Comuna a 10 de Agosto de 1792, o aprisionamento dos reis no Templo e a abolição da realeza com a decapitação do rei são a sequência de um momento histórico decisivo para a França e com reflexos na Europa. Maria Antonieta está completamente só, “todos a abandonaram” (pág. 370); inclusivamente, o imperador Francisco, sobrinho de Maria Antonieta não mexe uma palha para a ajudar. Só mesmo o embaixador Mercy e Fersen, tentam, no exterior, impedir que Maria Antonieta suba ao cadafalso. Mesmo na Conciergerie “a antecâmara da morte” (pág. 399), onde os carcereiros estabelecem relações de simpatia e amizade com a presa, o medo das represálias da Comuna e da Junta de Salvação Pública falam mais forte.


A mudança na vida de Maria Antonieta operou uma transformação radical na sua atitude e é essa capacidade da escrita que torna este livro tão extraordinário e a personagem de Maria Antonieta tão dramática. “Desde a tomada da Bastilha até ao cadafalso, não cessa de se sentir completamente senhora dos seus direitos” (pág. 211) e, tal como me surpreendeu a descrição da morte de Maria Stuart, nesta biografia, a fibra de uma mulher que quis morrer com dignidade sem dar quaisquer trunfos aos que a acossaram e traíram e aos que a julgaram, mesmo sem terem documentos comprovativos, torna as últimas páginas deste livro verdadeiramente inesquecíveis. “ «Quando te resolves a ser quem és?», escrevia-lhe vinte anos antes, Maria Teresa, desesperada. Agora, a dois passos da morte, começa a encontrar em si mesma essa grandeza que só possuía exteriormente. Quando lhe perguntaram o seu nome, responde em voz alta e clara: «Maria Antonieta de Áustria Lorena, trinta e oito anos, viúva do rei de França.»” (pág. 417) Como num filme, Stefan Zweig é exímio na descrição da atitude e dos sentimentos da rainha e na descrição de toda a envolvência no percurso desde a cela na Conciergerie até ao cadafalso na Praça da Revolução, hoje Praça da Concórdia.


18 de Agosto de 2023


Almerinda Bento


Nota: Ao ler este livro sobre a rainha Maria Antonieta, não pude deixar de me lembrar da minha leitura de “As Luzes de Leonor” de Maria Teresa Horta. Lembro-me que D. Leonor de Almeida Portugal, 4ª Marquesa de Alorna estava em França, em Marselha e que partiu para Paris, porque queria viver de perto a revolução francesa que a fascina e atemoriza, porque a questiona sobre o mundo em que sempre viveu. Vai conhecer mulheres fascinantes, mulheres do povo que falam em liberdade e igualdade, em direitos. São tempos de grandes questionamentos, mas que a atraem imenso e nessa altura conhece Olympe de Gouges.


Leonor associa Paris à Roma incendiada por Nero. Sente-se deslocada entre os revolucionários e as amazonas, mas não quer partir. As mulheres encabeçam o cerco a Versalhes. Leonor não toma posição sobre a revolução e considera que nada será como dantes; é uma mera testemunha e regressa a Marselha.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Da Meia-Noite às Seis, Patrícia Reis

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Da meia-noite às seis, Patrícia Reis, 2021


Patrícia Reis uma revelação e este já é o seu décimo livro. Já tinha lido apreciações sobre “Crianças Invisíveis” e recentemente li no JL, não só a entrevista que lhe foi feita, mas também os textos de Miguel Real e de Valter Hugo Mãe sobre este livro que decidi comprar, aproveitando para fazer uma troca de livro repetido entre os muitos que recebi nos anos. Excelente escolha.


A dedicatória a Maria Teresa Horta, a quem há tempos faleceu o marido, não podia ser mais ajustada. Susana Ribeiro de Andrade, uma das personagens principais deste livro, é confrontada com o fim inexorável e irreversível do amor da sua vida, na sequência de ter sido contaminado com o vírus. Está-se em 2022 e a pandemia continua implacável, a fazer o seu caminho. O choque brutal desta morte deixa-a sem chão, apenas com as memórias do homem que amava, o seu companheiro com quem continuava a conversar de mão dada! A viagem a Roma, as preferências literárias dele por Camus, Agustina ou o “Adriano” de Marguerite Yourcenar que ela não lera (e que ele dizia que era um daqueles livros que não podem deixar de ser lidos), todas essas memórias são aquilo a que se agarra num tempo de luto, em que interrompe momentaneamente a sua actividade profissional numa estação de rádio.


No regresso, aceita o horário das “horas mortas”, aquele que é desvalorizado (“seria aquilo trabalho” pensam até alguns colegas), por ser rotineiro, por ter uma audiência menos interessante, aquele que afinal ninguém quer. Rui Vieira também voltara à rádio na noite de Natal de 2019. Quem quer trabalhar nesses dias? Quando se pensa que já não servimos porque temos uma incapacidade, quando se é descartável, valha-nos uma vaga porque há que cumprir a quota das pessoas com deficiência… De tudo isto nos fala Patrícia Reis: das discriminações, da homofobia, do racismo, da solidão, da precariedade que ficou mais exposta com a pandemia, mas também do verso da medalha: da solidariedade, da revolução que é dar voz às pessoas, de que há que descobrir o lado positivo da vida, de que a felicidade é possível e que muitas vezes está ali mesmo ao nosso lado.


