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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

"Chuva de Jasmim", Shahd Wadi, 2025

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Chuva de Jasmim

Na contracapa de “Chuva de Jasmim” leio as palavras de Alexandra Lucas Coelho: “Este será o primeiro livro palestiniano da poesia portuguesa. Ou vice-versa? Shahd Wadi fez de Portugal a sua morada – até que ir para casa seja possível. Enquanto a Palestina estiver ocupada, o mundo é a Palestina”.

Autora de várias obras de que destaco “Corpos na Trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio”, em resultado da primeira tese de doutoramento em Estudos Feministas em Portugal pela Universidade de Coimbra em 2013, foi recentemente nomeada Escritora Universal Galega 2025.

É uma responsabilidade muito grande ter hoje a tarefa de apresentar o mais recente livro da Shahd. Eu que nunca me aventurei a escrever sobre poesia, serei breve, muito breve. Mas a minha amizade já antiga com esta mulher feminista, que ainda por cima carrega em si o facto de ser palestiniana, não me permitia recusar estar aqui com a Shahd a tentar dar o meu melhor.  Judite Fernandes, nossa amiga comum e que fez o prefácio do livro escreve que “Chuva de Jasmim é um livro sobre tudo, sobretudo, é um livro de poesia” e porque este livro respira denúncia, resistência e esperança, Judite lembra-nos que a Palestina é “um país que está a ser apagado do mapa, um país que existe por milagrosa resistência”.

À medida que se folheia e se vai lendo “Chuva de Jasmim”, sente-se a urgência da poesia em Shahd. Ela faz poesia, arte como forma de resistência, como grito de liberdade. Ela que escolheu “viver na terra do mais ou menos”, que não nega algum desconforto com a língua, a tropeçar às vezes nalgumas palavras, é, no entanto, hábil a brincar com as palavras, a criar lenga-lengas “Tráfico Humano” (pág. 61), a provar-lhes as subtilezas, conseguindo ser doce e corrosiva, tendo o condão de trazer a poesia para o quotidiano. Quando lemos “O Mesmo Poema” (pág. 37) que abre o capítulo A Casa percebemos que o poema é o quotidiano.

Os próprios títulos dos poemas são abertos e convocam-nos á inquietação que Shahd logo nos traz no primeiro poema intitulado “Lado a Lado”: “Entrego-vos a minha inquietação do nada/ para que se torne nossa. Palavra dita/escrita/ nunca é em liberdade” (pág. 15). Mas é no último capítulo do livro, intitulado “Chuva de Jasmim” que os poemas me sugerem palavras-chave bem nítidas como “Morte”, “Genocídio”, “Palestina”, “Revolução”, “Resistência”, “Raiva”, “Esperança”. Em “Alucinações sobre flores meio ano depois” (pág. 82) com um cravo na mão descemos a Avenida da Liberdade a gritar 25 de Abril Sempre, Fascismo nunca mais! Mas também:

Huri-ía! Falastin árabiya sempre, sionismo nunca mais!

Em solidariedade, em sororidade, Shahd oferece-nos esta Chuva de Jasmim, porque ela acredita que juntos, juntas temos a capacidade de um dia haver chuva de jasmim!

14 de Janeiro de 2026

(Este texto foi apresentado no âmbito da iniciativa O SPGL na Luta pelos Direitos dos Palestinianos na sessão com o título Cultura e Informação como Meios de Luta do Povo Palestiniano)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

"Gaza Está em Toda a Parte", Alexandra Lucas Coelho

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“Gaza está em toda a parte” – Alexandra Lucas Coelho, 2025

Conhecia Alexandra Lucas Coelho de ler no jornal “Público” as suas crónicas sobre o Brasil e Jerusalém, e também duma série que passou na televisão sobre livros, com um nome sugestivo “Volta ao Mundo em Cem Livros”. No entanto, nunca tinha lido nenhum livro escrito por ela e este ano não resisti na Feira do Livro de Lisboa a comprar o seu mais recente “Gaza Está em Toda a Parte”.

É uma colectânea de textos com a força do conhecimento da realidade palestina, ligada ao seu vínculo afectivo e político com aquele povo. Constituída por crónicas e reportagens já publicadas, tem ainda alguns textos inéditos e um conjunto valioso de fotografias captadas antes e depois do 7 de Outubro. Embora a maior parte do livro seja formado por crónicas e reportagens sobre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia depois do 7 de Outubro, a introdução é um trabalho jornalístico publicado na revista Visão História de Julho de 2017, que corresponde à última vez que Alexandra Lucas Coelho esteve em Gaza (Maio de 2017). Através da reportagem então feita, a autora mostra que as dificuldades para a vida daquele povo não começaram com o 7 de Outubro.  Experienciou ela própria ao entrar na Faixa de Gaza, por Erez no norte, quer pelos check points montados por Israel quer pelo Hamas, que compara ao “… cenário de uma distopia altamente militarizada” (pág. 15). “Gaza é uma prisão” (pág. 33) e isso reflecte-se na saúde física e mental da população, maioritariamente jovem, sem emprego, sem futuro, com elevados níveis de suicídio. Desemprego, escassez de água, frequentes cortes de electricidade, na altura, para dois milhões de habitantes, apenas dois psiquiatras! Apesar de a Faixa de Gaza se estender ao longo de 40 quilómetros junto ao Mar Mediterrâneo, os pescadores apenas podem pescar até 6 milhas, sujeitos a ser abatidos pela armada israelita, caso ultrapassem esse limite.

Uma prisão, um gueto, uma ratoeira, um campo de concentração que passou a campo de extermínio depois de 7 de Outubro. A Nakba de 1948 que nunca deixou de existir, que obrigou milhões de palestinianos a viver como refugiados na Síria, no Líbano, no Egipto e um pouco por todo o mundo ao longo dos últimos 75 anos, intensificou-se com o 7 de Outubro. Impossibilitada de poder ir ao terreno para fazer o seu trabalho como jornalista, Alexandra Lucas Coelho contextualiza a situação através de crónicas entre Outubro e Novembro de 2023. Atónitos com a destruição que se vai vendo através da comunicação social e pelas redes sociais, o tempo corre enquanto assistimos às mortes e à destruição ao vivo, sem que o mundo dito dos direitos humanos, o mundo “ocidental” mexa uma palha. Guterres passou a persona non grata quando levantou a voz contra Netanyahu e disse que “… o 7 de Outubro não aconteceu no vazio”. A Europa, refém da culpa do holocausto, é incapaz de denunciar o governo de Israel pelos bombardeamentos, destruição maciça e deslocação forçada das populações para sul da faixa de Gaza. Netanyahu utiliza a experiência do holocausto sobre os judeus na 2ª Guerra Mundial como arma de arremesso e chama antissemita a qualquer um que se oponha à política de extermínio que o seu governo de extrema direita está a impor ao povo de Gaza, para além das incursões dos colonos israelitas no território da Cisjordânia. Ao contrário da cobardia dos governantes europeus, os povos começam a manifestar-se nas ruas para dizer que a Palestina tem direito a ser livre. Numa troca de mensagens com W., o amigo palestino de Alexandra, ele pedira-lhe que contasse o que se estava a passar em Gaza, ciente do poder da solidariedade e da força das ruas.

Alexandra Lucas Coelho traz ao longo do livro inúmeros nomes e exemplos de heroicidade num tempo de desumanidade e horror. O médico de Al-Shifa que se recusou a deixar o hospital e a abandonar os doentes à sua sorte; o herói e líder nacional Marwan Barghouti, preso desde 2002 e condenado a prisão perpétua; os milhares de jovens e crianças presos arbitrariamente nas prisões israelitas e sujeitos a torturas atrozes; Ahmed Tobasi e o seu Freedom Theatre que faz do teatro a sua forma de resistência; os Tamimi e os habitantes duma pequena aldeia da Cisjordânia empenhados em defender a sua água e a câmara que Bilal usou para documentar e levar ao mundo através do canal de You Tube as incursões dos buldozers israelitas; as consequências de se ser objector de consciência e recusar o serviço militar obrigatório como é o caso da jovem israelita Sofia Orr, presa por ser considerada traidora. Embora sejam uma ínfima minoria os israelitas que defendam abertamente os direitos humanos ou que sejam antimilitaristas, a maioria, mesmo criticando Netanyahu, apenas lutam pelo regresso dos reféns na posse do Hamas, mas não têm uma postura de defesa dos direitos humanos do povo palestino.

Entre Dezembro de 2023 e Janeiro de 2024 Alexandra Lucas Coelho esteve na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental e Israel onde fez reportagens e tirou fotografias que constituem a segunda parte do livro. Documentou as dificuldades do quotidiano dos refugiados em Jenin, a “Pequena Gaza”, a constante presença dos drones israelitas e a arrogância dos colonos a expulsar os palestinos do seu território. A autora testemunhou em Belém o “Natal mais triste de sempre”, sem turistas, apenas com jornalistas e correspondentes, em que a artista Rana Bishara colocou uma incubadora com Jesus morto pelas bombas israelitas no exterior da Basílica da Natividade, para lembrar as crianças mortas que o mundo não quer ver. E em Telavive a praça mais triste de Israel com uma mesa vazia posta à espera dos reféns ainda na posse do Hamas e o piano de um dos reféns presos. Na altura já estavam contabilizados 79 jornalistas palestinianos mortos na Faixa de Gaza, um número imenso, tendo em conta que desde o 7 de Outubro nunca mais tinha sido possível a entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza.

