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segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

O Último Cabalista de Lisboa, Richard Zimler

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O Último Cabalista de Lisboa, Richard Zimler, 1996

Um livro duro, tremendo mesmo. Para além da violência que foi aquela matança de cerca de dois mil cristãos-novos no Rossio naquela Páscoa de 1506, sente-se o medo, a desconfiança, a suspeita, o cheiro do lixo, do esterco, da sujidade da cidade de Lisboa. O fumo das fogueiras da Inquisição paira e vai persistir muito depois de aqueles judeus que haviam sido forçados a converter-se terem sido queimados e terem sido os primeiros a conhecer com a morte o ódio da intolerância.
A Inquisição estabelecida em Portugal em 1536 continuará a mostrar a sua ferocidade em Portugal e em Espanha nos três séculos seguintes. Já antes de 1500 os reis de Espanha haviam convencido D. Manuel a expulsar todos os judeus do país e em troca conceder-lhe-ia a mão da sua filha. Muitos judeus em Espanha foram obrigados a fugir, mas muitos que ficaram foram duramente reprimidos. Em Portugal segue-se um processo de conversão forçada dos judeus ao cristianismo, - são os cristãos-novos - mas muitos deles continuam clandestinamente a praticar os seus rituais religiosos. Portugal vive um período de seca prolongada e de peste que dizima milhares de habitantes; é preciso encontrar um culpado, um bode expiatório para esses males. Os judeus (os marranos) são então o alvo a abater. Os frades dominicanos dirigiam e incitavam as levas de cristãos sedentos de violência, vingando-se nos judeus e cristãos-novos acusados de todos os males que então se viviam. A violência é inaudita e gratuita. Homens, cães e abutres disputam os cadáveres. D. Manuel é um rei fraco incapaz de suster o caos. “Lisboa uma Veneza de sangue”.
O relato que constitui “O Último Cabalista de Lisboa” é feito a partir de uns manuscritos encontrados numa velha casa de Istambul onde se fala do massacre de Lisboa de 1506. Neles se conta a odisseia vivida pela família de Beremias Zarco (Pedro Zarco de seu nome cristão) naquele período de convulsão tendo sido escritos entre 1507 e 1530 pelo próprio. Beremias, um dos sobreviventes do massacre do Rossio decidiu fugir para Constantinopla quando percebeu que em Portugal não havia futuro para si e para a sua família, pelo facto de serem judeus. O relato escrito dessa experiência terrível em Lisboa esteve interrompido durante largos anos, mas em 1530 quis terminá-lo quando decidiu regressar a Lisboa, na sequência de uma visão do seu grande mestre o tio Abraão Zarco.
“O Último Cabalista de Lisboa” é a história da matança dos judeus de Lisboa, dos judeus anónimos, mas também dos amigos, vizinhos, familiares de Beremias, mas, sobretudo, a estranha morte do tio Abraão Zarco, respeitado membro da escola cabalística de Lisboa e com quem Beremias trabalhava decorando com iluminuras os manuscritos que a tia Ester copiava. Beremias não descansa enquanto não resolve o intrincado enigma da morte do tio. Quem poderia ter morto aquele homem encontrado sem vida com uma jovem na cave secreta onde faziam as iluminuras e os rituais da sua religião? Alguém muito próximo que conhecia aquele espaço secreto tinha sido o traidor que roubara um valioso manuscrito iluminado, o assassino do tio e da rapariga? E qual a relação entre os dois? Beremias e o seu maior amigo – Farid, um surdo mudo com quem se relaciona através de gestos – é o interlocutor que lhe permite comunicar de forma mais profunda e é o seu aliado mais perspicaz na busca do caminho para descobrir o enigma da morte do tio.
No processo dos motins e da matança no Rossio, Beremias perde a fé em Deus e nos homens. A perda do tio, o desaparecimento do irmãozinho Judas cujo rasto nunca se chegou a conhecer, o confronto com a fragilidade da vida em condições de violência extrema contra a sua comunidade que o obriga a fugir com a família levam-no à descrença. No final, ele afirma “Muita da minha fé evadiu-se-me juntamente com o sangue de meu tio”; ele “sente-se como uma árvore cujos ramos principais foram cortados por um cutelo”.
Um retrato histórico rigoroso de uma época que marcou o nosso país. Uma memória sobre a intolerância religiosa que não pode ser esquecida. Um grande livro reconhecido como uma obra de referência.

