“Perdeu-se Relógio de Senhora”, Alice Brito, 2026
Este é o mais recente livro de Alice Brito e, para quem já
leu os outros livros desta autora, vai reconhecer em pleno o seu estilo, a
linguagem, os temas, a personalidade da escrita e também a frescura e novidade
que os seus livros sempre trazem. Frases curtas, incisivas, certeiras. Como não
podiam faltar, a cidade de Setúbal e José Afonso fazem parte integrante deste
quarto romance de Alice Brito. E a voz da narradora, sem papas na língua, a pôr
o dedo na ferida num tempo de retrocesso, de negação, de saudosismo é,
certamente, uma marca de água da escrita de Alice Brito.
“Perdeu-se Relógio de Senhora” começa assim: “Tinha-se muita
sede por esses tempos” (pág. 11). O romance traz-nos as vidas de três
mulheres nascidas em tempos diferentes do século passado e em terras
diferentes, as quais, por mero acaso, vão partilhar um apartamento na Duque
d’Ávila em Lisboa. As múltiplas referências ligadas às suas vivências e
percursos ao longo dos anos ajudam-nos a contextualizar aquele(s) tempo(s) e
reflectem um cuidadoso trabalho de investigação que nos permite recordar o
Portugal da segunda metade do século passado, como também as importantes lutas
operárias e as transformações sociais anteriores. Um Portugal com “muita
sede” que subalternizou as mulheres, sujeitou o povo a uma feroz repressão,
onde o medo e a hipocrisia medraram - “um país trágico” (pág. 132) - mas
em que a luta de classes nunca deixou de existir e que acabou por desembocar na
“década de espanto” (pág. 221) quando finalmente Beatriz, Benvinda e
Bia, tão diferentes, se encontraram e partilharam uma casa em comum.
Finalmente o 25 de Abril. “Há dias e dias. E aquele dia,
um dia líquido em que se matou a sede, por muita tropelia e análise variada e
avariada que se lhe faça, resgatou do pesadelo todo um povo que só queria ser
gente. Gente a sério.” (pág. 315)
Este livro é uma necessidade num tempo em que comemoramos os
50 anos da liberdade e nos confrontamos com a falta de vergonha, com o desaforo
da mentira e todos os tiques da subserviência à extrema direita saudosa do
fascismo. Mas é também um grito de esperança e de amor a esse “dia de ouro
na memória de quem penou o viver antes.” (…) “Falar de Abril, sem lhe
juntar a palavra liberdade, ou alegria, ou coragem é o mesmo que trair um amigo
pelo esquecimento, pela omissão ou pelo desprezo.” (pág. 316)
Ler este livro é continuar a dialogar com a acutilância e clareza
da escrita de Alice Brito. Para quem ainda não conhece a obra desta autora
defensora da causa feminista, é o incentivo para a descobrir, começando por “As
Mulheres da Fonte Nova”, “Um romance histórico arrebatador sobre a dor e a
sobrevivência das mulheres de todos os tempos”, transcrevendo as palavras
de Cristina Carvalho num artigo no Jornal de Letras.
27 de Junho de 2026
Almerinda Bento

Nunca li nada da escritora, nem conhecia até há pouco, mas tenho este livro debaixo de olho. É um tema, perspectiva e tempo que me interessa. Bjs
ResponderEliminarPat
E eu li todos os livros dela, menos o primeiro que, segundo consta é fantástico e já está traduzido em alemão.
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