A terceira parte do livro é constituída por crónicas escritas entre Janeiro de 2024 e Março de 2025, altura em que “Gaza Está em Toda a Parte” vai para a gráfica. Longos meses em que a situação se agrava para os palestinos em Gaza e na Cisjordânia. A UNRWA agência para os refugiados palestinianos criada pela ONU em 1949 e que era um apoio indispensável para muitos palestinianos é extinta. A ajuda externa é impedida e a fome, a doença e a subnutrição de toda uma população chegam-nos diariamente pelos telejornais. A 2 de Fevereiro, na última mensagem de W. para a autora, ele escreve: “O meu povo hospitaleiro e decente tornou-se mendigo ou ladrão. Fomos privados de tudo, até da nossa humanidade”. (pág. 384). E R. o intérprete que Alexandra conhecera em 2017 usa a palavra ““pedintes” entre aspas, como se nem suportasse outra forma.” (pág. 384) Vozes fortes como a de Guterres e de Lula, Francesca Albanese ou Jorge Borrell, governos que se destacam como o de Espanha ou da Irlanda quebram o silêncio da maioria dos governantes da União Europeia subjugados à desumanidade do governo sionista de Netanyahu. A repressão sobre jovens manifestantes universitários nos EUA, em França e na Alemanha faz emergir cada vez de forma mais clara uma geração de jovens que se mobilizam pela defesa do futuro do planeta e pela defesa da paz no mundo. Apesar de o peso da direita e da extrema direita se acentuar em Israel e de os pró-Palestina serem uma ínfima minoria, a mais importante associação de direitos humanos israelita divulga um relatório arrasador com relatos de torturas a mando da dupla Ben-Gvir/Smotrich, para quem os palestinos não são gente, tal como para os nazis os judeus eram untermensch. Igualmente, Lee Mordechai, um historiador israelita documentou no relatório Bearing Witness to the Israel-Gaza War informação factual sobre o que se passa em Gaza. “Considera o ataque do Hamas e outros grupos a 7 de Outubro uma atrocidade. Tal como considera a resposta de Israel um genocídio, e no fim explica porquê.”  (pág. 489)

Nos EUA, Biden e Kamala Harris preparam as eleições e ignoram Gaza, não usam sequer os seus discursos para dar voz e denunciar o genocídio. A hipocrisia é tal que ao mesmo tempo que se fala em cessar fogo se enviam milhões em armamento para Israel. E tudo piorou ainda mais com a eleição de Trump. Na noite em que se anuncia o cessar fogo (Janeiro de 2025) são mortos 81 palestinianos. Tal como hoje, no final do ano de 2025, tenta-se normalizar o genocídio, como bem disse a Relatora Especial da ONU Francesca Albanese. Somos confrontados diariamente com projectos e discursos obscenos sobre o futuro da faixa de Gaza, como a dita Riviera do Médio Oriente. Há muitos anos Hannah Arendt afirmou que “a morte da empatia humana é um dos primeiros e mais reveladores sinais de uma cultura à beira da barbárie”.

Estou a escrever este breve texto sobre um livro imperdível, ao mesmo tempo que no meu computador surgem mensagens com votos de um Feliz Ano Novo. É com pessimismo que prevejo os acontecimentos de 2026, mas tento reter as palavras de Alexandra Lucas Coelho : “Mas o pessimismo é um luxo, os palestinianos não se dão a ele. Estão ocupados a tentar não morrer.” (pág. 474)

28 de Dezembro de 2025

Almerinda Bento

sábado, 31 de maio de 2025

Anónimos de Abril - Volume I

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“Anónimos de Abril” – Vol. 1, José Fialho Gouveia, Rogério Charraz, Joana Alegre, 2005


Este é o primeiro volume de um projecto que começou em Janeiro do ano passado com o espectáculo Anónimo de Abril em Lisboa, no Tivoli. O livro reúne histórias de doze mulheres e homens que lutaram pela liberdade, que estiveram entre aqueles muitos milhares que exultaram na rua com a revolução, mas de quem a História não fala.


Transcrevo a dedicatória a abrir o livro


“À Celeste,


à Aurora,


ao Alberto,


à Herculana,


ao Luíz, à Albina,


à Branca,


ao Fernando,


ao João, ao José, ao Fernando,


ao Francisco


e a todos aqueles que, de forma mais ou menos anónima, ousaram lutar contra um regime que durante quarenta e oito anos intimidou, espancou, prendeu, torturou e matou.”


São histórias de vidas simples, de luta, contadas pelas próprias ou pelos seus filhos/as ou netos, quando os pais ou avós já não estão vivos, ou a partir de registos em jornais da época numa pesquisa que, segundo os seus autores, “tem ainda muito caminho para percorrer”. No final de cada uma das histórias uma canção que pode ser ouvida e seguida através de um QR Code.


É um tributo singelo, mas muito bonito a pessoas a quem devemos a enorme gratidão pelo seu gesto, pelo seu heroísmo, pelo seu exemplo.


Celeste Caeiro a quem ficamos a dever o simbolismo dos cravos associados à revolução de Abril e que ainda teve a felicidade de descer a Avenida da Liberdade nos 50 anos do 25 de Abril.


Aurora Rodrigues que aprendeu na sua experiência na prisão da ditadura que “O medo foi sempre a grande arma da repressão. Todavia, há alturas na vida em que não se pode recuar. Essa era a altura. Tinha de vencer o medo.” (p. 25)


O padre Alberto Neto assassinado em 1987, tendo o  seu homicídio nunca sido esclarecido, “Tinha Deus por companheiro/ O Senhor como aliado/ E rezando foi guerreiro/ Contra a guerra e contra o Estado”. (p. 57)


O casal Herculana e Luíz Carvalho, os únicos familiares de um preso político no Tarrafal a visitarem o filho. Mas a sua acção e solidariedade tiveram um alcance muito para além do amor de pais, alargando-se a todos os presos que no Tarrafal estavam com o filho Guilherme.


Albina Fernandes, mulher dedicada ao ideal do partido, foi mãe de Daniela e de Rui Pato. O relato de sofrimento que foi a vida desta mulher e que é contado através dos filhos neste “Anónimos de Abril” é bem o retrato da brutalidade que foi a repressão perpetrada pela ditadura a quem se opunha ao regime. No documentário “Aqueles que Ficaram (Em Toda a Parte Todo o Mundo Tem)” da autoria de Marianela Valverde e Humberto Candeias, com testemunhos de familiares – mulheres e crianças – de presos políticos e militantes na clandestinidade, temos a perspectiva daqueles que se viram privados do contacto com os maridos e pais e dos traumas daí decorrentes.


Branca Carvalho, uma jovem que viveu praticamente um ano na clandestinidade e que, através de um relato em forma de carta ao filho, lhe explica as privações e imensas dificuldades que acarretava o facto de se abandonar tudo – família, amigos, trabalho – sem saber por quanto tempo, “As vidas que escolhêramos não tinham prazo de validade” (p. 101) Uma das questões que ela realça tem a ver com um aspecto que foi muito silenciado e que ela aborda: a marginalização ainda maior por que passavam as mulheres na clandestinidade, passando por mulheres do “casal”, numa posição de subalternidade - “sentia-me reduzida a tarefas domésticas, (,,,) “Cedo percebi que o Partido aproveitava mal as capacidades de trabalho das “suas” mulheres revolucionárias. Uma atitude algo machista disfarçada e dissimulada em razões de segurança, notaria, com amargura, muitos anos depois.” (p. 100)


Costuma-se dizer que o 25 de Abril foi uma revolução sem sangue, mas a verdade é que no final desse dia, quando Marcelo Caetano já se tinha rendido, a partir da sede da PIDE na António Maria Cardoso, uma rajada assassina acabou com a vida de 4 homens que se juntavam na alegria da vitória sobre a ditadura. São os Mortos de Abril como lhe chamam os autores do livro: Fernando Giesteira, José Barneto. João Arruda e Fernando Reis. “Só houve quatro mortos no 25 de Abril e a justiça foi branda com os elementos da PIDE. Ainda assim, o caminho para chegar à Liberdade interrompeu muitas vidas. Além dos que morreram às mãos da polícia política, convém não esquecer os mais de cem mil mortos na Guerra Colonial. O vermelho dos cravos de Abril também foi feito de sangue”. (p. 136)


O livro termina com um depoimento sobre Francisco de Sousa Mendes, um dos jovens militares que constituiu a coluna militar liderada por Salgueiro Maia que na madrugada do 25 de Abril partiu da Escola Prática de Cavalaria a caminho de Lisboa. Francisco é neto de Aristides de Sousa Mendes, que na sua qualidade de diplomata e desobedecendo às ordens de Salazar, salvou milhares de judeus ao conceder-lhes vistos que lhes permitiram fugir de uma morte certa.


Aguardemos pela continuação deste projecto de memória, agora que, como nunca antes, a memória da ditadura é tão importante para que não se caia de novo noutra.


5 de Maio de 2025

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Um Dia na Vida de Abed Salama, Nathan Thrall, 2023

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Um Dia na Vida de Abed Salama, Nathan Thrall, 2023


Desde que me conheço que ouço falar da Palestina e do conflito que opõe Israel à Palestina, com a anexação sistemática de território, com as restrições de mobilidade que tornam a Palestina uma prisão a céu aberto, dos quilómetros de muro que separam os territórios e os povos, das ocupações por colonatos israelitas, das prisões arbitrárias, das mulheres que dão à luz nos checkpoints porque não chegaram a tempo à maternidade… e penso que desde o dia 7 de Outubro de 2023 já ninguém pode dizer que não sabe, que não viu o genocídio que está a acontecer na faixa de Gaza e na Cisjordânia. Ele passa todos os dias nas televisões e já não há palavras para um horror desta envergadura.


