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segunda-feira, 22 de março de 2021

Palavras em Tempos de Crise, Luis Sepúlveda

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“Palavras em Tempos de Crise”, Luis Sepúlveda, 2012


Há um ano tomámos conhecimento de que Luis Sepúlveda, que tinha estado nas Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim, estava infectado com o novo coronavírus. Viria a falecer em meados de Abril com apenas 70 anos e para quem gostava do homem e dos seus livros, foi um choque e uma grande tristeza. Ainda tenho por ler alguns dos seus livros e este ano, quando seleccionei os livros que iria ler, fui buscar um deles e, no “sorteio” dos 27 títulos a ler este ano, tirei o papelinho que dizia “Palavras em Tempos de Crise”.


Não sei se foi o facto de “Rosas de Atacama” ter sido um dos primeiros livros que li de Sepúlveda, esse livro sempre teve um lugar muito especial no meu coração. Mal comecei a ler “Palavras em Tempos de Crise”, percebi que a estrutura era parecida: pequenos artigos, experiências e reflexões pessoais.


Embora abarcando temas muito diversos, o facto de ter sido escrito em 2012, quando Espanha, Portugal e tantos outros países sobreviviam debaixo do garrote do défice e da dívida e os governos se baixavam na vassalagem aos mercados e aos poderes da finança, faz com que muitos dos artigos deste “Palavras em Tempos de Crise” sejam verdadeiros manifestos de um homem de esquerda que não poupa Aznar, Rajoy, Felipe González e outros, que permitiram que as consequências da corrupção, da especulação imobiliária e a miragem de dinheiro fácil com o turismo desabassem sobre os povos, para pagarem os desmandos de desgovernações sucessivas. Sepúlveda, o andarilho que escolheu as Astúrias como segunda pátria, não esquece neste livro os mineiros e as suas greves prolongadas e corajosas, lembrando também os mineiros chilenos e as suas lutas. A sua escrita, vincadamente militante e poderosa, usa expressões como “solidariedade de classe” em contraponto aos eufemismos com que os governantes vassalos tentam adocicar a luta de classes que não morreu. Por isso, Sepúlveda fala do peso do Sul em todos os seus livros, porque como escritor tem um compromisso de dar voz aos que não têm voz, sejam os emigrantes, os oprimidos, os mineiros explorados, lembrando aquela visita que fez ao campo de extermínio de Bergen Belsen onde, junto a um dos fornos crematórios leu a seguinte inscrição: “Eu estive aqui e ninguém contará a minha história.”


Sepúlveda foi um homem de paixões, pelos seus amigos, pelos seus animais, pela família. Numa vida em constante movimento, a lembrar o pássaro de corda de Haruki Murakami, o autor chileno fala da alegria que é juntar a família dispersa pelo mundo em torno de um churrasco e do prazer que sente por os filhos o tratarem por “velho”. E pergunta-se: terei sido um bom pai? Terei estado presente quando eles precisaram? Terei sido um companheiro? Escreve também sobre os amigos e nomeia-os, recorda episódios, alguns hilariantes e marcantes, inesquecíveis, não esquece amigos que já partiram: Tonino Guerra, Gabo, Neruda, Nicanor Parra, Allende e os amigos que com ele faziam a segurança pessoal do presidente assassinado pela ditadura. E entre os animais, a cadela Laika a lembrar-nos Zorbas num dos belos contos de “As Rosas de Atacama”. E ainda a ternura das primeiras paixões de adolescente…


Por fim e porque Sepúlveda fala com carinho e admiração das Correntes d’Escritas, “um dos melhores festivais literários que se fazem na Europa”, referência ao artigo Pilar e José e ao documentário de Miguel Gonçalves Mendes, exibido em 2011 numa noite particularmente fria.


Este ano, já não tivemos Sepúlveda fisicamente presente na Póvoa de Varzim, mas o festival de 2021 foi-lhe dedicado em permanência e ele esteve sempre presente. Bem haja, Luis Sepúlveda, por dar voz a quem não tem voz.


21 de Março de 2021


 


 

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Luis Sepúlveda

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Hoje foi um dia triste, mais difícil neste período de confinamento. Luis Sepúlveda, que sabíamos estar em estado crítico por causa da pandemia, deixou-nos.