14 de dezembro de 2017


Nota: faz hoje precisamente 4 anos que escrevi sobre este livro. Nessa altura ainda não tinha criado este blog, pelo que hoje o coloco aqui, como sinal do grande apreço que tenho por este tão relevante livro de Richar Zimler. 

segunda-feira, 5 de julho de 2021

A Rapariga de Auschwitz, Eva Schloss

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A Rapariga de Auschwitz, Eva Schloss com Karen Bartlett, 2013


Eva Schloss é uma sobrevivente de Auschwitz. No dia em que fez 15 anos, a casa onde estava escondida com a mãe em Amesterdão foi invadida pelos soldados das SS e deportada para Auschwitz. Na dedicatória de “A Rapariga de Auschwitz”(“After Auschwitz”), Eva Schloss escreve “Este livro é dedicado à memória das vítimas do Holocausto e do genocídio que não puderam contar as suas próprias histórias.” Hoje, com 92 anos, Eva Schloss deverá ser uma das raras sobreviventes desse momento infame da história da humanidade.


Logo no início do livro, Eva Schloss revela-nos que só em 1986, em Londres, aquando da primeira exposição itinerante sobre Anne Frank e o seu Diário, quando foi convidada a falar sobre a sua experiência no campo de concentração, se deu a grande mudança interior, o início da catarse que lhe permitiu descobrir o que tinha guardado dentro de si, aquilo que tentara esquecer e que era o fantasma que a traumatizava e que não a deixava viver plenamente. Depois do confronto com os seus demónios e de ter conseguido verbalizar em público a sua experiência traumática, o repto da amiga Anita “Acho que deverias escrever tudo isso”deu-lhe o impulso para ultrapassar a sua timidez e a descrença que a levava a questionar-se: “Será que alguém acharia que eu tinha algo de interessante para contar?” Os últimos capítulos do livro, em minha opinião demasiado longos e excessivamente repletos de pormenores, são a consequência dessa revelação pessoal, esse descobrir a capacidade de falar em público sendo uma pessoa que nunca antes o tinha feito, o potencial de chegar a públicos tão diversos como crianças em escolas, reclusas em estabelecimentos para delinquentes e perigosos assassinos, membros do Senado americano entre outros. “Contar a minha história era uma maneira de divulgar uma mensagem sobre o preconceito e a intolerância, mas também queria trabalhar com outras pessoas para construir algo que poderia durar mais do que as memórias de sobreviventes individuais.” Nas exposições itinerantes que fez em todo o Reino Unido, as palestras que deu, por ocasião do lançamento do seu livro sobre a experiência de Auschwitz, as representações teatrais em todo o mundo com a peça “E então vieram atrás de mim”, o seu empenho na Fundação Anne Frank no Reino Unido permitiram-lhe chegar a muita gente que pouco ou nada sabia sobre o Holocausto e sobre os perigos totalitários. Deu muito e recebeu muito em troca.


Eva era uma jovem vienense inserida numa família e numa infância felizes. Quando os alemães anexaram a Áustria em 1938 com o intuito de limpar Viena da “imundície das baratas” e o medo se instalou, Eva ainda não tinha consciência do que se passava. Só quando colegas da escola e antigos vizinhos antes amigos começaram a tornar-se hostis ela percebeu que algo de estranho estava a acontecer. Os avós e os tios foram viver para Inglaterra e o pai teve de abandonar o seu negócio e foi para a Holanda que então ainda era neutral. O reencontro de Eva, do irmão Heinz e da mãe com o pai em Amesterdão foi cheio de problemas e entraves burocráticos numa Europa cada vez mais subjugada ao poder alemão e em que o ódio aos judeus era cada dia mais avassalador. Embora vivendo em casas separadas em Amesterdão, Eva e a mãe e Heinz, o irmão e o pai vivem clandestinamente sempre com o terror das denúncias, das chantagens. Quando em Maio de 1944 foram denunciados e seguiram num vagão de transporte de animais, maioritariamente cheio de pessoas de etnia cigana a caminho de Auschwitz, a separação foi definitiva. Eva e a mãe encaminhadas para Birkenau, Heinz e o pai para Auschwitz.