Recentemente, vi “No Other Land” vencedor do óscar para melhor documentário, que retrata o dia a dia da ocupação israelita e a resistência palestiniana. Já depois de ter recebido o óscar, o realizador foi preso e agredido. Este “Um Dia na Vida de Abed Salama”, escolhido para leitura num dos clubes de leitura que acompanho, é um impressionante testemunho e relato de um episódio, mas é muito mais do que isso, porque nos dá o contexto histórico de um povo até aos nossos dias. Permito-me transcrever as palavras de Francisco Louçã, um dos coorganizadores deste clube de leitura, a propósito deste livro: "Thrall, judeu, educado na Califórnia, vive em Jerusalém (já viveu em Gaza) e é jornalista. Nunca escondeu o seu empenho na denúncia dos abusos da ocupação israelita. Este livro, de que a edição portuguesa foi a primeira tradução, foi publicado em 2023 e ganhou o Pullitzer numa categoria de não-ficção em 2024, e é uma poderosa reportagem sobre um pai que procura o filho, que pode ter sido vítima de um acidente com o seu transporte escolar. Não é um romance, mas retrata os seus personagens com um cuidado que faz disto uma grande peça da literatura. Não é um manifesto, mas mostra-nos as condições degradantes da vida da população palestiniana, bem como a persistência da resistência - e até a humanidade que se descobre em alguns dos representantes do outro lado. E é tremendo, caminhamos para o abismo e sabemo-lo desde a primeira página. É por isso uma desistência fatalista? Não, será mesmo um dos livros mais cheios de esperança dos últimos anos, pois naquele horror absoluto encontram-se gestos e emoções que compreendemos e nos comovem."


O livro começa com um prólogo que ajuda a situar-nos  em Anata, o local onde Abed Salama vive com a sua família. Um local caótico, sem infraestruturas, que antes tinha sido uma zona rural. Abed é casado com Haifa, tem dois filhos: Milad de 5 anos e Adam de 9. Milad vai fazer um passeio escolar e a carrinha em que viaja com os colegas e os professores é abalroada por um camião e incendeia-se. Aquilo que deveria ser um dia feliz para as crianças tornou-se uma tragédia para as cinco crianças e a professora que morreram e para o condutor da carrinha que ficou com danos irreversíveis. “O acidente destruíra todas as famílias, cada uma à sua maneira”. (p. 194)


O livro relata-nos as condições que propiciaram o desastre, a ausência da prestação de socorro pelas autoridades israelitas, os bombeiros que não apareceram, o não deixarem as ambulâncias palestinianas passarem nos postos de controlo, todo um labirinto de restrições que espelham a desumanidade das autoridades israelitas numa situação de desastre, mas que é o espelho do dia-a-dia da população árabe. As dificuldades de Abed até saber para que hospital Milad tinha sido levado, se estava vivo ou não resultam do facto de ser palestino, de ter um cartão de identidade de cor verde, sinal de que já tinha sido preso. Mas o livro está igualmente cheio de exemplos de solidariedade entre árabes e judeus, o que é o raio de esperança neste conflito sem fim à vista.


Quando pensamos na expulsão e fuga de mais de oitenta por cento dos palestinianos naquilo que foi a Nakba em 1948, as acções de resistência, as Intifadas, as prisões de crianças, os massacres, as organizações políticas no terreno com as suas diferenças, as traições, os acordos de Oslo, as resoluções nunca cumpridas, compreendemos que o ódio é o combustível para um conflito interminável e em que o desequilíbrio de forças é brutal. No documentário “No Other Land” é inesquecível a cena em que os tanques e os buldozers vêm derrubar uma escola, mas antes os soldados israelitas fecham a porta da escola para que as crianças não possam sair. Têm de saltar pela janela se não querem ficar debaixo dos escombros.


Este ódio está bem expresso no epílogo do livro “Um Dia na Vida de Abed Salama”, a propósito de uma reportagem televisiva feita pelo israelita Arik Weiss sobre o acidente da carrinha. “O motivo de interesse da história não era o acidente em si, mas a reacção de alguns jovens israelitas, que exultaram com a morte das crianças palestinianas. Arik ficara consternado com a enxurrada de publicações e comentários no Facebook que celebraram a perda de vidas:


«Hahahaha 10 mortos hahahaha, bom dia.»


«É só um autocarro cheio de palestinianos. Nada de especial. É pena que não tenham morrido mais.»


«Óptimo! Menos terroristas!!!!»


«Notícias alegres para começar a manhã.»


«O meu dia tornou-se uma doçura!»


O que chocara Arik não era tanto o conteúdo das mensagens, mas o facto de muitos dos seus autores exibirem livremente as suas identidades. Como afirmou na introdução da peça jornalística, essas pessoas escreviam sem se esconderem atrás de um teclado anónimo, sem vergonha. E muitas das publicações eram escritas por estudantes do ensino básico e secundário. Arik ficou intrigado com esse elemento. Estes adolescentes estavam a viver um período de paz invulgar. Alguns deles eram demasiado novos para se lembrarem da violência dos anos 90 e da Segunda Intifada, mas pareciam ser mais racistas do que as gerações mais velhas.” (p. 195)


“Um Dia na Vida de Abed Dalama” é um valioso trabalho de não-ficção, um instrumento muito honesto e corajoso para mostrar a realidade do conflito israelo-palestiniano. Um livro notável, a ler e divulgar.


26 de Fevereiro de 2025

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Frida é resistência

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Hoje escolhi Frida para festejar os 6 anos deste blogue, que resiste, pese embora os dias de hoje não serem para leituras demoradas, nem para blogues.


Esta linda Frida foi-me oferecida pela minha prima Zita, que sabe do meu amor por Frida Kahlo. Tenho a imagem de Frida Kahlo em inúmeros objectos e imagens por toda a casa. Há uns anos, quando li "Diego & Frida" que comprei numa Feira do Livro de Lisboa, entrei pela primeira vez naquele universo único de uma mulher apaixonada, lutadora, sofredora e icónica. E nunca mais parei de ver filmes, peças de teatro, ler livros e ver exposições sobre ela. Costumo dizer que só me falta ir à Cidade do México para visitar a casa onde ela viveu, amou e pintou. 


Para mim, Frida é sinónimo de resistência. Ao longo de várias décadas, foi isso o que ela fez de forma exemplar, desde aquela fatídica tarde de 17 de Setembro de 1925, quando se deslocava com Alejandro de autocarro e este foi abalroado por um comboio. 



 


Alejandro estava lívido, os braços e pernas tremiam-lhe violentamente. Em mangas de camisa, sozinho no meio dos gritos, dos destroços, da confuão, do vaivém de macas carregando os feridos, e talvez mortos, paralisado num segundo tempo pelo horror do espectáculo, não conseguia senão dizer para si: «Ela vai morrer... Ela vai morrer...». 


No hospital da Cruz Vermelha, Frida foi transportada imediatamente para a sala de operações. Os médicos hesitavam em actuar, pois não alimentavam ilusóes: ela morreria sem dúvida durante a operação. O seu estado era absolutamente desesperado. Era preciso avisar a família sem demora. 


«Matilde soube a notícia pelos jornais e foi a primeira a chegar. Não se separou de mim durante três meses, dia e noite a meu lado. O choque tornou minha mãe muda durante um mês, e não veio ver-me. Ao ter conhecimento da notícia, a minha irmâ Adriana desmaiou. O meu pai teve um desgosto tão grande que adoeceu e só pude vê-lo vinte dias mais tarde.» (págs. 91 e 92) 



in "Frida Kahlo - Uma Vida", Rauda Jamis


Quando Matilde quis saber  do estado da irmã, o médico disse-lhe que, considerando a quantidade de ferimentos que ela tinha, a sua sobrevivência seria um milagre. Ele estava bastante pessimisrta. Faziam o que era possível, mas não podia fazer conjectutras. Só um mês depois do acidente a equipa médica fez o primeiro diagnóstico sério sobre a situação de Frida, sendo-lhe prescrito o uso de um colete de gesso durante nove meses e repouso absoluto na cama durante pelo menos os dois meses seguintes à sua estada no hospital. 


Resistir é o que se pede nestes tempos tão perigosos em que parece que o mundo deu uma cambalhota e enlouqueceu. Os senhores do mundo decidem sobre as vidas dos povos como se estivessem a jogar ao Monopólio. A aberração é tal que a sensação é a de se estar a viver uma distopia.


Resistir pois, o mais possível e acreditar que ainda há forças progressistas e democráticas para fazer virar os pratos da balança. 


19 de Fevereiro de 2025 

sábado, 30 de dezembro de 2023

As meninas proibidas de Cabul. Jenny Nordberg

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“As Meninas Proibidas de Cabul”, Jenny Nordberg, 2014


Jenny Nordberg, jornalista sueca premiada, conhecida pelos seus trabalhos de investigação, escreveu este seu “As Meninas proibidas de Cabul” entre 2009 e 2014, que ela classifica logo a abrir como “um relato subjectivo”. Com o subtítulo “A tradição secreta de resistência e luta das meninas afegãs”, este trabalho foi considerado Livro do Ano pela Publishers Weekly.


Neste meu texto sobre o livro, faço-o recordando aquela mulher afegã de burka que, em Outubro de 2000, no edifício das Nações Unidas em Nova York, perante dezenas de activistas feministas da Marcha Mundial das Mulheres, fez um relato emocionado sobre a opressão das suas irmãs do Afeganistão; recordando os milhares de mulheres e homens que em 2021 tentavam desesperadamente fugir do horror do regime totalitário dos talibãs; recordando a iraniana Narges Mohammadi, jornalista e activista dos direitos humanos, galardoada este ano com o Prémio Nobel da Paz, que afirmou “continuarei no Irão e continuarei o meu activismo, mesmo se passar o resto da minha vida na prisão”.