Este livro é também um elogio aos trabalhadores da cultura, ao extraordinário poder da rádio, da voz, do sentido e da força das palavras. Li este livro rapidamente, com uma profunda empatia, não conseguindo deixar de fazer muitos sublinhados, o que não é habitual em mim. O “aquário” de onde Susana Ribeiro de Andrade faz as suas emissões da meia-noite às seis, os emails de Rui Vieira com as notícias que Susana irá ler a cada hora e as conversas que ambos trocam a partir do computador de Rui, os gestos automatizados de higienização por causa da pandemia, em suma, este mundo confinado coloca-nos a eles e a nós, num cenário que não é de ficção, mas da real fragilidade humana para a qual nunca estamos preparados.


Mesmo quando as canções são de uma play list que o computador escolheu, é sempre possível pôr um pauzinho na engrenagem do sistema e introduzir Caetano Veloso a perguntar em “Cajuína” : “Existirmos: a que será que se destina?”


9 de Maio de 2021


 


 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

# 10 As Três Marias

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#10 As Três Marias


A 23 de Maio morria Maria Velho da Costa, uma das três Marias.


Singulares, únicas, mas indissociáveis nas “Novas Cartas Portuguesas”. A PIDE e Salazar nunca conseguiram descobrir quem escreveu o quê. Um pacto de silêncio, uma escrita a seis mãos que exasperou/exaspera os ditadores, os conservadores, os castradores. Uma escrita de mulheres, de liberdade, que ajudou este país a quebrar as duras correntes do conservadorismo, denunciando a situação das mulheres, a guerra colonial, a violência, a emigração e o atraso em que vivíamos antes do 25 de Abril.


Maria De Lourdes Pintasilgo, num artigo de opinião na revista Visão, por ocasião do 8 de Março, chamou a este livro “O livro esquecido”. “Além de uma obra literária invulgar, as Novas Cartas Portuguesas foram um acontecimento único.”


Maria Isabel Barreno faleceu em 2016. Maria Velho da Costa morreu este ano, em pleno Maio confinado. Para além de Maria Teresa Horta ainda viva e que continua a surpreender-nos com a sua poesia e com a sua escrita marcadamente feminista, a obra das Três Marias é um marco de resistência e de liberdade num país atrasado e oprimido.


 


 


 

domingo, 16 de agosto de 2020

Marquesa de Alorna Querida Leonor

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Marquesa de Alorna - Querida Leonor”, texto de Luísa V. de Paiva Boléo, ilustrações de André Carrilho, 2017


 


Não conhecia esta colecção Grandes Vidas Portuguesas, uma edição da Imprensa Nacional e da Pato Lógico Edições e fiquei interessada em ler este pequeno livro, pois tinha lido “As Luzes de Leonor”, um livro fascinante e uma das grandes obras da escritora Maria Teresa Horta. Esta obra de Luísa Paiva Boléo é uma boa sugestão de divulgação da vida de Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre, 4ª marquesa de Alorna.


É um livro de leitura rápida que começa por fazer a contextualização do período em que D. Leonor viveu, quer em Portugal quer na Europa. Era o século XVIII, as ideias do Iluminismo espalhavam-se pela Europa, mas eram ainda muito incipientes em Portugal. Quando se dá o terrível terramoto de Lisboa de 1755, Leonor tem apenas cinco anos. O seu avô D. Francisco de Assis de Távora que tinha sido vice-rei da Índia e que regressara há pouco a Portugal não cai nas boas graças do rei D. José e sobretudo do seu secretário de Estado do reino Sebastião José de Carvalho e Melo que, aproveitando uma tentativa de regicídio, acusa e persegue a família de Leonor, ficando este caso conhecido na história como o processo dos Távora. Para além das execuções e das muitas prisões, Leonor, a irmã e a mãe são encarceradas no convento de S. Félix em Chelas. Vão ser 18 longos anos que vão ser aproveitados pela jovem Leonor para se instruir e para definir aí o caminho de mulher de letras e de conhecimento que vai perseguir ao longo de toda a vida.


Leonor, a irmã e a mãe só serão libertadas com a morte do rei D. José. D. Maria I, sua filha, irá libertá-la assim como mais de oitocentos presos políticos, sendo que a revisão do processo e a reabilitação dos Távora só ocorrerá alguns anos mais tarde. É o fim do poder do Marquês de Pombal que será demitido.


Leonor tem então 26 anos. Casa-se com um militar alemão. As suas qualidades invulgares de mulher interessada pelas letras e pelas novas correntes do pensamento que vinham da Europa não se coadunavam com a estreiteza de pensamento e atavismo da nobreza portuguesa. Nem o facto de ter tido várias filhas a amarrou a uma domesticidade que pareceria inevitável. Viaja e é admirada em todos os círculos culturais da Europa, ganhando notoriedade em todos os países onde viveu: Áustria, França, Itália, Espanha, Inglaterra. Conheceu gente famosa como Luísa Todi, Mozart, Haydn, Madame de Staël, Correia Garção, Nicolau Tolentino, Bocage, António Feliciano de Castilho, Alexandre Herculano, entre muitos outros. Esteve em Paris e em Marselha quando estalou a revolução francesa.


Tendo tido uma vida longa (1750-1839), atravessou seis reinados, privou com gente influente, influenciou na cultura e na política e destacou-se como uma mulher luminosa, insubmissa e verdadeiramente inovadora, com uma personalidade aberta às grandes mudanças da época. Filinto Elísio dava-lhe o nome de Alcipe quando ela ainda vivia encarcerada em Chelas. Mais tarde, Alexandre Herculano chamou-lhe “a Madame de Staël portuguesa”. Teve muitos títulos, sendo o mais comum ser a 4ª marquesa de Alorna.


Saúdo este livro de divulgação da vida de D. Leonor. Quem quiser de forma pormenorizada aprofundar a vida e personalidade única desta mulher invulgar, aconselho vivamente a leitura de “As Luzes de Leonor” de Maria Teresa Horta. Inesquecível.


15 de Agosto de 2020


Almerinda Bento


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...