Li e comprei vários livros dele ao longo dos anos. De entre os vários contos que constituem "As Rosas de Atacama", detive-me em "O Amor e a Morte" e recordei Zorbas que "com o tempo, passou de nosso gato a ser mais um companheiro, um querido companheiro de quatro patas e melódico ronronar."  No meio dos livros, encontrei uma folha  com uma História Marginal de Sepúlveda publicada num jornal de um domingo de Junho de 1999, com o título Astúrias, o local que escolheu para viver depois de ter andado por tantas terras. As razões da escolha encontram-se no que ele então escreveu:


"Odeio falar de mim porque nunca quis ser uma personagem, mas que diabo, suponho que o escritor tem de afrontar a sua própria vida. Num dia de 1997 decidi deixar Paris - oh Paris! - para viver definitivamente num lugar do mundo em que me senti seguro: as Astúrias. E a escolha não foi difícil. 


Nesta região do Norte de Espanha, aberta ao Cantábrico, nós, os marginais que reivinidcamos o direito à marginalidade, somos bem-vindos. Não existe lugar mais marginal  do que as Astúrias. Não há região mais sofrida do que as Astúrias, e para o entender basta estar em Gijón, Langreo, Avilés ou Mieres quando soam as sirenes da tragédia mineira. Acontece - em plena época de bem-estar, na nova ordem internacional - que quando a mina engole um ou mais homens, os serenos vales das Astúrias estremecem numa contorção cósmica. Porém, os asturianos- e eu aprendi tanto com eles, que são duros e ternos, irascíveis e pacíficos, à justa raiva preferem a vontade e a resistência, dois sinais valiosos de identidade. 


(...)


Não é difícil ser feliz, dizem os asturianos a partir da sua marginalidade gloriosa que lhes recorda 34, o atroz, quando pensam nas visitas de Franco e de dona Carmen saqueando as tendas de campanha dos derrotados. E eu, como eles, sei que uma pessoa é feliz "desde que escute uma gaita e haja sidra no lagar."


Por fim, trago aqui um breve trecho de um livro delicioso, um dos primeiros que li deste chileno asturiano: "O Velho que lia Romances de Amor".


"Antonio José Bolívar sabia ler, mas não escrever.


O mais que conseguia era garatujar o nome quando tinha que assinar qualquer papel oficial, por exemplo, na época das eleições , mas como tais acontecimentos ocorriam muito esporadicamente, já quase se tinha esquecido.


Lia, lentamente, juntando as sílabas, murmurando-as a meia voz como se as saboreasse, e, quando tinha a palavra inteira dominada, repetia-a de uma só vez. Depois fazia o mesmo com a frase completa, e dessa maneira se apropriava dos sentimentos e ideias plasmados nas páginas.


Quando havia uma passagem que lhe agradava especialmente, repetia-a muitas vezes, todas as que achasse necessárias para descobrir como a linguagem humana também podia ser bela.


Lia com o auxílio de uma lupa, o segundo dos seus pertences mais queridos. O primeiro era a dentadura postiça.


Vivia numa choça feita de canas de uns dez metros quadrados dentro dos quais arrumava o seu escasso mobiliário: a rede de dormir de juta, o caixote de cerveja com o fogão a querosene em cima, e uma mesa alta, muito alta, porque, quando sentiu pela primeira vez dores nas costas, percebeu que os anos lhe estavam a carregar e decidiu sentar-se o menos possível. 


Construiu então a mesa de pernas compridas, que lhe servia para comer de pé e para ler os seus romances de amor. 


A choça era protegida por uma cobertura de palha entrançada e tinha uma janela aberta para o rio. Era a ela que estava encostada a mesa alta. 


Junto da porta estava pendurada uma toalha esfiapada e a barra de sabão renovada duas vezes por ano. Era um bom sabão, com penetrante cheiro a sebo, e lavava bem a roupa, os pratos, os cacos de cozinha, o cabelo e o corpo."


 


Sepúlveda deixou de estar fisicamente connosco, mas permanece na doçura e na força dos seus livros, assim como nos corações daqueles que já o conheceram através das inúmeras personagens e situações que criou. 

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...