À medida que vamos lendo “As meninas proibidas de Cabul” é a palavra “resistência” que nos ocorre. O centro deste livro são os bacha posh, raparigas cujos pais transformam em rapazes, para colmatar a situação das famílias que não conseguem gerar filhos varões. Na sociedade afegã não ter filhos rapazes constitui um problema, uma falha do casal, algo que gera desconfiança social e mal-estar no seio da família. Assim e até à puberdade, a rapariga veste-se como um rapaz e tem uma liberdade que não teria se fosse rapariga, podendo brincar na rua, fazer compras e acompanhar com outros rapazes. A autora vai conhecer vários bacha posh e para isso desloca-se a zonas recônditas do país, não se limitando a Cabul: Mehran, o “filho” de 6 anos de Azita; Zahra de 15 anos que não quer perder a sua liberdade e voltar a ser rapariga; Sakina que aos 12 anos fez a transição, não sem que isso não lhe tivesse gerado confusão; Shukria, a enfermeira, com um profundo sentimento de falhanço na vida, visto não querer voltar à sua condição de mulher, mas ter sido obrigada a casar; Nader que nunca quis casar e que treina raparigas em futebol e na arte do tae kwon do. “É melhor viver à margem da sociedade do que viver escravizada, prega Nader às suas aprendizes.” (p.256)


Neste trabalho de campo como jornalista, a autora conhece Azita, mãe de Mehran e de mais três filhas, que casara contra sua vontade com um primo analfabeto. Azita, que usufruíra de formação devido à sua situação social privilegiada, torna-se membro da câmara baixa do Parlamento em Cabul em 2005. O Afeganistão é uma realidade complexa em que coexistem e conflituam vários grupos de entre os quais os pachto (islamitas sunitas) se consideram os verdadeiros afegãos, foi palco de “experiências” (soviética e americana) que em nada ajudaram o povo afegão a sair da guerra, do desemprego, da pobreza e da corrupção, ao mesmo tempo que a influência dos talibã se foi consolidando e impondo definitivamente em Agosto de 2021. A realidade dos bacha posh, não sendo raridade nem pontual, tem um estatuto de clandestinidade sobretudo para os estrangeiros, mas Jenny Nordberg conseguiu conhecê-la fruto da solidariedade feminina, fazendo uso das estruturas informais e porque conseguiu ganhar a confiança de mulheres como Setareh – a tradutora – também ela com uma experiência de bacha posh a quem no final do livro mostra a sua profunda gratidão. “Tem sido a minha guarda-costas e a minha negociadora e a minha pesquisadora e a minha amiga, a quem em troca eu ensinei coisas de que nenhuma mulher decente devia falar. Mas como vários dos bacha posh, teve um pai progressista que confiou nela, que a deixou trabalhar e viajar comigo para o desconhecido. Arriscou a vida por mim, e eu guardarei para sempre os seus segredos. // Se o Afeganistão voltar a guinar para o conservadorismo, todas as Setarehs, todas as Mehrans, todas as Azitas e todas as raparigas que recusam as normas serão as primeiras a sofrer.” (p. 349)


Sabemos que a guinada para o conservadorismo, para o fechamento e opressão do povo afegão, sobretudo das mulheres, se aprofundou no Verão de 2021. Mas mesmo em 2001, quando momentaneamente o poder dos talibã caiu, fora de Cabul era a lei dos talibã que imperava. Numa sociedade patriarcal com uma estrita separação dos sexos como é a sociedade afegã, em que as mulheres são meros seres reprodutores, assexuais, com uma esperança média de vida de 44 anos dos quais grande parte são na condição de gravidez, em que 18 000 mulheres morrem por ano por complicações de parto, em que o divórcio é praticamente impossível, uma mulher que leia ou escreva ou que tenha a mínima veleidade de liberdade corre o risco de a sua reputação ficar manchada. “Azita adora dançar, mas não o faz com muita frequência. Para uma mulher, a dança enquadra-se na mesma categoria que a poesia – equivale a sonho, que pode inspirar pensamentos a respeito de temas proibidos, como o amor e o desejo. Uma mulher que lê, escreve e recita poesia é uma mulher que talvez albergue ideias estranhas sobre amor e romance e seja, portanto, uma potencial prostituta.” (p. 104) A família é ou pode ser a pior ameaça para uma jovem afegã, pois são os pais que impõem um marido, não lhes dando o direito à escolha. Na sociedade afegã a mulher ou é filha, ou esposa, ou viúva, nunca divorciada. Daí que para muitos bacha posh que Jenny Nordberg entrevistou, o período em que viveram como rapazes foi o melhor e mais feliz período das suas vidas. Transcrevo a dedicatória do livro: ”Para todas as raparigas que perceberam que, de calças, conseguiam correr mais depressa e trepar mais alto”.


Apesar da dureza do livro, das vidas aí descritas, do pessimismo, das derrotas, do sentimento de falhanço que muitas das entrevistadas reflectem, a autora deixa uma visão optimista do futuro, que passa por os homens evoluírem de modo a libertarem as suas filhas, as suas mulheres e, no fundo, libertarem-se a si próprios.


Se este livro tivesse sido escrito a partir de 2021, teria Jenny Nordberg a mesma perspectiva optimista sobre a libertação das mulheres e meninas afegãs?


27 de Dezembro de 2023

domingo, 8 de outubro de 2023

Levantado do Chão, José Saramago

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Levantado do Chão”, José Saramago, 1980


Este foi dos primeiros livros que li de José Saramago, há bastantes anos e numa altura em que não costumava fazer pequenos textos sobre as minhas leituras. Agora, que estou em vésperas de participar no Roteiro “Levantado do Chão” promovido pela Fundação José Saramago senti necessidade de reler esta obra que, na altura, me provocou uma grande emoção, não só pela forma como o Alentejo é retratado, mas também pelas semelhanças da família Mau-Tempo com a família do meu marido.


Lê-se este livro e é impossível ficar-se indiferente à mestria no manejo da língua, à riqueza vocabular e à análise social e das classes, com o foco no Alentejo ao longo do século passado. Na contracapa da edição (13ª) que tenho, pode ler-se “Um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi de poder dizer deste livro, quando o terminasse: «Isto é o Alentejo»”.


A família Mau-Tempo é a protagonista maior. Várias gerações desde Domingos e Sara da Conceição até Maria Adelaide, sem esquecer o avô João Mau-Tempo que viveu a tortura da estátua e o isolamento em Caxias. Todos de olho azul. Da monarquia passou-se à República mas sem mudanças para a vida do povo, até que chegou o 25 de Abril e a Reforma Agrária. A paisagem é o Alentejo, a ceifa das searas, o tirar a cortiça, o trabalho nos arrozais, ou na vinha. Os homens e as mulheres que só dispõem da sua força de trabalho, sujeitos ao poder assente em 3 pilares: o latifúndio (Lamberto, Norberto…) a igreja (o padre Agamedes) e a guarda (sargento Armamento, inspector Paveia…). A luta contra as máquinas, pelos trinta e três escudos, por trabalho, pela jornada das oito horas e quarenta escudos de salário. A luta pela dignidade, contra a fome e prepotência. O povo, as formigas, a canzoada, quando não é tratada como carneirada. E também os milhanos que do céu tudo observam e que, como as formigas, são as testemunhas de tudo o que acontece no latifúndio.


Luta é resistência e sendo este “um livro sobre o Alentejo”, a epígrafe de “Levantado do Chão” dedica-o “À memória de Germano Vidigal e José Adelino dos Santos, assassinados.” Germano Santos Vidigal “o homem que caiu e foi levantado irá morrer sem dizer uma palavra que seja.”(p. 169)… “Que pálido está este homem, nem parece o mesmo, a cara inchada, os lábios rebentados, e os olhos, coitados dos olhos, nem se vêem entre os papos, tão diferente de quando chegou…” (p. 173) “Está morto José Adelino dos Santos, apanhou com uma bala na cabeça e primeiro nem acreditou, sacudiu a cabeça como se lhe tivesse mordido um bicho, mas depois compreendeu, Ah malandros que me mataram , e caiu de costas, desamparado, não tinha ali a mulher que o ajudasse, fez-lhe o sangue uma almofada vermelha, muito obrigada.” (p. 314).


A narrativa é densa, o narrador escreve, divaga, reflecte, antecipa acontecimentos futuros, dialoga com o leitor, não poupa nas palavras, ironiza. Como escreve na pág. 310 “São exageros no narrador”. “Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.” (p. 59). “Não foi a conversa por diante, nem já interessava, porquanto pôde o narrador dizer quanto queria, é o seu privilégio…” (p. 279). E vai-nos contando o que se passa lá fora e que vai chegando ao Alentejo: a República, a guerra, o atentado a Salazar, a emigração para a França, o general Delgado e a fraude eleitoral, a fuga de Peniche, o Santa Maria, a índia e o fim do império, a guerra colonial, o assalto ao quartel de Beja e finalmente o 25 de Abril e o primeiro 1º de Maio. Para o povo o trabalho quando o havia, duríssimo e mal pago, a resistência, organização e luta. No terreno, os capatazes e a guarda asseguram que o poder do latifúndio e da ditadura não são beliscados. “O feitor é o chicote que mete na ordem a canzoada. É um cão escolhido entre os cães para morder os cães.” … “uma espécie de mula humana, uma aberração, um judas, o que traiu os seus semelhantes a troco de mais poder e de algum pão de sobra.” (p.72).


A escrita de Saramago não esquece o mau viver das mulheres, o come e cala, “De mulheres nem vale a pena falar, tão constante é o seu fado de parideiras e animais de carga.” (p.125), mas os tempos mudam e elas também querem lutar ao lado dos seus companheiros “Gracinda Mau-Tempo também quis vir, já não há quem segure as mulheres, isto pensam os mais velhos e antigos, mas não dizem nada…” (p.310).