Como se consegue sobreviver num campo de concentração? Lembro-me sempre do livro de Primo Levi “Se isto é um Homem” que li há anos. Eva teve sorte. Eva teve a mãe com ela. A mãe teve a sorte de no campo estar uma amiga, uma prisioneira judia que era enfermeira no hospital. Coisas tão simples como ter uma tigela para comer e beber pode ser a possibilidade de se sobreviver. Tudo dependia do humor dos guardas, duma ordem de Josef Mengele num sentido ou no seu contrário. Era a arbitrariedade total. No campo da morte, o sadismo, a fome, a pilhagem, as doenças, a exaustão, a imundície, os percevejos, os ratos, o frio eram os ingredientes de quem estava à espera a cada momento de ser seleccionado para o gaseamento.


Das 168 crianças que naquele terrível 19 de Maio de 1944 seguiram para Auschwitz, Eva foi uma das 7 crianças sobreviventes. Quando em Janeiro de 1945, as tropas russas libertam o campo de Auschwitz-Birkenau, a mãe de Eva hospitalizada é um destroço e é Eva que toma conta dela. O regresso atribulado e demorado através duma Europa destruída e caótica é tudo menos fácil. Os sentimentos de quem sobreviveu são contraditórios: culpa, desespero, autodesprezo, inutilidade, trauma profundo e depressão. Famílias destruídas, incerteza sobre quem morreu, quem conseguiu sobreviver. Eva nunca conseguiu superar o trauma de não mais poder estar com o seu Pappy e com Heinz e embora tendo tido a felicidade de sobreviver com a mãe e de se terem apoiado, a verdade é que na sua angústia o seu relacionamento com ela reflectiu a profunda depressão de uma sobrevivente do holocausto. “Estava viva, mas teria de reaprender a viver e a encontrar o meu lugar num mundo que muitas vezes se mostrava indiferente aos horrores que eu presenciara.”


Para além do seu papel de dar testemunho vivo da sua experiência como sobrevivente do holocausto, Eva Schloss neste “A Rapariga de Auschwitz” dá-nos um relato da sua vida nas décadas que se seguiram ao fim da guerra e que a ajudaram a reconstituir-se como ser humano a quem o pai fizera o sinal “Queixo para cima!” no momento em que se separaram na estação de Auschwitz. O casamento com Zvi, o nascimento das três filhas e o papel de Otto Frank que veio a casar com a mãe de Eva. Otto Frank era o pai de Anne Frank, antiga vizinha e amiga de Eva em Amesterdão, sobrevivera a Auschwitz e a quem Miep Gies entregou o diário de Anne que descobrira no esconderijo. Otto Frank teve um papel fundamental na divulgação do diário da sua filha e foi um companheiro amigo e sensível de Eva, ajudando-a a encontrar um caminho para a sua vida. Ao oferecer-lhe a sua Leica com que fizera tantos retratos de família com Anne, Margot e Edith, ajudou-a na sua actividade como fotógrafa.


Este texto já vai longo mas não queria deixar de referir ainda dois aspectos que surgem no livro. A forma como a justiça foi branda para os delatores e que levou a que milhões de seres humanos fossem assassinados. A holandesa que denunciou a família de Eva aos nazis foi condenada a 6 anos de prisão e não demonstrou qualquer remorso durante o julgamento, o que aconteceu com a maioria dos criminosos nazis. A média das sentenças para os “caçadores de judeus” era de dez anos, mas algumas baixaram para 12 meses. Por fim, outro aspecto perturbador foi a campanha e os processos complicados em que Otto se viu envolvido, segundo os quais o Diário era um embuste, uma fabricação criada pelo pai de Anne Frank para disso obter vantagens. Tal como hoje, os negacionistas do Holocausto fazem o seu trabalho sujo. Daí que seja tão importante todo o trabalho que se faça para lembrar a história e torná-la viva a todos quantos não souberam o que é viver em ditadura.


4 de Julho de 2021


 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

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