Muito mais e melhor se poderá dizer e escrever sobre este romance extraordinário, uma verdadeira lição de história, de resistência duríssima contra um poder ditatorial em que o Latifúndio, a Igreja e o Governo estavam de braço dado, mas contra o qual o povo lutou para se levantar do chão.


 


8 de Outubro de 2023


(25 anos depois do dia em que foi anunciado o prémio Nobel da Literatura de 1998 atribuído a José Saramago)


 


Almerinda Bento  

domingo, 5 de março de 2023

Misericórdia, Lídia Jorge

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Misericórdia, Lídia Jorge, 2022


Este é um livro que emociona, que comove profundamente, que nos expõe como humanidade, um daqueles livros sobre que tenho dificuldade e até pudor em escrever, talvez usando pinças para não estragar nada. Comovente, por vezes irónico, crítico, nada piegas. Um hino à dignidade, à resistência, à força de vontade para continuar a viver. Um livro maravilhoso e impossível de esquecer.


Maria Alberta Nunes Amado é uma dos setenta residentes no Hotel Paraíso, onde é conhecida por Dona Alberti. Os seus problemas de mobilidade são ultrapassados por diferentes cuidadoras que a transportam no interior da residência, a lavam e vestem, a enfeitam com o colar e os brincos, a acordam, lhe dão os bons dias, a deitam, a esquecem, lhe fazem a higiene sem a ouvir, sem a ver ou lhe responder, lhe fazem as confidências mais íntimas, lhe cantam, lhe afagam as mãos. Tem um gravador Olympus Note Corder DP-20 para onde dita impressões dos dias, das noites, das visitas, do que gosta e não gosta naquela que não é a sua casa, lugar de exílio, e desenha palavras com um pequeno lápis Viarco, usando a mão esquerda e a sua capacidade de extrair dos dias o que sobressai da rotina da instituição que transforma os utentes em peças iguais e sem identidade. Sente saudades das flores que amava no jardim da que foi a sua casa e guarda na bolsa que traz ao peito aquilo que ainda lhe confere algum poder, pertença e intimidade. Pode ser atormentada durante a noite pelo esquecimento do nome de uma capital de um atlas que conhece tão bem, mas resiste a essa entidade que tem vida própria – a noite – que não lhe dá descanso, trazendo-lhe memórias.


O Hotel Paraíso é feito de muitos mundos. Desde a Doutora Noronha que havia sido a estagiária Anita, o senhor Paiva sempre a querer fugir, a Dona Joaninha eternamente apaixonada e que não queria morrer sem saber ler, Lilimunde do Pará com quem Dona Alberti tanto se identifica, a cheirar a bergamota, sobrevivente das máfias da imigração e a viver o seu primeiro amor, o sargento João Almeida que trouxe do exterior um sopro de vida, o senhor Tó alguém que nunca se quis render, Salomé, a “sólida máquina Bosch”, Ali, o marroquino “strong” e “jolie” que acreditou que aqui em Portugal seria respeitado, as senhoras que se sentiam superiores e os homens que persistiam nos seus tiques marialvas. As cuidadoras, os cuidadores chegam e partem. Partem em levas e chegam em levas. Trabalho imigrante, mal pago, precário, indispensável.


A morte era banal no Hotel Paraíso. Os que partem definitivamente, rapidamente são esquecidos e substituídos por novos utentes. Mesmo quando a vontade é desistir e ir, o final de 2019, antes do espectáculo de fogo-de-artifício a partir do terraço do Hotel Paraíso, dá a Dona Alberti uma força para continuar a viver e os telefonemas que faz são o renovar de votos que o Ano do Carro seja um ano de vida e esperança no futuro. “Sinto um entusiasmo pela vida como não sentia há muitos anos” (pág. 408). Os telefonemas foram aos que lhe eram mais caros: ao senhor Frank, vizinho da casa antes do Hotel Paraíso, a Lilimunde, a menina a quem Edu Horvat não soube que deixou uma semente, à Associação da Boa Vontade que tem um voluntário que a visitou e lhe leu dois textos muito importantes e à filha a quem deseja que realize todos os seus sonhos, mesmo que ela Maria Alberta discorde das escolhas da filha.


Infelizmente, o Ano do Carro foi trágico e mortal para muitos dos utentes do Hotel Paraíso, incluindo Dona Alberti tão segura de que a noite não a iria sufocar. E também para Luís Sepúlveda, o autor das duas histórias de “As Rosas de Atacama” que o voluntário da Associação da Boa Vontade lhe lera: a do professor Galvez, “pedagogo da dignidade” e “Cavatori”, que homenageia os cavatori e os/as marmoristas nunca nomeados nas belas estátuas de Carrara.  


Transcrevo o epílogo de “Misericórdia”:


A Maria dos Remédios, minha mãe muito amada, que me pediu que escrevesse esta história.


E a Luís Sepúlveda, meu bom amigo de longa data.


Eles nunca se conheceram, mas estão unidos no tempo das estrelas e cruzam-se no interior destas páginas”


Lídia Jorge


Boliqueime, 15 de Junho de 2022


 


Almerinda Bento


4 de Março de 2023


 

segunda-feira, 11 de julho de 2022

A Força da Idade, Simone de Beauvoir

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A Força da Idade, Simone de Beauvoir, 1960

“A Força da Idade” é dos livros que herdei da minha irmã, talvez o mais importante. Ela tinha-me oferecido “Os Mandarins”, pediu-me que lho emprestasse para o ler e quase chegou ao fim do 2º volume naquelas férias fatídicas. Chegou a minha vez de ler este belíssimo exemplar de “A Força da Idade” editado pela Bertrand e descobri, ao longo da leitura, sublinhados que inevitavelmente me fazem reviver as suas preocupações, os seus interesses e os seus medos. Foi pois um livro cuja leitura me remeteu invariavelmente para ela e para as nossas vivências. Por isso, as palavras que vou escrever sobre este livro que Simone de Beauvoir dedicou a Jean Paul Sartre, dedico-as à memória da minha irmã Isabel.

Tinha lido “Memórias de uma Menina Bem Comportada” há muitos anos e lembro-me que foi durante muito tempo um livro muito vivo na minha memória, mas passados tantos anos, algumas das referências que Simone de Beauvoir faz no início do livro, naturalmente, pessoas importantes e marcantes na sua juventude, mas que entretanto deixei de identificar. “A Força da Idade”, para além de um livro autobiográfico em que a autora detalha momentos marcantes da sua juventude, como viveu pela primeira vez e de forma intensa a sensação de liberdade, é também um documento histórico valioso sobre o período que antecede a 2ª guerra mundial até ao momento da Libertação de Paris em Agosto de 1944.

No Prólogo, Simone de Beauvoir avisa: “Lancei-me numa aventura imprudente, quando comecei a falar de mim. Começa-se e nunca mais se acaba. “ (…) “No entanto, devo preveni-los que não pretendo dizer tudo” (…) “a minha vida foi estreitamente ligada à de Jean Paul Sartre; mas a sua história espera contá-la ele próprio e deixo-lhe essa tarefa.” E, em nota de rodapé: “Neste livro consenti em omitir; nunca em mentir. Mas é provável que a memória me tenha traído em pequenas coisas…”

O livro está dividido em duas grandes partes; a primeira vai de Setembro de 1929 ao Verão de 1938 e a segunda, desde esse Verão quando a ameaça da guerra era já muito presente até 25 de Agosto de 1944, quando os últimos ocupantes nazis abandonaram a cidade de Paris onde Simone de Beauvoir vivia.

Simone de Beauvoir tem 21 anos, vai viver para Paris onde dá umas aulas que lhe permitem a liberdade de ter um quarto seu. “Quando Sartre voltou a Paris, em meados de Outubro, começou verdadeiramente a minha nova vida” (pág.15). O dinheiro era pouco, liam, iam ao teatro, descobriam o cinema sonoro, discutiam as teorias de Sartre, tinham uma visão idílica sobre a paz, considerando a ascensão das ideias de Hitler “um epifenómeno sem gravidade” (pág.16). O seu ideal de vida era escrever e para este jovem casal “a liberdade era a nossa única regra” (pág.40). Viviam longe da realidade, no entanto, Beauvoir refere numa visita a uma pequena fábrica de tomadas para lâmpadas eléctricas que, ao ver a dureza, insalubridade das condições de trabalho e monotonia das tarefas, que o seu “primeiro encontro com o trabalho foi como um soco no estômago” (pág.53).

As caminhadas solitárias e a descoberta sistemática da região de Marselha, onde é colocada durante um ano, são um deslumbramento para Simone de Beauvoir. Segue-se Rouen, sem os encantos de Marselha, onde vai permanecer durante quatro anos, mas com a vantagem de estar mais próxima de Paris e de Sartre que dá aulas no Havre. Em Espanha, vencem as forças republicanas, mas na Alemanha as ideias de Hitler vão fazendo o seu caminho e na Itália os camisas negras estão cada vez mais presentes nas ruas. No entanto, apesar das perseguições aos judeus na Alemanha, os intelectuais nos quais Beauvoir e Sartre se incluíam encaravam isso com relativa serenidade e tinham uma visão distorcida sobre a situação política. Em finais de 1934, início de 1935 a situação económica deteriora-se, crescem os despedimentos e o desemprego. A xenofobia e as tendências nacionalistas de direita aprofundam-se. É interessante perceber a evolução no pensamento de Simone de Beauvoir que nessa altura só tinha interesse, ao nível da política externa, por o que se passava em Espanha em que as direitas estavam no poder, com a repressão selvática aos operários da Catalunha e das Astúrias. “Uma questão que nessa altura fazia correr muita tinta era o voto das mulheres; no momento das eleições municipais; Marie Vérone e Louise Weiss agitaram-se furiosamente; tinham razão; mas como eu era apolítica e não iria usar dos meus direitos, era-me absolutamente indiferente que nos reconhecessem ou não” (pág.183). O que a movia eram as questões da repressão que se fazia sentir, questiona-se sobre a pena de morte, mas do ponto de vista político a sua postura assim como a de Sartre era de meros espectadores (pág.186). A Frente Popular que introduzira grandes transformações sociais e melhoria na qualidade de vida dos operários franceses entra em declínio; os franquistas avançam em Espanha e Guernica é massacrada; a Grécia vive em ditadura e a pobreza do povo é indisfarçável. Só a URSS se mostrava desejosa de barrar o fascismo, mas “Nunca imagináramos a URSS como um paraíso, mas também nunca tínhamos posto seriamente em questão a construção socialista (…) Não haveria mais nenhum lugar no mundo onde se pudesse alojar a esperança?” (pág.245). As perseguições intensificam-se na Alemanha e a Europa vive uma onda de refugiados que se deslocam e que ninguém quer aceitar.

A Primavera de 1939 marca um ponto de viragem em Beauvoir, que faz um balanço dos seus últimos dez anos numa síntese que encerra a 1ª parte desta autobiografia. “Não é possível assinalar um dia, uma semana, nem mesmo um mês, para a conversão que então se deu em mim. Mas é certo que a Primavera de 1939 marca um corte na minha vida. Renunciei ao individualismo e ao anti-humanismo. Aprendi a solidariedade” (…) “É arbitrário cortar a vida aos bocados. No entanto, o ano de 1929, de que datam, ao mesmo tempo, o fim dos meus estudos, a minha emancipação económica, a saída da casa paterna, a ruptura das antigas amizades e o meu encontro com Sartre, abriu evidentemente para mim uma nova era. Em 1939, a minha existência mudou de uma maneira igualmente radical: a História apanhou-me para não mais me largar; por outro lado, dediquei-me a fundo para sempre à literatura. Encerrava-se uma época. Este período que acabo de contar fez-me passar da juventude à maturidade. Dominaram-me duas preocupações: viver e realizar a minha vocação ainda abstracta de escritor; isto é, encontrar o ponto de inserção da literatura na minha vida.” (pág. 302). “Todavia, ao fazer o balanço destes anos, parece-me que me deram muitíssimo: tantos livros, quadros e cidades, tantos rostos, tantas ideias, emoções e sentimentos! Nem tudo era falso.” (pág. 306)

No Verão de 1938, já com a ameaça iminente da guerra, ainda aproveita a natureza na Provença com Sartre, antes de regressar a Paris. A notícia da conclusão do pacto germano-soviético é o fim de toda e qualquer esperança. Os comboios sobrelotados, a mobilização e a angústia das pessoas são o sinal da viragem. No entanto, há ainda a crença de que a guerra não vai ser longa e que os fascismos vão ser liquidados e que a França e toda a Europa caminharão para o socialismo. É muito interessante o retrato que Beauvoir traça do estado de espírito das pessoas: inquietas, dando palpites, tentando adivinhar o futuro. Ela própria “sentia medo. Não receava por mim; nem por um instante pensei em fugir do País. Tinha receio por Sartre.” (…) ”E uma manhã a coisa aconteceu. Então, na minha solidão e angústia, comecei a escrever um diário. Parece-me mais vivo, mais exacto do que a narrativa que eu pudesse tirar dele.” (pág. 321) Vai então escrever um diário que começa a 1 de Setembro e vai até 14 de Julho do ano seguinte, com alguns períodos intermitentes, ou seja, todo o período em que está afastada de Sartre. Este diário é um retrato/documento vivo do quotidiano da França naquela época. A 1 de Setembro é declarada guerra à Polónia, Sartre é mobilizado para Nancy, as pessoas começam a comprar máscaras de gás, as rotinas alteram-se, os cafés fecham cedo e as boîtes não abrem. “O Flore está fechado. Sento-me na esplanada do Deux Magots e leio Journal, de Gide, de 1914; grande analogia com o momento presente” (pág. 326) Alguns dizem que esta guerra é uma brincadeira. “Durará muito tempo?”, pergunta Simone de Beauvoir. Num passeio pelos campos com Camille, “Voltamos através dos campos e aldeias. É um momento muito comovente e recordo-me do que Sartre me disse em Avinhão, e que é tão verdadeiro: que se pode viver numa grande doçura um presente rodeado de ameaças; não esqueço nada da guerra, da separação, da morte, do futuro bloqueado e no entanto nada pode apagar a ternura e a luminosidade da paisagem; como se fosse invadida por um sentimento que se basta a si próprio, que não pertence a nenhuma história, arrancado à sua própria história, de repente, completamente desinteressado.” (pág. 334). Na entrada de 25 de Outubro do diário, escreve Simone de Beauvoir: “Fernand diz que os jornais estão cheios de mentiras e que a guerra vai ser longa. Já não reajo a estas previsões. Trabalho no meu romance, dou aulas e vivo numa espécie de embrutecimento: nenhum futuro tem realidade.” (pág. 348)

Para se deslocarem, os franceses precisam de salvo-condutos, o que não é fácil de conseguir. As cartas que recebe de Sartre, em parte incerta, são abertas pela censura. Mais tarde, em código, ela consegue perceber que ele está na Alsácia. No PCF há demissões por desacordo com o pacto germano-soviético. Em Maio os alemães invadem a Holanda, a Bélgica e o Luxemburgo e a 4 de Junho a região de Paris é bombardeada. A vida muda radicalmente para Simone de Beauvoir que tem de ficar na cidade por causa da sua profissão. Sente-se enclausurada. Mas, com o avanço das tropas ocupantes, os professores são dispensados e os exames adiados. Paris é o caos, sem gasolina, sem comida para os franceses, mas os alemães pavoneiam-se e culpam os ingleses e os judeus pela situação de penúria que vivem os habitantes da cidade. É nessa altura que Simone de Beauvoir aprende a andar de bicicleta, o que lhe vai ser muito útil e para Sartre nas suas muitas deslocações. A repressão e o peso da ideologia nazi entram no quotidiano das pessoas. As notícias são escassas e deturpadas, alguns amigos começam a vacilar. Outros desaparecem.

Quando Sartre que estivera preso é libertado, quer seguir a política e cria um pequeno grupo – “Socialismo e Liberdade “ – à semelhança de muitos que existiam, que ajude à resistência aos ocupantes e colaboracionistas. O “trio” que Simone, Sartre e Olga constituíram antes da guerra, é agora alargado, como se fossem uma “família”. Partilham o pouco que têm, apoiam-se nas dificuldades que são cada vez maiores, a informação é escassa, os avanços das forças inglesas andam a par das execuções, das prisões e dos envios das pessoas para os campos de concentração, embora nessa altura ainda pouco se soubesse sobre os campos de concentração, as resistências organizam-se, mas há que estar atento aos delatores. Em contraponto ao ambiente hostil da ocupação e da guerra, à rudeza do frio e da fome, este grupo de intelectuais – Camus, Dullin, Picasso, Dora Marr, os Leiris, Éluard, Malraux … – fazia do Flore a sua casa e alimentava a sua amizade com a alegria de viver o momento e de aproveitar ao máximo o facto de estarem vivos. Tinham grandes projectos para o futuro e antecipavam o que fariam no pós-guerra. Sartre cria textos para peças de teatro, Simone trabalha no segundo romance e o seu reconhecimento como escritora surge quando finalmente “A Convidada”, o seu primeiro romance é editado e sobre ele são escritas críticas em jornais de referência. Simone de Beauvoir era finalmente reconhecida como escritora, ganha notoriedade e esse reconhecimento dá-lhe grande satisfação pessoal.

Como referi anteriormente, a parte final de “A Força da Idade” é o retrato dos dias que antecederam a vitória sobre o ocupante nazi e que foi sentida antecipadamente pela “família” que há tanto tempo a desejava. A Libertação não foi conseguida sem muito sofrimento e sem que o terror estivesse presente até ao fim. Simone de Beauvoir faz também aqui um balanço, uma reflexão sobre a guerra e o peso que ela irá transportar para a sua vida do pós-guerra e que não mais se apagará. Dos muitos amigos e amigas que vão surgindo ao longo das mais de quinhentas páginas, ela destaca o jovem Bourla cuja morte lhe é insuportável

 Para além da minúcia e detalhe usados ao longo de todo o livro na descrição das paisagens e percursos que fazem ela e Sartre em toda a França, mas também noutros países como a Espanha, a Itália ou a Grécia; Simone de Beauvoir como observadora de tudo o que a rodeia é exaustiva na caracterização daqueles que lhe estão mais próximos e, de forma muito particular, partilha nas suas memórias a importância da literatura na sua vida “a literatura tornou-se-me tão necessária como o ar que respirava” (pág. 509); as dúvidas e inseguranças em todo o processo criativo, os elementos usados na construção de “L’Invitée”, mas também de “Le Sang des Autres” e “Tous les Hommes sont Mortels”, o que acho de grande interesse para quem estudar estas três primeiras obras da autora, na medida em que estão intrinsecamente ligadas à sua vivência e às pessoas que fizeram parte dos seus relacionamentos mais íntimos.

Por fim e assumindo que muitíssimo mais poderia dizer sobre este livro, não posso deixar de aqui transcrever um parágrafo que surge na parte final do livro, que reflecte as preocupações desta professora, filósofa, feminista, fundamental para o pensamento do feminismo e das feministas. A propósito do seu círculo de amigos, intelectuais quase todos oriundos do surrealismo, escreve Beauvoir: “ Tirei ainda um outro proveito dessa intimidade. Conhecia poucas mulheres da minha idade e nenhuma que levasse uma vida clássica de casada; os problemas de Stépha, Camille, Louise Perron, Colette Audry e os meus eram, na minha opinião, individuais e não generalizados. Em muitos pontos, compreendera quanto, antes da guerra, pecara por abstracção: sabia agora que não era indiferente ser judeu ou ariano; mas não me tinha apercebido de que houvesse uma condição feminina. Subitamente, encontrei um grande número de mulheres que tinham ultrapassado os quarenta e que, através da diversidade das suas possibilidades e méritos, haviam tido uma experiência idêntica: tinham vivido como «seres relativos». Como eu escrevia, como a minha situação era diferente da delas, e também, penso eu, como sabia escutar, disseram-me muita coisa; comecei a dar conta das dificuldades, das aparentes facilidades, dos logros e dos obstáculos que a maioria das mulheres encontra pelo caminho; senti também que, naquela medida, eram simultaneamente diminuídas e enriquecidas. Não dava ainda muita importância a um assunto que só indirectamente me dizia respeito, mas a minha atenção foi despertada.” (pág. 481)

10 de Julho de 2022

Almerinda Bento

 

domingo, 6 de março de 2022

O Atalho dos Ninhos de Aranha, Italo Calvino

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O Atalho dos Ninhos de Aranha, Italo Calvino, 1947


Gosto sempre de ler um livro com um prefácio que me ajude a contextualizá-lo nas suas várias facetas. Em 1964 Italo Calvino fez um prefácio para o seu “O Atalho dos Ninhos de Aranha”de 1947. É um longo prefácio em que por várias vezes retoma a frase inicial “Este romance foi o primeiro que escrevi”. Escrito pouco depois da Libertação e da sua experiência como membro da Resistência à ocupação nazi, Calvino reflecte que o livro resulta da energia e da alegria do fim da guerra, da necessidade de verter para o papel a força da oralidade sem limites naquela época, de não querer pôr-se no papel de narrador que escreve as suas memórias de partigiano, pelo que decidiu que enfrentaria o tema “não de caras mas de esguelha. Devia ser tudo visto pelos olhos de uma criança, num ambiente de garotos e vagabundos. Inventei uma história que ficasse à margem da guerra de resistência, dos seus heroísmos e sacrifícios, mas que ao mesmo tempo nos transmitisse a sua cor, o sabor áspero, o ritmo…” Inconformista, avesso às directivas, cartilhas e imagens formatadas e normativas de conduta e militância, escolheu esse garoto – o pequeno Pin – antítese do herói socialista e do romantismo revolucionário, alguém que estilhaçasse os conceitos de herói e de consciência de classe.


O livro é dedicado a Kim – grande amigo e companheiro da Resistência de Italo Calvino – sendo que no capítulo IX a sua personalidade e características de dirigente político rigoroso e analítico são vertidas, dando um tom ideológico que corta, até certo ponto, o fio da narrativa em que Pin e os partigiani são os protagonistas. Pin é a criança que cresce de forma um tanto ou quanto selvagem, sem regras, sem amor, que mascara a sua solidão e desamparo com provocações aos mais velhos, a sua forma de entrar no mundo dos homens e de se sentir um deles. Ele quer ser acolhido pelos grandes, pelos homens da taberna, pelos partigiani, é coscuvilheiro, desvenda os segredos do bairro pobre, canta canções que os homens gostam de ouvir. Para os homens da taberna, Pin é importante porque é irmão da Morena do Beco Comprido. Para Lupo Rosso, Pin é importante porque tem uma arma, escondida num lugar único, mágico, que só ele conhece – o atalho dos ninhos de aranha – a sua única riqueza. Quando é confrontado com a possibilidade de desvendar onde fica esse atalho que leva à arma escondida, Pin hesita porque “o lugar dos ninhos de aranha é um grande segredo e é necessário que seja um verdadeiro amigo, em tudo e para tudo” (pág. 92)


Só há um homem de entre todos aqueles que olha para Pin como uma criança que precisa de carinho, ele também adulto carente. “Primo o grande, doce e cruel Primo” (pág. 211) é o único que “o leva pela mão, aquela grande mão, macia e quente como pão.” (pág. 226).


No prefácio, Italo Calvino escreve a certa altura “A Resistência representou a fusão entre paisagem e pessoas” (pág. 12) . Na minha memória, os bosques, os esconderijos, as casas abandonadas onde homens sujos se amontoam, o vale, os viveiros de cravos, os campos de rododendros, a preocupação dos homens ao encontro da coluna dos alemães: “É um dia azul como os outros, tão azul que quase faz medo, um dia com cantos de passarinhos que quase faz medo ouvir.” (pág. 189).


Um livro lindíssimo.


3 de Março de 2022


 

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Natasha

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Natasha. Natalya.


Estive com a Natasha, dois dias antes de ela fazer 42 anos. Na altura ela disse-me que estava em Portugal há 21 anos, precisamente metade da sua vida tinha-a passado aqui.  


Nestes 21 anos casou, teve dois filhos – um rapaz e uma rapariga – divorciou-se depois de ter vivido uma situação grave de violência doméstica, sobreviveu, criou o seu próprio negócio depois de o patrão ter encerrado o salão de cabeleireiro, sobreviveu a uma pandemia que a obrigou-a a ter o seu próprio salão fechado… Natasha é uma mulher linda, uma lutadora nata, uma sobrevivente às intempéries da vida.


Quando lhe perguntava como ia a família reagindo às investidas russas quando ainda a guerra era uma palavra impensável e por cá se percebia pela comunicação social que a escalada agressiva era real, ela respondia-me com a serenidade que lhe conheço que os pais e irmã estavam tranquilos e que a haver problemas o plano B era a Polónia.


A serenidade de Natasha continuei a senti-la na sua voz quando lhe telefonei no início da semana passada. A família e o povo ucraniano já estavam habituados e depois da invasão da Crimeia tudo era possível… Depois do dia 24 envio-lhe uma mensagem escrita e ela responde-me destroçada por sentir que a sua cultura, a sua identidade, o seu modo de vida estão a ser postos em causa por Putin e pelo exército russo e agradece todo o carinho.


Fico com o coração destroçado. Vejo as imagens na televisão e vejo a Natasha em todas aquelas mulheres que carregam os filhos, meia dúzia de coisas essenciais, deixando para trás os filhos, os maridos, os pais, as casas, a sua vida.


O meu vizinho do lado também é ucraniano, mas não sei como se chama. Educado e simpático, a nossa relação é mais pelos gatos que ele tem e que eu tenho. Conversas de circunstância sobre gatos, o pagamento do condomínio sempre a horas, bom dia, boa tarde, até logo. Hoje encontrámo-nos na escada e disse-lhe que ia à manifestação pela paz na Ucrânia. Ergueu as sobrancelhas, sorriu e disse muito bom. Acrescentou que a família que vive perto da região “separatista” (assinalou as aspas com os dedos) de Donetsk, mas em território da Ucrânia, ainda está bem.


Junto-me aos manifestantes. Dizem que foram dez mil, não sei fazer essas contas. Logo as televisões irão dizer um número. Só sei que éramos muitos. Muitos jovens e muita gente de todas as idades. O azul e o amarelo predominavam nas bandeiras, na roupa, num lenço ao pescoço, no bandeirão que passou de mão em mão sobre as nossas cabeças. Gritámos Paz, Paz, Paz. Fim da Guerra. Batemos palmas. Estivemos juntos e solidários com um povo que está a ser invadido, que sofre e que resiste.


Os povos querem Paz e essa energia é irresistível. Por isso éramos tantos hoje aqui e um pouco por todo o mundo. Toda a força e solidariedade com o povo da Ucrânia.


27 de Fevereiro de 2022

domingo, 14 de fevereiro de 2021

A Cidade das Flores, Augusto Abelaira

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“A Cidade das Flores”, Augusto Abelaira, 1959


Quando se volta a ler um livro que se leu há mais de quatro décadas, percebemos se ele teve influência nessa altura das nossas vidas, se nos conseguimos identificar com o contexto ou com alguma das personagens, se, apesar da distância, permanece como objecto literário ou, se é de tal forma datado que não consegue despertar interesse para quem hoje o leia, sendo jovem como na altura eu era.


Em 1961, no posfácio à segunda edição de “A Cidade das Flores”, Augusto Abelaira faz uma reflexão e uma série de perguntas que considerei muito relevantes. Começa assim: “ A nova edição de um livro significa que esse livro não morreu”. E mais à frente: “Um livro que se reedita é um livro que se esgotou. Portanto: Quem o esgotou? Quem o leu? E porquê?” (…) “Porque leio eu um romance?” (…) “Independentemente de me ajudar a passar o tempo, a leitura dum romance multiplica em várias direcções a minha pobre vida quotidiana, permitindo-me sonhar.” (…) “Essas histórias… ajudam-me a sair de mim próprio e a descobrir o mundo.” (…) “Os romances preocupam-se com homens vulgares, mais próximos de mim, homens que vivem no meu modesto universo.” (…) “Acontece, porém, que, muitas vezes, buscamos num romance as nossas próprias vidas, as vidas confusas dos nossos irmãos, as nossas preocupações.” (…) “… creio que “A Cidade das Flores” documenta qualquer coisa, a reacção de certos homens a uma praga social – o fascismo; a reacção de certos homens a uma situação social adversa.” (…) “ Homens que não crêem no futuro, ou, melhor: homens que, acreditando no futuro, não têm coragem de viver no presente esse futuro.” (…) “… tenho esperança de que, dentro de cinquenta anos, “A Cidade das Flores” já não seja lida. Significará isso que os problemas deste romance já passaram à história e que os homens deram mais um passo no caminho da justiça social.” (…) “Desejaria que “A Cidade das Flores” fosse entendida como um livro de quem acredita no progresso, na justiça, na paz, na possibilidade real de os homens serem todos iguais.” (…) “E no entanto, nós, cidadãos deste ano da graça de 1961, sabemos que a História, apesar de tudo, não deu razão ao pessimismo de Fazio. Sabemos que o Hitler não dominou por mil anos. Sabemos que nenhum Hitler dominará por mil anos.”


“A Cidade das Flores” decorre na Itália de Mussolini. Os intervenientes são jovens que vivem em Florença, mais ou menos envolvidos na resistência ao fascismo em ascensão. Augusto Abelaira da geração de escritores da oposição a Salazar a escrever no período negro da censura, transpõe neste romance para o meio cultural, social e literário português dos anos 50 uma realidade paralela, usando personagens doutro país e doutro regime ditatorial com preocupações semelhantes e com ânsias de liberdade. Logo no início do romance, Fazio observa um casal de ingleses que tiram fotografias junto à estátua de David. Enquanto se sente escravo, prisioneiro, ele inveja aqueles turistas que para ele representam a liberdade. Fazio, Soldati, Domenico, Rosabianca, Renatta, Vianello e no outro extremo Briganti adepto das ideias de Mussolini. Nas suas conversas, nos seus encontros, os grandes temas que os preocupam. O que é resistir? O que é colaborar? Até onde se consegue resistir? O que é ser incorruptível? O que é ser honesto? Pode-se ser feliz, quando há alguém que está a sofrer, que está a ser torturado, que está preso? As ideias justas triunfarão? Quanto tempo dura o amor? O que é ser livre? É possível ser-se livre?


Achei admirável reler este livro, identificar personagens, diálogos, situações, dúvidas com pessoas, diálogos, situações e dúvidas pessoais e de pessoas que fizeram parte da minha vida e da minha juventude. Senti este romance como intemporal, moderno e actual. No entanto, ao contrário do desejo de Abelaira, de que 50 anos depois daquela 2ª edição do romance ele já não fosse lido, a verdade é que os problemas de que fala o romance não “passaram à história”. A história e o percurso da humanidade estão longe de alcançar a justiça social e os perigos que marcaram o século XX continuam activos e sempre à espera que a democracia baixe as suas bandeiras. Resistir é um imperativo.


12 de Fevereiro de 2021


Almerinda Bento

domingo, 23 de agosto de 2020

Ontem foi tempo de fazunchar

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De carro pela EN2, à descoberta de terras e de paisagens que, embora não distantes, ainda não conhecíamos. À medida que se avança no conforto do automóvel, não pude deixar de pensar que o ano passado por ali andou o Afonso Reis Cabral, a meio do seu trajecto de mais de setecentos quilómetros a pé, apoiando-se nos seus bastões e com uma mochila de trinta quilos às costas. Teria apanhado calor, ou chuva e frio quando passou por ali? A verdade é que ainda hoje avalio entre os vários riscos e desafios dessa longa caminhada, as estreitas bermas duma estrada que pensando no automóvel não dão a mínima segurança a um caminhante! Mas em frente. Poucos são audazes como o Afonso!


Já quando tínhamos ido ao Mação ficáramos estarrecidos com o furor dos fogos que nos últimos anos arrasaram aquele concelho. Desta vez, a caminho de Vila de Rei e da Sertã, a mesma tristeza pela desolação da vista de quilómetros e quilómetros de árvores com os troncos de pé, mas pretos e calcinados. Mas toda aquela região e a Sertã são deslumbrantes e boas para uma pausa e um almoço à beira do rio, com vista para as pontes que marcam diferentes épocas da história daquela terra. 


Depois, é seguir rumo a Figueiró dos Vinhos. Parece que foi a beleza de toda a região envolvente e a luz que encantaram José Malhoa e o levaram a escolher aquela terra para viver no seu "Casulo" e para dar asas à sua arte, tal como outros pintores naturalistas com quem conviveu. Figueiró dos Vinhos que ficou na nossa memória pelos terríveis incêndios de há anos, quis, desde o ano passado, apostar numa festa de artes - o Fazunchar - que ajudasse a reerguer todo o potencial e história da terra.  Arte urbana, exposições, instalações, workshops, música, diálogo com os habitantes da terra e das freguesias envolventes, nomeadamente um piquenique comunitário para terminar a festa em beleza.


O nosso foco, para além de conhecer a terra e de reencontrar aqueles que a pandemia não nos tem deixado estar com a frequência desejada, era poder usufruir do percurso e da visita guiada pelas peças de arte urbana fruto dos dois anos de Fazunchar. "Onde a arte faz a festa" diz o folheto de 2020. Com as devidas distâncias físicas, a vida e a arte não podem parar e estes exemplos de resistência e de resiliência são um exemplo de que apesar dos fogos, apesar da pandemia, há que lutar contra a desertificação e isolamento das gentes do interior. 


Parabéns Fazunchar!


22 de Agosto de 2020


 


 

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

As Longas Noites de Caxias

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As Longas Noites de Caxias, Ana Cristina Silva, 2019


A cada novo livro de Ana Cristina Silva que leio, reforço a ideia que já anteriormente expressei de que “a autora revela a sua mestria em analisar e transmitir-nos estados de alma das personagens que cria”. Desta vez, partindo de factos verídicos, o foco é o que o medo faz às pessoas e até que ponto pode chegar a perversidade de uma pessoa para com outras. Para tal, evoca o instrumento que o Estado Novo utilizou para subjugar um povo – a PIDE –  analisando o uso do poder e do medo por parte dos torturadores e a capacidade de resistência por parte dos que eram presos pela PIDE.


A autora começa “As Longas Noites de Caxias” dedicando-o “A todos os resistentes antifascistas” e é clara a vontade, com este livro, de não deixar esquecer o que foi a polícia política de Salazar, num país e num mundo onde a democracia mostra sempre quão frágil e vulnerável é a todos os populismos e inimigos da liberdade e da democracia.


Antes, referi torturadores e torturados. Mas neste livro, as personagens são femininas, ou seja, torturadora e torturada. Laura Branco, a jovem natural de Mértola que, pelo seu excelente percurso escolar, consegue chegar à universidade graças à obtenção de bolsas de estudo e que acaba por ser presa. No Alentejo tinha convivido com crianças descalças, com crianças que iam para a escola com fome, com crianças que eram tratadas diferentemente consoante o seu estatuto social, mas em Lisboa, na faculdade, a compreensão dessa realidade ganhou outra dimensão no contacto com outros estudantes que falavam de discriminações, da sociedade de classes, da guerra colonial que abominavam, sempre com o risco da prisão ou de serem ouvidos por informadores, um pouco por todo o lado.


Maria Helena, tristemente conhecida por Leninha, é também apresentada, não apenas como a feroz chefe de brigada que se empenhava em torturar as presas nas longas noites de Caxias em que estava de turno durante a tortura do sono, mas que exibe um traço maléfico persistente de ódio à mãe vítima da brutalidade do marido que considerava uma mulher fraca, de maldade para com as colegas da escola e de arrogância e total falta de humanidade ou remorso quando, após o 25 de Abril, foi julgada e confrontada com as presas que tinha torturado. São inesquecíveis as páginas que relatam os métodos usados para com as detidas em Caxias, ou a descrição da forma bárbara como matou um gatinho que se lhe enrolou às pernas e a fez cair, num dia em que ainda menina ia para a escola. Esta mulher nunca mostrou o mais leve assomo de sensibilidade ou humanidade, excepto no seu amor à figura de Salazar e no conceito que tinha de amor à pátria. Tal como o beijo que Salazar lhe deu na testa quando criança a marcou para toda a vida, a morte do ditador foi como que o desabar do mundo e a convicção de que os métodos na tortura deviam ser intensificados, sobretudo nos estudantes que ela considerava inimigos da pátria.  


O livro tem muito interesse do ponto vista histórico e de testemunho do que era a polícia política, dos seus métodos, do medo que paralisava e tolhia um povo, mas também dos que resistiam e que acreditavam que a ditadura iria acabar. Maria Helena/Leninha foi uma figura sinistra e outros nomes de PIDEs temíveis são lembrados como Barbieri Cardoso, Tinoco ou outros. Os presos eram todos os que ousavam lutar contra a injustiça, a pobreza, a guerra, a ditadura, sendo neste caso focado o papel que o movimento estudantil teve no processo do derrube do regime fascista, com uma referência concreta ao assassinato do estudante Ribeiro dos Santos. Os informadores eram uma teia enorme e difusa e os torcionários eram maioritariamente homens, mas também houve mulheres, embora Leninha tenha sido a única mulher que conseguiu ascender a chefe de brigada, exactamente pela sua ambição de subir na hierarquia e pela ferocidade e brutalidade dos seus métodos. No fim do livro, doente, debilitada e sozinha, mas acompanhada pelo busto de Salazar na sala, ela confessa a uma colega da PIDE que a visita que aquele tempo em que torturou em Caxias tinha sido o período mais feliz da sua vida.


Agora que foi criada uma cadeira opcional no 12º ano – História, Culturas e Democracia – este “As Longas Noites de Caxias” poderia ser um excelente livro para constar da bibliografia a ser usada. Ou com toda a pertinência, fazer parte do Plano Nacional de Leitura.


10 de Outubro de 2019


Almerinda Bento

"Autobiografia não escrita de Martha Freud", Teolinda Gersão

  “Autobiografia não escrita de Martha Freud” – Teolinda Gersão, 2024 Na sequência de “Regresso de Julia Mann a Paraty” que li o ano passa...